{"id":62110,"date":"2015-08-10T12:00:31","date_gmt":"2015-08-10T11:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=62110"},"modified":"2015-08-04T16:10:20","modified_gmt":"2015-08-04T15:10:20","slug":"portugues-descoberta-a-provavel-causa-da-adiccao-e-nao-e-o-que-voce-pensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/08\/portugues-descoberta-a-provavel-causa-da-adiccao-e-nao-e-o-que-voce-pensa\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Descoberta a Prov\u00e1vel Causa da Adic\u00e7\u00e3o &#8211; E N\u00e3o \u00c9 o que Voc\u00ea Pensa"},"content":{"rendered":"<p><em>19 jun 2015 &#8211; <\/em>Faz cem anos que as drogas foram proibidas pela primeira vez &#8211; e, ao longo desse s\u00e9culo de guerra contra as drogas, professores e governos nos contaram hist\u00f3rias de adic\u00e7\u00e3o. Essas hist\u00f3rias est\u00e3o enraizadas em nossas mentes. Elas parecem \u00f3bvias, verdades evidentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_62111\" style=\"width: 580px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/n-COCAINE-large570.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-62111\" class=\"wp-image-62111 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/n-COCAINE-large570.jpg\" alt=\"Cortando cocaina com uma l\u00e2mina. Closeup da m\u00e3o.\" width=\"570\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/n-COCAINE-large570.jpg 570w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/n-COCAINE-large570-300x125.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-62111\" class=\"wp-caption-text\">Closeup de uma m\u00e3o cortando coca\u00edna com uma l\u00e2mina, para ser cheirada.<\/p><\/div>\n<p>At\u00e9 tr\u00eas ano atr\u00e1s, quando comecei uma jornada de 50 000 quil\u00f4metros para escrever meu novo livro, <em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.chasingthescream.com\/\" >&#8216;Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs&#8217;<\/a><\/em> (Perseguindo o grito: os primeiros e os \u00faltimos dias da guerra contra as drogas, em tradu\u00e7\u00e3o livre), eu tamb\u00e9m acreditava nisso. Mas o que descobri em minhas viagens \u00e9 que quase tudo o que nos contaram sobre a adic\u00e7\u00e3o est\u00e1 errado &#8211; e existe uma hist\u00f3ria muito diferente \u00e0 nossa espera, se estivermos prontos para ouvi-la.<\/p>\n<p>Se realmente absorvermos essa nova hist\u00f3ria, teremos de mudar muito mais que a guerra contra as drogas. Teremos de nos transformar.<\/p>\n<p>Aprendi com uma mistura extraordin\u00e1ria de pessoas que conheci na estrada. Dos amigos de Billie Holiday, que me ajudaram a entender como o fundador da guerra contra as drogas a perseguiu e ajudou a mat\u00e1-la. De um m\u00e9dico judeu que foi tirado \u00e0s escondidas do gueto de Budapeste quando era beb\u00ea, para depois destravar os segredos da adic\u00e7\u00e3o quando adulto.<\/p>\n<p>De um transexual traficante de crack do Brooklyn que foi concebido quando sua m\u00e3e, uma adicta a crack, foi estuprada pelo pai dele, um policial de Nova York. De um homem que foi mantido preso no fundo de um po\u00e7o durante dois anos por uma ditadura para depois emergir e ser eleito presidente do Uruguai, come\u00e7ando os dias finais da guerra contra as drogas.<\/p>\n<p>Tinha uma raz\u00e3o bastante pessoal para sair em busca dessas respostas. Uma das minhas primeiras lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia \u00e9 tentar acordar um parente, sem sucesso. Desde ent\u00e3o, venho pensando sobre o mist\u00e9rio da adic\u00e7\u00e3o &#8211; o que faz algumas pessoas se fixar em uma droga ou um comportamento a ponto de n\u00e3o conseguir parar? Como ajudamos essas pessoas a voltar para a gente? Ao envelhecer, outro parente pr\u00f3ximo ficou adicto a coca\u00edna, e eu me envolvi com uma pessoa adicta a hero\u00edna. Acho que me sinto em casa perto de adictos.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea me perguntasse l\u00e1 atr\u00e1s o que provoca a adic\u00e7\u00e3o a drogas, te olharia como se voc\u00ea fosse um idiota e diria: &#8220;Drogas. D\u00e3.&#8221; N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender. Achei que tivesse visto isso acontecer na minha pr\u00f3pria vida. Qualquer um consegue explicar. Imagine se eu, voc\u00ea e as pr\u00f3ximas 20 pessoas que passarem na rua tom\u00e1ssemos uma droga potente por 20 dias. Existem agentes qu\u00edmicos fortes nessas drogas, ent\u00e3o no vig\u00e9simo-primeiro dia nossos corpos precisariam desses qu\u00edmicos. Ter\u00edamos uma necessidade urgente deles. Estar\u00edamos adictos. Esse \u00e9 o significado de Adic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/despair-psychiatric-drugs.jpeg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-42267\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/despair-psychiatric-drugs.jpeg\" alt=\"despair-psychiatric drugs\" width=\"300\" height=\"361\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/despair-psychiatric-drugs.jpeg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/despair-psychiatric-drugs-249x300.jpeg 249w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Essa teoria foi estabelecida por meio de experimentos com ratos &#8211; experimentos que foram injetados na psique americana nos anos 1980, em um famoso an\u00fancio da <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7kS72J5Nlm8\" >Partnership for a Drug-Free America.<\/a> Voc\u00ea talvez se lembre. O experimento \u00e9 simples. Coloque um rato numa gaiola, sozinho, com duas garrafas d&#8217;\u00e1gua. Uma delas tem s\u00f3 \u00e1gua. A outra tem \u00e1gua misturada com coca\u00edna ou hero\u00edna. Em quase todas as vezes que voc\u00ea fizer esse experimento, o rato vai ficar obcecado com a \u00e1gua com drogas. Ele vai tom\u00e1-la at\u00e9 morrer.<\/p>\n<p>O an\u00fancio explica: &#8220;S\u00f3 uma droga \u00e9 t\u00e3o viciante, nove de dez ratos de laborat\u00f3rio v\u00e3o us\u00e1-la. E us\u00e1-la. E us\u00e1-la. At\u00e9 a morte. \u00c9 chamada coca\u00edna. E ela pode fazer o mesmo com voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, nos anos 1970, <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brucekalexander.com\/articles-speeches\/277-rise-and-fall-of-the-official-view-of-addiction-6\" >um professor de psicologia de Vancouver chamado Bruce Alexander <\/a>percebeu algo estranho nesse experimento. O rato est\u00e1 sozinho na gaiola. Ele n\u00e3o tem nada para fazer al\u00e9m de usar a droga. O que aconteceria se tent\u00e1ssemos algo diferente? Ent\u00e3o Alexander criou o Rat Park. \u00c9 uma gaiola sofisticada, onde os ratos t\u00eam bolas coloridas e t\u00faneis para brincar, v\u00e1rios amigos e a melhor das comidas: tudo o que um rato poderia desejar. Alexander queria saber o que iria acontecer.<\/p>\n<p>No Rat Park, todos os ratos tomaram \u00e1gua das duas garrafas, \u00e9 claro, porque n\u00e3o sabiam o que elas continham. Mas o que aconteceu depois foi surpreendente.<\/p>\n<p>Os ratos nessa vida boa n\u00e3o gostavam da \u00e1gua com drogas. Eles basicamente a ignoravam: consumiam menos de um quarto dessa \u00e1gua, em compara\u00e7\u00e3o com os animais isolados. Nenhum deles morreu. Todos os ratos que estavam sozinhos em suas gaiolas se tornaram dependentes da droga, mas isso n\u00e3o aconteceu com nenhum dos animais do Rat Park.<\/p>\n<p>Inicialmente, achei que isso fosse meramente uma idiossincrasia dos ratos, at\u00e9 descobrir que havia &#8211; na mesma \u00e9poca do experimento do Rat Park &#8211; um equivalente humano em andamento. Era a Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>A revista Time relatou que, entre os soldados americanos, usar hero\u00edna estava se tornando um h\u00e1bito t\u00e3o corriqueiro quanto mascar chiclete, e existem evid\u00eancias s\u00f3lidas para sustentar tal afirma\u00e7\u00e3o: cerca de 20% dos soldados americanos ficaram adictos a hero\u00edna no Vietn\u00e3, segundo um estudo publicado no Archives of General Psychiatry. Muita gente ficou compreensivelmente aterrorizada; elas achavam que com o fim da guerra um enorme n\u00famero de adictos voltaria para casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_43936\" style=\"width: 562px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/food-addiction.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-43936\" class=\"size-full wp-image-43936\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/food-addiction.jpg\" alt=\"Adic\u00e7\u00e3o a comida, comer.\" width=\"552\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/food-addiction.jpg 552w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/food-addiction-300x179.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-43936\" class=\"wp-caption-text\">Adic\u00e7\u00e3o a comida, comer.<\/p><\/div>\n<p>Mas, na realidade, cerca de 95% dos soldados adictos &#8211; segundo o mesmo estudo &#8211; simplesmente pararam de usar hero\u00edna. Alguns poucos foram para cl\u00ednicas de recupera\u00e7\u00e3o. Eles passaram de uma gaiola aterrorizante para uma agrad\u00e1vel, e n\u00e3o queriam mais usar drogas.<\/p>\n<p>Alexander argumenta que essa descoberta \u00e9 uma contesta\u00e7\u00e3o profunda tanto da vis\u00e3o direitista, segundo a qual a adic\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fraqueza moral causada por uma vida de festas e hedonismo, quanto da vis\u00e3o liberal, que diz que a adic\u00e7\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a que existe num c\u00e9rebro quimicamente sequestrado. Na verdade, segundo Alexander, Adic\u00e7\u00e3o \u00e9 adapta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea. \u00c9 a gaiola.<\/p>\n<p>Depois da primeira fase do Rat Park, Alexander levou seu teste al\u00e9m. Ele refez os primeiros experimentos, nos quais os ratos se tornavam usu\u00e1rios compulsivos de drogas. Ele os deixou usar a droga durante 57 dias &#8211; se tem um jeito de ficar adicto, \u00e9 esse.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele tirou os animais do isolamento e os colocou no Rat Park. Alexander queria saber se, uma vez adicto, o c\u00e9rebro estava sequestrado e n\u00e3o havia maneira de recuper\u00e1-lo. As drogas assumem o controle? O que aconteceu &#8211; de novo &#8211; foi impressionante. Os ratos pareciam exibir alguns tremores de abstin\u00eancia, mas logo pararam de usar as drogas pesadamente e voltaram a ter uma vida normal. A gaiola boa os salvou. (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.chasingthescream.com\/\" >As refer\u00eancias completas de todos os estudos que estou mencionando est\u00e3o no livro.<\/a>)<\/p>\n<p>Quando soube disso, fiquei encucado. Como seria poss\u00edvel? Essa nova teoria \u00e9 um ataque t\u00e3o radical ao que nos contaram que n\u00e3o parecia ser verdade. Mas, quanto mais cientistas entrevistava, quanto mais estudos lia, mais descobria coisas que n\u00e3o pareciam fazer sentido &#8211; a menos que voc\u00ea leve em conta essa nova abordagem.<\/p>\n<p>Eis um exemplo de experimento que acontece \u00e0 sua volta, e pode inclusive acontecer com voc\u00ea um dia desses. Se voc\u00ea for atropelado e quebrar a bacia, provavelmente v\u00e3o te dar diamorfina, o nome m\u00e9dico para hero\u00edna.<\/p>\n<p>No hospital, haver\u00e1 muita gente tomando hero\u00edna por longos per\u00edodos, para aliviar a dor. A hero\u00edna que o m\u00e9dico te der vai ser muito mais pura e potente que aquela usada pelos adictos, que compram uma droga adulterada pelos traficantes. Ent\u00e3o, se a velha teoria da adic\u00e7\u00e3o estiver certa &#8211; a culpa \u00e9 da droga; ela faz seu corpo precisar dela -, \u00e9 \u00f3bvio o que vai acontecer. As pessoas sair\u00e3o do hospital e ir\u00e3o direto procurar um traficante para comprar hero\u00edna.<\/p>\n<p>Mas eis o que \u00e9 estranho: isso virtualmente nunca acontece. Como me explicou o m\u00e9dico canadense <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/drgabormate.com\/\" >Gabor Mate<\/a> os usu\u00e1rios de hero\u00edna m\u00e9dica simplesmente param, apesar de meses de uso. A mesma droga, usada pelo mesmo per\u00edodo, cria adictos nas ruas, mas n\u00e3o afeta os pacientes de hospitais.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea ainda acredita, como eu acreditava, que a adic\u00e7\u00e3o \u00e9 causado por agentes qu\u00edmicos, isso n\u00e3o faz sentido. Mas, se voc\u00ea acredita na teoria de Bruce Alexander, a imagem come\u00e7a a entrar em foco. O adicto da rua \u00e9 o rato da primeira gaiola, isolado, sozinho, com uma \u00fanica fonte de conforto. O paciente do hospital \u00e9 o rato da segunda gaiola. Ele vai para casa, para uma vida em que est\u00e1 cercado pelas pessoas que ama. A droga \u00e9 a mesma, mas o ambiente \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Isso nos d\u00e1 um insight muito mais profundo que a necessidade de entender os adictos. O professor Peter Cohen argumenta que os seres humanos t\u00eam uma necessidade profunda de estabelecer la\u00e7os e conex\u00f5es. \u00c9 como nos satisfazemos. Se n\u00e3o conseguirmos nos conectar uns com os outros, vamos nos conectar com o que encontrarmos &#8211; a bolinha pulando na roleta ou a ponta da agulha de uma seringa. Ele diz que dever\u00edamos simplesmente parar de falar em &#8220;Adic\u00e7\u00e3o&#8221;: dever\u00edamos falar em &#8220;liga\u00e7\u00e3o&#8221;. Um adicto a hero\u00edna criou uma liga\u00e7\u00e3o com a droga porque n\u00e3o conseguiu estabelecer outras conex\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O oposto de Adic\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 sobriedade. \u00c9 conex\u00e3o humana<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando soube disso tudo, fui sendo persuadido gradualmente. Mas restava uma d\u00favida inc\u00f4moda. Ser\u00e1 que os cientistas est\u00e3o dizendo que a parte qu\u00edmica da adic\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz diferen\u00e7a nenhuma?<\/p>\n<p>Me explicaram &#8211; voc\u00ea pode se viciar em jogo, mas ningu\u00e9m vai achar que voc\u00ea vai injetar um baralho nas veias. Voc\u00ea pode ser adicto, mas n\u00e3o h\u00e1 o lado qu\u00edmico. Fui a uma reuni\u00e3o dos Adictos a Jogos An\u00f4nimos em Las Vegas (com a permiss\u00e3o de todos os presentes, que sabiam que eu estava l\u00e1 apenas como observador). Eles eram t\u00e3o adictos quanto os usu\u00e1rios de coca\u00edna e hero\u00edna que conheci. Mas uma mesa de p\u00f4quer n\u00e3o tem qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>Ainda assim, perguntei: a qu\u00edmica desempenha algum papel? Um experimento tem a resposta precisa, que descobri no livro <em>The Cult of Pharmacology<\/em> (o culto da farmacologia, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de Richard DeGranpre.<\/p>\n<p>Todos concordam que fumar cigarros \u00e9 um dos processos mais viciantes que existem. Os qu\u00edmicos do tabaco v\u00eam da nicotina. Quando foram inventados os adesivos de nicotina, no come\u00e7o dos anos 1990, houve uma grande onda de otimismo &#8211; os fumantes poderiam satisfazer suas necessidades qu\u00edmicas sem o resto dos efeitos imundos (e mortais) do cigarro. Seria a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade descobriu que apenas 17,7% dos fumantes conseguem parar de fumar usando adesivos de nicotina. \u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Se os qu\u00edmicos respondem por 17,7% da adic\u00e7\u00e3o, como mostra esse dado, ainda temos milh\u00f5es de vidas arruinadas globalmente. Mas o que ele revela, mais uma vez, \u00e9 que a hist\u00f3ria que nos contaram sobre as causas qu\u00edmicas da adic\u00e7\u00e3o \u00e9 real, mas s\u00f3 uma parte pequena de uma fotografia muito maior.<\/p>\n<p>Isso tem enormes implica\u00e7\u00f5es para a secular guerra contra as drogas. Essa guerra massiva &#8211; que, como vi, mata gente dos shoppings mexicanos \u00e0s ruas de Liverpool &#8211; \u00e9 baseada na afirma\u00e7\u00e3o de que precisamos erradicar fisicamente uma vasta gama de qu\u00edmicos, pois eles sequestram c\u00e9rebros e provocam a adic\u00e7\u00e3o. Mas, se as drogas em si n\u00e3o s\u00e3o as causadoras da adic\u00e7\u00e3o &#8211; se, na verdade, \u00e9 a desconex\u00e3o que causa a adic\u00e7\u00e3o &#8211;, ent\u00e3o nada disso faz sentido.<\/p>\n<p>Ironicamente, a guerra contra as drogas na verdade potencializa esses causadores de Adic\u00e7\u00e3o. Por exemplo: fui a uma pris\u00e3o no Arizona &#8211; &#8220;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Gs6hUUL-5DM\" >Tent City&#8221;<\/a> &#8211;, onde os detentos ficam presos em min\u00fasculas celas de pedra (&#8220;O Buraco&#8221;) por semanas a fio se usarem drogas. \u00c9 a vers\u00e3o humana mais pr\u00f3xima que consigo imaginar das gaiolas de isolamento dos ratos. Quando os presos saem da cadeia, n\u00e3o conseguir\u00e3o emprego, porque t\u00eam ficha criminal &#8211; garantido um isolamento ainda maior. Vi exemplos assim no mundo inteiro.<\/p>\n<p>Existe uma alternativa. Voc\u00ea pode criar um sistema desenhado para ajudar os adictos a se reconectar com o mundo &#8211; e, assim, deixar a adic\u00e7\u00e3o para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 teoria. Est\u00e1 acontecendo. Vi com meus pr\u00f3prios olhos. Cerca de 15 anos atr\u00e1s, Portugal tinha um dos piores problemas de drogas da Europa &#8211; 1% da popula\u00e7\u00e3o era adicta a hero\u00edna. Os portugueses tentaram a guerra contra as drogas, mas o problema s\u00f3 piorava. Ent\u00e3o decidiram fazer algo radicalmente diferente. Resolveram descriminar todas as drogas e usar o dinheiro gasto para prender os adictos a programas de reconex\u00e3o &#8211; com seus sentimentos e com a sociedade. O passo mais crucial \u00e9 garantir moradia e empregos subsidiados, para que eles tenham prop\u00f3sito na vida, algo que os fa\u00e7a sair da cama pela manh\u00e3. Em cl\u00ednicas acolhedoras, vi os adictos aprendendo a se reconectar com seus sentimentos, depois de anos de trauma e de um sil\u00eancio for\u00e7ado causado pelas drogas.<\/p>\n<p>Um exemplo que observei foi um grupo de adictos que recebeu um empr\u00e9stimos para come\u00e7ar uma empresa de coleta de lixo. Repentinamente, eles eram um grupo, todos conectados entre si e com a sociedade, cuidando uns dos outros.<\/p>\n<p>Agora se conhecem os resultados disso tudo. Um estudo independente do <em>British Journal of Criminology <\/em>descobriu que, desde a total descrimina\u00e7\u00e3o, a adic\u00e7\u00e3o caiu e o uso de drogas injet\u00e1veis teve redu\u00e7\u00e3o de 50%. Repito: o uso de drogas injet\u00e1veis teve redu\u00e7\u00e3o de 50%. A descrimina\u00e7\u00e3o foi um sucesso t\u00e3o grande que pouqu\u00edssima gente em Portugal defende uma volta ao antigo sistema. O maior opositor dessa pol\u00edtica em 2000 era Jo\u00e3o Figueira, o principal policial da for\u00e7a antidrogas. Ele fez alertas terr\u00edveis, do tipo que se espera ouvir na<em> Fox News ou ler no Daily Mail.<\/em> Mas, quando conversamos em Lisboa, Figueira me disse que nenhuma de suas previs\u00f5es se confirmou &#8211; e agora ele espera que o resto do mundo siga o exemplo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 relevante s\u00f3 para os adictos que amo. \u00c9 relevante para todos n\u00f3s, pois nos for\u00e7a a pensar de maneira diferente a respeito de n\u00f3s mesmos. Os seres humanos s\u00e3o animais que precisam de la\u00e7os. Precisamos de conex\u00f5es e de amor. A frase mais s\u00e1bia do s\u00e9culo 20 foi &#8220;Apenas se conecte&#8221;, de E.M. Forster. Mas criamos um ambiente e uma cultura que cortou conex\u00f5es, ou que oferece apenas um simulacro delas: a internet. O crescimento da adic\u00e7\u00e3o \u00e9 sintoma de uma doen\u00e7a mais profunda na maneira como vivemos &#8211; constantemente olhando para o pr\u00f3ximo objeto brilhante que queremos comprar, em vez dos humanos que nos cercam.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2014\/oct\/14\/age-of-loneliness-killing-us\" ><em>O escritor George Monbiot fala na &#8220;era da solid\u00e3o<\/em>&#8220;<\/a> Criamos sociedades humanas em que o corte de conex\u00f5es nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil. Bruce Alexander, o criador do Rat Park, me disse que falamos demais em recupera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos. Precisamos falar de recupera\u00e7\u00e3o social &#8211; como todos nos recuperamos juntos da doen\u00e7a do isolamento que recai sobre n\u00f3s como uma n\u00e9voa densa.<\/p>\n<p>Mas essas novas evid\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o apenas um desafio pol\u00edtico. Elas n\u00e3o nos for\u00e7am somente a transformar nossas cabe\u00e7as. Elas nos for\u00e7am a transformar nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil amar um adicto. Quando olho para os adictos que amo, \u00e9 sempre tentador optar pela estrat\u00e9gia durona recomendada por programas como Intervention &#8211; falar para o adicto tomar jeito ou ent\u00e3o cort\u00e1-lo de sua vida. A mensagem \u00e9 que o adicto que n\u00e3o parar com as drogas deve ser rejeitado. \u00c9 a l\u00f3gica da guerra contra as drogas importada para nossas vidas. Mas, na verdade, aprendi que isso s\u00f3 agrava a adic\u00e7\u00e3o &#8211; e voc\u00ea pode perder a pessoa para sempre. Voltei para casa determinado a me aproximar como nunca dos adictos da minha vida &#8211; dizer para eles que os amo incondicionalmente, consigam eles parar ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando terminei minha longa jornada, olhei para meu ex-namorado, em crise de abstin\u00eancia, tremendo no quarto de visitas, e pensei nele de um jeito diferente. H\u00e1 um s\u00e9culo estamos entoando cantos de guerra sobre os adictos. Quando secava a testa dele, me ocorreu que dever\u00edamos estar entoando can\u00e7\u00f5es de amor.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria completa da jornada de Johann Hari &#8211; contada por meio das hist\u00f3rias das pessoas que ele conheceu &#8211; est\u00e1 em <em>&#8216;Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs&#8217;<\/em> (Perseguindo o grito: os primeiros e os \u00faltimos dias da guerra contra as drogas, em tradu\u00e7\u00e3o livre), publicada pela Bloomsbury. O livro foi elogiado por Elton John, Naomi Klein e Glenn Greenwald, entre outros. Saiba <a href=\"http:\/\/www.chasingthescream.com.\" >mais sobre o livro<\/a><\/p>\n<p>As refer\u00eancias completas e fontes para todas as informa\u00e7\u00f5es citadas neste artigo est\u00e3o nas extensas notas do livro.<\/p>\n<p>_________________________________<\/p>\n<p><em>Johann Hari<\/em><em> &#8211; Autor de<\/em> Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs.<\/p>\n<p><em>Este artigo foi originalmente publicado pelo <\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.huffingtonpost.com\/johann-hari\/the-real-cause-of-addicti_b_6506936.html?ncid=fcbklnkushpmg00000013\" >HuffPost US<\/a><em> e traduzido do ingl\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasilpost.com.br\/johann-hari\/descoberta-a-provavel-cau_b_7597010.html\" >Go to Original \u2013 brasilpost.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O oposto de Adic\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 sobriedade. \u00c9 conex\u00e3o humana. Existe uma alternativa. Voc\u00ea pode criar um sistema desenhado para ajudar os adictos a se reconectar com o mundo &#8211; e, assim, deixar a adic\u00e7\u00e3o para tr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-62110","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62110"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62110\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}