{"id":52341,"date":"2015-01-12T12:00:08","date_gmt":"2015-01-12T12:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=52341"},"modified":"2015-05-05T21:27:05","modified_gmt":"2015-05-05T20:27:05","slug":"portugues-je-ne-suis-pas-charlie-eu-nao-sou-charlie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/01\/portugues-je-ne-suis-pas-charlie-eu-nao-sou-charlie\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Je ne suis pas Charlie, eu n\u00e3o sou Charlie"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-28487\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_.jpg\" alt=\"leonardo.boff\" width=\"91\" height=\"135\" \/><\/a><\/em><em>As charges pol\u00eamicas do Charlie Hebdo, como os coment\u00e1rios pol\u00edticos de colunistas da Veja, s\u00e3o perigosas e de p\u00e9ssimo gosto. <\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>H\u00e1 muita confus\u00e3o acerca do atentado terrorista em Paris, matando v\u00e1rios cartunistas. Quase s\u00f3 se ouve um lado e n\u00e3o se buscam as ra\u00edzes mais profundas deste fato conden\u00e1vel mas que exige uma interpreta\u00e7\u00e3o que englobe seus v\u00e1rios aspectos ocultados pela midia internacional e pela como\u00e7\u00e3o leg\u00edtima face a um ato criminoso. Mas ele \u00e9 uma resposta a algo que ofendia milhares de fi\u00e9is mu\u00e7ulmanos. Evidentemente n\u00e3o se responde com o assassianto. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se devem criar as condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e pol\u00edticas que levem a alguns radicais a lan\u00e7arem m\u00e3o de meios reprov\u00e1veis sobre todos os aspectos. Publico aqui um texto de um padre que \u00e9 te\u00f3loogo e historiador e conhece bem a situa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a atual. Ele nos fornece dados que muitos talvez n\u00e3o os conhe\u00e7am. Suas reflex\u00f5es nos ajudam a ver a complexidade deste anti-fen\u00f4meno com suas aplica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m \u00e0 situa\u00e7\u00e3o no Brasil: Lboff<\/em><\/p>\n<p>***************************<\/p>\n<p>Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a viol\u00eancia, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discuss\u00f5es, sou da paz e me esfor\u00e7o para ter auto controle sobre minhas emo\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Lembro da frase de John Donne: \u201cA morte de cada homem diminui-me, pois fa\u00e7o parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobram os sinos: \u00e9 por mim\u201d. N\u00e3o acho que nenhum dos cartunistas \u201cmereceu\u201d levar um tiro, ningu\u00e9m o merece, acredito na mudan\u00e7a, na evolu\u00e7\u00e3o, na convers\u00e3o. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evolu\u00edssem, que mudassem\u2026 Ainda estou constrangido pelos atentados \u00e0 verdade, \u00e0 boa imprensa, \u00e0 honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros ve\u00edculos da imprensa brasileira promoveram nesta \u00faltima elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Charlie Hebdo \u00e9 uma revista importante na Fran\u00e7a, fundada em 1970, \u00e9 mais ou menos o que foi o Pasquim. Isso l\u00e1 na Fran\u00e7a. 90% do mundo (eu inclusive) s\u00f3 foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e j\u00e1 de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarqu\u00eas Jyllands-Posten (identificado como \u201cLiberal-Conservador\u201d, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da \u201cLiberdade de Express\u00e3o\u201d, mas tem mais\u2026<\/p>\n<p>O editor da revista na \u00e9poca era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de \u201cn\u00e3o-civilizados\u201d (o que gerou cr\u00edticas da colega de revista Mona Chollet (cr\u00edticas que foram resolvidas com a demiss\u00e3o sumaria dela). Ele ficou no comando at\u00e9 2009, quando foi substitu\u00eddo por St\u00e9phane Charbonnier, conhecido s\u00f3 como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Isl\u00e3, ainda mais ap\u00f3s o atentado que a revista sofreu em 2011\u2026<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a tem 6,2 milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos. S\u00e3o, na maioria, imigrantes das ex-col\u00f4nias francesas. Esses mu\u00e7ulmanos n\u00e3o est\u00e3o inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria \u00e9 pobre, legada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201ccidad\u00e3o de segunda classe\u201d, v\u00edtimas de preconceitos e exclus\u00f5es. Ap\u00f3s os atentados do World Trade Center, a situa\u00e7\u00e3o piorou.<\/p>\n<p>Alguns chamam os cartunistas mortos de \u201cher\u00f3is\u201d ou de os \u201cgigantes do humor politicamente incorreto\u201d, outros muitos os chamam de \u201cm\u00e1rtires da liberdade de express\u00e3o\u201d. Vou colocar na conta do momento, da emo\u00e7\u00e3o. As charges pol\u00eamicas do Charlie Hebdo, como os coment\u00e1rios pol\u00edticos de colunistas da Veja, s\u00e3o de p\u00e9ssimo gosto, mas isso n\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o. O fato \u00e9 que elas s\u00e3o perigosas, criminosas at\u00e9, por dois motivos.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 a intoler\u00e2ncia. Na religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, h\u00e1 um princ\u00edpio que diz que o Profeta Maom\u00e9 n\u00e3o pode ser retratado, de forma alguma. Esse \u00e9 um preceito central da cren\u00e7a Isl\u00e2mica, e desrespeitar isso desrespeita todos os mu\u00e7ulmanos. Fazendo um paralelo, \u00e9 como se um pastor evang\u00e9lico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os cat\u00f3licos\u2026<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o objetivo disso? O pr\u00f3prio Charb falou: \u201c\u00c9 preciso que o Isl\u00e3 esteja t\u00e3o banalizado quanto o catolicismo\u201d. \u201c\u00c9 preciso\u201d porque? Para que?<\/p>\n<p>Note que ele n\u00e3o est\u00e1 falando em atacar alguns indiv\u00edduos radicais, alguns pontos espec\u00edficos da doutrina isl\u00e2mica, ou o fanatismo religioso. O alvo \u00e9 o Isl\u00e3, por si s\u00f3. H\u00e1 d\u00e9cadas os culturalistas j\u00e1 falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre \u00e9 um ato imperialista. Na \u00e9poca das primeiras publica\u00e7\u00f5es, diversas associa\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses, famosos h\u00e1 mais de um s\u00e9culo pela xenofobia e intoler\u00e2ncia (ver Caso Dreyfus), como o STF no Brasil, que foi parcial nas decis\u00f5es nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e no julgar com dois pessoas e duas medidas caos de corrup\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos do PSDB ou do PT, deram ganho de causa para a revista.<\/p>\n<p>Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abra\u00e7ou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Isl\u00e3 e contra o cristianismo, se tem d\u00favidas, procure no Google e veja as publica\u00e7\u00f5es que eles fazem, n\u00e3o tenho coragem de public\u00e1-las aqui\u2026<\/p>\n<p>Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os mu\u00e7ulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Isl\u00e3 sempre estavam caracterizados por suas roupas t\u00edpicas, e sempre portando armas ou fazendo alus\u00f5es \u00e0 viol\u00eancia, com trocadilhos infames com \u201cmatar\u201d e \u201cexplodir\u201d\u2026). Alguns argumentam que o alvo era somente \u201cos indiv\u00edduos radicais\u201d, mas a partir do momento que somente esses indiv\u00edduos s\u00e3o mostrados, cria-se uma generaliza\u00e7\u00e3o. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele mu\u00e7ulmano \u00e9 um desviante, j\u00e1 que na maioria dos casos \u00e9 s\u00f3 o desviante que aparece. \u00c9 como se fiz\u00e9ssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e diss\u00e9ssemos que ela n\u00e3o critica\/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam\u2026<\/p>\n<p>E a\u00ed colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de mu\u00e7ulmanos j\u00e1 marginalizados. O poeta sat\u00edrico franc\u00eas Jean de Santeul cunhou a frase: \u201cCastigat ridendo mores\u201d (costumes s\u00e3o corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Mas piada s\u00e3o sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito. Se ela sempre retrata o \u00e1rabe como terrorista, as pessoas come\u00e7am a acreditar que todo \u00e1rabe \u00e9 terrorista. Se esse \u00e1rabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho mu\u00e7ulmano, a rela\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o-proje\u00e7\u00e3o \u00e9 criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda popula\u00e7\u00e3o marginalizada, os mu\u00e7ulmanos franceses s\u00e3o alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que \u201cCom uma caneta eu n\u00e3o degolo ningu\u00e9m\u201d, como disse Charb, \u00e9 hip\u00f3crita. Com uma caneta se prega o \u00f3dio que mata pessoas\u2026<\/p>\n<p>Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo \u00e9 dizer que eles tamb\u00e9m criticavam cat\u00f3licos e judeus\u2026<\/p>\n<p>Se as outras religi\u00f5es n\u00e3o reagiram a ofensa, isso \u00e9 um problema delas. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a ser ofendido calado.<\/p>\n<p>\u201cMas isso \u00e9 motivo para matarem os caras!?\u201d. N\u00e3o. Claro que n\u00e3o. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia apoia os atentados. Os tr\u00eas atiradores representam o que h\u00e1 de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas \u00e9 fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justi\u00e7a tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria\/deve punir a Veja por suas mentiras. Tra\u00e7asse uma linha dizendo: \u201cDesse ponto voc\u00eas n\u00e3o devem passar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMas isso \u00e9 censura\u201d, algu\u00e9m argumentar\u00e1. E eu direi, sim, \u00e9 censura. Um dos significados da palavra \u201cCensura\u201d \u00e9 repreender. A censura j\u00e1 existe. Quando se decide que voc\u00ea n\u00e3o pode sair simplesmente inventando hist\u00f3rias caluniosas sobre outra pessoa, isso \u00e9 censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o \u00f3dio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso \u00e9 censura. Ou mesmo situa\u00e7\u00f5es mais banais: quando dizem que voc\u00ea n\u00e3o pode usar determinado personagem porque ele \u00e9 propriedade de outra pessoa, isso tamb\u00e9m \u00e9 censura.<\/p>\n<p>Nem toda censura \u00e9 ruim\u2026<\/p>\n<p>Deixo claro que n\u00e3o estou defendendo a censura pr\u00e9via, sempre burra. N\u00e3o estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras\/situa\u00e7\u00f5es que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado.<\/p>\n<p>Excessos devem ser punidos. N\u00e3o \u00e9 \u201cN\u00e3o fale\u201d. \u00c9 \u201cFale, mas aguente as consequ\u00eancias\u201d. E \u00e9 melhor que as consequ\u00eancias venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 Fran\u00e7a, hoje temos um pa\u00eds de luto. Por\u00e9m, alguns urubus s\u00e3o mais espertos do que outros, e j\u00e1 come\u00e7amos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: \u201ca na\u00e7\u00e3o foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada\u201d. Essa fala mostra exatamente as ra\u00edzes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), \u00e9 inadmiss\u00edvel que 10% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds n\u00e3o tenha interesse em seguir \u201co modo de vida franc\u00eas\u201d. Essa col\u00f4nia, que n\u00e3o se mistura, que n\u00e3o abandona sua identidade, \u00e9 extremamente inc\u00f4moda. Contra isso, todo tipo de medida \u00e9 tomada. Desde leis que pro\u00edbem imigrantes de expressar sua religi\u00e3o at\u00e9\u2026 charges ridicularizando o estilo de vida dos mu\u00e7ulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as v\u00edtimas. De longe, a homenagem parece v\u00e1lida. Quando chegam as not\u00edcias de que locais de culto isl\u00e2mico na Fran\u00e7a foram atacados, um deles com granadas!, nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. \u00c9 a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a Fran\u00e7a declarar \u201cguerra ao fundamentalismo\u201d (mas que nos ouvidos dos xen\u00f3fobos ecoa como \u201cguerra aos mu\u00e7ulmanos\u201d, e ela sabe disso).<\/p>\n<p>Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato b\u00e1rbaro do atentado, eu n\u00e3o sou Charlie.\u00a0Je ne suis pas Charlie.<\/p>\n<p>_____________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff \u00e9 um te\u00f3logo brasileiro, escritor e professor universit\u00e1rio, expoente da <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/Je-ne-suis-pas-Charlie-eu-nao-sou-Charlie\/32598\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns chamam os cartunistas mortos de \u201cher\u00f3is\u201d ou de os \u201cgigantes do humor politicamente incorreto\u201d, ou de \u201cm\u00e1rtires da liberdade de express\u00e3o\u201d. As charges pol\u00eamicas do Charlie Hebdo s\u00e3o de p\u00e9ssimo gosto, mas isso n\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o. 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