{"id":69785,"date":"2016-02-15T12:35:50","date_gmt":"2016-02-15T12:35:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=69785"},"modified":"2016-02-15T12:36:43","modified_gmt":"2016-02-15T12:36:43","slug":"portugues-a-liberdade-de-pensar-a-liberdade-entre-david-bowie-emma-lazarus-e-a-crise-dos-refugiados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/02\/portugues-a-liberdade-de-pensar-a-liberdade-entre-david-bowie-emma-lazarus-e-a-crise-dos-refugiados\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A liberdade de pensar a Liberdade, entre David Bowie, Emma Lazarus e a crise dos refugiados"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe\"  rel=\"attachment wp-att-69425\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-69425\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe\" alt=\"Paulo Mendes Pinto\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe 171w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><em>A no\u00e7\u00e3o de Liberdade, aplicada ao universo religioso, \u00e9 das mais complexas realidade. <\/em><\/p>\n<p><em>You know, I&#8217;ll be free<\/em><br \/>\n<em>Just like that bluebird<\/em><br \/>\n<em>Now ain&#8217;t that just like me?<\/em><br \/>\n<em>Oh I&#8217;ll be free<\/em><br \/>\nDavid Bowie, Lazarus, <em>Blackstar<\/em>, 2016<\/p>\n<p><em>8 fev 2016 &#8211; <\/em>A no\u00e7\u00e3o de Liberdade, aplicada ao universo religioso, \u00e9 das mais complexas realidades. Num sentido muito crist\u00e3o, mas tamb\u00e9m muito forte nas correntes inici\u00e1ticas, onde a imagem da morte \u00e9 a porta para a ressurrei\u00e7\u00e3o, para uma nova vida, a liberdade encontra-se exactamente na morte, tal como David Bowie no-la apresenta no texto acima transcrito.<\/p>\n<p>De facto, Bowie, num poema musicado com o t\u00edtulo \u00abLazarus\u00bb, remetendo-nos exactamente para uma emblem\u00e1tica ressurrei\u00e7\u00e3o, equaciona a liberdade como possibilidade da morte. Ali\u00e1s, este tem sido um longo caminho teol\u00f3gico e mental: a morte como condi\u00e7\u00e3o de e da liberdade.<\/p>\n<p>Hoje, num tempo em que nos afastamos cada vez mais da morte, higienizando os espa\u00e7os sociais dessa realidade que dantes fazia parte da fam\u00edlia, da casa, regressamos \u00e0 morte sem saber o que dela fazer, imagem de que o seu oposto, a vida, talvez pouco significado tenha de existencial, de espiritual, a n\u00e3o ser a repeti\u00e7\u00e3o quotidiana de ritmos retirados dos sentidos antigos.<\/p>\n<p>J\u00e1 sem nada de teol\u00f3gico, e com muito pouco de m\u00edstico, a liberdade reduz-se na maioria das conversas hodiernas a um jogo de tempo entre o poder fazer e o ser obrigado a fazer, como se aqui se jogasse o m\u00e1ximo, a plenitude de um arb\u00edtrio que, na pr\u00e1tica, apenas nos diz se a certa hora podemos ver determinado programa de televis\u00e3o ou se temos de estar a trabalhar e o vemos depois. Isto \u00e9, reduzimos a liberdade a jogos de hor\u00e1rios, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de \u201cescapelas\u201d, \u00e0 gest\u00e3o de tempos, de espa\u00e7os. E a vontade pouco mais n\u00e3o \u00e9 que isso, numa ilus\u00e3o de um tudo que \u00e9 nada.<\/p>\n<p>Comodamente, generalizou-se a ideia de que a \u201cLiberdade termina onde come\u00e7a a liberdade do outro\u201d. Ora, esta n\u00e3o \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de uma liberdade, mas sim a nega\u00e7\u00e3o do pensamento sobre ela mesma, criando, \u00e0 partida, uma defini\u00e7\u00e3o que nos liberta de pensar no que \u00e9 a pr\u00f3pria liberdade.<\/p>\n<p>O desafio da verdadeira Liberdade encontra-se na afirma\u00e7\u00e3o de que a minha liberdade est\u00e1 exactamente onde est\u00e1 a Liberdade do outro. E isso em nada tolhe, mata ou diminui o dito \u201coutro\u201d. A prova m\u00e1xima de civiliza\u00e7\u00e3o que devemos procurar \u00e9 a qualidade, a habilidade, de poder ser livre sem o constangimento do legal ou do convencionado. Isto \u00e9, Respeito apenas por si s\u00f3.<\/p>\n<p>No caso das culturas que se pensam instrumentalmente com o portugu\u00eas, a dimens\u00e3o da liberdade \u00e9 ainda mais acanhada, ou n\u00e3o fossemos n\u00f3s o pleno exemplo de uma sucess\u00e3o de sistemas, regimes e governos em que nos acabrunh\u00e1mos, em que nos diminu\u00edmos, em que tantas vezes nos demitimos do arb\u00edtrio, deixando nas m\u00e3os de uns poucos a decis\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>De facto, em portugu\u00eas somos muito pobres naquilo que vocabularmente \u00e0 Liberdade respeita. Ao contr\u00e1rio, no ingl\u00eas, por exemplo, encontramos duas palavras que em portugu\u00eas traduzimos da mesma forma, mas que, de facto, nos remetem para coisas substancialmente diferentes. \u00abLiberty\u00bb \u00e9 diferente de \u00abFreedom\u00bb. Se a <em>liberty<\/em> nos remete para um conceito, uma dimens\u00e3o acima de cada um de n\u00f3s, <em>freedom<\/em> j\u00e1 a cada um implica no seu quotidiano, nas ac\u00e7\u00f5es que cada um realiza. \u00c9 a diferen\u00e7a entre o des\u00edgnio, obviamente leg\u00edtimo, entre a ambi\u00e7\u00e3o individual, e a concretiza\u00e7\u00e3o ou identidade colectiva.<\/p>\n<p>E \u00e9 no cruzamento entre <em>lIberty<\/em> e <em>freedom<\/em> que somos obrigados a regressar \u00e0 quest\u00e3o fundamental do arb\u00edtrio. Onde se encontra a liberdade de ac\u00e7\u00e3o, o des\u00edgnio criado por cada um ou, talvez ao contr\u00e1rio, o des\u00edgnio divino criado para cada um?<\/p>\n<p>Entre uma resigna\u00e7\u00e3o e uma vontade de supera\u00e7\u00e3o, joga-se grande parte da nossa civiliza\u00e7\u00e3o neste momento onde a cria\u00e7\u00e3o parece ter-nos abandonado, resignando-nos a pequenos rasgos da inventividade, da generosidade, do risco que os grandes momentos implicam e carecem porque apenas deles pode nascer o diferente, o desafiante, o que nos leva para a al\u00e9m da liberdade de cada um no seu mundo, <em>freedom<\/em>, para a liberdade do mundo expressa em todos e cada um de n\u00f3s, <em>lIberty<\/em>.<\/p>\n<p>De facto, a Europa nunca conseguiu superar o antagonismo entre uma leitura religiosa em que o arb\u00edtrio \u00e9 a principal caracter\u00edstica do ser humano, e a incapacidade de agir contra o \u201cfado\u201d, contra o que est\u00e1 designado ancestralmente.<\/p>\n<p>\u00c9 neste momento em que \u00e0 Europa se colocam momentos em que se desejavam des\u00edgnios e capacidades mobilizadoras, que merece a pena recordar uma escritora, ironicamente chamada de Lazarus como o poema de Bowie.<\/p>\n<p>Emma Lazarus, em finais do s\u00e9culo XIX, numa \u00e9poca em que os EUA se debatiam tamb\u00e9m com imensas levas de refugiados e de migrantes, escrevia um texto que algum tempo depois foi escolhido para estar inscrito na base da Est\u00e1tua da Liberdade (<em>Liberty<\/em> e n\u00e3o <em>Freedom<\/em>):<\/p>\n<p>Diz Emma Lazarus, uma judia descendente de crist\u00e3os-novos da Beira Alta portuguesa:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o como o gigante bronzeado de grega fama,<br \/>\nCom pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra<br \/>\nAqui nos nossos port\u00f5es banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguer\u00e1<br \/>\nUma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama<br \/>\n\u00c9 o rel\u00e2mpago aprisionado e seu nome<br \/>\nM\u00e3e dos Ex\u00edlios. Do farol de sua m\u00e3o<br \/>\nBrilha um acolhedor abra\u00e7o universal; Os seus suaves olhos<br \/>\nComandam o porto unido por pontes que enquadram cidades g\u00e9meas.<br \/>\n&#8220;Mantenham antigas terras sua pompa hist\u00f3rica!&#8221; grita ela<br \/>\nCom l\u00e1bios silenciosos &#8220;Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,<br \/>\nAs suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade<br \/>\nO miser\u00e1vel refugo das suas costas apinhadas.<br \/>\nMandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,<br \/>\nPois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Entre resigna\u00e7\u00e3o, a incapacidade de olhar mais longe, e os medos de cada momento, sabe bem olhar para o alcance destas palavras, materializadas numa est\u00e1tua que representa, ela mesma, um colectivo que viu na imensid\u00e3o das desgra\u00e7as de cada um a oportunidade para que todos avan\u00e7assem e se libertassem.<\/p>\n<p>Imagem de que a Liberdade, mesmo quando ela nos obriga a equacionar a liberdade de cada um, \u00e9 um des\u00edgnio, somos obrigados ao confronto com o que de actual este poema tem&#8230;<\/p>\n<p>___________________________________<\/p>\n<p><em>Prof. Paulo Mendes Pinto \u00e9 diretor da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona em Lisboa, Portugal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/bolsa-de-especialistas\/2016-02-08-A-liberdade-de-pensar-a-Liberdade-entre-David-Bowie-Emma-Lazarus-e-a-crise-dos-refugiados\" >Go to Original \u2013 visao.sapo.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A no\u00e7\u00e3o de Liberdade, aplicada ao universo religioso, \u00e9 das mais complexas realidades.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-69785","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69785"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69785\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}