{"id":54097,"date":"2015-02-23T12:00:22","date_gmt":"2015-02-23T12:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=54097"},"modified":"2015-05-05T21:26:04","modified_gmt":"2015-05-05T20:26:04","slug":"portugues-o-bem-comum-foi-enviado-ao-limbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/02\/portugues-o-bem-comum-foi-enviado-ao-limbo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Bem Comum Foi Enviado ao Limbo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_43416\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0.gif\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-43416\" class=\"size-thumbnail wp-image-43416\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Leonardo_Boff_Wilson-Dias_Abr_0-150x150.gif\" alt=\"Leonardo Boff\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-43416\" class=\"wp-caption-text\">Leonardo Boff<\/p><\/div>\n<p><em>O neoliberalismo demoliu a no\u00e7\u00e3o de bem comum. Em seu lugar, entraram as no\u00e7\u00f5es de rentabilidade, de flexibiliza\u00e7\u00e3o, de adapta\u00e7\u00e3o e de competitividade. <\/em><\/p>\n<p>As atuais discuss\u00f5es pol\u00edticas no Brasil em meio a uma amea\u00e7adora crise h\u00eddrica e energ\u00e9tica se perdem nos interesses particulares de cada partido. H\u00e1 uma tentativa articulada pelos grupos dominantes, por detr\u00e1s dos quais se escondem grandes corpora\u00e7\u00f5es nacionais e multinacionais, a midia corporativa e, seguramente, a atua\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a do Imp\u00e9rio norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff. N\u00e3o se trata apenas de uma feroz critica \u00e0s pol\u00edticas oficiais mas h\u00e1 algo mais profundo em a\u00e7\u00e3o: a vontade de desmontar e, se poss\u00edvel, liquidar o PT que representa os intersses das popula\u00e7\u00f5es que historicamente sempre foram marginalizadas. Custa muito \u00e0s elites conservadoras aceitarem o novo sujeito hist\u00f3rico \u2013 o povo organizado e sua express\u00e3o partid\u00e1ria \u2013 pois se sentem amea\u00e7adas em seus privil\u00e9gios. Como s\u00e3o notoriamente egoistas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em tirar da cena essa for\u00e7a social e pol\u00edtica que poder\u00e1 mudar irreversivelmente o destino do Brasil.<\/p>\n<p>Estamos esquecendo que a ess\u00eancia da pol\u00edtica \u00e9 a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladores do capitalismo globalizado e de sua ideologia, o neo-liberalismo, \u00e9 a demoli\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de bem comum ou de bem-estar social. Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre tr\u00eas pilastras fundamentais: a participa\u00e7\u00e3o (cidadania), a coopera\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria e respeito aos direitos humanos. Juntas criam o bem comum. Mas este foi enviado ao limbo da preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em seu lugar, entraram as no\u00e7\u00f5es de rentabilidade, de flexibiliza\u00e7\u00e3o, de adapta\u00e7\u00e3o e de competividade. A liberdade do cidad\u00e3o \u00e9 substituida pela liberdade das for\u00e7as do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a coopera\u00e7\u00e3o, pela competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o, a coopera\u00e7\u00e3o e os direitos asseguravam a exist\u00eancia de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a exist\u00eancia de cada um n\u00e3o est\u00e1 mais socialmente garantida nem seus direitos afian\u00e7ados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu sal\u00e1rio, o seu carro, a sua fam\u00edlia. Impera o individualismo, o maior inimigo da conviv\u00eancia social. Ningu\u00e9m \u00e9 levado, portanto, a construir algo em comum. A \u00fanica coisa em comum que resta, \u00e9 a guerra de todos contra todos em vista da sobreviv\u00eancia individual.<\/p>\n<p>Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revista\u00a0<strong>Science (<\/strong>15\/01\/2015) 18 cientistas elencaram os nove limites planet\u00e1rios (Planetary Bounderies), quatro dos quais j\u00e1 ultrapassados: o clima, a integridade da biosfera, o uso do solo, os fluxos biogeoqu\u00edmicos (f\u00f3sforo e nitrog\u00eanio). Os outros encontram-se em avan\u00e7ado grau de eros\u00e3o. S\u00f3 a ultrapassagem desses quatro, pode tornar a Terra menos hospitaleira para milh\u00f5es de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial est\u00e1 enfrentando essa situa\u00e7\u00e3o que detr\u00f3i o bem comum planet\u00e1rio?<\/p>\n<p>Quem cuidar\u00e1 do interesse geral de mais de sete bilh\u00f5es de pessoas? O neoliberalismo \u00e9 surdo, cego e mudo a esta quest\u00e3o fundamental como o tem repetido como um\u00a0<em>ritornello<\/em>\u00a0o Papa Francisco. Seria contradit\u00f3rio suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo defende concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais diretamente opostas ao bem comum. Seu prop\u00f3sito b\u00e1sico \u00e9: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Pois \u00e9 o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim \u00e9 por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar social.<\/p>\n<p>Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta das l\u00f3gicas excludentes e predadoras da atual globaliza\u00e7\u00e3o competitiva, liberalizadora, desregulamentora e privatizadora. Quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty,\u00a0<strong>O Capitalismo no s\u00e9culo XXI<\/strong>\u00a0quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades. \u00c9 o triunfo do\u00a0<em>killer capitalism<\/em>. Quanto de perversidade social e de barb\u00e1rie aguenta o esp\u00edrito? A Gr\u00e9cia veio mostrar que n\u00e3o aguenta mais. Recusa-se a aceitar do\u00a0<em>diktat<\/em>\u00a0dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela Fran\u00e7a de Hollande.<\/p>\n<p>Resumindo: que \u00e9 o bem comum? No plano infra-estrutural \u00e9 o acesso justo de todos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 moradia, \u00e0 energia, \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 cultura. No plano social e cultural \u00e9 o reconhecimento, o respeito e a conviv\u00eancia pac\u00edfica. Pelo fato de sob a globaliza\u00e7\u00e3o competitiva foi desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstru\u00eddo. Para isso, importa dar hegemonia \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e0 competi\u00e7\u00e3o. Sem essa mudan\u00e7a, dificilmente se manter\u00e1 a comunidade humana unida e com um futuro bom.<\/p>\n<p>Ora, essa reconstru\u00e7\u00e3o constitui o n\u00facleo do projeto pol\u00edtico do PT origin\u00e1rio e de seus afins ideol\u00f3gicos. Entrou pela porta certa:<em>\u00a0Fome Zero<\/em>\u00a0depois transformada em v\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas de cunho popular. Tentou colocar um fundamento seguro: a repactua\u00e7\u00e3o social a partir dos valores da coopera\u00e7\u00e3o e a boa-vontade de todos. Mas o efeito foi fraco, dada a nossa tradi\u00e7\u00e3o individualista a patrimonialista.<\/p>\n<p>Mas no fundo vigora esta convic\u00e7\u00e3o human\u00edstica de base: n\u00e3o h\u00e1 futuro a longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justi\u00e7a, de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos b\u00e1sicos, de cuidado pelos bens naturais e de coopera\u00e7\u00e3o. Ela nega o anseio mais origin\u00e1rio do ser humano desde que emergiu na evolu\u00e7\u00e3o, milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. Quer queiramos ou n\u00e3o, mesmo admitindo erros e corrup\u00e7\u00e3o, o melhor do PT articulou e articula esse anseio ancestral. \u00c9 a partir da\u00ed que pode se resgatar, se renovar e alimentar sua for\u00e7a convocat\u00f3ria. Se n\u00e3o for o PT ser\u00e3o outros atores em outros tempos que o far\u00e3o.<\/p>\n<p>Coopera\u00e7\u00e3o se refor\u00e7a com coopera\u00e7\u00e3o que devemos oferecer\u00a0incondicionalmente.Sem\u00a0isso viveremos numa sociedade que perdeu sua altura humana e regride ao regime dos chimpanz\u00e9s.<\/p>\n<p>_________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff \u00e9 colunista do JBonline, te\u00f3logo, fil\u00f3sofo e escritor.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/O-bem-comum-foi-enviado-ao-limbo\/32863\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O neoliberalismo demoliu a no\u00e7\u00e3o de bem comum. 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