{"id":69424,"date":"2016-02-08T12:00:31","date_gmt":"2016-02-08T12:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=69424"},"modified":"2016-02-06T00:19:36","modified_gmt":"2016-02-06T00:19:36","slug":"portugues-o-naufragio-de-ulisses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/02\/portugues-o-naufragio-de-ulisses\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Naufr\u00e1gio de Ulisses"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe\"  rel=\"attachment wp-att-69425\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-69425\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe\" alt=\"Paulo Mendes Pinto\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe 171w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Ironicamente, que seja este drama que agora vivemos com os refugiados, a oportunidade para nos tornarmos mais humanos, mais europeus.<\/em><\/p>\n<p>\u201cAi de mim, a que terra chego de novo?<br \/>\nSer\u00e3o eles homens violentos, selvagens e injustos?<br \/>\nOu ser\u00e3o dados \u00e0 hospitalidade e tementes aos deuses?\u201d<br \/>\n<strong>Homero, Odisseia, canto VI <\/strong><em>(tradu\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o de Frederico Louren\u00e7o)<\/em><\/p>\n<p>A denomina\u00e7\u00e3o de \u201ccl\u00e1ssico\u201d \u00e9 vulgarmente usada sem que percebamos exatamente o que a palavra significa. Diz-se cl\u00e1ssico quando nos referimos a alguma coisa que \u00e9 atemporal, como que eternamente v\u00e1lida, modelo que define normas; o cl\u00e1ssico \u00e9 desejado, imitado, recriado e reinterpretado.<\/p>\n<p>Era neste sentido que h\u00e1 uns anos Italo Calvino nos interpelava: <em>Porque ler os Cl\u00e1ssicos<\/em>? E a pergunta diz respeito a mais que uma cultura antiga, a uma literatura ou <em>Belles Letres<\/em> exteriores a n\u00f3s. A validade e a necessidade de regressar e de ler os cl\u00e1ssicos reside na radiografia de n\u00f3s mesmos que fazemos a cada linha e a cada pensamento.<\/p>\n<p>Talvez poucas vezes, como hoje, seja t\u00e3o necess\u00e1rio regressar \u00e0s ra\u00edzes e \u00e0s origens para perceber ess\u00eancias e delimitar as margens at\u00e9 onde nos queremos mover e sair do lugar de conforto.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m poucas vezes, como hoje, me foi dado compreender o alcance de um dos mais festejados cl\u00e1ssicos da nossa cultura, especialmente um dos seus epis\u00f3dios mais significativos: a chegada de Ulisses \u00e0 ilha dos Feaces, sendo a\u00ed acolhido. As similitudes com os dias de hoje s\u00e3o gritantes.<\/p>\n<p>Diz-nos a <em>Odisseia<\/em> de Homero que depois de largos anos num cativeiro na gruta de Circe, Ulisses enceta uma longa e atribulada fuga que o conduziria a casa, lan\u00e7ando-se nas \u00e1guas do Mediterr\u00e2neo. N\u00e1ufrago, como tanta gente que ontem e hoje enceta fugas nesse mar interior, Ulisses vai dar a uma praia, inconsciente, como morto. J\u00e1 \u00e9 o \u00fanico sobrevivente do seu fr\u00e1gil bote, de toda uma turba que se lan\u00e7ou ao mar depois da terr\u00edvel guerra nas praias de Tr\u00f3ia.<\/p>\n<p>Sem o saber, qual moribundo, o pr\u00edncipe de \u00cdtaca dera \u00e0 costa do reino dos Feaces. Ser\u00e1 a filha do rei a recolher o n\u00e1ufrago e a indicar a Ulisses como agir para ser bem acolhido. Naus\u00edcaa, de seu nome, oferece ajuda sem nada pedir em troca.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que se d\u00e1 &#8220;Europa&#8221;. Ulisses \u00e9 acolhido, \u00e9 alimentado, \u00e9 lavado e vestido, e s\u00f3 depois se pergunta quem \u00e9 e de onde vem. \u00c9 isto a hospitalidade e o humanismo que h\u00e1 quase 3.000 anos marcava a narrativa de Homero na frase que coloco como ep\u00edgrafe, resultado do medo do her\u00f3i, e que se materializava na salva\u00e7\u00e3o que ele, afinal, iria encontrar pelas m\u00e3os e pelos atos de quem nem lhe perguntara o nome antes de o alimentar. \u00c9 este o nosso ADN cultural.<\/p>\n<p>Com o passar dos s\u00e9culos, dos mil\u00e9nios, sempre o ato de dar alimento e guarida marcou a nossa forma de estar perante a defini\u00e7\u00e3o de humano. Essa vis\u00e3o fraternal tem sido transversal a religi\u00f5es e a geografias neste vasto Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Muitas mortandades temos feito, e com efic\u00e1cia cada vez mais comprovada. Mas muita generosidade temos tamb\u00e9m conseguido fazer em ambientes brutalmente hostis. \u00c9 verdade que nos \u00faltimos anos, fruto de um abandono absurdo dos mais b\u00e1sicos valores europeus, especialmente dos de fraternidade e de solidariedade, muito de pouca aten\u00e7\u00e3o e cuidado se tem dado ao nosso semelhante, ao nosso vizinho, ao mais desfavorecido entre os nossos concidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Mas que n\u00e3o seja esse o argumento para recusar abrigo e alimento a quem nos demanda em busca do que n\u00e3o encontra, o m\u00ednimo e b\u00e1sico de sobreviv\u00eancia e de dignidade. Que se reencontre a identidade da partilha, da mesa, da festa, recuperando tamb\u00e9m dentro da nossa sociedade o apoio aos mais desfavorecidos.<\/p>\n<p>Tal como com Ulisses, somos uma sociedade naufragada, com pouco de utopia em n\u00f3s, recusando abrigo aos sem-abrigo que temos junto das nossas paredes. Mas ao contr\u00e1rio de Ulisses, somos tamb\u00e9m n\u00f3s a praia onde damos \u00e0 costa, sejamos S\u00edrios desesperados a fugir da guerra que n\u00f3s, Europa, possibilit\u00e1mos e foment\u00e1mos, ou sejamos europeus de direito \u201cburocr\u00e1tico\u201d mas pouco c\u00edvico.<\/p>\n<p>Ironicamente, que seja este drama que agora vivemos com os refugiados, a oportunidade que n\u00e3o aproveit\u00e1mos com a crise financeira para nos tornarmos mais humanos, mais europeus.<\/p>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p><em>Paulo Mendes Pinto \u00e9 o Director da \u00e1rea de <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cienciadasreligioes.ulusofona.pt\/index.php\/iei\" >Ci\u00eancia das Religi\u00f5es<\/a><\/em><em> e do Inst. de Estudos Isl\u00e2micos Al-Muhaibid da Universidade Lus\u00f3fona, Lisboa.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.publico.pt\/mundo\/noticia\/o-naufragio-de-ulisses-1709329\" >Go to Original \u2013 publico.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tal como com Ulisses, somos uma sociedade naufragada, com pouco de utopia em n\u00f3s, recusando abrigo aos sem-abrigo que temos junto das nossas paredes. 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