{"id":4900,"date":"2010-04-19T00:00:50","date_gmt":"2010-04-18T22:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=4900"},"modified":"2010-04-18T21:25:00","modified_gmt":"2010-04-18T19:25:00","slug":"portuguese-transformacoes-jornalismo-responsavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2010\/04\/portuguese-transformacoes-jornalismo-responsavel\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Transforma\u00e7\u00f5es: Jornalismo Respons\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Em um contexto de confronta\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica, \u00e9 dif\u00edcil praticar o jornalismo com certo grau de objetividade. Alguns ve\u00edculos e jornalistas atuam intencionalmente com motiva\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se poderia confessar abertamente; a aus\u00eancia de objetividade \u00e9 deliberada. Outros s\u00e3o pilares da vida democr\u00e1tica; podem ocasionalmente equivocar-se, por\u00e9m buscam ajudar a canalizar construtivamente as energias. Ve\u00edculos e jornalistas dividem e hierarquizam o que acontece em fun\u00e7\u00e3o de sua perspectiva, valores e interesses; determinam quais processos e situa\u00e7\u00f5es vale cobrir e quais ignorar e como apresentar em cada caso a informa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito que aprender sobre motiva\u00e7\u00f5es, formas de operar, como se pode manipular a informa\u00e7\u00e3o jogando com as manchetes, capas e legendas.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 poucas semanas, conversamos sobre meios de comunica\u00e7\u00e3o com jovens jornalistas. Nesse di\u00e1logo, abordamos tr\u00eas temas fundamentais que suscitaram as seguintes reflex\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>(i) Objetividade no estrondo de confronta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas<\/strong><\/p>\n<p>Em um contexto de virulenta confronta\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica, faz-se dif\u00edcil praticar o jornalismo com certo grau de objetividade. \u00c9 que os jornalistas, para subsistir, dependem de contratos com meios que muitas vezes fazem parte dessa confronta\u00e7\u00e3o; os jornalistas s\u00e3o escolhidos ou mantidos em seus postos enquanto seguirem a linha editorial marcada pelos propriet\u00e1rios e diretores dos meios informativos. Isso se agrava se os meios estiverem concentrados em um muito reduzido n\u00famero de grandes grupos midi\u00e1ticos. De forma semelhante, se os meios informativos do setor p\u00fablico fizerem parte de uma virulenta confronta\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica, eles tamb\u00e9m escolher\u00e3o jornalistas afins com a orienta\u00e7\u00e3o governamental; qualquer desvio de sua linha pol\u00edtica implicar\u00e1 castigos ou persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias, \u00e9 dif\u00edcil encarar o desafio informativo com altura e seriedade; caso contr\u00e1rio, se enfrenta artimanha contra artimanha, se deforma a informa\u00e7\u00e3o, meios e jornalistas deslizam para uma aguerrida milit\u00e2ncia; prima a informa\u00e7\u00e3o enviesada e a desinforma\u00e7\u00e3o, os oponentes se transformam em inimigos.<\/p>\n<p>Perguntamo-nos se esse resultado \u00e9 inevit\u00e1vel. Isto \u00e9, se em um antagonismo que se eleva a n\u00edveis de agressiva confronta\u00e7\u00e3o as partes ficam inevitavelmente amarradas nesta espiral que abomina a objetividade, o equil\u00edbrio, incapazes de reconhecer m\u00e9ritos leg\u00edtimos do oponente, de praticar um enfoque construtivo. Tamb\u00e9m nos perguntamos se ainda nesta pantanosa e arriscada situa\u00e7\u00e3o as partes poderiam ter a capacidade de se erguer sobre a artimanha, a tergiversa\u00e7\u00e3o, a mentira, a desinforma\u00e7\u00e3o, assumindo o custo que isso poderia implicar.<\/p>\n<p>Nesse caso, como em muitos outros, o preventivo \u00e9 sem d\u00favida mais efetivo e menos custoso para o pessoal e o social que o curativo ou reconstrutivo. O trabalho democr\u00e1tico faria bem ao procurar evitar que se agigantassem as confronta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas e que, se elas se produzirem, n\u00e3o se deixar pegar por elas mantendo a mira na melhoria do bem-estar coletivo. Nisso, o jornalismo, os partidos pol\u00edticos, a representa\u00e7\u00e3o gremista, empresarial e da sociedade civil t\u00eam um papel determinante. Podem incitar as partes e aprofundar o enfrentamento para ocupar ou lucrar com os interst\u00edcios que surgem das confronta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas (aproveitar o mar revolto), com o qual contribuem para dificultar o trabalho de pol\u00edticas p\u00fablicas de Estado ou acordos para melhorar a governabilidade. Alternativamente, poderiam contribuir para canalizar de forma construtiva as energias que hoje se dilapidam nessas confronta\u00e7\u00f5es, ressentimentos e afrontas.<\/p>\n<p>\u00c9 muito poss\u00edvel que o jornalismo n\u00e3o seja respons\u00e1vel (ao menos n\u00e3o o \u00fanico, nem o principal) por gerar as confronta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas, nem t\u00e3o pouco que possa cumprir pap\u00e9is de estadista, m\u00e9dico ou bombeiro, resolvendo por si a derrocada destrutiva. N\u00e3o obstante, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que se pode erguer por sobre a inflamada conjuntura e, em lugar de jogar mais lenha na fogueira, somar seu esfor\u00e7o para canalizar \u00e2nimos e buscar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode-se pensar que esta perspectiva carrega consigo certa dose de ingenuidade pol\u00edtica, j\u00e1 que, em uma confronta\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es, quem for mais h\u00e1bil ou tiver as mand\u00edbulas mais poderosas devoraria o inimigo. Sem desconhecer que existem atores de todo tipo e laia, alguns muito perigosos que podem aceder \u00e0 lideran\u00e7a de situa\u00e7\u00f5es e ainda processos, \u00e9 justamente no terreno ideol\u00f3gico, cultural, educativo onde \u00e9 necess\u00e1rio concentrar esfor\u00e7os: isto \u00e9, trabalhar para transformar aspectos de nossa natureza que nos conduzem a confronta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas para p\u00f4r em marcha uma cultura que busque entendimentos e alinhamento de interesses, resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de controv\u00e9rsias, constante melhoramento de situa\u00e7\u00f5es, de processos e de nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia individual. Isso implica valorizar o di\u00e1logo, o franco debate de ideias e de iniciativas, n\u00e3o temer ser apelidados de ing\u00eanuos ou idealistas, mobilizar-se para construir com habilidade solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis sem escalar as normais tens\u00f5es que fazem parte das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p><strong>(ii) Ningu\u00e9m \u00e9 objetivo?<\/strong><\/p>\n<p>Alguns pensam que n\u00e3o existe a objetividade absoluta e, portanto, est\u00e1 longe de ser uma falsidade sustentar que o oponente n\u00e3o \u00e9 completamente objetivo; trata-se de chamar aten\u00e7\u00e3o que por tr\u00e1s do que cada um informa e opina est\u00e1 suas perspectivas, seus interesses espec\u00edficos, suas necessidades e suas emo\u00e7\u00f5es. O que falta admitir \u00e9 que, do outro lado, de nosso lado, tamb\u00e9m acontece o mesmo.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que h\u00e1 diferentes graus de falta de objetividade; desde um vi\u00e9s inadvertido ou ocasional, at\u00e9 situa\u00e7\u00f5es em que se pratica uma sistem\u00e1tica e deliberada desinforma\u00e7\u00e3o, nas quais primam as mentiras informativas, os vieses interpretativos, a grosseira manipula\u00e7\u00e3o de fontes e de apresenta\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em um caso, a boa f\u00e9 e a voca\u00e7\u00e3o para admitir e corrigir erros ocasionais pode reparar ou mitigar os efeitos de ter atuado com pouca objetividade. Jornalistas honestos podem crescer sobre eventuais erros cada vez mais s\u00f3lidos no exerc\u00edcio profissional, aferrar-se a um estrito c\u00f3digo \u00e9tico, atuar com seriedade pessoal, exercer a prud\u00eancia que sua responsabilidade informativa exige, temperar-se em firmeza e independ\u00eancia; n\u00e3o obstante, em \u00faltima inst\u00e2ncia, seguir\u00e3o sendo seres humanos imperfeitos, tal como todos n\u00f3s. Seus erros n\u00e3o os desqualificam, enquanto sejam reconhecidos como tais e reparados.<\/p>\n<p>Em troca, no caso de jornalistas venais ou que n\u00e3o disp\u00f5em de liberdade para expressar-se, que atuam intencionalmente defendendo determinados interesses econ\u00f4micos, pol\u00edticos ou sociais, a aus\u00eancia de objetividade \u00e9 deliberada, programada, utilizada para fins esp\u00farios que n\u00e3o poderiam confessar-se nem tratar-se publicamente. Esses casos tingem a trajet\u00f3ria de certos jornalistas e ve\u00edculos informativos comprometendo a credibilidade de outros trabalhadores de meios que s\u00e3o pilares da vida democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>(iii) Os meios e nossa agenda social e individual<\/strong><\/p>\n<p>O mais dram\u00e1tico da a\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos e dos jornalistas \u00e9 que se incidem enormemente sobre a defini\u00e7\u00e3o de nossa agenda social e individual: destacam o que \u00e9 importante, valioso, interessante de ler, ver ou escutar. Eles escolhem a informa\u00e7\u00e3o e os conte\u00fados do que oferecem, que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma m\u00ednima fra\u00e7\u00e3o do que ocorre no mundo, no pa\u00eds, em nossa cidade e vizinhan\u00e7a; deixam de fora muito do que acontece selecionando o que cobrem em fun\u00e7\u00e3o do que estimam seja conveniente apresentar em suas diversas plat\u00e9ias. Quando os ve\u00edculos est\u00e3o concentrados, isso se agrava porque se perde diversidade de tem\u00e1ticas, enfoques e perspectivas e aumenta muito perigosamente a homogeneiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e do pensamento (tanto estrat\u00e9gico como cotidiano).<\/p>\n<p>H\u00e1 meios que desinformam escolhendo temas e sucessos socialmente irrelevantes desviando a aten\u00e7\u00e3o sobre mexericos de far\u00e2ndula, feitos escabrosos ou atemorizantes, esc\u00e2ndalos pontuais, com o que entontecem a consci\u00eancia popular, alienam as mentes, estabelecem prioridades enviesadas sobre quest\u00f5es de pobre significa\u00e7\u00e3o. Outros meios escolhem a informa\u00e7\u00e3o e a forma como ela \u00e9 apresentada de acordo com os interesses que os sustentam, orientando a opini\u00e3o p\u00fablica para a defesa desses interesses que, muitas vezes, n\u00e3o se correspondem com os pr\u00f3prios interesses e necessidades de amplos setores populacionais.<\/p>\n<p>Existe literatura boa, regular e m\u00e1, sobre como os ve\u00edculos (p\u00fablicos e privados) e os jornalistas dividem e hierarquizam a realidade; quais processos e situa\u00e7\u00f5es cobrem e quais ignoram ou dissimulam; por que o fazem; como manipulam a informa\u00e7\u00e3o; como jogam com as manchetes, as capas e as legendas para incidir sobre os receptores da informa\u00e7\u00e3o ou da desinforma\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito por aprender e informar-se. A partir destas p\u00e1ginas, oferecemos consignar, com a mod\u00e9stia do caso, as an\u00e1lises e investiga\u00e7\u00f5es sobre meios informativos que nossos leitores estimem valiosos e desejem conhecer. Este material constitui um bloco importante na constru\u00e7\u00e3o de uma utopia referencial que nos abrigue a todos.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"  http:\/\/opinionsur.org.ar\/Jornalismo-responsavel?lang=pt\" >GO TO ORIGINAL \u2013 OPINION SUR<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um contexto de confronta\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica, \u00e9 dif\u00edcil praticar o jornalismo com certo grau de objetividade. Alguns ve\u00edculos e jornalistas atuam intencionalmente com motiva\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se poderia confessar abertamente; a aus\u00eancia de objetividade \u00e9 deliberada. 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