{"id":53457,"date":"2015-02-09T12:00:53","date_gmt":"2015-02-09T12:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=53457"},"modified":"2015-05-05T21:26:07","modified_gmt":"2015-05-05T20:26:07","slug":"portugues-syriza-a-segunda-libertacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/02\/portugues-syriza-a-segunda-libertacao\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Syriza: A Segunda Liberta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p><div id=\"attachment_43164\" style=\"width: 214px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Boaventura-de-Sousa-Santos.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-43164\" class=\"size-full wp-image-43164\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Boaventura-de-Sousa-Santos.png\" alt=\"Boaventura de Sousa Santos\" width=\"204\" height=\"204\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-43164\" class=\"wp-caption-text\">Boaventura de Sousa Santos<\/p><\/div><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>A ortodoxia sabe que o problema da Gr\u00e9cia \u00e9 o problema da Europa e que a sua solu\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser europeia. <\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A recente vit\u00f3ria do Partido Syriza na Gr\u00e9cia teve o sabor de uma segunda liberta\u00e7\u00e3o da Europa. A primeira ocorreu h\u00e1 setenta anos, quando os aliados libertaram a Europa do jugo alem\u00e3o nazi e puseram fim ao horror do holocausto. Um dos pa\u00edses que mais sofreu por mais tempo com a ocupa\u00e7\u00e3o nazi e suas consequ\u00eancias foi a Gr\u00e9cia. A geoestrat\u00e9gia dos aliados fez com que \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o se seguisse uma guerra civil para impedir que os patriotas comunistas e seus aliados chegassem ao poder. Num contexto democr\u00e1tico, e ante um poder alem\u00e3o, agora econ\u00f4mico e n\u00e3o militar e disfar\u00e7ado de ortodoxia europeia, os gregos voltam a revelar a mesma coragem de enfrentar advers\u00e1rios muito mais poderosos e de mostrar aos povos europeus, que sofrem as consequ\u00eancias do jugo dessa ortodoxia, que \u00e9 poss\u00edvel resistir, que h\u00e1 alternativas e que \u00e9 preciso correr riscos para que algo mude sem tudo ficar na mesma.<\/p>\n<p>Tenho escrito que o capitalismo s\u00f3 \u00e9 inflex\u00edvel at\u00e9 sentir a necessidade de se adaptar \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es. Digo capitalismo e n\u00e3o Uni\u00e3o Europeia porque neste momento os interesses do capitalismo global s\u00e3o os \u00fanicos que contam nas decis\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os decis\u00f3rios europeus. Se esta hip\u00f3tese se confirmar, o risco assumido pelos gregos foi calculado e \u00e9 poss\u00edvel que os portugueses, os espanh\u00f3is, os italianos e, em geral, todas as formigas europeias da f\u00e1bula de Esopo possam beneficiar do aperto a que ser\u00e3o sujeitas as cigarras do norte e do sul (o sistema financeiro, os bancos e as oligarquias). Para j\u00e1, estamos num momento alto de pol\u00edtica simb\u00f3lica, comunica\u00e7\u00e3o indireta, suspens\u00e3o informal das regras de jogo, n\u00e3o provoca\u00e7\u00e3o do &#8220;advers\u00e1rio&#8221; para al\u00e9m do necess\u00e1rio, fronteira amb\u00edgua entre o negoci\u00e1vel e o inegoci\u00e1vel. Mas a ortodoxia tremeu, e o tremor da sua bancada subalterna foi, como era de esperar, o mais pat\u00e9tico. No caso portugu\u00eas, indigno.<\/p>\n<p>A Europa est\u00e1 num momento de bifurca\u00e7\u00e3o \u2013 ou se desmembra ou se refunda. Pode levar anos, mas n\u00e3o voltar\u00e1 a ser a mesma. \u00c9 um momento de desequil\u00edbrio p\u00f3s-normal em que m\u00ednimas oscila\u00e7\u00f5es podem provocar grandes mudan\u00e7as num ou noutro sentido. Eis os desafios. Primeiro, contra a ortodoxia, sempre afirmei que a d\u00edvida grega (ou portuguesa) era europeia e como tal devia ser tratada. A ortodoxia s\u00f3 agora se d\u00e1 conta disso. Sabe que o problema da Gr\u00e9cia \u00e9 o problema da Europa e que a sua solu\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser europeia. Vai come\u00e7ar pela nega\u00e7\u00e3o da realidade e &#8220;demonstrar&#8221; a especificidade do caso grego, mas a realidade vai gritar mais alto. Ser\u00e1 f\u00e1cil convencer os portugueses de que o cemit\u00e9rio em que se converteram as urg\u00eancias hospitalares \u00e9 o produto de um surto anormal de gripe que entretanto ningu\u00e9m viu? Segundo, as pol\u00edticas de austeridade provocam mais tarde ou mais cedo rea\u00e7\u00f5es e \u00e9 bom que elas ocorram por via democr\u00e1tica. Foi assim na Am\u00e9rica Latina, onde a austeridade dos anos noventa do s\u00e9culo passado levou ao poder governos progressistas, para quem a bandeira principal era a luta contra a austeridade e a promo\u00e7\u00e3o do bem-estar das maiorias empobrecidas. Na Europa, pese embora o triunfo do Syriza e o poss\u00edvel triunfo do Podemos em Espanha, h\u00e1 um elemento adicional de incerteza. Ao contr\u00e1rio da Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 tamb\u00e9m partidos de direita e de extrema direita que se dizem contra a austeridade. O fracasso das solu\u00e7\u00f5es de esquerda n\u00e3o conduzir\u00e1 necessariamente a solu\u00e7\u00f5es de centro-esquerda ou centro direita. \u00c9 por isso que a Europa nunca mais ser\u00e1 a mesma.<\/p>\n<p>O terceiro desafio s\u00e3o os EUA. A Uni\u00e3o Europeia tem vindo a perder autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos des\u00edgnios geoestrat\u00e9gicos dos EUA, como mostram o maior envolvimento na NATO, a nova guerra fria contra a R\u00fassia, a parceria transatl\u00e2ntica de livre com\u00e9rcio, que desequilibra a favor das multinacionais norte-americanas os processos decis\u00f3rios nacionais e europeus. Os grandes media querem-nos fazer querer que a Gr\u00e9cia \u00e9 uma amea\u00e7a maior que a Ucr\u00e2nia, mas os europeus sabem que, pelo contr\u00e1rio, na Gr\u00e9cia, a Europa est\u00e1 a fortalecer-se, na Ucr\u00e2nia, est\u00e1 a enfraquecer-se. A Gr\u00e9cia deu um primeiro sinal de que n\u00e3o quer ser parte de uma Europa ref\u00e9m da guerra fria. Ser\u00e1 esta posi\u00e7\u00e3o parte da negocia\u00e7\u00e3o? At\u00e9 quando pode a UE ser lobo em Atenas e cordeiro em Washington?<\/p>\n<p>_____________________________<\/p>\n<p><em>Boaventura de Sousa Santos \u00e9 doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o 25 de Abril, e Coordenador Cient\u00edfico do Observat\u00f3rio Permanente da Justi\u00e7a Portuguesa &#8211; todos da Universidade de Coimbra. Sua trajet\u00f3ria recente \u00e9 marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do F\u00f3rum Social Mundial e pela participa\u00e7\u00e3o na coordena\u00e7\u00e3o de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipa\u00e7\u00e3o Social: Para Novos Manifestos.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/Syriza-a-segunda-libertacao\/32796\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ortodoxia sabe que o problema da Gr\u00e9cia \u00e9 o problema da Europa e que a sua solu\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser europeia. A recente vit\u00f3ria do Partido Syriza na Gr\u00e9cia teve o sabor de uma segunda liberta\u00e7\u00e3o da Europa. 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