{"id":58707,"date":"2015-05-25T12:00:19","date_gmt":"2015-05-25T11:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=58707"},"modified":"2015-05-24T15:30:29","modified_gmt":"2015-05-24T14:30:29","slug":"portugues-a-controversia-do-zoologico-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/05\/portugues-a-controversia-do-zoologico-humano\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A controv\u00e9rsia do zool\u00f3gico humano"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_58708\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Zoo-300x240-humano.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-58708\" class=\"size-full wp-image-58708\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Zoo-300x240-humano.jpg\" alt=\"Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"300\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-58708\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>18 maio 2015 &#8211; <\/em>Nos \u00faltimos dias os \u00e2nimos se exaltaram em uma discuss\u00e3o acerca das intersec\u00e7\u00f5es entre racismo e especismo. Um vegano postou uma imagem que mostrava uma crian\u00e7a negra exibida em um zool\u00f3gico h\u00e1 cerca sessenta anos atr\u00e1s. A legenda do dono da p\u00e1gina chamava aten\u00e7\u00e3o para como a humanidade iria se arrepender de aprisionar os animais, assim como se arrependeu de aprisionar aquela crian\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou para o caos chegar. Pessoas do movimento negro se sentiram bastante ofendidas e buscaram formas cada vez mais agressivas de se fazerem entender. Enquanto isso, do outro lado, o vegano tentava manter a compostura e a educa\u00e7\u00e3o, desculpava-se por qualquer ofensa que tivesse feito, mas n\u00e3o buscava compreender o que incomodava aquelas pessoas. No frigir dos tof\u00fas, veganos ficaram com raiva do movimento negro e o movimento negro com \u00f3dio dos veganos. Cogitou-se fazer manifesta\u00e7\u00f5es contra o veganismo e muitos entraram na discuss\u00e3o para exaltar as del\u00edcias dos bifes, do bacon e da crueldade. Do outro lado, os veganos ca\u00edram no lugar comum, que eu detesto, de chamar o movimento negro de \u201cradical\u201d e culpa-lo pela desuni\u00e3o nos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Odeio tomar partido em uma situa\u00e7\u00e3o desta, mas acho que o movimento vegano errou. N\u00e3o me entendam mal, entristeceu-me muito ver pessoas se vangloriarem de comer carne e quererem boicotar a luta pela liberdade dos animais. Mas, ao mesmo tempo, mesmo sem concordar, acho que vale a pena compreender porque aquelas pessoas chegaram a este ponto. Dois elementos precisam ser levados em conta nesta discuss\u00e3o: lugar de fala e gatilho. Para quem n\u00e3o sabe, gatilho \u00e9 uma imagem, fala ou a\u00e7\u00e3o que leva algu\u00e9m a acessar mem\u00f3rias e sentimentos que o fazem sentir profundamente fragilizado e desconfort\u00e1vel em fun\u00e7\u00e3o de ter sofrido alguma forma de opress\u00e3o. Se algu\u00e9m posta uma foto de agress\u00e3o ou abuso sexual, por exemplo, uma mulher que teve experi\u00eancias relacionadas \u00e0quela pode ser profundamente abalada e levar um tempo para se recuperar ou simplesmente sucumbir. A imagem pode at\u00e9 ter sido postada com boa inten\u00e7\u00e3o, mas o tiro sai pela culatra quando o oprimido, diariamente exposto \u00e0 viol\u00eancia, \u00e9 obrigado a lidar bruscamente com coisas que deveriam ser administradas com muito carinho e cuidado, e n\u00e3o for\u00e7adas goela abaixo. Esta situa\u00e7\u00e3o ainda piora quando quem posta aquela imagem \u00e9 justamente algu\u00e9m do grupo opressor.<\/p>\n<p>O lugar de fala \u00e9 um fator que n\u00e3o pode ser ignorado pelos movimentos sociais. Eu, como homem-branco-cis-heterossexual, cometi, e ainda cometo, este erro demais: esquecer meu lugar. A experi\u00eancia de vida \u00e9 algo important\u00edssimo. O racismo, entre as outras formas de opress\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas te\u00f3rico. \u00c9 vivido, sentido, morrido. Um branco n\u00e3o sabe o que \u00e9 racismo. Ele pode conhecer, estudar, discutir, mas jamais ir\u00e1 compreender realmente como aquilo \u00e9 vivido e compreendido por dentro. Por mais que eu estude 24hs por dia, para o resto da minha vida, jamais compreenderei o sexismo como uma menina de doze anos. Ela pode n\u00e3o ter o mesmo preparo te\u00f3rico que eu; mas ela sentiu todas aquelas coisas que me tomaram anos de leitura s\u00f3 para desconfiar. Por isso, n\u00e3o cabe a mim definir o que estas pessoas passam. Eu posso argumentar que a l\u00f3gica de opress\u00e3o \u00e9 a mesma; que o mesmo sistema que oprime um, oprime outro; que os privil\u00e9gios que fazem o homem branco marginalizar diferentes tipos de seres humanos s\u00e3o os mesmos que estigmatizam os animais. Mas, do meu lugar de fala, n\u00e3o posto fotos de mulheres sendo ordenhadas por m\u00e1quinas de ordenha industriais, como se eu soubesse que \u00e9 a mesma coisa para uma mulher e uma vaca. E n\u00e3o postaria a imagem da crian\u00e7a no zool\u00f3gico pelo mesmo motivo.<\/p>\n<p>Na minha palestra eu argumento que a id\u00e9ia de humanidade mudou muito com os tempos. As pessoas negras foram, e ainda s\u00e3o, largamente exclu\u00eddas de uma ideal hegem\u00f4nico de humanidade. Contudo, de forma alguma tento dizer que a experi\u00eancia de opress\u00e3o de negros e animais \u00e9 a mesma; mas tento mostrar como o homem branco manipulou as pessoas negras para que elas se sentissem inferiores como animais para, assim, reafirmar um ideal racista de humanidade. Mesmo assim, a partir do momento que percebi que os v\u00eddeos e imagens que mostrava eram gatilhos, retirei quase tudo.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre negros e animais \u00e9 fortemente baseada no especismo. \u00c9 justamente porque existe desprezo pelos animais que ela \u00e9 t\u00e3o ofensiva. O especismo tem um papel ineg\u00e1vel nesta equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00f3s n\u00e3o vivemos em um mundo te\u00f3rico. Quando um branco compara um negro a um animal, mesmo que a pessoa negra em quest\u00e3o ame os animais e seja vegana, existe uma grande chance que ela se sinta ofendida. N\u00e3o porque ela despreza os animais, mas porque ela foi desprezada a vida toda e n\u00e3o pode evitar a sensa\u00e7\u00e3o de tristeza, raiva e rejei\u00e7\u00e3o. Vale a pena causar isto em uma pessoa porque achamos que estamos certos? Para se existir em um movimento social precisa-se muito mais do que raz\u00e3o. A empatia \u00e9 muito mais importante. Tentar se colocar no lugar do outro at\u00e9 quando se est\u00e1 ouvindo ofensas desconfort\u00e1veis \u00e9 vital. N\u00e3o que o outro esteja fundamentalmente certo todas as vezes, mas aquela voz precisa ser ouvida.<\/p>\n<p>Na discuss\u00e3o em quest\u00e3o, o vegano que fez o post, apesar de muito educado, n\u00e3o percebeu seu lugar de fala ou evitou os gatilhos. Acusar uma pessoa negra de especismo \u00e9 chama-la de opressora. Uma mulher negra pode acusar a outra de opressora. As duas sentiram na pele. Agora n\u00e3o cabe a um homem-branco-cis-heterossexual dizer que mulheres negras s\u00e3o opressoras. Claro que elas ficar\u00e3o irritadas e anti-veganas, pois sofreram a vida inteira com brancos dizendo o que elas s\u00e3o ou deixam de ser e qual \u00e9 o lugar delas. Todo mundo deve dialogar, quem quer que seja com quer que seja, mas \u00e9 importante saber de onde vem o argumento e para onde vai. O movimento vegano \u00e9 sim muito elitista, branco e machista. \u00c9 o mais elitista, branco e machista de todos. Mas n\u00e3o o \u00e9 por voca\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista \u00e9tico, \u00e9 poss\u00edvel que seja o mais libert\u00e1rio e inclusivo. No entanto, milit\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 teoria, \u00e9 experi\u00eancia. N\u00f3s veganos, e eu me incluo nesta, temos que lutar contra nosso pr\u00f3prio machismo, racismo e elitismo para que o movimento cumpra sua voca\u00e7\u00e3o. Temos que acabar com esta auto-imagem que cultivamos, de salvadores de tudo, e nos enxergarmos como seres humanos perturbados e opressores. Precisamos aprender a escutar o outro antes de exigir que o outro nos escute.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/18\/05\/2015\/controversia-zoologico-humano\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18 maio 2015 &#8211; Nos \u00faltimos dias os \u00e2nimos se exaltaram em uma discuss\u00e3o acerca das intersec\u00e7\u00f5es entre racismo e especismo. Um vegano postou uma imagem que mostrava uma crian\u00e7a negra exibida em um zool\u00f3gico h\u00e1 cerca sessenta anos atr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-58707","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58707\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}