{"id":64165,"date":"2015-09-21T12:00:27","date_gmt":"2015-09-21T11:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=64165"},"modified":"2015-09-21T05:19:17","modified_gmt":"2015-09-21T04:19:17","slug":"portugues-uma-outra-forma-de-resolver-os-conflitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/09\/portugues-uma-outra-forma-de-resolver-os-conflitos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Uma outra forma de resolver os conflitos"},"content":{"rendered":"<p><em>18 set 2015 &#8211; <\/em>A humanidade, especialmente, sob o patriarcado, conheceu conflitos de toda ordem. A forma predominante de resolv\u00ea-los foi e \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, para dobrar o outro e enquadr\u00e1-lo numa determinada ordem. Esse \u00e9 o pior dos caminhos, pois deixa nos vencidos um rastro de amargura, humilha\u00e7\u00e3o e de vontade de vingan\u00e7a. Estes sentimentos suscitam uma espiral da viol\u00eancia que hoje ganha especialmente a forma de terrorismo, express\u00e3o da vingan\u00e7a dos humilhados. Ser\u00e1 esta o \u00fanica forma de os seres humanos resolverem suas contendas?<\/p>\n<p>Houve algu\u00e9m que se considerava \u201cum louco de Deus\u201d(pazzus Dei), Francisco de Assis que poderia ser tamb\u00e9m o atual Francisco de Roma que perseguiu outro caminho. O anterior era o de ganha-perde. Este \u00faltimo, o ganha-ganha, esvaziando as bases para o esp\u00edrito belicoso. Tomemos exemplos da pr\u00e1tica de Francisco de Assis. Sua sauda\u00e7\u00e3o usual era desejar a todos: \u201cpaz e bem\u201d. Pedia aos seguidores:\u201dTodo aquele que se aproximar, seja amigo ou inimigo, ladr\u00e3o ou bandido, recebam-no com bondade\u201d(<em>Regra n\u00e3o bulada<\/em>,7).<\/p>\n<p>Consideremos a estrat\u00e9gia de Francisco face \u00e0 viol\u00eancia. Tomemos duas legendas, que, como legendas, guardam o esp\u00edrito melhor que a letra dos fatos: os ladr\u00f5es do Borgo San Sepolcro e o lobo de Gubbio (<em>Fioretti<\/em>, c. 21).<\/p>\n<p>Um bando de ladr\u00f5es se escondiam nos bosques e saqueavam a redondeza e os transeuntes. Movidos pela fome foram ao eremit\u00e9rio dos frades para pedir comida. S\u00e3o atendidos mas n\u00e3o sem remor\u00e7os destes:\u201dN\u00e3o \u00e9 justo que demos esmola a esta casta de ladr\u00f5es que tanto mal faz neste mundo\u201d. Apresentam a quest\u00e3o a Francisco. Este sugeriu a seguinte estrat\u00e9gia: levar ao bosque p\u00e3o e vinho e gritar-lhes:\u201dIrm\u00e3os ladr\u00f5es, vinde c\u00e1; somos irm\u00e3os e lhes trouxemos p\u00e3o e vinho. Felizes, comem e bebem. Em seguida falem-lhe de Deus; mas n\u00e3o lhes pe\u00e7am que abandonem a vida que levam porque seria pedir demais; apenas pe\u00e7am que ao assaltar, n\u00e3o fa\u00e7am mal \u00e0s pessoas. Numa outra vez, aconselha Francisco, levem coisa melhor: queijo e ovos. Mais felizes ainda os ladr\u00f5es se refestelam. Mas ouvem a exorta\u00e7\u00e3o dos frades: \u201clarguem esta vida de fome e sofrimento; deixem de roubar; convertam-se ao trabalho que o bom Deus vai providenciar o necess\u00e1rio para o corpo e para a alma\u201d. Os ladr\u00f5es, comovidos por tanta bondade, deixam aquela vida e alguns at\u00e9 se fizeram frades.<\/p>\n<p>Aqui se renuncia ao dedo em riste acusando e condenando em nome da aproxima\u00e7\u00e3o calorosa e da confian\u00e7a na energia escondida neles de ser outra coisa que ladr\u00f5es. Supera-se todo maniqueismo que distribui a bondade de um lado e a maldade do outro. Na verdade, em cada um se esconde um poss\u00edvel ladr\u00e3o e um poss\u00edvel frade. Com terno afeto se pode resgatar o frade escondido dentro do ladr\u00e3o. E ocorreu.<\/p>\n<p>Claramente aparece esta estrat\u00e9gia da ren\u00fancia da viol\u00eancia na legenda do lobo de Gubbio que atacava a popula\u00e7\u00e3o da pequena cidade. Supera-se de novo a esquematiza\u00e7\u00e3o: de um lado o \u201clobo grand\u00edssimo, terr\u00edvel e feroz\u201d e do outro o povo bom, cheio de medo e armado. Dois atores se enfrentam cuja \u00fanica rela\u00e7\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia e a destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua. A estrat\u00e9gia de Francisco n\u00e3o \u00e9 buscar uma tr\u00e9gua ou um equil\u00edbrio de for\u00e7as sob a \u00e9gide do medo. Nem toma partido de um lado ou de outro, num falso farisaismo: \u201cmau \u00e9 o outro, n\u00e3o eu, e por isso deve ser destru\u00eddo\u201d. Ningu\u00e9m se pergunta se dentro de cada um n\u00e3o pode se esconder um lobo mau e e ao mesmo tempo um bom cidad\u00e3o?<\/p>\n<p>O caminho de Francisco \u00e9 desocultar esta uni\u00e3o dos opostos e aproximar a ambos para que possam fazer um pacto de paz. Vai ao lobo e lhe diz:\u201dirm\u00e3o lobo, \u00e9s homicida p\u00e9ssimo e mereces a forca; mas tamb\u00e9m reconhe\u00e7o que \u00e9 pela fome que fazes tanto mal. Vamos fazer um pacto: a popula\u00e7\u00e3o vai te alimentar e tu deixar\u00e1s de amea\u00e7\u00e1-la\u201d. Em seguida se dirige \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e lhes prega:\u201dvoltem-se para Deus, deixem de pecar.<\/p>\n<p>Garantam alimento suficiente ao lobo e assim Deus os livrar\u00e1 dos castigos eternos e do lobo mau\u201d. Diz a legenda que a cidadezinha mudou de h\u00e1bitos, decidiu alimentar o lobo e este passeava entre todos, como se fosse um manso cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve int\u00e9rpretes que leram essa legenda como uma met\u00e1fora da luta de classes. Pode ser. O fato \u00e9 que a paz consequida n\u00e3o foi a vit\u00f3ria de um dos lados, mas a supera\u00e7\u00e3o dos lados e dos partidos. Cada um cedeu, verificou-se o ganha-ganha e irrompeu a paz que n\u00e3o existe em si, mas que \u00e9 fruto de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva entre os cidad\u00e3os e o lobo.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: Francisco n\u00e3o acirrou as contradi\u00e7\u00f5es nem remexeu a dimens\u00e3o sombria onde se acoitam os \u00f3dios. Confiou na capacidade humanizadora da bondade, do di\u00e1logo e da mutua confian\u00e7a. N\u00e3o foi um ing\u00eanuo. Sabia que vivemos na \u201cregio dissimilitudinis\u201d, no mundo das desigualdades (Fioretti c. 37). Mas n\u00e3o se resignou a esta situa\u00e7\u00e3o decadente. Intu\u00eda que para al\u00e9m da amargura, vigora no fundo de cada criatura uma bondade ignorada a ser resgatada. E o foi.<\/p>\n<p>Chegar\u00e1 o dia em que os seres humanos assumir\u00e3o a intelig\u00eancia cordial e espiritual, cuja base biol\u00f3gica, os novos neur\u00f3logos identificaram e que completa a raz\u00e3o intelectual que divide e atomiza. Ent\u00e3o teremos inaugurado o reino da paz e da conc\u00f3rdia. O lobo seguir\u00e1 lobo mas n\u00e3o amea\u00e7ar\u00e1 mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>_______________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff<\/em><em> \u00e9 um te\u00f3logo brasileiro, escritor e professor universit\u00e1rio, expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais.<\/em><em> Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, e<\/em><em>screveu<\/em> Francisco de Assis: ternura e vigor, <em>Vozes 2000.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2015\/09\/18\/uma-outra-forma-de-resolver-os-conflitos\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade, especialmente, sob o patriarcado, conheceu conflitos de toda ordem. A forma predominante de resolv\u00ea-los foi e \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, para dobrar o outro e enquadr\u00e1-lo numa determinada ordem. 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