{"id":50475,"date":"2014-12-01T12:00:03","date_gmt":"2014-12-01T12:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=50475"},"modified":"2015-05-05T21:27:16","modified_gmt":"2015-05-05T20:27:16","slug":"portugues-guerra-sem-fim-no-oriente-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/12\/portugues-guerra-sem-fim-no-oriente-medio\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Guerra sem fim no Oriente M\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p><em>De certa forma, pode-se argumentar que n\u00e3o houve uma s\u00e9rie de guerras no Oriente M\u00e9dio durante esse per\u00edodo de 40 anos, mas sim uma \u00fanica e longa guerra.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/soldiers-warriors-usa-nato.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-50476\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/soldiers-warriors-usa-nato.jpg\" alt=\"soldiers warriors usa nato\" width=\"504\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/soldiers-warriors-usa-nato.jpg 504w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/soldiers-warriors-usa-nato-300x213.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Voc\u00eas sabem qual pais \u00e9 um grande produtor de petr\u00f3leo, vizinho de um membro da Otan, onde h\u00e1 militantes muito bem armados com hist\u00f3rico de pr\u00e1ticas de execu\u00e7\u00e3o, extors\u00e3o e decapita\u00e7\u00e3o de pessoas? Nesse pa\u00eds tamb\u00e9m est\u00e1 em marcha uma sistem\u00e1tica campanha contra rep\u00f3rteres, al\u00e9m de milhares de pessoas escravizadas, tr\u00e1fico de mulheres e uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es de intimida\u00e7\u00e3o nas comunidades nativas. Quem pensou na S\u00edria, Iraque e no grupo Isis errou, pois estamos falando do M\u00e9xico. Al\u00e9m disso, os cart\u00e9is mexicanos n\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 realizaram ataques e assassinatos dentro dos EUA, mas j\u00e1 mataram mais cidad\u00e3os norte-americanos dentro dos pr\u00f3prios EUA do que os atentados terroristas no dia 11 de Setembro.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isso, \u00e9 o Isis que representa \u201cum claro e real perigo \u201cpara os EUA, de acordo com general Martin Dempsey, chefe do Estado-maior, que acrescentou ser necess\u00e1rio formar uma coaliz\u00e3o internacional para enfrent\u00e1-los. O secret\u00e1rio de Defesa Chuck Hagel afirmou ainda que o Isis representa uma amea\u00e7a superior \u00e0 de grupos como a al-Qaeda, e acredita que combatentes estrangeiros com passaportes ocidentais poderiam realizar ataques em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p>De acordo com uma pesquisa realizada pelo Washington Post-ABC News no m\u00eas de outubro, 90% dos norte-americanos avaliaram o Isis como uma s\u00e9ria amea\u00e7a aos interesses vitais dos EUA. Esse estado de esp\u00edrito foi muito bem orquestrado pelo governo e m\u00eddia. Uma pesquisa realizada pela FAIR (o grupo de verifica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia nacional) sobre os principais programas de debates, mesas-redondas e entrevistas na TV entre os dias 7 a 21 de setembro (quando teve inicio exposi\u00e7\u00e3o dos v\u00eddeos de decapita\u00e7\u00f5es) avaliou que, do total de 205 fontes que apareceram em programas discutindo op\u00e7\u00f5es militares na S\u00edria e no Iraque, apenas seis dessas pessoas expressaram oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar dos EUA. Listas de convidados foram constitu\u00eddas, em sua grande maioria por funcion\u00e1rios e ex-funcion\u00e1rios da Casa Branca, bem como por oficiais militares ligados ao Pent\u00e1gono. (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/fair.org\/press-release\/no-debate-and-the-new-war\/\" >No Debate and the New War<\/a>).<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o de que o Isis representa uma \u201camea\u00e7a existencial\u201d permitiu, por sua vez, que o presidente Barack Obama solicitasse ao Congresso o montante de 5,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para o inicio de uma nova guerra liderada pelos EUA no Iraque e na S\u00edria. Assim, a S\u00edria poder\u00e1 tornar-se o 14\u00ba pa\u00eds isl\u00e2mico que as for\u00e7as dos EUA j\u00e1 invadiram, ocuparam ou bombardearam, e em que os soldados norte-americanos mataram ou foram mortos desde 1980. S\u00e3o eles: Ir\u00e3 (1980, 1987-1988), L\u00edbia (1981, 1986, 1989, 2011), L\u00edbano (1983), Kuwait (1991), Iraque (1991-2011, 2014-), Som\u00e1lia (1992-1993, 2007-), B\u00f3snia (1995), Ar\u00e1bia Saudita (1991, 1996), Afeganist\u00e3o (1998, 2001-), Sud\u00e3o (1998), Kosovo (1999), I\u00eamen (2000, 2002-), Paquist\u00e3o (2004-).<\/p>\n<p>Como se sabe, em todas essas opera\u00e7\u00f5es militares ocorre, previamente ou posteriormente, a montagem de uma enorme infraestrutura de guerra. As estimativas de gastos giram em torno de 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares ao longo das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas com o argumento de combater amea\u00e7as e promover estabilidade no Grande Oriente M\u00e9dio (America\u2019s Bases of War in the Greater Middle East. From Carter to the Islamic State 35 Years of Building Bases and Sowing Disaster By David Vine Global Research, November 17, 2014).<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os EUA se tornam, cada vez mais, uma sociedade multicultural e plural, torna-se cada vez mais dif\u00edcil moldar um consenso sobre quest\u00f5es que envolvam a\u00e7\u00f5es militares internacionais, exceto nas circunst\u00e2ncias em que se configura a imin\u00eancia de uma amea\u00e7a externa poderosa (real ou virtual). Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os policymakers e a m\u00eddia em geral nos EUA t\u00eam trabalhado para convencer a opini\u00e3o publica de que supostas intencionalidades de determinados atores s\u00e3o uma amea\u00e7a real, independente de suas capacidades militares, e assim passaram a construir modelos explicativos sobre as causas da guerra. No n\u00edvel coletivo, processos de percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o compartilhados e comunicados para criar um estado de esp\u00edrito coletivo de medo. Neste sentido, as amea\u00e7as s\u00e3o socialmente constru\u00eddas por meio de articula\u00e7\u00f5es, p\u00fablicas e privadas, entre especialistas, l\u00edderes pol\u00edticos e militares. Por exemplo, quase n\u00e3o se fala de onde procede, nem muito menos quais s\u00e3o, os recursos e as reais capacidades militares do Isis, mas s\u00e3o repetidos \u00e0 exaust\u00e3o os v\u00eddeos de execu\u00e7\u00f5es e decapita\u00e7\u00f5es para impactar emocionalmente o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Como lembra o poeta Mia Couto, para fabricar armas, \u00e9 preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, \u00e9 imperioso sustentar fantasmas. O que requer a constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de enorme aparato de militares, jornalistas, acad\u00eamicos que nos ensinam que, para enfrentarmos as amea\u00e7as globais, precisamos de mais ex\u00e9rcitos, mais servi\u00e7os secretos e a suspens\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>httpv:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jACccaTogxE<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que tudo isso faz parte da cultura do medo que sempre existiu nos EUA, \u00e9 verdade, mas que se tornou onipresente e absoluto ap\u00f3s o 11 de Setembro. Em maio de 2004, o procurador-geral dos EUA, John Ashcroft, alertou que terroristas poderiam \u201catacar em qualquer lugar, a qualquer momento, e com praticamente qualquer arma\u201d, sem, contudo, especificar sobre quem estava falando e quais eram as reais capacidades desse suposto grupo terrorista. Quando perguntaram ao ent\u00e3o secret\u00e1rio de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, o que constituiria a vit\u00f3ria na guerra contra o terrorismo ap\u00f3s os atentados do dia 11 de Setembro, ele respondeu que dever-se-ia convencer a opini\u00e3o publica de que seria uma longa batalha. N\u00e3o foi outra coisa o que disse, recentemente, uma das pessoas mais influentes em quest\u00f5es militares nos EUA, Leon Panetta, que j\u00e1 teve os cargos de chefe de Gabinete da Casa Branca na administra\u00e7\u00e3o Clinton, diretor da CIA e secret\u00e1rio de Defesa na administra\u00e7\u00e3o Obama. Em entrevista para oUSA Today advertiu que os norte-americanos precisam se preparar para uma \u201cesp\u00e9cie de guerra dos 30 anos\u201d, que deveria se estender al\u00e9m do Isis, incluindo as amea\u00e7as emergentes na Nig\u00e9ria, Som\u00e1lia, I\u00eamen, L\u00edbia e em outros lugares.<\/p>\n<p>De certa forma, pode-se argumentar que n\u00e3o houve uma s\u00e9rie de guerras no Grande Oriente M\u00e9dio durante esse per\u00edodo de 40 anos, mas sim uma \u00fanica e longa guerra, uma guerra sem fim. Supondo que o Estado isl\u00e2mico seja derrotado, algo bastante prov\u00e1vel, podemos ter certeza que de as campanhas militares seguiram seu curso. Assim como at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s a Al Qaeda era a maior amea\u00e7a nunca vista anteriormente, novas amea\u00e7as, t\u00e3o ou mais poderosas que o Isis, ser\u00e3o constru\u00eddas e, provavelmente, teremos o 15\u00ba pais isl\u00e2mico a ser atacado, ou o retorno para algum campo de batalha de uma guerra considerada inacabada.<\/p>\n<p>Podemos vislumbrar, ainda que remotamente, que essas guerras acabem algum dia? Para responder a uma quest\u00e3o como essa, s\u00f3 recorrendo \u00e0 genialidade de Mia Couto. Os fantasmas v\u00e3o morrer apenas quando morrer o medo, mas h\u00e1 quem tenha medo que o medo acabe. E n\u00e3o se iludam, s\u00e3o pessoas poderosas que colocam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o todos os recursos que possuem para que o medo permane\u00e7a.<\/p>\n<p>__________________________<\/p>\n<p><em>Reginaldo Nasser \u00e9 professor do curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da PUC-SP e do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP). <\/em><\/p>\n<p><em>Artigo publicado originalmente na <\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/\" >Revista Forum<\/a>.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Guerra-sem-fim-no-Oriente-Medio\/6\/32304\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De certa forma, pode-se argumentar que n\u00e3o houve uma s\u00e9rie de guerras no Oriente M\u00e9dio durante esse per\u00edodo de 40 anos, mas sim uma \u00fanica e longa guerra.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-50475","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50475\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}