{"id":54728,"date":"2015-03-09T12:00:51","date_gmt":"2015-03-09T12:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=54728"},"modified":"2015-05-05T21:25:59","modified_gmt":"2015-05-05T20:25:59","slug":"portugues-kiev-ucrania-um-ano-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/03\/portugues-kiev-ucrania-um-ano-depois\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Kiev [Ucr\u00e2nia], Um Ano Depois"},"content":{"rendered":"<p><em>A popula\u00e7\u00e3o ucraniana dribla massivamente o recrutamento militar e vive uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica catastr\u00f3fica. <\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/ukraine-neonazi-fascism-kiev-nato-usa-europe.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-54729 alignleft\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/ukraine-neonazi-fascism-kiev-nato-usa-europe.jpg\" alt=\"ukraine neonazi fascism kiev nato usa europe\" width=\"295\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/ukraine-neonazi-fascism-kiev-nato-usa-europe.jpg 295w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/ukraine-neonazi-fascism-kiev-nato-usa-europe-184x300.jpg 184w\" sizes=\"auto, (max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><\/a>Faz um ano do massacre de Kiev, com dezenas de mortos, tanto de manifestantes como de policiais. O massacre foi decisivo para derrotar um governo ucraniano reticente ao pleno alinhamento \u00e0 Otan e \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e substitu\u00ed-lo por outro plenamente aberto a isso.<\/p>\n<p>O massacre n\u00e3o foi investigado oficialmente. As novas autoridades de Kiev foram parte de uma farsa. As pot\u00eancias ocidentais que apadrinharam o movimento n\u00e3o mostraram interesse algum numa investiga\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n<p><strong>Cent\u00faria celestial<\/strong><\/p>\n<p>As v\u00edtimas foram declaradas \u201cCent\u00faria celestial\u201d e usadas para glorificar a mudan\u00e7a de regime como produto de um feito popular. Um ano depois, o canal Arte oferece uma vasta recompila\u00e7\u00e3o de imagens que ilustra at\u00e9 que ponto o movimento foi violento.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.arte.tv\/guide\/de\/057960-000\/kiew-brennt\/?vid=057960-000_PLUS7-D\" >http:\/\/www.arte.tv\/guide\/de\/057960-000\/kiew-brennt\/?vid=057960-000_PLUS7-D<\/a><\/p>\n<p>O documento conclui com imagens de manifestantes mortos, sem oferecer imagens de policiais mortos. Aqui est\u00e1 o nome de alguns dos policiais mortos, concretamente onze deles, que eu mesmo recompilei em um ato realizado em Odessa: Sergei Spichak, Vasili Bulitko, Andrei Fedyukin, Sergei Tsengun, Dmitri Vlasenko, Vladimir Evtushok, Vitali Goncharov, Aleksei Ivanienko, Maksim Tretiak, Piotr Savitski, Iv\u00e1n Tepliuk. Todos eles mortos a tiros. A lista \u00e9 incompleta. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o ucranianos nunca mencionaram esses nomes, e os do resto dos policiais e advers\u00e1rios de Maidan mortos naqueles dias em Kiev, que poderiam ser duas dezenas ou mais, na lista das 98 v\u00edtimas daquelas jornadas.<\/p>\n<p>Preso em uma guerra civil que precisa de mitologias patri\u00f3ticas, o novo regime instaurou a \u201cOrdem da Cent\u00faria Celestial\u201d, que reconhece a \u201ccoragem c\u00edvica e o patriotismo\u201d. Algumas ruas foram batizadas com esse nome e o novo presidente e s\u00e9tima fortuna da Ucr\u00e2nia, Petro Poroshenko, declarou o 20 de fevereiro como \u201cDia dos cem her\u00f3is celestes\u201d para comemorar a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o da Dignidade\u201d.<\/p>\n<p>Conforme <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/blogs.lavanguardia.com\/paris-poch\/2014\/11\/20\/el---\/\" >expliquei em novembro<\/a>, o \u00fanico estudo acad\u00eamico sobre aquele massacre, obra do professor Ivan Katchanovski, da School of Political Studies, Universidade de Otawa, conclui o seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;As evid\u00eancias indicam que uma alian\u00e7a de elementos da oposi\u00e7\u00e3o e da extrema-direita esteve implicada no massacre de manifestantes e de policiais, enquanto que a implica\u00e7\u00e3o das unidades especiais da pol\u00edcia na morte de alguns manifestantes n\u00e3o pode ser exclu\u00edda.<\/p>\n<p>O novo governo que chegou ao poder, em grande parte como resultado do massacre, falsificou a investiga\u00e7\u00e3o, enquanto que os meios de comunica\u00e7\u00e3o indicam que a extrema-direita desempenhou um papel chave na queda violenta do governo da Ucr\u00e2nia&#8221;.<\/p>\n<p>Um ano mais tarde, a BBC, um dos canais importantes para a propaganda das guerras e mudan\u00e7as de regime inspirados por pot\u00eancias ocidentais, <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/news\/magazine-31359021\" >reconsiderou sua cobertura<\/a>.<\/p>\n<p>Muito pouco e muito tarde para reivindicar uma m\u00ednima dec\u00eancia informativa.<br \/>\n<strong><br \/>\nUm risco conhecido<\/strong><\/p>\n<p>Obviamente, se tudo isso tivesse acontecido com os vetores e os cen\u00e1rios invertidos \u2013 um governo favor\u00e1vel aos interesses ocidentais, como M\u00e9xico ou Canad\u00e1, derrotado sob uma tutela chinesa e russa, com pol\u00edticos russos, chineses e venezuelanos de primeira linha distribuindo bolinhos entre os manifestantes e expressando sua solidariedade a eles \u2013, n\u00e3o seria celebrado como um progresso democr\u00e1tico, mas sim como um escandaloso e sangrento golpe de Estado, intoler\u00e1vel inger\u00eancia estrangeira, terrorismo e tudo o mais.<\/p>\n<p>A guerra que resultou disso tudo, como consequ\u00eancia de vinte anos de pol\u00edtica exterior e de seguran\u00e7a europeia sem R\u00fassia e contra R\u00fassia, se apresenta como resultado de um \u201cexpansionismo russo\u201d.<\/p>\n<p>A fragilidade da Ucr\u00e2nia era assunto evidente para qualquer observador h\u00e1 tempos. Em um texto publicado por este jornal em 22 de dezembro de 1991, no qual se mencionava que a nova Ucr\u00e2nia independente continha onze milh\u00f5es de russos, dizia-se o seguinte: Essa realidade demogr\u00e1fica existe e est\u00e1 geograficamente concentrada no sudeste da Ucr\u00e2nia, como uma grande Eslav\u00f4nia latente. Nem o previs\u00edvel aprofundamento da crise econ\u00f4mica e nem os mal-entendidos militares ou comerciais, nem a debilidade da cultura democr\u00e1tica entre os dirigentes de ambos os estados nos impedem de descartar os riscos\u201d. Quem diria ent\u00e3o que o principal risco derivaria do expansionismo pol\u00edtico militar da euro-atl\u00e2ntica na regi\u00e3o, com uma OTAN n\u00e3o dissolvida, mas ampliada com bases e soldados na Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Turquia, Pa\u00edses b\u00e1lticos e Pol\u00f4nia, assim como rela\u00e7\u00f5es militares e bases em grande parte das rep\u00fablicas ex-sovi\u00e9ticas, para citar apenas o cintur\u00e3o de ferro em torno da R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>A fragilidade de Minsk<\/strong><\/p>\n<p>O segundo acordo de Minsk, rec\u00e9m-alcan\u00e7ado este m\u00eas, foi resultado direto dos \u00eaxitos militares dos rebeldes pr\u00f3-russos. Esse acordo tem como principal problema o fato de ter deixado fora muitas for\u00e7as hostis a qualquer di\u00e1logo realista. Os Estados Unidos n\u00e3o est\u00e3o. Temem que, se Fran\u00e7a e Alemanha chegarem a um modus vivendi com a R\u00fassia, sua lideran\u00e7a na pol\u00edtica exterior e de seguran\u00e7a europeia v\u00e1 por \u00e1gua abaixo. Preferem mais guerra. Criar um Afeganist\u00e3o na Europa \u00e9 prefer\u00edvel a perder o controle de sua pol\u00edtica exterior e de seguran\u00e7a. \u00c9 o c\u00e1lculo do Imp\u00e9rio do caos, o mesmo que incendiou o Oriente M\u00e9dio. Por esse lado, devemos nos preparar para o pior.<\/p>\n<p>No interior da Europa, Pol\u00f4nia, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia s\u00e3o claramente hostis ao acordo que consideram concess\u00e3o. Donald Tusk, o polaco german\u00f3filo que preside o Conselho Europeu, expressa abertamente seu ceticismo. O governo de Kiev est\u00e1 dividido entre grupos armados de ultradireita que proclamaram sua hostilidade ao acordo, o primeiro-ministro Yatseniuk, que se alinha por complexo \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de Washington, e o presidente Poroshenko, que surfa entre diversos patr\u00f5es, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha.<\/p>\n<p>Se o assunto \u00e9 assim t\u00e3o fr\u00e1gil, \u00e9 ainda mais preocupante a ambiguidade da \u00fanica esperan\u00e7a existente: o senso de comunidade de Alemanha e Fran\u00e7a. O que esperar de gente como Merkel e Hollande, que j\u00e1 demonstraram seu trabalho na catastr\u00f3fica gest\u00e3o da crise do euro? Merkel explicou em Munique que a raz\u00e3o de ser do acordo de Minsk e de sua oposi\u00e7\u00e3o a n\u00e3o armar a Ucr\u00e2nia \u00e9 que \u201cmilitarmente, n\u00e3o se pode vencer a R\u00fassia\u201d. \u201cEssa \u00e9 a amarga realidade\u201d, disse respondendo a um senador americano. Quando perguntaram em Munique para sua inconsistente ministra da defesa, Ursula von der Layen, por que se apoia militarmente os curdos contra o Estado Isl\u00e2mico e n\u00e3o aos ucranianos contra a R\u00fassia, a ministra respondeu da mesma forma: os curdos t\u00eam possibilidades de vencer militarmente seus advers\u00e1rios, enquanto que os ucranianos, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Voltando a 1983<\/strong><\/p>\n<p>O clima da confer\u00eancia foi mais belicoso e agressivo do que nunca. A R\u00fassia foi o \u00fanico tema e o debate fundamental foi armar ou n\u00e3o armar a Ucr\u00e2nia. Sem recorrer ao menor senso de responsabilidade. A interven\u00e7\u00e3o do antes respeitado ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores russo, Sergei Lavrov, foi contestada com risos e perguntas agressivas sem precedentes na sala do hotel de luxo em que a confer\u00eancia \u00e9 realizada anualmente. Em uma extraordin\u00e1ria mostra de mudan\u00e7a de rota, o discurso de Merkel expressou o agradecimento alem\u00e3o ao \u201cvalor dos povos da Europa central e oriental\u201d em sua luta contra o comunismo. Isso foi, ela disse, o que tornou poss\u00edvel a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha. \u201cAt\u00e9 agora se queria citar a contribui\u00e7\u00e3o dos dirigentes da reformada URSS \u00e0quilo, mas os ventos mudam\u201d, disse filosoficamente um especialista russo, que presenciou o espet\u00e1culo de Munique. \u00c9 preciso retroceder at\u00e9 o outono de 1983, em plena \u00e9poca de Andropov, depois da derrubada do Boeing sul-coreano pelos sovi\u00e9ticos, para encontrar um clima t\u00e3o hostil a Moscou como o que hoje domina na Europa, disse Andrei Kortunov, um respeitado polit\u00f3logo ocidentalista russo. \u201cAntes, no n\u00edvel dos especialistas, se diferenciava entre a propaganda e a an\u00e1lise. Agora se pratica uma mescla de g\u00eaneros preocupante\u201d, disse este observador, segundo o qual o principal problema \u00e9 \u201ca dificuldade dos Estados Unidos em reconhecer as limita\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias possibilidades\u201d. Em uma \u00e9poca de emerg\u00eancia de novos polos de poder mundiais, \u201cem Washington se mant\u00e9m a mentalidade do podemos com todos\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Medicina grega para a Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Ucr\u00e2nia \u00e9 catastr\u00f3fica. \u201cYuzhmash\u201d&#8217;, a grande ind\u00fastria de Dnepropetrovsk, est\u00e1 paralisada. Faz 8 meses que seus trabalhadores n\u00e3o recebem sal\u00e1rio e dez mil deles receberam f\u00e9rias compuls\u00f3rias. A ind\u00fastria do autom\u00f3vel est\u00e1 paralisada: em janeiro, foram produzidas 352 unidades. Por press\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, que aplica na Ucr\u00e2nia a mesma pol\u00edtica que arruinou a Gr\u00e9cia, os pre\u00e7os do g\u00e1s v\u00e3o multiplicar por cinco no primeiro trimestre deste ano, assim como os gastos com moradia, \u00e1gua, energia el\u00e9trica etc. Milh\u00f5es de ucranianos \u00e0 beira da pobreza ser\u00e3o afetados. Tudo isso apodrecer\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o social e complicar\u00e1 o clima de viol\u00eancia, desordem e guerra civil em um pa\u00eds cheio de batalh\u00f5es e mil\u00edcias descontentes, no qual a popula\u00e7\u00e3o dribla massivamente o recrutamento militar.<\/p>\n<p><strong>Retroceder \u00e9 perder<\/strong><\/p>\n<p>O problema fundamental \u00e9 que ningu\u00e9m pode se permitir dar passos para tr\u00e1s significativos sem se arriscar a ter grandes derrotas. Se os EUA cedem e permitem que os divididos europeus alcancem o modus vivendi com Moscou, pendente desde o fim da Guerra Fria, sua influ\u00eancia na Europa minguar\u00e1 muito. O que ter\u00e1 que se fazer com a OTAN, organiza\u00e7\u00e3o encarregada da desestabiliza\u00e7\u00e3o continental cujo sentido \u00e9, precisamente, manter essa influ\u00eancia militarizando a pol\u00edtica exterior? O que acontecer\u00e1 com o princ\u00edpio de autoridade (http:\/\/blogs.lavanguardia.com\/paris-poch\/2015\/02\/05\/el-principio-de-autoridad-45435\/), com o mau exemplo que o desafio russo lan\u00e7a para todas as pot\u00eancias emergentes de que sim, \u00e9 poss\u00edvel deter militarmente a intrus\u00e3o imperial ocidental? \u00c9 muito dif\u00edcil esperar passos para tr\u00e1s por este lado. Em rela\u00e7\u00e3o a Moscou, retroceder significa entrar de cabe\u00e7a no cen\u00e1rio 1905: completo desprest\u00edgio nacional do regime de Putin e abertura para cen\u00e1rios ca\u00f3ticos de maior nacionalismo russo e grandes convuls\u00f5es sociais. Se para o Ocidente \u00e9 uma quest\u00e3o de imagem, de prest\u00edgio e de disciplina imperial, para a R\u00fassia \u00e9 um ser ou n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>Um ano depois daquele desfile de ministros europeus n\u00e9scios repartindo solidariedades e bolinhos na pra\u00e7a de Kiev, encontramo-nos com uma guerra na qual n\u00e3o se v\u00ea a marcha para tr\u00e1s. E a Alemanha, que nos conduziu ao fracasso do euro, \u00e9 quem nos deve tirar desse p\u00e2ntano. Que Deus nos leve ap\u00f3s termos confessado!<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Kiev-um-ano-depois\/6\/32998\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o ucraniana dribla massivamente o recrutamento militar e vive uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica catastr\u00f3fica. 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