{"id":56636,"date":"2015-04-20T12:00:52","date_gmt":"2015-04-20T11:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=56636"},"modified":"2015-05-05T21:25:50","modified_gmt":"2015-05-05T20:25:50","slug":"portugues-por-que-e-a-quem-paulo-freire-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/04\/portugues-por-que-e-a-quem-paulo-freire-incomoda\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Por que e a quem Paulo Freire incomoda?"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cAo inv\u00e9s de \u2018basta de Paulo Freire\u2019, precisamos de mais Paulo Freire para um pa\u00eds mais decente\u201d. Especialistas explicam por que o patrono da educa\u00e7\u00e3o brasileira incomoda conservadores e desavisados.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_56637\" style=\"width: 597px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-56637\" class=\"size-full wp-image-56637\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire.png\" alt=\"Paulo Freire (Arquivo)\" width=\"587\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire.png 587w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/paulo-freire-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 587px) 100vw, 587px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-56637\" class=\"wp-caption-text\">Paulo Freire (Arquivo)<\/p><\/div>\n<p>\u201cChega de doutrina\u00e7\u00e3o marxista. Basta de Paulo Freire\u201d. \u201c\u00c9 preciso colocar Paulo Freire em seu devido lugar, que \u00e9 o lixo da hist\u00f3ria\u201d. Esses foram alguns ecos decorrentes das manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo no m\u00eas de mar\u00e7o (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2015\/03\/onu-responde-manifestantes-que-pediram-basta-de-paulo-freire.html\" >relembre aqui<\/a>), que reuniram pessoas nas ruas de v\u00e1rias capitais brasileiras.<\/p>\n<p>Por que Paulo Freire incomoda? A quem? O que esses discursos revelam? Levamos os questionamentos a alguns especialistas, com o intuito de resgatar parte da hist\u00f3ria e da contribui\u00e7\u00e3o do educador pernambucano, declarado patrono da educa\u00e7\u00e3o brasileira em 2012, pela <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2011-2014\/2012\/Lei\/L12612.htm\" >lei 12.612<\/a>, sancionada pela presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p><strong>O lugar de Paulo Freire<\/strong><\/p>\n<p>Para o professor titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e diretor do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti, \u00e9 preciso rigor para falar de Paulo Freire. Ele relembra as incont\u00e1veis publica\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias ao educador, algumas dispon\u00edveis na internet, e completa: \u201cele tem um lugar no mundo garantido pelo reconhecimento do seu trabalho, com contribui\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o, nas artes, nas ci\u00eancias e at\u00e9 na engenharia\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, avali\u00e1-lo somente como educador n\u00e3o basta, opina o professor em\u00e9rito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Miguel Arroyo. \u201cA radicalidade dele tem que ser entendida dentro de nossa hist\u00f3ria\u201d, garante. Da\u00ed a necessidade de se reivindicar o lugar de Paulo Freire. \u201cSobretudo por parte dos educadores populares que assumem, para al\u00e9m de suas ideias, as concep\u00e7\u00f5es de mundo que est\u00e3o por tr\u00e1s delas\u201d, reflete Gadotti.<\/p>\n<p><strong>Uma pedagogia concreta<\/strong><\/p>\n<p>O recha\u00e7o a Paulo Freire n\u00e3o \u00e9 novidade e tampouco recente. Tem in\u00edcio j\u00e1 nos fins dos anos 50 e come\u00e7o da d\u00e9cada de 60, momento em que o educador idealiza a educa\u00e7\u00e3o popular e realiza as primeiras iniciativas de conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo, em nome da emancipa\u00e7\u00e3o social, cultural e pol\u00edtica das classes sociais exclu\u00eddas e oprimidas. Sua metodologia dial\u00f3gica foi considerada perigosamente subversiva pelo regime militar, o que rendeu a Freire o ex\u00edlio. O educador, entretanto, n\u00e3o deixou de produzir e nesse per\u00edodo escreveu algumas de suas principais obras, dentre elas, a <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\/espanhol\/pdf%5Cpedagogia_do_oprimido.pdf\" >Pedagogia do Oprimido<\/a>.<\/p>\n<p>Arroyo entende que as manifesta\u00e7\u00f5es atuais contra o educador s\u00f3 mostram que os setores conservadores continuam t\u00e3o reacion\u00e1rios quanto na \u00e9poca da ditadura. \u201cE isso surge em um momento em que o partido pol\u00edtico que est\u00e1 no poder foi eleito, majoritariamente, pelo cidad\u00e3o pobre, negro, nordestino. A rejei\u00e7\u00e3o a Freire, a meu ver, revela uma quest\u00e3o premente de nossa hist\u00f3ria de reconhecer ou n\u00e3o o povo como sujeito de direitos\u201d, garante, ponto sobre o qual o educador se apoia para chamar a pedagogia freiriana de \u201cpedagogia dos oprimidos concretos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que caracteriza a nossa hist\u00f3ria \u00e9 n\u00e3o reconhecer os ind\u00edgenas, os negros, os pobres, os camponeses, os quilombolas, os ribeirinhos e os favelados como sujeitos humanos\u201d, condena o educador.Em sua an\u00e1lise, essa cren\u00e7a serviu, ao longo da hist\u00f3ria, como justificativa ideol\u00f3gica para que as classes dominantes escravizassem e espoliassem esses setores sociais. \u201cTudo isso a partir de uma vis\u00e3o de que somos o s\u00edmbolo da cultura, civilidade e os outros a express\u00e3o da sub-humanidade, subcultura, imoralidade. \u00c9 isso que nos acompanha ao longo da vida e Paulo Freire se contrap\u00f4s a isso, inverteu esse olhar\u201d, analisa Arroyo.<\/p>\n<p>O que ele considera \u201ccomo um dos pontos mais radicais e politicamente avan\u00e7ados de Freire\u201d \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura, das mem\u00f3rias, dos valores, saberes, racionalidade e matrizes culturais e intelectuais do povo, contrapondo-se \u00e0 l\u00f3gica de que era necess\u00e1ria a inferioriza\u00e7\u00e3o de uns para garantir a domina\u00e7\u00e3o de outros. Na educa\u00e7\u00e3o, sobretudo, essa radicalidade implica em enfrentamentos. \u201cExiste a ideia de que n\u00f3s, cultos, racionais, conscientes, vamos fazer o favor de, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, conscientizar o povo; para Freire n\u00e3o se tratava de conscientiz\u00e1-los, moraliz\u00e1-los, mas de reconhec\u00ea-los como sujeitos de uma outra pedagogia, capaz de dialogar com essas culturas, identidades e hist\u00f3rias\u201d, esclarece Arroyo.<\/p>\n<p><strong>Paulo Freire em outros contextos<\/strong><\/p>\n<p>Essa centralidade nos sujeitos, pr\u00f3pria da concep\u00e7\u00e3o freiriana, tamb\u00e9m apoiou a organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores. Na cidade de S\u00e3o Paulo, quando \u00e0 frente da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o, na gest\u00e3o de Luiza Erundina, Paulo Freire aprovou o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.al.sp.gov.br\/repositorio\/legislacao\/lei.complementar\/1985\/lei.complementar-444-27.12.1985.html\" >Estatuto do Magist\u00e9rio<\/a> importante n\u00e3o s\u00f3 aos docentes como a todos os profissionais da educa\u00e7\u00e3o, como avalia a atual chefe de gabinete da deputada estadual Luiza Erundina, Muna Zeyn, que trabalhou com o educador na gest\u00e3o paulistana. \u201cPara ele, todos estavam em processo de educa\u00e7\u00e3o, do bedel \u00e0 faxineira, passando pelo professor\u201d.<\/p>\n<p>Influ\u00eancia tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos de massa, caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para a militante do setor de Educa\u00e7\u00e3o do Movimento Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de Pernambuco, Rubneuza Leandro de Souza, a combina\u00e7\u00e3o entre necessidade e conscientiza\u00e7\u00e3o foi vital para a organiza\u00e7\u00e3o do movimento. \u201dSobretudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7amos a nos perguntar qual educa\u00e7\u00e3o quer\u00edamos. Sab\u00edamos que n\u00e3o era aquela que desconhecia o contexto das crian\u00e7as e as estigmatizava como filhas de ladr\u00f5es, criminalizando a nossa luta\u201d, critica.<\/p>\n<p>Nas escolas do MST, h\u00e1 uma necessidade de que o conhecimento escolar se articule com a realidade e que a educa\u00e7\u00e3o se estabele\u00e7a como elemento de transforma\u00e7\u00e3o, \u201clibertadora, contra hegem\u00f4nica e emancipadora\u201d. Rubneuza explica que, nos acampamentos, onde muitas vezes n\u00e3o h\u00e1 escolas pr\u00f3ximas, o movimento busca auto organiz\u00e1-las e que, quando o assentamento \u00e9 conquistado, h\u00e1 um processo de formaliza\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o. \u201cIsso porque a educa\u00e7\u00e3o formal entra em contradi\u00e7\u00e3o com nosso processo de luta, quase sempre porque a escola n\u00e3o entende a realidade que a crian\u00e7a vive\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pela integralidade dos indiv\u00edduos<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 quem ataque a pedagogia freiriana, tratando-a como doutrin\u00e1ria. Gadotti explica que a grande quest\u00e3o \u00e9 entender que Freire reconhecia a educa\u00e7\u00e3o como ato pol\u00edtico, de cultura. \u201cA primeira aula de alfabetiza\u00e7\u00e3o em Angicos (Rio Grande do Norte) foi sobre cultura\u201d, relembra o educador. A educa\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a alfabetiza\u00e7\u00e3o inicial precisa passar pela cultura, pelo reconhecimento do sujeito que conhece, que faz sua leitura do mundo. E \u00e9 por ser cultural que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, n\u00e3o no sentido partid\u00e1rio, mas de decidir a vida na p\u00f3lis (cidade), discutir a vida, o mundo que queremos\u201d.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Gadotti, a educa\u00e7\u00e3o deve ser vista como um dos elementos de uma cidade educadora , que prev\u00ea a <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/educacaointegral.org.br\/conceito\/\" >educa\u00e7\u00e3o integral<\/a>, e n\u00e3o deve se referir s\u00f3 ao conhecimento e ao saber simb\u00f3lico, mas tamb\u00e9m ao sens\u00edvel, ao t\u00e9cnico. \u201cA integralidade do saber \u00e9 o tecido t\u00e9cnico, simb\u00f3lico, pol\u00edtico, cultural e implica tamb\u00e9m a politicidade do ato educativo. Ningu\u00e9m nega que a educa\u00e7\u00e3o sup\u00f5e valores, princ\u00edpios, \u00e9tica. \u00c9 isso que falta discutirmos na educa\u00e7\u00e3o brasileira hoje\u201d, constata Gadotti.<\/p>\n<p><strong>Por mais Paulo Freire<\/strong><\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, a persegui\u00e7\u00e3o a Paulo Freire na \u00e9poca da ditadura n\u00e3o apenas o expulsou do Brasil, mas tamb\u00e9m do sistema de ensino do pa\u00eds, impondo um autoritarismo e associando a educa\u00e7\u00e3o ao chamado tecnicismo pedag\u00f3gico, que a afasta de qualquer car\u00e1ter social. \u201cN\u00e3o conseguimos sequer agregar qualidade a esse tecnicismo, mas o fato \u00e9 que ele \u00e9 uma heran\u00e7a da ditadura e continua forte\u201d, evidencia.<\/p>\n<p>Para Gadotti, o ethos freiriano n\u00e3o est\u00e1 presente nas escolas hoje. \u201cEstaria se tiv\u00e9ssemos uma <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/educacaointegral.org.br\/glossario\/educacao-democratica\/\" >educa\u00e7\u00e3o participativa, democr\u00e1tica<\/a>, em que a escola formasse para a cidadania, como est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB). N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 formar para o trabalho, mas para a cidadania, para que o povo participe da constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s de \u2018basta de Paulo Freire\u2019, precisamos de mais Paulo Freire para um pa\u00eds mais decente\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Arroyo tamb\u00e9m compartilha da opini\u00e3o e demonstra preocupa\u00e7\u00e3o, sobretudo com a proposta de educa\u00e7\u00e3o integral. \u201cN\u00e3o podemos entend\u00ea-la como mais tempo de escola, nesse mesmo contexto que estamos inseridos. Seria um desrespeito para o povo e iria contra tudo o que Paulo Freire defendia\u201d, alerta. \u00c9 fundamental, em sua opini\u00e3o, que as propostas pedag\u00f3gicas incorporem os indiv\u00edduos em suas totalidades. \u201cPrecisamos entender as crian\u00e7as que chegam \u00e0s escolas em diversos contextos, o da fam\u00edlia negra, o da favela, como filhos de mulheres trabalhadoras. Que saberes e lutas eles trazem consigo para a educa\u00e7\u00e3o?\u201d, indaga.<\/p>\n<p>\u201cEssas s\u00e3o experi\u00eancias reais, totais, que exigem uma proposta plural, integrada\u201d, problematiza. Para ele, \u00e9 urgente pensar que a educa\u00e7\u00e3o, o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/educacaointegral.org.br\/glossario\/curriculo\/\" >curr\u00edculo diversificado<\/a> e os saberes pr\u00e9vios podem dar conta de devolver a humanidade roubada das crian\u00e7as e adolescentes oprimidos. \u201cA fun\u00e7\u00e3o da escola s\u00f3 \u00e9 integral se ela passa a ser um espa\u00e7o digno, justo, capaz de recuperar o que lhes roubam\u201d, conclui.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2015\/04\/por-que-e-a-quem-paulo-freire-incomoda.html\" >Go to Original \u2013 pragmatismopolitico.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAo inv\u00e9s de \u2018basta de Paulo Freire\u2019, precisamos de mais Paulo Freire para um pa\u00eds mais decente\u201d. 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