{"id":51814,"date":"2014-12-29T12:00:40","date_gmt":"2014-12-29T12:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=51814"},"modified":"2015-05-05T21:27:07","modified_gmt":"2015-05-05T20:27:07","slug":"portugues-a-tortura-tambem-e-terrorismo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/12\/portugues-a-tortura-tambem-e-terrorismo-2\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Tortura Tamb\u00e9m \u00c9 Terrorismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Aquele que planta uma bomba \u00e9 t\u00e3o terrorista quanto o que aplica choques nas genit\u00e1lias de um preso ou afunda sua cabe\u00e7a na \u00e1gua at\u00e9 o limite do afogamento.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_51177\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/pau_de_arara-22.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-51177\" class=\"wp-image-51177\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/pau_de_arara-22-1024x682.jpg\" alt=\"Pau-de-arara. Choques el\u00e9tricos aplicados em bra\u00e7os, pernas, genitais, anus. M\u00e9todo de tortura introduzido pela CIA na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s da Opera\u00e7\u00e3o Condor, connduzida por Kissinger supostamente contra o Comunismo.\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/pau_de_arara-22-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/pau_de_arara-22-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/pau_de_arara-22.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-51177\" class=\"wp-caption-text\">Pau-de-arara. Choques el\u00e9tricos aplicados em bra\u00e7os, pernas, genitais, anus. M\u00e9todo de tortura introduzido pela CIA na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s da Opera\u00e7\u00e3o Condor, conduzida por Kissinger supostamente contra o Comunismo.<\/p><\/div>\n<p>O dicion\u00e1rio da Real Academia Espanhola define terrorismo como \u201csucess\u00e3o de atos de viol\u00eancia executados para infundir terror\u201d, e tortura como \u201cgrave dor f\u00edsica ou psicol\u00f3gica infligida a algu\u00e9m, com m\u00e9todos e utens\u00edlios diversos, com o fim de obter dele uma confiss\u00e3o, ou como meio de castigo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o termos sin\u00f4nimos, mas s\u00e3o quase, se deduzirmos que utilizar a tortura para conseguir informa\u00e7\u00f5es que contribuam para evitar atos de terrorismo \u00e9 um disparate. Porque \u00e9 t\u00e3o terrorista quanto o que aplica choques nas genit\u00e1lias de um preso ou afunda sua cabe\u00e7a na \u00e1gua at\u00e9 o limite do afogamento, t\u00e3o terrorista como aquele que veste um cinto explosivo ou o explode para causar a maior dor poss\u00edvel no inimigo, ainda que leve junto um punhado de inocentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a fronteira entre bons e maus, entre eles e n\u00f3s, \u00e9 difusa porque, quase sempre, os grupos se definem por ideologias e comportamentos que escondem interesses econ\u00f4micos e ideologias ego\u00edstas ou fan\u00e1ticas. Como estamos do lado de c\u00e1 desta linha t\u00eanue de separa\u00e7\u00e3o, engolimos com facilidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo a id\u00e9ia de que os Estados Unidos e o Ocidente em geral representam o poder brando que, por puro altru\u00edsmo, tenta levar a civiliza\u00e7\u00e3o, a democracia e os direitos humanos para onde reinam o fanatismo e a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Entretanto, do outro lado, o filme passa de modo muito diferente, e o que daqui chamam de terrorismo se justifica com uma resposta assim\u00e9trica (a assimetria \u00e9 for\u00e7ada pela desigualdade de meios) ao imperialismo brutal que se imp\u00f5e a sangue e a fogo, a desautoriza\u00e7\u00e3o da defesa de leg\u00edtimos interesses nacionais, o aplastamento das tentativas de estabelecer um modelo social e cultural pr\u00f3prio, n\u00e3o coincidente com a chamada \u201cciviliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d e ao espolio das mat\u00e9rias primas. Posteriormente, a hist\u00f3ria, como quase sempre, vai impor sua particular justi\u00e7a e transformar\u00e1 em maus os vencidos e em bons os vencedores, os que a escrever\u00e3o.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da tortura como m\u00e9todo habitual de interrogat\u00f3rio de presos durante a presid\u00eancia de George Bush sup\u00f4s uma aberra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser justificada nem sequer com o argumento de que com isso talvez fossem evitados novos atos de terrorismo, como os de 11 de setembro de 2001. Certamente, o \u00fanico terrorismo que se admite que exista \u00e9 o dos outros porque, por exemplo, transformar Gaza, Iraque ou Afeganist\u00e3o em escombros, derrubar regimes como o do sinistro Muamar Gadafi para que a L\u00edbia passasse a ser um Estado falido, ou ordenar assassinatos seletivos em que morrem mais inocentes do que supostos terroristas n\u00e3o \u00e9 terrorismo, mas sim legitimar atos de guerra em defesa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>No caso da pena capital, os Estados que reivindicam sua superioridade moral sobre os criminosos ou deliquentes ou terroristas n\u00e3o podem clamar por justi\u00e7a com a lei do tali\u00e3o. Uma morte, por mais legal que seja, n\u00e3o se justifica com outra, se n\u00e3o se transformar\u00e1 em um desprez\u00edvel ato de vingan\u00e7a. Da mesma forma, responder o terror com o terror, ca\u00e7ar inimigos com bombardeio ainda custa muitas vidas inocentes, prender em car\u00e1ter indefinido e sem direito a julgamento os suspeitos de executar ou preparar atos terroristas, submet\u00ea-los a todo tipo de maus tratos ou torturas sup\u00f5e uma indigna\u00e7\u00e3o que nunca poder\u00e1 ter justificativa moral.<\/p>\n<div id=\"attachment_36809\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Botero-Guantanamo.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-36809\" class=\"size-full wp-image-36809\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Botero-Guantanamo.jpg\" alt=\"Botero \u2013 Guantanamo, \" width=\"510\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Botero-Guantanamo.jpg 510w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Botero-Guantanamo-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-36809\" class=\"wp-caption-text\">Botero \u2013 Guantanamo,<\/p><\/div>\n<p>Que o pa\u00eds com mais advogados por quil\u00f4metro quadrado do mundo mantenha fora da legalidade a pris\u00e3o da vergonha de Guant\u00e1namo onde, por tr\u00e1s de seus muros e cercas, seus detentos s\u00e3o privados at\u00e9 mesmo do direito a um julgamento justo e da pr\u00f3pria dignidade. Isso diz muito da superioridade \u00e9tica atribu\u00edda aos Estados Unidos, em nome da qual se faz e desfaz por todo o mundo.<\/p>\n<p>Pior ainda: estas pr\u00e1ticas, que um recente comunicado do Senado voltou a abordar, servem para detonar o pretexto da imperdo\u00e1vel selvageria com que a Al Qaeda, suas franquias e o emergente Estado Isl\u00e2mico atuam em suas \u00e1reas de influ\u00eancia: execu\u00e7\u00f5es massivas no Iraque e na S\u00edria, degolamentos de ref\u00e9ns inocentes ocidentais filmados e difundidos pela internet, matan\u00e7as e seq\u00fcestros de centenas de crian\u00e7as na Nig\u00e9ria. Por mais lugar comum que pare\u00e7a, a viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia; o \u00f3dio, mais \u00f3dio; o terror, mais terror; e a injusti\u00e7a, mais injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es ao comunicado do Senado dos Estados Unidos supuseram um exerc\u00edcio de cinismo e hipocrisia. Reconheceram os m\u00faltiplos abusos e atrocidades cometidas. John Brennan, o mesm\u00edssimo diretor da CIA \u2013 ag\u00eancia que levou o peso dos interrogat\u00f3rios entre 2002 e 2007 \u2013 reconhece que se tratou de \u201caberra\u00e7\u00f5es\u201d, mas evita empregar o termo \u201ctortura\u201d \u2013 dada sua cobertura legal \u2013 e assegura que permitiram obter \u201cinforma\u00e7\u00f5es \u00fateis\u201d que, por exemplo, contribu\u00edram para eliminar Osama Bin Laden naquela \u201chora mais escura\u201d de 2012. O filme de mesmo t\u00edtulo de Kathryn Bigelow analisa essa tese e mostrava como se utilizaram procedimentos t\u00e3o cient\u00edficos com os suspeitos como afogamento simulado, priva\u00e7\u00e3o durante dias de sono, humilha\u00e7\u00e3o sexual e inclusive confinamento em um caix\u00e3o fedorento. O comunicado do Senado acrescenta outros como \u201calimenta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada\u201d, banhos em \u00e1gua gelada, trabalho for\u00e7ado, espancamentos e abusos sexuais.<\/p>\n<p>O informativo nega a rela\u00e7\u00e3o causa-efeito (tortura-informa\u00e7\u00e3o) e sustenta que as chamadas \u201ct\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio refor\u00e7adas\u201d (sinistro eufemismo) n\u00e3o proporcionaram dados relevantes para prevenir atentados. Brennan admite que foram cometidos \u201cerros\u201d dos quais n\u00e3o se exigiu responsabiliza\u00e7\u00e3o, mas assegura que a maioria dos agentes da CIA cumpriram com seu dever \u201c\u00e0 servi\u00e7o da na\u00e7\u00e3o\u201d. Apenas um passo menos do que disse o ex-vice-presidente Dick Cheney, ide\u00f3logo dessa guerra suja: \u201cdeveriam ser condecorados, n\u00e3o criticados (&#8230;) Tem que ser am\u00e1vel com os assassinos de 3 mil norte-americanos?. N\u00e3o h\u00e1 problema: esses patriotas torturados t\u00eam impunidade garantida.<\/p>\n<p>O descafeinado mea culpa remonta a uma autocomplac\u00eancia, sobretudo quando se recorda que o programa contava com os avais mais altos poss\u00edveis, os do Departamento de Justi\u00e7a e da Casa Branca. A pergunta agora \u00e9: j\u00e1 acabou? Terminou este cap\u00edtulo da nossa historia? S\u00e3o estas aberra\u00e7\u00f5es que nunca mais acontecer\u00e3o? \u00c9 mais que duvidoso. Barack Obama chegou ao poder prometendo que sua presid\u00eancia estaria definida pelo \u201cimp\u00e9rio da lei e dos direitos humanos\u201d, convencido de que s\u00e3o compat\u00edveis a \u201cnossa seguran\u00e7a e nossos ideais\u201d. Disse isso em 2009, quando o ent\u00e3o chefe da CIA, Leon Panetta, declarava: \u201cN\u00e3o se deve utilizar a tortura sob nenhuma circunst\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 sendo assim? Depende, claro, do que se entende por tortura, mas custa muito qualificar como tortura o tratamento que os presos de Guant\u00e1namo sofrem, muitos dos quais sequer s\u00e3o suspeitos de algum crime, mas os que n\u00e3o se sabe para onde enviar ou se devem ser liberados, enquanto o resto permanece sem uma esperan\u00e7a razo\u00e1vel de comparecer algum dia diante de um tribunal de justi\u00e7a. E fechar Guant\u00e1namo, n\u00e3o \u00e9 preciso esquecer, era a primeira promessa de Obama quando chegou \u00e0 presid\u00eancia, h\u00e1 seis anos. Uma prova a mais de sua impot\u00eancia, de sua falta de capacidade, de vontade ou de tudo isso junto.<\/p>\n<p>Sobretudo, cabe questionar que, se acontecer outra vez uma \u201cemerg\u00eancia nacional\u201d, como a de 11 de setembro, a hip\u00f3crita preocupa\u00e7\u00e3o com os direitos humanos alheios, os do inimigo, ceda diante dos sacrossantos interesses da seguran\u00e7a nacional, principalmente se Obama j\u00e1 n\u00e3o estiver na Casa Branca. Entretanto, n\u00e3o haver\u00e1 tortura de forma oficial por uma raz\u00e3o elementar, porque, por defini\u00e7\u00e3o, ela j\u00e1 n\u00e3o existe. E assim, Guant\u00e1namo, por exemplo, deve ser outra coisa. E se chegassem a aprovar novas medidas que recordem as de Bush e que se pare\u00e7am com a tortura, um termo t\u00e3o inocente seria procurado, como o eufemismo \u201cm\u00e9todos refor\u00e7ados de interrogat\u00f3rio\u201d, que tanta pol\u00eamica causaram.<\/p>\n<p>Brennan insinuou algo terr\u00edvel: que no futuro, em caso de outro ataque como o das Torres G\u00eameas e do Pent\u00e1gono, poderia ser recuperada a l\u00f3gica e o tipo de medidas que tornaram poss\u00edveis os excessos que agora s\u00e3o condenados no demolidor informativo do Senado. Sabe do que fala: tinha um cargo de responsabilidade na CIA quando a ag\u00eancia transformou a tortura em rotina e, antes de ser o principal assessor antiterrorista de Obama, defendeu os procedimentos que serviam para \u201cobter informa\u00e7\u00e3o relevante que pode salvar vidas\u201d. Isso freou sua elei\u00e7\u00e3o como diretor da CIA em 2009&#8230; mas somente at\u00e9 2013.<\/p>\n<p>_____________________________<\/p>\n<p><em>Luis Mat\u00edas L\u00f3pez &#8211; Ex-redator chefe e correspondente em Moscou do <\/em>El Pa\u00eds<em>, membro do Conselho Editorial do <\/em>P\u00fablico <em>at\u00e9 o desaparecimento de sua edi\u00e7\u00e3o em papel. Colunista regular do site <\/em>P\u00fablico.es<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Daniela Camba\u00fava.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Direitos-Humanos\/A-tortura-tambem-e-terrorismo\/5\/32523\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele que planta uma bomba \u00e9 t\u00e3o terrorista quanto o que aplica choques nas genit\u00e1lias de um preso ou afunda sua cabe\u00e7a na \u00e1gua at\u00e9 o limite do afogamento.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-51814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51814\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}