{"id":52071,"date":"2015-01-05T12:00:13","date_gmt":"2015-01-05T12:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=52071"},"modified":"2015-05-05T21:27:06","modified_gmt":"2015-05-05T20:27:06","slug":"portugues-ecolinguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/01\/portugues-ecolinguagem\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Ecolinguagem"},"content":{"rendered":"<ol>\n<li><strong> Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A primeira ideia que vem \u00e0 mente quando ouvimos a palavra &#8216;ecolinguagem&#8217; \u00e9 a de que ela seria a &#8220;linguagem ecologicamente correta&#8221;. Essa \u00e9 a opini\u00e3o do leigo. Por\u00e9m, ela \u00e9 apenas parcialmente correta e pode levar a interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas, como s\u00f3i acontecer. Por isso, deixemos a conceitua\u00e7\u00e3o para a se\u00e7\u00e3o seguinte e passemos ao surgimento da pr\u00f3pria palavra.<\/p>\n<p>Durante a realiza\u00e7\u00e3o do I Encontro Brasileiro de Imagin\u00e1rio e Ecolingu\u00edstica (I EBIME), na UFG, de 5 a 6 de dezembro de 2013, ela apareceu pelo menos no t\u00edtulo de Marques (2013). Em Couto &amp; Silva (2013) ela foi discutida em algumas se\u00e7\u00f5es do ensaio, como veremos mais abaixo. Na <em>internet<\/em>, n\u00e3o encontramos nenhuma ocorr\u00eancia da palavra &#8216;ecolinguagem&#8217; em portugu\u00eas, sem h\u00edfen. Com h\u00edfen, por\u00e9m, ela apareceu pelo menos no subcap\u00edtulo de um artigo traduzido do ingl\u00eas intitulado &#8220;Eco-linguagem: fazendo a natureza significar &#8216;meio-ambiente'&#8221;. Em ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas e alem\u00e3o ela ocorreu, com e sem h\u00edfen, em geral fora dos estudos lingu\u00edsticos, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es. Em ensaios cient\u00edficos, o termo j\u00e1 surgiu pelo menos duas vezes, como em Ferreira (2002) e Mart\u00ed Marco (2006), \u00e0s quais voltaremos logo abaixo. \u00c9 importante ressaltar desde j\u00e1 que o sentido atribu\u00eddo \u00e0 palavra por elas n\u00e3o \u00e9 necessariamente o mesmo em que a usamos aqui. De qualquer forma, o termo se insere no contexto da vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo, que tem dado origem a muitas eco-palavras, que veem aumentando a cada dia que passa. Pelo menos em portugu\u00eas e em galego j\u00e1 ocorreu tamb\u00e9m a variante &#8216;ecol\u00edngua&#8217;.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Conceituando Ecolinguagem <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Para entender o que \u00e9 <strong>ecolinguagem<\/strong>, \u00e9 necess\u00e1rio associ\u00e1-la \u00e0 vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo. Com isso, ela tem muito a ver com a ecolingu\u00edstica, embora n\u00e3o se possa dizer que a \u00faltima a tenha como objeto de estudo. Na verdade, <strong>ecolingu\u00edstica<\/strong> \u00e9 o estudo das rela\u00e7\u00f5es entre l\u00edngua e seu meio ambiente (natural, mental, social), ou das intera\u00e7\u00f5es verbais que se d\u00e3o no meio ambiente natural, no mental e no social. Vale dizer, a tenta\u00e7\u00e3o de dizer que a o objeto de estudo da ecolingu\u00edstica \u00e9 a ecolinguagem \u00e9 muito grande, no entanto, a ecolingu\u00edstica \u00e9 mais ampla, uma vez que toda e qualquer manifesta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica est\u00e1 no seu \u00e2mbito de interesse. A fim de encaminhar a discuss\u00e3o de modo mais direcionado, comecemos pela opini\u00e3o das duas autoras j\u00e1 mencionadas, cujos ensaios est\u00e3o em alem\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira delas \u00e9 a ucraniana Olga Malachowa. Malachowa (1996) \u00e9 inteiramente dedicado \u00e0 ecolinguagem, em alem\u00e3o <em>\u00d6kosprache<\/em>. Para ela, um dos objetivos da ecolinguagem \u00e9 &#8220;aperfei\u00e7oamento das rela\u00e7\u00f5es dos humanos com o meio ambiente&#8221;, acrescentando que &#8220;como resultado desse processo surgir\u00e1 um novo n\u00f3vel lexical&#8221; (p. 205). Trata-se do <strong>ecol\u00e9xico<\/strong>. Ela n\u00e3o chega a definir &#8216;ecolinguagem&#8217;. O significado fica impl\u00edcito ao longo de todo o texto. Em alem\u00e3o o ecol\u00e9xico apresenta cinco tipos de express\u00f5es, ou seja, 1) inova\u00e7\u00f5es lexicais, 2) forma\u00e7\u00e3o de palavras, 3) ressignifica\u00e7\u00e3o de palavras, 4) fraseologismos, 5) estrangeirismos.<\/p>\n<p>Seis anos depois, a portuguesa Adelaide Ferreira tamb\u00e9m usou a palavra. Em Ferreira (2002), ela conceitua o equivalente alem\u00e3o de ecolinguagem (<em>\u00d6kosprache<\/em>) como sendo menos concreto do que \u201clinguagem de casa\u201d (<em>Haussprache<\/em>). Para ela, ecolinguagem \u201ctem a ver com naureza\/meio ambiente de modo mais concreto\u201d. Entre as palavras que inclui na ecolinguagem encontram-se: \u201cmeio ambiente\u201d, \u201cnatureza (livre)\u201d<em>,<\/em> \u201cecologia\u201d, \u201creservas naturais\u201d, \u201cbi\u00f3topo\u201d<em>,<\/em> \u201coceanos\u201d, \u201cAmaz\u00f4nia\u201d, \u201cenergia at\u00f4mica\u201d, \u201canimais selvagens\u201d, \u201cplantas\u201d, \u201ccat\u00e1strofe clim\u00e1tica\u201d e \u201ctratamento do ecossistema&#8221;.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 a espanhola Mart\u00ed Marco (2006) que, na verdade, retoma ideias de Malachowa e Ferreira. Para ela, ecolinguagem (<em>\u00d6kosprache<\/em>) \u00e9 uma \u2018linguagem de especialidade\u2019, no caso, da ecologia e tudo que tem a ver com ela. Acrescenta que o uso quotidiano &#8220;amea\u00e7a tornar &#8216;ecologia&#8217; uma etiqueta para tudo que \u00e9 bom, como o que est\u00e1 longe das cidades, ou para tudo que n\u00e3o contenha produtos qu\u00edmicos sint\u00e9ticos&#8221;. Menciona como parte do ecol\u00e9xico express\u00f5es como <em>natural<\/em>, <em>ambiental<\/em> etc. Algumas express\u00f5es indicam atributos positivos (<em>verde<\/em>, <em>amigo do meio ambiente<\/em>); outras, atribbutos negativos (<em>polui\u00e7\u00e3o, amea\u00e7ado, esgotato<\/em>).<\/p>\n<p>Como j\u00e1 notado acima, durante o I EBIME o termo ecolinguagem ocorreu tamb\u00e9m em Couto &amp; Silva (<em>este volume<\/em>). Diferentemente de Marques (este volume) os autores chegam a dar algumas sugest\u00f5es de conceitua\u00e7\u00e3o de ecolinguagem. J\u00e1 no resumo da comunica\u00e7\u00e3o oral, eles dizem que &#8220;o objetivo deste artigo \u00e9 discorrer sobre a \u00e9tica ecol\u00f3gica (eco\u00e9tica) e mostrar como ela poderia ser desenvolvida no contexto da An\u00e1lise do Discurso Ecol\u00f3gica (doravante ADE), que parte da ecolinguagem e enfatiza a defesa da vida, inclusive sugerindo interven\u00e7\u00e3o a fim de preserv\u00e1-la&#8221;. Para eles, &#8220;a ecolinguagem \u00e9 express\u00e3o vista numa perspectiva hol\u00edstica<strong>, <\/strong>ou seja<strong>, <\/strong>a capta\u00e7\u00e3o da totalidade org\u00e2nica, una e diversa em suas partes, sempre articuladas entre si dentro da totalidade e construindo essa totalidade&#8221;, reportando-se a Leonardo Boff. Continuam asseverando que o uso do prefixo eco- faz parte da ecolinguagem. Concluem com a observa\u00e7\u00e3o de que se &#8220;percebe que \u00e9 necess\u00e1ria uma luta pela vida de todos os seres de todas as esp\u00e9cies sem viol\u00eancia e criticando o antropocentrismo em sua m\u00e1xima e, consequentemente, contra tudo que pode trazer sofrimento&#8221; e que para isso &#8220;\u00e9 necess\u00e1rio partir da ecolinguagem e aliar a eco\u00e9tica \u00e0 ADE&#8221;.<\/p>\n<p>Diante do que foi discutido at\u00e9 aqui, nota-se que ecolinguagem tem a ver com ecologia, no sentido mais amplo da palavra. Mas, em vez de ser apenas uma linguagem ecologicamente correta, \u00e9, antes, a linguagem que se mostra em sintonia com a vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo. Isso implica muitas coisas. Por exemplo, praticar ecolinguagem \u00e9:<\/p>\n<ol>\n<li>respeitar a diversidade, em todos os sentidos;<\/li>\n<li>encarar tudo holisticamente, n\u00e3o parcialmente (com parcialidade);<\/li>\n<li>aceitar a ideia de que o mundo \u00e9 impermanente, como dizem os tao\u00edstas; ele \u00e9 um processo, nada \u00e9 reigidamente est\u00e1tico;<\/li>\n<li>procurar ser cooperativo, solid\u00e1rio, magnin\u00e2nimo e tolerante, como manda o tao\u00edsmo;<\/li>\n<li>mostrar tudo isso na escolha das palavras e no modo de us\u00e1-las;<\/li>\n<li>usar uma linguagem ecologicamente correta.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Como nos ensina a ecologia profunda, criada pelo fil\u00f3sofo noruegu\u00eas Arne Naess (1912\u20132009), tudo isso deve ser observado n\u00e3o s\u00f3 no que tange aos humanos mas tamb\u00e9m no que diz respeito aos demais seres vivos, e at\u00e9 os aspectos abi\u00f3ticos do mundo.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Ideologia ecol\u00f3gica<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Se a ecolinguagem tem tudo a ver com ecolingu\u00edstica, mesmo que o objeto da segunda n\u00e3o se restrinja a ela, conclui-se que ela tem tamb\u00e9m a ver com o objeto de estudo da <strong>an\u00e1lise do discurso ecol\u00f3gica<\/strong>, a ADE (Couto, <em>este volume<\/em>). Ela surgiu com o objetivo de substituir a \u00eanfase dada pela an\u00e1lise do discurso tradicional \u00e0 ideologia (pol\u00edtica, partid\u00e1ria, religiosa etc.) e \u00e0s consquentes rela\u00e7\u00f5es de poder. A ideologia no caso tem sido a marxista, que tem pelo menos tr\u00eas implica\u00e7\u00f5es inaceit\u00e1veis para a vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo. A primeira \u00e9 o antropocentrismo (sob o manto de humanismo), sendo que a ecologia defende o biocentrismo e o ecocentrismo. A segunda \u00e9 a \u00eanfase no conflito, sendo que a ADE e tudo que est\u00e1 por tr\u00e1s dela partem da harmonia, como se faz no tao\u00edsmo e na ecologia profunda. A terceira \u00e9 a &#8220;ditadura do proletariado&#8221;, locu\u00e7\u00e3o nominal cujo n\u00facleo \u00e9 &#8220;ditatura&#8221;, n\u00e3o &#8220;proletariado&#8221;. Sabemos muito bem a que distor\u00e7\u00f5es essa ideologia levou quando posta em pr\u00e1tica na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, na Alemanha Oriental, na Coreia do Norte e em Cuba, para mencionar apenas quatro casos.<\/p>\n<p>Como a ecolingu\u00edstica, bem como da vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo em que se insere, a ADE parte da <strong>ideologia ecol\u00f3gica<\/strong>, ou <strong>ideologia da vida<\/strong>. Para ela, o mais importante no caso de uma mulher que sofre nas m\u00e3os de um marido violento que chega b\u00eabado em casa e a espanca todos os dias n\u00e3o \u00e9 encarar o fato da perspectiva do feminismo e do machismo. Feminismo e machismo s\u00e3o ideologias, e ideologias s\u00e3o partid\u00e1rias, dividem. A ADE defende a mulher n\u00e3o por ser mulher, com o que a estaria pondo em oposi\u00e7\u00e3o ao homem, mas por ser um ser vivo que sofre. Assim, ela \u00e9 posta em condi\u00e7\u00e3o de igualdade com o homem, e seu sofrimento deve ser combatido pelo simples fato de se tratar de sofrimento de um ser vivo. Esse \u00e9 o ponto central da ADE, a defesa intransigente da vida e uma luta constante contra tudo que possa trazer sofrimento a um ser vivo. Dessa perspectiva, quem a pratica est\u00e1 naturalmente usando ecolinguagem.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Alguns dos primeiros estudiosos de temas relativos \u00e0 ecolinguagem<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Alguns autores j\u00e1 trataram de temas que se incluiriam no bojo da ecolinguagem. O primeiro que gostar\u00edamos de mencionar \u00e9 Bohm (2007). Embora seja um f\u00edsico, ele se preocupou muito com a quest\u00e3o da linguagem que usamos para falar do mundo, que o reificaria, que veria nele coisas, representadas na linguagem por substantivos. Para ele, &#8220;numa teoria relativ\u00edstica, \u00e9 necess\u00e1rio abandonar por completo a no\u00e7\u00e3o de que o mundo \u00e9 constitu\u00eddo de objetos ou &#8216;blocos de ocnstru\u00e7\u00e3o&#8217; fundamentais&#8221;, que seriam designados por substantivos (p. 30). Assim, &#8220;uma caracter\u00edstica muito importante desse tipo \u00e9 a estrutura sujeito-verbo-objeto das senten\u00e7as&#8221; que &#8220;tende a dividir as coisas em entidades separadas&#8221; (p. 53), no caso, a coisa &#8220;sujeito&#8221; e coisa &#8220;objeto&#8221;, ligadas pela a\u00e7\u00e3o indicada pelo verbo. Segundo a nova vis\u00e3o de mundo, introduziada pela teoria da relatividade, &#8220;em vez de dizer: &#8216;Um observador olha para um objeto&#8217;, podemos mais adequadamente dizer: &#8216;A observa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ocorrendo, num movimento indiviso envolvendo essas abstra\u00e7\u00f5es comumente chamadas de &#8216;ser humano&#8217;, e de &#8216;objeto para o qual ele est\u00e1 olhando'&#8221; (p. 54).<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o como <em>est\u00e1 chovendo<\/em> est\u00e1 mais em sintonia com a nova vis\u00e3o de mundo do que <em>a chuva est\u00e1 caindo<\/em>. Bohm acrescenta que &#8220;a bem da conveni\u00eancia, daremos a esse modo [de se expressar] um nome: <em>reomodo<\/em> (<em>rheo<\/em> vem de um verbo grego que significa &#8216;fluir&#8217;). Ao menos em primeira inst\u00e2ncia, o reomodo ser\u00e1 uma experi\u00eancia no uso da linguagem, experi\u00eancia essa voltada, principalmente, para a tentativa de descobrir se \u00e9 poss\u00edvel criar uma nova estrutura que n\u00e3o seja t\u00e3o inclinada \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o como \u00e9 a atual. Evidentemente, nossa indaga\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de come\u00e7ar enfatizando o papel da linguagem no modelamento de nossas vis\u00f5es globais de mundo, bem como em express\u00e1-las mais preciosamente na forma de ideias filos\u00f3ficas gerais&#8221; (p. 55). Enfim, o autor sugere que vejamos o mundo como uma imensa rede de intera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o como um conjunto de coisas que se relacionam entre si. Embora ele aparentemente n\u00e3o fosse um ecologista, sua proposta \u00e9 inteiramente ecol\u00f3gica. Portanto, o que ele defendeu pode integrar a ecolinguagem.<\/p>\n<p>Um segundo autor se dedicou ao assunto \u00e9 o conhecido linguista Michael Halliday. Num ensaio que se tornou divisor de \u00e1guas na ecolingu\u00edstica (Halliday 2001), ele defende uma tese muito parecida com a de Bohm, mostrando que desde os escritos de Newton, a tend\u00eancia na l\u00edngua inglesa \u00e9 de ver o mundo mediante nomes abstratos como termos t\u00e9cnicos tirados do grego via latim cl\u00e1ssico e medieval (<em>incidence<\/em>, <em>proportion<\/em>), nomes metaf\u00f3ricos como nominaliza\u00e7\u00f5es de processos e propriedades (<em>the diverging and separation of the heterogeneous rays<\/em>), grupos nominais expandidos como palavras funcionando como ep\u00edtetos e classificadores (<em>several contiguous refracting Mediums<\/em>), grupos nominais expandidos com frases e senten\u00e7as funcionando como qualificadores (<em>the Whiteness of emerging light, the refracting force of the body<\/em>), verbos metaf\u00f3ricos como verbaliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas (<em>arises from, is occasioned by<\/em>) e assim por diante. Fatos semelhantes s\u00e3o citados para o italiano, na linguagem de Galileo (Halliday 2001: 187-188). O autor acrescenta que o que esses autores fizeram foi simplesmente refor\u00e7ar registros da l\u00edngua que j\u00e1 estavam dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>De acordo com Halliday, os discursos tecnocr\u00e1tico, burocr\u00e1tico e cient\u00edfico s\u00e3o herm\u00e9ticos, com o que os assuntos se tornam obscuros. Uma vez que &#8220;s\u00e3o obscuros, n\u00e3o devemos ter esperan\u00e7a de entend\u00ea-los, de modo que a solu\u00e7\u00e3o deve ficar com os especialistas&#8221; (p. 190). Em parte isso se deveria, segundo ele, \u00e0 gram\u00e1tica nominalizadora e metaf\u00f3rica do s\u00e9culo XX. De modo que a chamada &#8220;sociedade da informa\u00e7\u00e3o&#8221; deveria ser chamada de &#8220;sociedade da desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;. A proposta de Halliday afirma que &#8220;a nominaliza\u00e7\u00e3o foi funcional para a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia experimental, possibilitando o desenvolvimento de taxonomias t\u00e9cnicas e desvelando as rela\u00e7\u00f5es existentes entre os processos, mas n\u00e3o \u00e9 adequada para representar a vis\u00e3o de mundo mais relativ\u00edstica que est\u00e1 emergindo da ci\u00eancia moderna porque representa um mundo de coisas, n\u00e3o de processos. Nominaliza\u00e7\u00f5es como <em>perda de habitat<\/em>, <em>extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies<\/em> e <em>destrui\u00e7\u00e3o da floresta pluvial<\/em> permitem a supress\u00e3o do agente, o que ocultaria a culpa de quem causa tudo isso. Enfim, essas ideias de Halliday salientam o que n\u00e3o \u00e9 ecolinguagem, mas, antes, o seu contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s temos os trabalhos do primeiro autor do presente ensaio, F. Gomes de Matos. Como se pode ver no boletim do Instituto de Idiomas Y\u00e1zigi (<em>Criativity<\/em> n. 25, 1977) de que foi diretor, ele sugeria a associa\u00e7\u00e3o enre linguagem e seu ensino a ecologia j\u00e1 na d\u00e9cada de setente do s\u00e9culo passado, reportando-se a Catherine Young Silva. Um dos objetivos era &#8220;estabelecer um equil\u00edbrio ecol\u00f3gico de modo a melhorar a qualidade de vida na terra&#8221;. A partir da\u00ed, o autor come\u00e7ou a apresentar sua proposta de &#8220;portugu\u00eas positivo&#8221;, dentro da filosofia de que &#8220;comunicar bem em portugu\u00eas \u00e9 comunicar-se para o bem&#8221;, de acordo com uma &#8220;filosofia da positividade&#8221; (Matos 1996: 13). Partindo da vis\u00e3o de mundo crist\u00e3, sugeria que se tratasse o outro como o pr\u00f3ximo, n\u00e3o o estranho. Entre os termos que comporiam esse &#8216;portugu\u00eas positivo&#8217; e que, portanto, s\u00e3o parte da ecolinguagem, temos: <em>alegria, alian\u00e7a, amizade, amor, caridade, conc\u00f3rdia, consci\u00eancia, esperan\u00e7a, honra, humildade, justi\u00e7a, liberdade, obedi\u00eancia, perseveran\u00e7a<\/em>, por um lado, mas tamb\u00e9m <em>aceita\u00e7\u00e3o, bondade, compreens\u00e3o, confian\u00e7a, coopera\u00e7\u00e3o, dignidade, fidelidade, generosidade, honestidade, sabedoria, santidade, sensatez, ternura, uni\u00e3o, verdad<\/em>e e <em>virtude<\/em>, por outro lado.<\/p>\n<p>Essa pesquisa continua at\u00e9 nossos dias, como se pode ver em Matos (1996, 2006). No momento, ele tem enfatizado que uma alternativa comunicacional para palavras maximizadoras, enfatizadoras poderia ser inspirar-se na rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e meio ambiente e aplicar os princ\u00edpios da ecolingu\u00edstica. Assim, as algumas intensifica\u00e7\u00f5es passariam a ser expressas por <em>oce\u00e2nico<\/em>(<em>a<\/em>), <em>ensolaradamente<\/em> etc. No fecho de seus <em>emails<\/em> informais em portugu\u00eas, ele tem dito <em>Um abra\u00e7o ensolarado<\/em> ou ativar a variante <em>ensolaradamente<\/em>, e mandar um abra\u00e7o. Quando exerce o direito lingu\u00edstico de bil\u00edngue (portugu\u00eas e ingl\u00eas), encerra uma mensagem eletr\u00f4nica assim: <em>sunny regards<\/em>. Ao agradecer a um(a) amigo(a), frequentemente diz: <em>an ocean of thanks<\/em> (<em>oceanicamente agradecido<\/em>). Seria como mergulhar nas \u00e1guas ecolingu\u00edsticas dispon\u00edveis para os usu\u00e1rios de portugu\u00eas e criar modos de dizer inspirados por fen\u00f4menos naturais. Ao exercer a criatividade lingu\u00edstica, que tal integrar a dimens\u00e3o ecolingu\u00edstica e manifestar ideias <em>enluaradamente<\/em>, ao inv\u00e9s de simplesmente dizer <em>iluminadamente<\/em>? Claro que essas maneiras de se expressar constituem met\u00e1foras, mas comunicar \u00e9 metaforizar, por isso, empenhemo-nos em dar mais vivacidade aos nossos pap\u00e9is de metaforizadores. Um desafio ecolingu\u00edstico consistiria em traduzir uma express\u00e3o do informal usual para o informal ecolinguisticamente inusitado. Exemplo: <em>sua sugest\u00e3o est\u00e1 muito al\u00e9m das disponibilidades financeiras<\/em> por <em>sua sugest\u00e3o est\u00e1 financeiramente montanhosa<\/em>.<\/p>\n<p>Em outras situa\u00e7\u00f5es, poder\u00edamos ter: <em>uma noite de domingo estelarmente feliz para voc\u00ea<\/em>, <em>agrade\u00e7o oceanicamente pelo interesse em meu apelo em prol de uma comunica\u00e7\u00e3o ecolinguisticamente construtiva, positiva, dignificante<\/em>. No ensino de portugu\u00eas quando se aborda a metaforiza\u00e7\u00e3o bem se poderia <em>ensolarar<\/em> a qualidade das mensagens e <em>plantar ideias<\/em> que <em>frutifiquem<\/em> para o bem dos usu\u00e1rios de l\u00ednguas. \u00c0s vezes Matos termina as mensagens com <em>abra\u00e7o capibaribeano<\/em>, lembrando o rio de sua inf\u00e2ncia, em Recife. Ao cumprimentar um tecn\u00f3logo educacional, em vez de dizer <em>votos de muito sucesso tecnol\u00f3gico<\/em>, que tal dizer <em>deliciosos frutos em suas \u00e1rvores tecnol\u00f3gicas<\/em>?&#8221;. Enfim, Bohm, Halliday e Matos sugeriam, e usavam, ecolinguagem mesmo <em>avant la lettre<\/em>.<\/p>\n<p>Por fim, temos o falecido ecolinguista brasileiro Manoel Soares Sarmento que sugeriu diversos tipos de express\u00e3o para uma futura ecolinguagem. Em Sarmento (2002, 2012), ele prop\u00f5e uma <strong>ecolexicologia<\/strong> e uma <strong>ecolexicografia<\/strong>. De um modo geral, o autor propunha &#8220;palavras ecol\u00f3gicas&#8221; e &#8220;express\u00f5es ecol\u00f3gicas&#8221;, no contexto de sua ecolexicografia. Em Sarmento (2012), ele diz que &#8220;nossa ci\u00eancia tem de se ver \u00e0s voltas seriamente, na realiza\u00e7\u00e3o de suas discuss\u00f5es e tarefas, com as palavras que usamos, a respeito dos efeitos que elas causam, quais as suas potencialidades para criar, enfraquecer, fortalecer, manter e destruir&#8221;. &#8220;Alguns alvos de anvestiga\u00e7\u00e3o da ecolingu\u00edstica&#8221; seriam: &#8220;tratar a l\u00edngua face aos sistemas biol\u00f3gicos diversos e similares&#8221;; realizar a cr\u00edtica da l\u00edngua, tanto em termos do par l\u00edngua-meio ambiente, quanto de uma cr\u00edtica ao sistema interno da l\u00edngua. Assim, o trabalho envolveria os estratos comumente discutidos da l\u00edngua humana: o l\u00e9xico, a morfologia a sintaxe, a sem\u00e2ntica etc.&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, cabe mencionar a conbritui\u00e7\u00e3o do quarto autor que tentou aplicar os princ\u00edpios do tao\u00edsmo \u00e0 linguagem (Couto 2012). Tudo que est\u00e1 dito no livro est\u00e1 no escopo da ecolinguagem, uma vez que a linguagem tao\u00edsta \u00e9 ecolinguagem, como se ver\u00e1 na se\u00e7\u00e3o seguinte.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> O tao da linguagem<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Aqui vamos apenas lembrar algumas passagens de Couto (2012). No cap\u00edtulo &#8220;Conclus\u00e3o&#8221; do livro, vemos que &#8220;o tao da linguagem consiste em:<\/p>\n<ul>\n<li>Valorizar mais o conte\u00fado do que a forma<\/li>\n<li>Falar apenas o necess\u00e1rio<\/li>\n<li>Ouvir mais do que falar<\/li>\n<li>N\u00e3o querer dominar a palavra<\/li>\n<li>Respeitar o direito do interlocutor \u00e0 palavra<\/li>\n<li>Comunicar-se harmoniosamente<\/li>\n<li>Expressar-se suavemente.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Afinal, como diz um prov\u00e9rbio chin\u00eas, palavras r\u00edspidas e argumentos pobres nunca resolveram nada&#8221; (p. 224-225).<\/p>\n<p>Entre as palavras que constituiriam o &#8220;vocabul\u00e1rio tao\u00edsta&#8221; e, portanto, faria parte da ecolinguagem, o livro alinha:<\/p>\n<p><strong>&#8220;a. O EU em rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; desculpa (resposta: &#8220;de nada&#8221;)<\/p>\n<p>&#8211; perd\u00e3o (resp.: &#8220;est\u00e1 perdoado&#8221;)<\/p>\n<p>&#8211; com licen\u00e7a (resp. &#8220;pois n\u00e3o!&#8221;)<\/p>\n<p>&#8211; paz<\/p>\n<p>&#8211; benevol\u00eancia<\/p>\n<p>&#8211; fraternidade<\/p>\n<p>&#8211; toler\u00e2ncia<\/p>\n<p>&#8211; amor<\/p>\n<p>&#8211; compaix\u00e3o<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> O EU em rela\u00e7\u00e3o com o mundo<\/strong> (que inclui a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo)<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; harmonia<\/p>\n<p>&#8211; flexibilidade<\/p>\n<p>&#8211; adaptabilidade \/ amoldabilidade<\/p>\n<p>&#8211; receptividade<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<ol>\n<li><strong> O EU em rela\u00e7\u00e3o consigo pr\u00f3prio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; serenidade<\/p>\n<p>&#8211; modera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; simplicidade<\/p>\n<p>&#8211; sa\u00fade<\/p>\n<p>&#8211; sabedoria (n\u00e3o erudi\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&#8211; tranquilidade<\/p>\n<p>&#8211; humildade<\/p>\n<p>&#8211; sufici\u00eancia<\/p>\n<p>&#8211; modera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.&#8221;<\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 em sintonia com as ideias do primeiro autor do presente ensaio apresentadas sumariamente na se\u00e7\u00e3o 4.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> A linguagem n\u00e3o preconceituosa<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Em Couto (2007: 347-356), h\u00e1 toda uma gama de termos que pertencem a uma linguagem preconceituosa que n\u00e3o tem lugar na ecolinguagem. Entre eles temos o antropocentrismo, o etnocentrismo (racismo), o androcentrismo (machismo, sexismo), o crescimentismo (grandismo), o aulicismo (classismo) e a linguagem &#8220;culta&#8221;. O antropocentrismo nos leva a achar que somos &#8220;os reis da cria\u00e7\u00e3o&#8221; e que todos os demais seres vivos est\u00e3o a\u00ed para nos servir. Isso fica evidente em alguns nomes de animais usados pejorativamente, como <em>bicho<\/em>, <em>animalesco<\/em>, <em>bestial<\/em>, <em>selvagem<\/em>, <em>simiesco<\/em>, <em>burro<\/em>, <em>porco<\/em>, <em>cavalo<\/em>, <em>vaca<\/em>. Al\u00e9m disso, procuramos nos distanciar deles, usando palavras diferentes para n\u00f3s e para eles, tais como <em>p\u00e9<\/em> versus <em>pata<\/em>.<\/p>\n<p>O etnocentrismo n\u00e3o poderia ser mais distante dos ideais da ecolinguagem. De acordo com ele, &#8220;certo&#8221; \u00e9 o que existe em nossa cultura; o que existe s\u00f3 na dos outros \u00e9 &#8220;errado&#8221;. Essa mentalidade em levado a atrocidades como a do nazi-facismo. Ele aparece tamb\u00e9m sob a forma de racismo, que consiste em dividir a humanidade em &#8220;ra\u00e7as&#8221;, sendo umas poucas entre elas &#8220;superiores&#8221; e as demais &#8220;inferiores&#8221;. Essa mentalidade levou \u00e0 escravid\u00e3o e a todo tipo de sujei\u00e7\u00e3o dos segundos pelos primeiros.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar vem o androcentrismo. Desde priscas eras o homem tem se considerado superior \u00e0 mulher em culturas as mais diversas. Como consequ\u00eancia, ele tem muito mais direitos sobre ela do que ela sobre ele, e ela tem muito mais obriga\u00e7\u00f5es para com ele do que ele para com ela. Mais recentemente, essa ideologia tem se manifestado sob o signo do machismo e at\u00e9 do sexismo. Tudo isso transparece claramente nas l\u00ednguas ocidentais. Vejamos um exemplo contundente. O \u00f3rg\u00e3o genital masculino aparece em muitas express\u00f5es, como <em>grande pra caralho, isso \u00e9 dif\u00edcil pra cacete<\/em> etc. Isso atribui a ele um papel &#8220;engrandecedor&#8221;, por expressar a &#8220;virilidade&#8221;. O da mulher \u00e9 o maior tabu da l\u00edngua portuguesa, de modo que ningu\u00e9m ousa proferi-lo em p\u00fablico.<\/p>\n<p>O crescimentismo est\u00e1 intimamente associado a essa vis\u00e3o de mundo. O ideal de qualquer dirigente estatal \u00e9 crescer, ou seja, ir de um estado menor para um maior. \u00c9 o que almeja o desenvolvimentismo. Por tr\u00e1s de tudo isso, est\u00e1 a ideia de que &#8220;grande&#8221; \u00e9 bom, e &#8220;pequeno&#8221; \u00e9 ruim ou, pelo menos, n\u00e3o t\u00e3o bom quanto o grande. Ainda bem que houve autores que ousaram afirmar que <em>pequeno \u00e9 bonito<\/em> (<em>small is beautiful<\/em>), como fez Schumacher (1975).<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m o <strong>classismo<\/strong>, que talvez fosse melhor ser chamado de <strong>aulicismo<\/strong>, ou seja, h\u00e1bitos e costumes dos \u00e1ulicos, habitantes da corte. Eles se intitulavam <em>corteses<\/em>, sendo que os habitantes do campo eles chamavam de pessoas <em>rudes<\/em>, <em>r\u00fasticas<\/em>, que t\u00eam a mesma origem que &#8220;rural&#8221;. Seria a <em>cortesia<\/em> oposta \u00e0 <em>vilania<\/em>, dos habitantes da vila. Uma parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a <em>elite<\/em> (o <em>escol<\/em>), oposta \u00e0 <em>ral\u00e9<\/em>, \u00e0 <em>plebe<\/em> ou ao <em>populacho<\/em>. Poder\u00edamos aduzir ainda <em>pag\u00e3o<\/em>, <em>gentio<\/em> e outros, do lado rural, opostos \u00e0 &#8220;polidez&#8221; dos \u00e1ulicos. Modernamente, como n\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 mais corte, op\u00f5e-se o campo \u00e0 cidade. Assim, os habitantes das cidades, os urbanitas seriam os <em>urbanos<\/em>, que agiriam com <em>urbanidade<\/em>, por oposi\u00e7\u00e3o ao comportamento dos <em>rudes <\/em>e <em>r\u00fasticos<\/em> habitantes da zona rural. Aqui entra o preconceito contra a linguagem rural, em que se dizem coisas como <em>n\u00f3is vai<\/em>, <em>n\u00f3is vorta<\/em>, <em>c\u00ea t\u00e1 b\u00e3o<\/em>? e outras. Nada no mundo justifica esse preconceito, motivo pelo qual a ecolinguagem n\u00e3o o aceita.<\/p>\n<p>A ecolinguagem evita tudo isso. Todos esses -ismos v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 da harmonia requerida por ela, e na dire\u00e7\u00e3o do conflito. Em vez de agregar, segregam. Em vez de integrar, desintegram.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> Discuss\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O que \u00e9 ecolinguagem, afinal de contas? Em sintonia com a vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo e com o tao\u00edsmo, ecolinguagem \u00e9 a linguagem que tem por lema central a harmonia, n\u00e3o o conflito; que defende a ideologia ecol\u00f3gica ou da vida, n\u00e3o a ideologia pol\u00edtica (partid\u00e1ria, religiosa etc.). O problema com ideologias como a do pr\u00f3prio feminismo \u00e9 que elas dividem, separam, levam a atritos (\u2018bom\/mau\u2019, \u2018eu\/os outros\u2019 etc.), enquanto que a vis\u00e3o ecol\u00f3gica de mundo procura juntar, somar, integrar. A ideologia ecol\u00f3gica procura entender as express\u00f5es em um sentido meliorativo, n\u00e3o pejorativo. Tendo isso em mente, pode-se dizer que \u201cecolinguagem \u00e9 linguagem ecologicamente correta\u201d, mas s\u00f3 com essa ressalva.<\/p>\n<p>Ainda em sintonia com ecologia e tao\u00edsmo, ecolinguagem \u00e9 a linguagem da <strong>comunh\u00e3o<\/strong>. Como sabemos, comunh\u00e3o \u00e9 a base para todo e qualquer entendimento. Quando as pessoas est\u00e3o em comunh\u00e3o, com o que est\u00e3o se comunicando harmoniosamente em sil\u00eancio, nem \u00e9 necess\u00e1rio que usem palavras. Por outro lado, linguagem n\u00e3o harmoniosa \u00e9 <strong>incomunh\u00e3o<\/strong> ou <strong>descomunh\u00e3o<\/strong>, que s\u00f3 pode levar ao desentendimento. Tanto que se pode dizer que \u2018entendimento\u2019 est\u00e1 para \u2018comunh\u00e3o\u2019 assim como \u2018desentendimento\u2019 para \u2018incomunh\u00e3o\u2019. Atrito \u00e9 aus\u00eancia de entendimento, falta de comunh\u00e3o. A sabedoria popular j\u00e1 deixa isso claro na palavra &#8216;desentendimento&#8217;. Ele se d\u00e1 em situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o h\u00e1 comunh\u00e3o nem comunica\u00e7\u00e3o, em que as pessoas n\u00e3o se entendem.<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong> Observa\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Repitamos, usar ecolinguagem \u00e9 admitir e assimilar a vis\u00e3o ecol\u00f3gica do mundo. Isso implica muita coisa uma vez que a ecolinguagem \u00e9 muito ampla. Al\u00e9m de um <strong>ecol\u00e9xico<\/strong>, h\u00e1 tamb\u00e9m uma <strong>ecogram\u00e1tica<\/strong>, como postulada por David Bohm, Michael Halliday e o jovem ecolinguista dinamarqu\u00eas Sune Steffensen (2008). Al\u00e9m disso, temos o meio ambiente. Toda variedade lingu\u00edstica, e a ecolinguagem n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, tem rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente natural, o mental e o social, como previsto na lingu\u00edstica ecossist\u00eamica. Enfim, praticamente todo ensaio que se insira na ecolingu\u00edstica cr\u00edtica, na lingu\u00edstica ambiental ou na an\u00e1lise do discurso ecol\u00f3gica estar\u00e1 tratando de quest\u00f5es atinentes \u00e0 ecolinguagem.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Bohm, David. 2007. <em>A totalidade e a ordem implicada<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Cultrix, 12<sup>a<\/sup>. ed.<\/p>\n<p>Couto, Elza K. N. do &amp; Silva, Samuel Sousa. 2013a. An\u00e1lise do discurso ecol\u00f3gica: ecolinguagem e eco\u00e9tica. Comunica\u00e7\u00e3o apresentada no I EBIME, UFG, 5-6\/12\/2013.<\/p>\n<p>Couto, Hildo Hon\u00f3rio do. 2007. <em>Ecolingu\u00edstica: Estudo das rela\u00e7\u00f5es entre l\u00edngua e meio ambiente<\/em>. Bras\u00edlia: Thesaurus.<\/p>\n<p>_______. 2012. <em>O tao da linguagem: Um caminho suave para a reda\u00e7\u00e3o<\/em>. Campinas: Pontes.<\/p>\n<p>______. 2013b. An\u00e1lise do discurso ecol\u00f3gica (ADE). Dispon\u00edvel em (acesso em 17\/12\/2013):<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/meioambienteelinguagem.blogspot.com.br\/2013\/04\/analise-do-discurso-ecologica.html\" >http:\/\/meioambienteelinguagem.blogspot.com.br\/2013\/04\/analise-do-discurso-ecologica.html<\/a><\/span><\/p>\n<p>Marques, Adilson. 2013. Chi kung: ecolinguagem corporal e bioenerg\u00e9tica. Comunica\u00e7\u00e3o apresentada no I EBIME, UFG, 5-6\/12\/2013.<\/p>\n<p>Ferreira, Adelaide Chichorro. 2002. Beitrag zu einem \u2018Haussprachew\u00f6rterbuch\u2019 Deutsch-Portugiesisch. In: Fill, Penz &amp; Trampe (orgs.): 275-297.<\/p>\n<p>Fill, Alwin; Hermine Penz &amp; Wilhelm Trampe (orgs.). 2002. <em>Colourful green ideas<\/em>. Berna: Peter Lang.<\/p>\n<p>Halliday, M. A. K. 2001. News ways of meaning: The challenge of applied linguistics. In: Fill &amp; M\u00fchlh\u00e4usler (orgs.): 175-202 (original de 1990).<\/p>\n<p>Fill, Alwin &amp; Peter M\u00fchlh\u00e4usler (orgs.) 2001. <em>The ecolinguistics reader<\/em>. Londres: Continuum.<\/p>\n<p>Malachowa, Olga. 1996. Der gr\u00fcne Punkt in der deutschen Lexik. In: Fill, Alwin (org.). Sprch\u00f6kologie und \u00d6kolinguistik. T\u00fcbingen: Stauffenburg, p. 205-213.<\/p>\n<p>Mart\u00ed Marco, Mar\u00eda Rosario. 2006. \u00d6kosprache im Tourismus. In: Borrueco, M. (org.). <em>La especializaci\u00f3n linguistic en el \u00e1mbito del turismo<\/em>. Junta de Andaluc\u00eda, Consejer\u00eda de Turismo, Comercio y Deporte, Colecci\u00f3n Estudios Ling\u00fc\u00edsticos y Turismo 1, p. 93-111.<\/p>\n<p>Matos, Francisco Gomes de. 1996. <em>Pedagogia da positividade: Comunica\u00e7\u00e3o construtiva em portugu\u00eas<\/em>. Recife: Editora da UFPE.<\/p>\n<p>_______. 2006. <em>Comunicar para o bem: Ruma \u00e0 paz comunicativa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Ave Maria, 2\u00aa. ed.<\/p>\n<p>Sarmento, Manoel Soares. 2002. Ecolexicography: Ecological and unecological words and expressions. In: Fill; Penz &amp; Trampe (orgs.), p. 487-492.<\/p>\n<p>_______. 2012. Por uma exolexicografia. Dispon\u00edvel em (acesso: 11\/12\/13): <span style=\"text-decoration: underline;\">http:\/\/meioambienteelinguagem.blogspot.com.br\/2012\/02\/por-uma-ecolexicografia.html<\/span><\/p>\n<p>Schumacher, Ernst. 1975. <em>Small is beautiful<\/em>. New York: Harper &amp; Row.<\/p>\n<p>Steffensen, Sune Vork. The ecology of grammar: Dialectical, holistic and autopoietic principles in ecolinguistics. In: D\u00f6ring, Martin; Penz, Hermine &amp; Trampe, Wilhelm (orgs.). <em>Language, signs and nature: Ecolinguistic dimensions of environmental discourse<\/em>. T\u00fcbingen: Stauffenburg, p. 89-105.<\/p>\n<p>_______________________________<\/p>\n<p><em>[Este texto est\u00e1 publicado no livro <\/em>Antropologia do imagin\u00e1rio, ecolingu\u00edstica e met\u00e1fora<em>, organizado por Elza Kioko Nakayama Nenoki do Couto, Ema Marta Dunck-Cintra &amp; Lorena Ara\u00fajo de Oliveira Borges, Bras\u00edlia: Thesaurus, 2014, p. 215-224]\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/aarvinha.blogspot.com.br\/2014\/06\/ecolinguagem.html\" >Go to Original \u2013 aarvinha.blogspot.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira ideia que vem \u00e0 mente quando ouvimos a palavra &#8216;ecolinguagem&#8217; \u00e9 a de que ela seria a &#8220;linguagem ecologicamente correta&#8221;. Essa \u00e9 a opini\u00e3o do leigo. Por\u00e9m, ela \u00e9 apenas parcialmente correta e pode levar a interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas, como s\u00f3i acontecer. Usar ecolinguagem \u00e9 admitir e assimilar a vis\u00e3o ecol\u00f3gica do mundo.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-52071","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52071"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52071\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}