{"id":56739,"date":"2015-04-20T12:00:36","date_gmt":"2015-04-20T11:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=56739"},"modified":"2015-05-05T21:25:50","modified_gmt":"2015-05-05T20:25:50","slug":"portugues-como-reproduzimos-a-cultura-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/04\/portugues-como-reproduzimos-a-cultura-do-capital\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Como Reproduzimos a Cultura do Capital"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-43415\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja-150x150.jpg\" alt=\"leonardo-boff-niemeyer-veja\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>19 abr 2015 &#8211; <\/em>No artigo anterior \u2013 A cultura capitalista \u00e9 anti-vida e anti-felicidade \u2013 tentamos, teoricamente, mostrar que a for\u00e7a de sua perpetuidade e reprodu\u00e7\u00e3o reside na exacerba\u00e7\u00e3o de um dado de nossa natureza que consiste no af\u00e3 de auto-afirmar-se, de fortificar o pr\u00f3prio eu para n\u00e3o desaparecer ou ser engolido pelos outros. Mas ela recalca e at\u00e9 nega o outro dado, igualmente, natural, o da integra\u00e7\u00e3o do eu e do individuo num todo maior, no n\u00f3s, na esp\u00e9cie, da qual \u00e9 um representante.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 insuficiente determo-nos apenas nesse tipo de reflex\u00e3o. Ao lado daquele dado origin\u00e1rio, vigora outra for\u00e7a que garante a perpetua\u00e7\u00e3o da cultura capitalista. \u00c9 o fato de n\u00f3s, a maioria da sociedade, internalizarmos os \u201cvalores\u201d e o prop\u00f3sito b\u00e1sico do capitalismo que \u00e9 a expans\u00e3o constante da lucratividade que permite um consumo ilimitado de bens materiais. <em>Quem n\u00e3o tem, quer ter, quem tem, quer ter mais e quem tem mais diz: nunca \u00e9 suficiente<\/em>. E para a grande maioria, a competi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a solidariedade e a supremacia do mais forte prevalecem sobre qualquer outro valor, nas rela\u00e7\u00f5es sociais, especialmente, nos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Chave para a sustenta\u00e7\u00e3o da cultura do capital \u00e9 a cultura do consumo, da permanente aquisi\u00e7\u00e3o de produtos novos: um novo celular com mais aplicativos, um modelo mais sofisticado de computador, um estilo de sapato ou de vestido diferentes, facilidades no cr\u00e9dito banc\u00e1rio para possibilitar a compra-consumo, aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica das propagandas de produtos etc.<\/p>\n<p>Criou-se uma mentalidade, onde todas estas coisas s\u00e3o naturalizadas. Nas festas entre amigos ou familiares e nos restaurantes consome-se \u00e0 tripa forra, enquanto, ao mesmo tempo, os notici\u00e1rios relatam os milh\u00f5es que passam fome. N\u00e3o s\u00e3o muitos os que se d\u00e3o conta desta contradi\u00e7\u00e3o, pois a cultura do capital educa para ver primeiro a si mesmo e n\u00e3o se preocupar dos outros e do bem comum. Este ent\u00e3o, j\u00e1 o dissemos v\u00e1rios vezes, vive no limbo h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Todos somos ref\u00e9ns, alguns mais e outros menos, deste tipo de mentalidade e de pr\u00e1tica. Por isso nos custa tanto inaugurar comportamentos anti-sist\u00eamicos e anti-consumismo e\u00a0 assim abrir caminho para o novo alternativo.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o n\u00e3o basta atacar a cultura do consumo. Se o problema \u00e9 sist\u00eamico, temos que lhe opor outro sistema, anticapitalista, anti-produtivista, anti-crescimento linear e ilimitado. Ao TINA capitalista (there is no Alternative): \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa<\/em>\u201d temos que contrapor outra TINA humanista (there is a new Alternative):\u201d <em>h\u00e1 uma nova alternativa<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Por todas as partes, surgem rebentos alternativos dos quais cito, como exemplo, apenas tr\u1ebds: o \u201cbien vivir\u201ddos povos andinos que consiste na harmonia e no equil\u00edbrio de todos os fatores, na fam\u00edlia, na sociedade (democracia comunit\u00e1ria), com a natureza (as \u00e1guas, os solos, as paisagens) e com a Pachamama, a M\u00e3e Terra. A economia n\u00e3o se orienta pela acumula\u00e7\u00e3o mas pela produ\u00e7\u00e3o do suficiente e do decente para todos.<\/p>\n<p>Segundo exemplo: est\u00e1 se fortalecendo mais e mais o ecosocialismo que nada tem a ver com o socialismo uma vez existente (que era na verdade um capitalismo de Estado) mas com os ideais do socialismo cl\u00e1ssico de igualdade, solidariedade, da subordina\u00e7\u00e3o do valor de troca ao valor de uso com os ideais da moderna ecologia, como vem excelentemente apresentada entre n\u00f3s pelo brasileiro Michael L\u00f6wy em seu <em>O que \u00e9 o ecosocialismo<\/em> (Cortez 2015) e outros em v\u00e1rios pa\u00edses como as contribui\u00e7\u00f5es significativas de James O\u2019Connor e de Jovel Kovel.<\/p>\n<p>A\u00ed se postula a economia em fun\u00e7\u00e3o das necessidades sociais e das exig\u00eancias da prote\u00e7\u00e3o do sistema-vida e do planeta como um todo. Um socialismo democr\u00e1taico, segundo O\u2019Connor, teria como objetivo uma sociedade racional fundada no controle democr\u00e1tico, na igualdade social e na predomin\u00e2ncia do valor de uso. L\u00f6wy acrescenta ainda \u201cque tal sociedade sup\u00f5e a propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o, um planejamento democr\u00e1tico que permita \u00e0 sociedade definir os objetivos da produ\u00e7\u00e3o e os investimentos, e um nova estrutura tecnol\u00f3gica das for\u00e7as produtivas\u201d(op.cit. p.45-46).<\/p>\n<p>O socialismo e a ecologia partilham dos valores qualitativos, irredut\u00edveis ao mercado (como a coopera\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho para viver o reino da liberdade de conviver, de criar, de dedicar-se \u00e0 cultura e \u00e0 espiritualidade e ao resgate da natureza devastada). Esse ideal est\u00e1 no \u00e2mbito das possibilidades hist\u00f3ricas e orienta pr\u00e1ticas que o antecipam.<\/p>\n<p>Um terceiro modelo de cultura eu chamaria de a \u201cvia franciscana\u201d. Francisco de Assis, atualizado por Francisco de Roma \u00e9 mais que um nome ou um ideal religioso; \u00e9 um projeto de vida, um esp\u00edrito e modo de ser. Entende a pobreza n\u00e3o como um n\u00e3o ter mas como capacidade de sempre desprender-se de si mesmo para dar e mais uma vez dar, a simplicidade de vida, o consumo como sobriedade compartida, a humildade contra todo tipo de arrog\u00e2ncia, o cuidado dos desvalidos, a confraterniza\u00e7\u00e3o universal com todos os seres da natureza, respeitados como irm\u00e3os e irm\u00e3s, a alegria de viver, de dan\u00e7ar e de cantar mesmo na hora da morte at\u00e9 <em>cantilenae amatoriae<\/em> da Provence, cantigas de enamoramento. Em termos pol\u00edticos seria um socialismo da sufici\u00eancia e da dec\u00eancia e n\u00e3o da abund\u00e2ncia, portanto, um projeto radicalmente anti-capitalista e anti-acumulador.<\/p>\n<p>Utopias? Sim, mas necess\u00e1rias para n\u00e3o afundarmos na crassa materialidade, utopias que podem se tornar a inspiradora refer\u00eancia ap\u00f3s a grande crise sist\u00eamica ecol\u00f3gico-social que vir\u00e1 inevitavelmente como rea\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Terra que j\u00e1 n\u00e3o aguenta tanta devasta\u00e7\u00e3o. Tais valores culturais sustentar\u00e3o um novo ensaio civilizat\u00f3rio, finalmente mais justo, espiritual e humano.<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff<\/em><em> \u00e9 um te\u00f3logo brasileiro, escritor e professor universit\u00e1rio, expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2015\/04\/19\/como-reproduzimos-a-cultura-do-capital\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem n\u00e3o tem, quer ter, quem tem, quer ter mais e quem tem mais diz: nunca \u00e9 suficiente. 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