{"id":63807,"date":"2015-09-14T15:09:00","date_gmt":"2015-09-14T14:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=63807"},"modified":"2019-08-04T06:54:08","modified_gmt":"2019-08-04T05:54:08","slug":"portugues-para-ler-em-2050","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/09\/portugues-para-ler-em-2050\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Para Ler em 2050"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u00c9 estranho que uma \u00e9poca que come\u00e7ou como s\u00f3 tendo futuro tenha terminado como s\u00f3 tendo passado. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando um dia se puder caracterizar a \u00e9poca em que vivemos, o espanto maior ser\u00e1 que se viveu tudo sem antes nem depois, substituindo a causalidade pela simultaneidade, a hist\u00f3ria pela not\u00edcia, a mem\u00f3ria pelo sil\u00eancio, o futuro pelo passado, o problema pela solu\u00e7\u00e3o. Assim, as atrocidades puderam ser atribu\u00eddas \u00e0s v\u00edtimas, os agressores foram condecorados pela sua coragem na luta contra as agress\u00f5es, os ladr\u00f5es foram ju\u00edzes, os grandes decisores pol\u00edticos puderam ter uma qualidade moral min\u00fascula quando comparada com a enormidade das consequ\u00eancias das suas decis\u00f5es. Foi uma \u00e9poca de excessos vividos como car\u00eancias; a velocidade foi sempre menor do que devia ser; a destrui\u00e7\u00e3o foi sempre justificada pela urg\u00eancia em construir. O ouro foi o fundamento de tudo, mas estava fundado numa nuvem. Todos foram empreendedores at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, mas a prova em contr\u00e1rio foi proibida pelas provas a favor. Houve inadaptados, mas a inadapta\u00e7\u00e3o mal se distinguia da adapta\u00e7\u00e3o, tantos foram os campos de concentra\u00e7\u00e3o da heterodoxia dispersos pela cidade, pelos bares, pelas discotecas, pela droga, pelo facebook.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o p\u00fablica passou a ser igual \u00e0 privada de quem tinha poder para a publicitar. O insulto tornou-se o meio mais eficaz de um ignorante ser intelectualmente igual a um s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Desenvolveu-se o modo de as embalagens inventarem os seus pr\u00f3prios produtos e de n\u00e3o haver produtos para al\u00e9m delas. Por isso, as paisagens converteram-se em pacotes tur\u00edsticos e as fontes e nascentes tomaram a forma de garrafa. Mudaram os nomes \u00e0s coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim, desigualdade passou a chamar-se m\u00e9rito; mis\u00e9ria, austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria; guerra civil mitigada, democracia. A pr\u00f3pria guerra passou a chamar-se paz para poder ser infinita. Tamb\u00e9m a Guernika passou a ser apenas um quadro de Picasso para n\u00e3o estorvar o futuro do eterno presente. Foi uma \u00e9poca que come\u00e7ou com uma cat\u00e1strofe mas que em breve conseguiu transformar cat\u00e1strofes em entretenimento. Quando uma cat\u00e1strofe a s\u00e9rio sobreveio, parecia apenas uma nova s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Todas as \u00e9pocas vivem com tens\u00f5es, mas esta \u00e9poca passou a funcionar em permanente desequil\u00edbrio, quer ao n\u00edvel coletivo, quer ao n\u00edvel individual. As virtudes foram cultivadas como v\u00edcios e os v\u00edcios como virtudes. O enaltecimento das virtudes ou da qualidade moral de algu\u00e9m deixou de residir em qualquer crit\u00e9rio de m\u00e9rito pr\u00f3prio para passar a ser o simples reflexo do aviltamento, da degrada\u00e7\u00e3o ou da nega\u00e7\u00e3o das qualidades ou virtudes de outrem. Acreditava-se que a escurid\u00e3o iluminava a luz, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Operavam tr\u00eas poderes em simult\u00e2neo, nenhum deles democr\u00e1tico: capitalismo, colonialismo e patriarcado; servidos por v\u00e1rios sub-poderes, religiosos, medi\u00e1ticos, geracionais, \u00e9tnico-culturais, regionais. Curiosamente, n\u00e3o sendo nenhum democr\u00e1tico, eram o sustent\u00e1culo da democracia-realmente-existente. Eram t\u00e3o fortes que era dif\u00edcil falar de qualquer deles sem incorrer na ira da censura, na diaboliza\u00e7\u00e3o da heterodoxia, na estigmatiza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a. O capitalismo, que assentava nas trocas desiguais entre seres humanos supostamente iguais, disfar\u00e7ava-se t\u00e3o bem de realidade que o pr\u00f3prio nome caiu em desuso. Os direitos dos trabalhadores eram considerados pouco mais que pretextos para n\u00e3o trabalhar. O colonialismo, que assentava na discrimina\u00e7\u00e3o contra seres humanos que apenas eram iguais de modo diferente, tinha de ser aceite como algo t\u00e3o natural como a prefer\u00eancia est\u00e9tica. As supostas v\u00edtimas de racismo e de xenofobia eram sempre provocadores antes de serem v\u00edtimas. Por sua vez, o patriarcado, que assentava na domina\u00e7\u00e3o das mulheres e na estigmatiza\u00e7\u00e3o das orienta\u00e7\u00f5es n\u00e3o heterossexuais, tinha de ser aceite como algo t\u00e3o natural como uma prefer\u00eancia moral sufragada por quase todos. \u00c0s mulheres, homossexuais e transsexuais haveria que impor limites se elas e eles n\u00e3o soubessem manter-se nos seus limites.<\/p>\n<p>Nunca as leis gerais e universais foram t\u00e3o impunemente violadas e selectivamente aplicadas, com tanto respeito aparente pela legalidade. O primado do direito vivia em ameno conv\u00edvio com o primado da ilegalidade. Era normal desconstituir as Constitui\u00e7\u00f5es em nome delas.<\/p>\n<p>O extremismo mais radical foi o imobilismo e a estagna\u00e7\u00e3o. A voracidade das imagens e dos sons criava turbilh\u00f5es est\u00e1ticos. Viveram obcecados pelo tempo e pela falta de tempo. Foi uma \u00e9poca que conheceu a esperan\u00e7a mas a certa altura achou-a muito exigente e cansativa. Preferiu, em geral, a resigna\u00e7\u00e3o. Os inconformados com tal desist\u00eancia tiveram de emigrar. Foram tr\u00eas os destinos que tomaram: iam para fora, onde a remunera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da resigna\u00e7\u00e3o era melhor e por isso se confundia com a esperan\u00e7a; iam para dentro, onde a esperan\u00e7a vivia nas ruas da indigna\u00e7\u00e3o ou morria na viol\u00eancia dom\u00e9stica, no crime comum, na raiva silenciada das casas, das salas de espera das urg\u00eancias hospitalares, das pris\u00f5es, e dos ansiol\u00edticos e anti-depressivos; o terceiro grupo ficava entre dentro e fora, em espera, onde a esperan\u00e7a e a falta dela alternavam como as luzes nos sem\u00e1foros. Pareceu estar tudo \u00e0 beira da explos\u00e3o, mas nunca explodiu porque foi explodindo, e quem sofria com a explos\u00f5es ou estava morto, ou era pobre, subdesenvolvido, velho, atrasado, ignorante, pregui\u00e7oso, in\u00fatil, louco \u2013 em qualquer caso, descart\u00e1vel. Era a grande maioria, mas uma insidiosa ilus\u00e3o de \u00f3ptica tornava-a invis\u00edvel. Foi t\u00e3o grande o medo da esperan\u00e7a que a esperan\u00e7a acabou por ter medo de si pr\u00f3pria e entregou os seus adeptos \u00e0 confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o tempo, o povo transformou-se no maior problema, pelo simples facto de haver gente a mais. A grande quest\u00e3o passou a ser o que fazer de tanta gente que em nada contribu\u00eda para o bem estar dos que o mereciam. A racionalidade foi t\u00e3o levada a s\u00e9rio que se preparou meticulosamente uma solu\u00e7\u00e3o final para os que menos produziam, por exemplo, os velhos. Para n\u00e3o violar os c\u00f3digos ambientais, sempre que n\u00e3o foi poss\u00edvel elimin\u00e1-los, foram biodegradados. O \u00eaxito desta solu\u00e7\u00e3o fez com que depois fosse aplicada a outras popula\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis, tais como os imigrantes, jovens das periferias, toxicodependentes, etc.<\/p>\n<p>A simultaneidade dos deuses com os humanos foi uma das conquistas mais f\u00e1ceis da \u00e9poca. Para tal bastou comercializ\u00e1-los e vend\u00ea-los nos tr\u00eas mercados celestiais existentes, o do futuro para al\u00e9m da morte, o da caridade, e o da guerra. Surgiram muitas religi\u00f5es, cada uma delas parecida com os defeitos atribu\u00eddos \u00e0s religi\u00f5es rivais, mas todas coincidiam em serem o que mais diziam n\u00e3o ser: mercado de emo\u00e7\u00f5es. As religi\u00f5es eram mercados e os mercados eram religi\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho que uma \u00e9poca que come\u00e7ou \u00a0como s\u00f3 tendo futuro (todas as cat\u00e1strofes e atrocidades anteriores eram a prova da possibilidade de um novo futuro sem cat\u00e1strofes nem atrocidades) tenha terminado como s\u00f3 tendo passado. Quando come\u00e7ou a ser excessivamente doloroso pensar o futuro, o \u00fanico tempo dispon\u00edvel era tempo passado. Como nunca nenhum grande acontecimento hist\u00f3rico foi previsto, tamb\u00e9m esta \u00e9poca terminou de modo que colheu todos de surpresa. Apesar de ser geralmente aceite que o bem comum n\u00e3o podia deixar de assentar no luxuoso bem estar de poucos e no miser\u00e1vel mal-estar das grandes maiorias, havia quem n\u00e3o estivesse de acordo com tal normalidade e se rebelasse. Os inconformados dividiam-se em tr\u00eas estrat\u00e9gias: tentar melhorar o que havia, tentar romper com o que havia, tentar n\u00e3o depender do que havia. Visto hoje, a tanta dist\u00e2ncia, era obvio que as tr\u00eas estrat\u00e9gias deviam ser utilizadas articuladamente, ao modo da divis\u00e3o de tarefas em qualquer trabalho complexo, uma esp\u00e9cie de divis\u00e3o do trabalho do inconformismo e da rebeldia. Mas, na \u00e9poca, tal n\u00e3o foi poss\u00edvel, porque os rebeldes n\u00e3o viam que, sendo produto da sociedade contra a qual lutavam, teriam de come\u00e7ar por se rebelar contra si pr\u00f3prios, transformando-se eles pr\u00f3prios antes de quererem transformar a sociedade. A sua cegueira fazia-os dividir-se a respeito do que os deveria unir e unir-se a respeito do que os devia dividir. Por isso, aconteceu o que aconteceu. O qu\u00e3o terr\u00edvel foi est\u00e1 bem inscrito no modo como vamos tentando curar as feridas da carne e do espirito ao mesmo tempo que reinventamos uma e outro.<\/p>\n<p>Porque teimamos, depois de tudo? Porque estamos a reaprender a alimentar-nos da erva daninha que a \u00e9poca passada mais radicalmente tentou erradicar, recorrendo para isso aos mais potentes e destrutivos herbicidas mentais \u2013 a utopia.<\/p>\n<p>____________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Boaventura-de-Sousa-Santos.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-139100\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Boaventura-de-Sousa-Santos-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Boaventura de Sousa Santos \u00e9 doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o 25 de Abril, e Coordenador Cient\u00edfico do Observat\u00f3rio Permanente da Justi\u00e7a Portuguesa &#8211; todos da Universidade de Coimbra. Sua trajet\u00f3ria recente \u00e9 marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do F\u00f3rum Social Mundial e pela participa\u00e7\u00e3o na coordena\u00e7\u00e3o de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipa\u00e7\u00e3o Social: Para Novos Manifestos.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/Para-ler-em-2050\/34252\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 estranho que uma \u00e9poca que come\u00e7ou como s\u00f3 tendo futuro tenha terminado como s\u00f3 tendo passado. <\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-63807","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63807"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63807\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}