{"id":49639,"date":"2014-11-10T12:00:57","date_gmt":"2014-11-10T12:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=49639"},"modified":"2015-05-05T21:29:32","modified_gmt":"2015-05-05T20:29:32","slug":"portugues-assim-se-constroi-o-estado-global-de-vigilancia-e-como-sabota-lo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/11\/portugues-assim-se-constroi-o-estado-global-de-vigilancia-e-como-sabota-lo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Assim se constr\u00f3i o Estado Global de Vigil\u00e2ncia\u2013e como sabot\u00e1-lo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_49641\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/141106-CitizenFour-e1415279479632-485x218.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-49641\" class=\"size-full wp-image-49641\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/141106-CitizenFour-e1415279479632-485x218.jpg\" alt=\"Diretora de \u201cCitizenfour\u201d, o document\u00e1rio sobre den\u00fancias de Edward Snowden, alerta: controle social e esvaziamento da democracia ampliaram-se, ap\u00f3s revela\u00e7\u00f5es. Esperan\u00e7a \u00e9 consci\u00eancia.\" width=\"485\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/141106-CitizenFour-e1415279479632-485x218.jpg 485w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/141106-CitizenFour-e1415279479632-485x218-300x134.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-49641\" class=\"wp-caption-text\">Diretora de \u201cCitizenfour\u201d, o document\u00e1rio sobre den\u00fancias de Edward Snowden, alerta: controle social e esvaziamento da democracia ampliaram-se, ap\u00f3s revela\u00e7\u00f5es. Esperan\u00e7a \u00e9 consci\u00eancia.<\/p><\/div>\n<p><em>Temos aqui uma estat\u00edstica da nova era de vigil\u00e2ncia global. Quantos norte-americanos possuem a chamada <\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Security_clearance\" ><em>security clearance<\/em><\/a><em>, que permite acesso aos dados sigilosos, das ag\u00eancias de espionagem, sobre pessoas e organiza\u00e7\u00f5es? Resposta: 5,1 milh\u00f5es \u2013 n\u00famero que reflete o crescimento explosivo do Estado de seguran\u00e7a nacional no p\u00f3s-11 de setembro. \u00c9 algo equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da Noruega. E ainda assim \u00e9 apenas 1,6% da popula\u00e7\u00e3o norte-americana. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 deixar os 98,4% restantes \u00e0s cegas, num n\u00famero crescentes de assuntos. E isso \u00e9 apresentado como se fosse algo \u201cem favor de nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Estes fatos oferecem uma nova defini\u00e7\u00e3o de democracia, na qual as pessoas devem saber apenas aquilo que o sistema de seguran\u00e7a nacional conta a elas. Sob esse sistema, a ignor\u00e2ncia \u00e9 o pr\u00e9-requisito necess\u00e1rio e legalmente imposto para que as pessoas sintam-se protegidas. \u00c9 significativo: o \u00fanico delito pelo qual aqueles que est\u00e3o dentro do sistema de seguran\u00e7a nacional podem ser responsabilizados, na Washington p\u00f3s-11 de setembro, n\u00e3o \u00e9 mentir diante do Congresso, destruir evid\u00eancias de um crime, torturar, sequestrar, assassinar ou provocar morte de prisioneiros em sistemas prisionais extralegais \u2014 mas denunciar irregularidades. Ou seja, contar \u00e0 sociedade algo que seu governo esteja fazendo. E esse \u201ccrime\u201d, apenas esse, tem sido perseguido com toda a for\u00e7a da lei e mais \u2013 com um vigor nunca visto na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Para oferecer um \u00fanico exemplo, o \u00fanico norte-americano preso pelo programa de tortura da CIA da era Bush foi John Kiriakou \u2013 um denunciante da CIA que revelou, a um rep\u00f3rter, o nome de um agente envolvido no programa.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesses anos, uma Casa Branca cada vez mais imperial lan\u00e7ou v\u00e1rias guerras (redefinidas pelos seus defensores como outra coisa qualquer), al\u00e9m uma campanha internacional de assassinatos [por meio de drones], na qual a Presid\u00eancia tem a sua pr\u00f3pria \u201clista negra\u201d e o presidente decide sobre ataques globais do tipo que matou Bin Laden. <\/em><\/p>\n<p><em>E ainda assim isso n\u00e3o significa que n\u00f3s, o povo, n\u00e3o saibamos nada. Contra obst\u00e1culos crescentes, surgiram algumas boas reportagens na imprensa \u201cmainstream\u201d \u2013 feitas por James Risen e Barton Gellman \u2013 sobre as atividades extra-legais do estado de seguran\u00e7a. Acima de tudo, apesar do uso regular que o govern Obama faz da Lei de Espionagem, da \u00e9poca da I Guerra Mundial, denunciantes t\u00eam dado um passo adiante dentro do governo para, \u00e0s vezes, oferecer informa\u00e7\u00f5es surpreendentes sobre o sistema que foi implantado em nosso nome, mas sem nosso conhecimento.<\/em><\/p>\n<p><em>Entre eles, destaca-se um jovem, cujo nome \u00e9 agora conhecido em todo o mundo. Em junho de 2013, gra\u00e7as ao jornalista Glenn Greenwald e \u00e0 produtora Laura Poitras, Edward Snowden, que trabalhou na NSA e anteriormente na CIA, entrou em nossas vidas a partir de um quarto de hotel em Hong Kong. Com um tesouro de documentos que ainda est\u00e3o sendo publicados, ele mudou a perspectiva pela qual praticamente todos n\u00f3s v\u00edamos o mundo. Est\u00e1 sendo acusado sob a Lei de Espionagem. Se de fato ele era um \u201cespi\u00e3o\u201d, a espionagem que fez foi por n\u00f3s e pelo mundo. O que ele revelou, a um planeta chocado, foi um estado de vigil\u00e2ncia global cujos alcance e ambi\u00e7\u00f5es eram \u00fanicos. Um sistema baseado em uma \u00fanica premissa: que a privacidade j\u00e1 n\u00e3o existe e que ningu\u00e9m \u00e9, em teoria (e, em grande medida, na pr\u00e1tica) invigi\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p><em>Os criadores do sistema imaginaram uma \u00fanica exce\u00e7\u00e3o: eles pr\u00f3prios. Foi, ao menos em parte, por isso que, quando Snowden nos permitiu espreit\u00e1-los, eles extravasaram \u00f3dio. Seja como for que tenham reagido, do ponto de vista pol\u00edtico, \u00e9 claro que tamb\u00e9m sentiram-se violados \u2013 algo que, at\u00e9 onde se sabe, deixou-os sem qualquer empatia diante do resto de n\u00f3s. Snowden provou, de qualquer forma, que o sistema nasceu pronto para dar um tiro pela culatra.<\/em><\/p>\n<p><em>Dezesseis meses depois que os documentos da NSA come\u00e7aram a ser lan\u00e7ados pelo Guardian e pelo Washington Post, talvez seja poss\u00edvel falar numa Era Snowden. E agora, um novo filme not\u00e1vel, <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/film\/2014\/oct\/16\/citizen-four-review-edward-snowden-documentary\" >Citizenfour<\/a><\/em><em>, que teve pr\u00e9-estreia no Festival de Filmes de Nova York em 10 de outubro, oferece uma janela para como tudo aconteceu. J\u00e1 foi mencionado como poss\u00edvel vencedor do Oscar.<\/em><\/p>\n<p><em>Laura Poitras, a diretora, \u00e9 produtora de document\u00e1rios, jornalista e artista. Tornou-se \u2013 assim como o rep\u00f3rter Glenn Greenwald \u2013 quase t\u00e3o amplamente conhecida quanto o pr\u00f3prio Snowden. Seu novo filme, o \u00faltimo em uma trilogia (os anteriores s\u00e3o My Country, My Country sobre a Guerra do Iraque, e The Oath, sobre Guantanamo), remete-nos a junho de 2013 e nos leva ao quarto de hotel em Hong Kong em que Snowden come\u00e7ou a fazer suas revela\u00e7\u00f5es a Glenn Greenwald, Ewen MacAskill (do Guardian), e a pr\u00f3pria Laura. Antes daquele momento, est\u00e1vamos quase literalmente no escuro. Depois dele, temos mais no\u00e7\u00e3o, pelo menos, da natureza da escurid\u00e3o que nos envolve. Tendo visto seu filme, dialoguei com Poitras em uma pequena sala de confer\u00eancias de um hotel em Nova York para discutir como o mundo mudou e qual foi o papel dela nisso.<\/em><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia come\u00e7ar expondo brevemente o que voc\u00ea acredita que aprendemos com Edward Snowden sobre como o mundo realmente funciona?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras:<\/strong> O mais impressionante que Snowden revelou \u00e9 a profundidade do que a NSA e os chamados Cinco Olhos [<em>Five Eyes, <\/em>pa\u00edses anglo-sax\u00f5es aliados: EUA, Reino Unido, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia] est\u00e3o fazendo: sua fome por todos os dados, o enorme arrast\u00e3o de vigil\u00e2ncia onde tentam coletar o fluxo de todas as comunica\u00e7\u00f5es e faz\u00ea-lo de v\u00e1rias formas diferentes. Seu ethos \u00e9 \u201ccoletar tudo\u201d. Trabalhei em uma hist\u00f3ria com Jim Risen, do <em>New York Times<\/em>, sobre um documento \u2013 um plano de quatro anos para a intercepta\u00e7\u00e3o de sinais. \u00c9 um termo cunhado pelos autores. Para eles, a internet \u00e9 isso: a base para uma era de ouro na qual se espia todo mundo.<\/p>\n<p>Esse foco em vigil\u00e2ncia do planeta maci\u00e7a, dissimulada, e na forma de arrast\u00e3o \u00e9 certamente o mais impressionante. Muitos programas fizeram isso. Al\u00e9m disso, a NSA e a GCHQ [intelig\u00eancia brit\u00e2nica] fazem coisas como atacar engenheiros de telecomunica\u00e7\u00f5es. Um artigo publicado pelo <em>The Intercept, <\/em>e baseado em documentos da NSA providos por Snowden, tinha um cap\u00edtulo intitulado \u201cEu ca\u00e7o <em>Syadmins<\/em>\u201d [administradores de sistema]. Eles tentaram encontrar os guardi\u00f5es das informa\u00e7\u00f5es, as pessoas que protegem os dados dos clientes, e atingi-los. Al\u00e9m disso, temos a coleta passiva de tudo: as informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguem de um jeito, obt\u00eamde outro.<\/p>\n<p>Eu acho que uma das coisas mais chocantes \u00e9 como nossos governantes sabiam pouco sobre o que a NSA fazia. O Congresso est\u00e1 aprendendo a partir de reportagens, o que \u00e9impressionante. Snowden e William Binney [ex-funcion\u00e1rio da NSA], que tamb\u00e9m est\u00e1 no filme como delator de uma outra gera\u00e7\u00e3o, s\u00e3o t\u00e9cnicos que entendem os perigos. N\u00f3s, leigos, talvez entendamos alguma coisa dessas tecnologias, mas eles realmente compreendem o perigo existente na forma como elas podem ser usadas. Uma das coisas mais assustadoras, na minha opini\u00e3o, \u00e9 a capacidade de pesquisa retroativa, de voltar no tempo e descobrir os contatos que qualquer pessoa manteve e os locais que frequentou. No que diz respeito \u00e0 minha profiss\u00e3o de jornalista, isso permite ao governo rastrear o que voc\u00ea est\u00e1 reportando, com quem fala e aonde vai. N\u00e3o importa se eu tenho ou n\u00e3o o comprometimento de proteger minhas fontes: o governo tem acesso a informa\u00e7\u00f5es que talvez lhe permitam identificar com quem estou falando.<\/p>\n<p><strong>Perguntando a mesma coisa de outra forma: como o mundo seria sem Edward Snowden? Porque me parece que, de alguma forma, n\u00f3s estamos na Era Snowden<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Snowden nos permitiu escolher sobre como queremos avan\u00e7ar para o futuro. Estamos em uma encruzilhada e ainda n\u00e3o sabemos qual caminho vamos tomar. Sem Snowden, praticamente todo mundo ainda estaria no escuro sobre a quantidade de informa\u00e7\u00e3o que o governo norte-americano est\u00e1 coletando. Acho que ele mudou a consci\u00eancia sobre os perigos da vigil\u00e2ncia. Sabemos que muitos advogados deixam seus celulares fora das suas reuni\u00f5es, agora. As pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a compreender que os aparelhos que carregamos conosco revelam nossa localiza\u00e7\u00e3o, com quem estamos falando, e todo tipo de informa\u00e7\u00f5es. Houve uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia real, depois das revela\u00e7\u00f5es de Snowden.<\/p>\n<p><strong>Apesar disso, n\u00e3o houve nenhuma mudan\u00e7a na atitude do governo dos EUA<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Os especialistas nos campos de vigil\u00e2ncia, privacidade e tecnologia dizem que \u00e9 necess\u00e1rio atuar dem dois campos: o pol\u00edtico e o tecnol\u00f3gico. O caminho tecnol\u00f3gico \u00e9 a criptografia. Funciona e, se voc\u00ea quer privacidade, deveria usar. J\u00e1 h\u00e1 mudan\u00e7as em grandes empresas \u2013 Google e Apple, por exemplo \u2013, que agora entendem qu\u00e3o vulner\u00e1veis s\u00e3o os dados dos seus clientes. Tamb\u00e9m percebem que, desse modo, seus neg\u00f3cios tamb\u00e9m se tornam vulner\u00e1veis. Por isso, tamb\u00e9m, h\u00e1 uso crescente das tecnologias de criptografia. Por\u00e9m, nenhum programa foi desmantelado em Washington, apesar da press\u00e3o internacional.<\/p>\n<p><strong>Em <em>Citizenfour<\/em>, uma hora da a\u00e7\u00e3o se passa em um quarto de hotel em Hong Kong, com Snowden, Glenn Greenwald, Ewan MacAskill e voc\u00ea. Isso \u00e9 fascinante. Snowden \u00e9 quase preternaturalmente cativante e senhor de si. Imagino um romancista em cuja mente simplesmente entra o personagem dos sonhos. Deve ter sido assim com voc\u00ea e Snowden. Mas e se fosse um cara cinzento, com os mesmos documentos e coisas muito menos inteligentes para dizer sobre eles? Em outras palavras como exatamente a pessoa que ele era afetou o seu filme e reconstruiu seu mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>S\u00e3o duas quest\u00f5es importantes. Uma: qual foi a minha primeira sensa\u00e7\u00e3o? Outra: como eu acho que isso teve impacto no filme? Editamos o filme e o exibimos para pequenos grupos. N\u00e3o tive d\u00favida de que Snowden \u00e9 articulado e verdadeiro, na tela. Mas v\u00ea-lo em uma sala cheia [na pr\u00e9-estreia do Festival de Filmes de Nova York, em 10 de outubro], foi tipo, uau! Ele realmente domina a tela! E eu tive uma nova experi\u00eancia sobre o filme, em uma sala cheia.<\/p>\n<p><strong>Mas qual foi sua primeira experi\u00eancia com ele? Quero dizer, voc\u00ea n\u00e3o sabia quem ia conhecer, certo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Eu mantive correspond\u00eancia com uma fonte an\u00f4nima por cerca de cinco meses antes. No processo de desenvolver um di\u00e1logo, voc\u00ea constr\u00f3i ideias, \u00e9 claro, sobre quem a pessoa talvez seja. Achava que ele seria uma pessoa com quarenta e tantos anos, ou pouco mais de cinquenta. Percebi que deveria ser da gera\u00e7\u00e3o da internet por ser super ligado em tecnologia. Mas pensei que, dado o n\u00edvel de acesso e informa\u00e7\u00e3o que podia discutir, devera ser mais velho. Minha primeira experi\u00eancia foi a necessidade de reprogramar minhas expectativas. Fant\u00e1stico, sensacional, ele \u00e9 jovem e carism\u00e1tico. Fiquei pensando: uau, isso muito t\u00e3o desorientador, precisso fazer um reboot. Retrospectivamente, posse ver que \u00e9 realmente forte que algu\u00e9m t\u00e3o inteligente, t\u00e3o jovem e com tanto a perder tenha arriscado tanto.<\/p>\n<p>Ele estava muito em paz com a escolha que tinha feito e sabia que as consequ\u00eancias podiam significar o fim da sua vida \u2013 ainda assim, havia tomado a decis\u00e3o certa. Ele acreditava nisso e, quaisquer que fossem as consequ\u00eancias, estava pronto a aceit\u00e1-las. Conhecer algu\u00e9m que tomou esse tipo de decis\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1rio. E poder documentar isso e tamb\u00e9m a forma como Glenn [Greenwald] interveio e se esfor\u00e7ou, de modo ativo, para que o relato se produzisse mudou a narrativa. Como Glenn e eu enxergamos tudo de uma perspectiva externa, a narrativa desenvolveu-se de forma a que ningu\u00e9m sabia realmente como responder. Por, acho acho que a Casa Brana ficou, a princ\u00edpio, transtornada. N\u00e3o \u00e9 todo dia que um denunciante est\u00e1 pronto para ser identificado.<\/p>\n<p><strong>Meu palpite \u00e9 que Snowden nos deu o sentimento de que agora conhecemos a natureza do estado de vigil\u00e2ncia global que nos observa. Mas sempre penso que ele \u00e9 s\u00f3 um cara, vindo de um dos 17 \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia interligados. Seu filme termina de forma marcante \u2013 o golpe final \u2013 com outro ou outros informantes despontando em algum lugar do mundo, para revelar informa\u00e7\u00f5es sobre a enorme lista de pessoas vigiadas, na qual voc\u00ea mesma est\u00e1, fico curioso. O que voc\u00ea acredita que ainda existe para ser descoberto? Suspeito que se delatores est\u00e3o para surgir, nas maiores cinco ou seis ag\u00eancias, com documentos similares aos de Snowden, vamos ficar aturdidos com o sistema que foi criado em nosso nome.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>N\u00e3o posso especular sobre aquilo que ainda n\u00e3o sabemos, mas acho que voc\u00ea tem raz\u00e3o sobre a escala e escopo das coisas, e a necessidade de essa informa\u00e7\u00e3o tornar-se p\u00fablica. Quero dizer, considere apenas a CIA e seu esfor\u00e7o para impedir o Senado dos EUA de conhecer seu programa de tortura. Considere o fato vivermos em um pa\u00eds que a) legalizou a tortura b) onde ningu\u00e9m nunca foi responsabilizado por isso e agora a vis\u00e3o interna do governo sobre o que aconteceu est\u00e1 sendo suprimida pela CIA. \u00c9 uma paisagem assustadora.<\/p>\n<p>Realmente, rejeito a ideia de falar sobre um, dois ou tr\u00eas denunciantes. Nosso trabalho foi informado por muitas fontes e acho que temos, diante delas, dever de gratid\u00e3o por terem assumido os riscos que assumiram. De uma perspectiva pessoal, porque estou numa lista de pessoas vigiadas. Passei anos tentando descobrir a raz\u00e3o. O governo recusou-se a confirmar ou negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia da tal lista. Foi muito significativo que sua exist\u00eancia real fosse revelada, para que o p\u00fablico saiba que ela existe. Agora, os tribunais podem decidir sobre a legalidade disso. Quero dizer, a pessoa que revelou isso fez um imenso servi\u00e7o p\u00fablico e eu estou pessoalmente grata.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se refere ao delator desconhecido, que \u00e9 mencionado visual e elipticamente ao final do seu filme, e que revelou a exist\u00eancia de uma imensa lista, com os nomes de mais de 1,2 milh\u00e3o de pessoas vigiadas. Nesse contexto, como \u00e9 viajar como Laura Poitras hoje? Como voc\u00ea encarna o novo estado de seguran\u00e7a nacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Em 2012, estava pronta para editar e escolhi deixar os EUA por que n\u00e3o sentia como se pudesse proteger minhas fontes. A decis\u00e3o foi baseada em seis anos sendo parada e questionada todas as vezes que retornava aos EUA. Fiz as contas e percebi que seria muito arriscado editar nos EUA. Comecei a trabalhar em Berlim em 2012. Em janeiro de 2013, recebi o primeiro e-mail de Snowden.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 protegendo\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Outra filmagem. Filmei com o denunciante da NSA William Binney, com Julian Assange, com Jacob Appelbaum do <em>Tor Project. <\/em>S\u00e3o pessoas tamb\u00e9m visadas pelos EUA, e senti que esse material que eu tinha n\u00e3o estava seguro. Fui inclu\u00edda na lista em 2006. Fui detida e questionada na fronteira, ao regressar aos EUA, cerca de 40 vezes. Se contasse as paradas dom\u00e9sticas, e todas as vezes em que fui parada em pontos de tr\u00e2nsito europeus, provavelmente chegaria a algo entre 80 e 100 vezes. Tornou-se uma coisa regular, ser questionada sobre onde estive e com quem me encontrei. Me vi capturada em um sistema do qual aparentemente n\u00e3o se pode sair, nessa lista kafkiana que os EUA nem sequer reconhecem.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea foi parada quanto entrou nos EUA, dessa vez?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>N\u00e3o. As deten\u00e7\u00f5es pararam em 2012, depois de um incidente bastante extraordin\u00e1rio. Eu estava voltando pelo Aeroporto de Newark [nas proximidades de Nova York] e fui detida. Peguei meu caderno, porque sempre tomo notas sobre quando sou parada, quem s\u00e3o os agentes e coisas assim. Dessa vez, amea\u00e7aram me algemar por tomar notas. Disseram \u201cAbaixe a caneta!\u201d Alegaram que a minha caneta podia ser uma arma e ferir algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cAbaixe a caneta! A caneta \u00e9 perigosa!\u201d Eu fiquei imaginando que fossem malucos. V\u00e1rias pessoas gritavam comigo, todas as vezes que eu movia minha caneta para baixo, para tomar notas \u2013 como se el afosse uma faca. Depois disso, decidi que era maluquice demais, eu precisava fazer alguma coisa. Chamei Glenn Greenwald. Ele escreveu um texto sobre as minhas experi\u00eancias. Depois do artigo, recuaram.<\/p>\n<p>Snowden nos contou muito sobre a estrutura de vigil\u00e2ncia global que est\u00e1 sendo constru\u00edda. N\u00f3s sabemos muito pouco sobre o que est\u00e3o fazendo com toda essa informa\u00e7\u00e3o. Me choca como foram in\u00e1beis em usar essa informa\u00e7\u00e3o em sua gerra ao terror, por exemplo. Quero dizer, eles sempre parecem estar um passo atr\u00e1s no Oriente M\u00e9dio \u2013 n\u00e3o apenas atr\u00e1s dos acontecimentos, mas atr\u00e1s do que acredito que uma pessoa, usando apenas informa\u00e7\u00f5es abertas, poderia informar a eles. Acho isso surpreendente. Que sentido faz voc\u00ea fazer o que est\u00e3o fazendo com a montanha de informa\u00e7\u00f5es, os <em>yottabytes<\/em>, todos os dados que est\u00e3o recolhendo?<\/p>\n<p><strong>Snowden e muitas outras pessoas, inclusive Bill Binney, disseram que essa mentalidade \u2013 de tentar sugar tudo o que podem \u2013 deixou-os t\u00e3o afogados em informa\u00e7\u00f5es que perdem as liga\u00e7\u00f5es mais \u00f3bvias. No final, o sistema que criaram n\u00e3o leva ao que descreveram como seu objetivo, que \u00e9 seguran\u00e7a \u2013 porque t\u00eam infoma\u00e7\u00e3o demais para processar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>N\u00e3o sei realmente como compreender tudo isso. Penso muito a respeito, porque fiz um filme sobre a Guerra do Iraque e outro sobre Guantanamo. Da minha perspectiva, em resposta aos ataques de 11 de setembro, os EUA envolveram-se em atividades que criaram duas gera\u00e7\u00f5es de pessoas nutridas por sentimentos anti-americano \u2013 em resposta a coisas como Guantanamo e Abu Ghraib. Ao inv\u00e9s de responder a um grupo pequeno de terroristas, criamos gera\u00e7\u00f5es de pessoas irritadas e que nos odeiam. Ent\u00e3o, penso: se o objetivo \u00e9 seguran\u00e7a, como essas coisas se alinham? Por que h\u00e1, agora, mais gente que odeia os Estados Unidos, mais gente que tenciona fazer-nos mal? Ou o objetivo que o sistema de seguran\u00e7a proclama n\u00e3o \u00e9 o real, ou eles s\u00e3o simplesmente incapazes de dialogar com o fato de que comenteram grandes erros, pelos quais agora pagamos.<\/p>\n<p><strong>Me impressiona como a falha converteu-se, de alguma maneira, em rampa de lan\u00e7amento para o sucesso. Quero dizer, a constru\u00e7\u00e3o de um aparato de intelig\u00eancia sem paralelos e a a maior coleta de informa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria veio da falha de 11 de setembro. Ningu\u00e9m foi responsabilizado, ningu\u00e9m foi punido, ningu\u00e9m foi rebaixado nem nada. Todas as falhas semelhantes, incluindo uma recente, no gramado da Casa Branca, simplesmente levam ao refor\u00e7o do sistema. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>Como voc\u00ea entende isso?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o acho que essas pessoas estejam pensando: precisamos falhar, para termos sucesso. N\u00e3o sou conspirat\u00f3rio nesse sentido, mas eu acho que, estranhamente, a falha construiu o sistema e acho isso estranho. Mais que isso, n\u00e3o sei.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Laura Poitras: <\/strong>N\u00e3o discordo. O fato de que a CIA sabia que dois dos sequestradores do 11 de setembro estavam entrando nos Estados Unidos, mas n\u00e3o notificou o FBI e ningu\u00e9m perdeu seu emprego por isso, \u00e9 chocante. Ao inv\u00e9s disso, ocupamos o Iraque, que n\u00e3o tinha nada a ver com o 11 de setembro. Quero dizer, como essas escolhas s\u00e3o feitas?<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Bercht Ruy<\/em><\/p>\n<p><em>Original: Antonio Martins, Outras Palavras<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/vigilancia\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretora de \u201cCitizenfour\u201d, o document\u00e1rio sobre den\u00fancias de Edward Snowden, alerta: controle social e esvaziamento da democracia ampliaram-se, ap\u00f3s revela\u00e7\u00f5es. 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