{"id":69791,"date":"2016-02-15T12:38:50","date_gmt":"2016-02-15T12:38:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=69791"},"modified":"2016-02-15T12:38:50","modified_gmt":"2016-02-15T12:38:50","slug":"portugues-antoine-de-saint-exupery-a-vida-do-espirito-e-a-etica-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/02\/portugues-antoine-de-saint-exupery-a-vida-do-espirito-e-a-etica-da-terra\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, a vida do esp\u00edrito e a \u00e9tica da Terra"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja.jpg\"  rel=\"attachment wp-att-43415\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-43415\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja-150x150.jpg\" alt=\"leonardo-boff-niemeyer-veja\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Se \u00e9 verdade que os transtornos clim\u00e1ticos s\u00e3o antropog\u00eanicos, quer dizer, possuem sua g\u00eanese nos comportamentos irrespons\u00e1veis dos seres humanos (menos dos pobres e muito mais das grandes corpora\u00e7\u00f5es industriais), ent\u00e3o fica claro que a quest\u00e3o \u00e9 antes \u00e9tica do que cient\u00edfica. Vale dizer, a qualidade de nossas rela\u00e7\u00f5es para com a natureza e para com a Casa Comum n\u00e3o eram e n\u00e3o s\u00e3o adequadas e boas.<\/p>\n<p>Citando o Papa Francisco em sua inspiradora enc\u00edclica <em>Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum\u201d (2015)<\/em>: \u201c Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos \u00faltimos dois s\u00e9culos\u2026 Essas situa\u00e7\u00f5es provocam os gemidos da irm\u00e3 Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de n\u00f3s outro rumo\u201d(n.53).<\/p>\n<p>Esse outro rumo implica, urgentemente, uma \u00e9tica regeneradora da Terra. Esta \u00e9tica deve ser fundada em alguns princ\u00edpios universais, compreens\u00edveis e pratic\u00e1veis por todos. \u00c9 o cuidado essencial, que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o amorosa para com a natureza; \u00e9 o respeito por cada ser porque possui um valor em si mesmo; \u00e9 a responsabilidade compartida por todos pelo futuro comum da Terra e da humanidade; \u00e9 a solidariedade universal pela qual nos entreajudamos; e, por fim, \u00e9 a compaix\u00e3o pela qual fazemos nossas as dores dos outros e da pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>Esta \u00e9tica da Terra deve devolver-lhe a vitalidade vulnerada afim de que possa continuar a nos presentear com tudo o que sempre nos presenteou durante todos os tempos de nossa exist\u00eancia sobre este planeta.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente uma \u00e9tica da Terra. Precisamos faz\u00ea-la acompanhar por uma espiritualidade. Esta lan\u00e7a suas ra\u00edzes na raz\u00e3o cordial e sens\u00edvel. De l\u00e1 nos vem a paix\u00e3o pelo cuidado e um compromisso s\u00e9rio de amor, de responsabilidade e de compaix\u00e3o para com a Casa Comum.<\/p>\n<p>O conhecido e sempre apreciado Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, num texto p\u00f3stumo, escrito em 1943, <em>Carta ao General \u201cX\u201d <\/em>afirma com grande \u00eanfase: \u201dN\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o um problema, somente um: redescobrir que h\u00e1 uma <em>vida do esp\u00edrito<\/em> que \u00e9 ainda mais alta que a vida da intelig\u00eancia, a \u00fanica que pode satisfazer o ser humano\u201d(Macondo Libri 2015, p. 31).<\/p>\n<p>Num outro texto, escrito em 1936, quando era correspondente do \u201cParis Soir\u201d, durante a guerra da Espanha, leva como t\u00edtulo <em>\u201c\u00c9 preciso da um sentido \u00e0 vida<\/em>\u201d. A\u00ed retoma o tema da <em>vida do esp\u00edrito<\/em>. Para isso, afirma, \u201cprecisamos nos entender reciprocamente; o ser humano n\u00e3o se realiza sen\u00e3o junto com outros seres humanos, no amor e na amizade; no entanto, os seres humanos n\u00e3o se unem apenas se aproximando uns dos outros, mas se fundindo na mesma divindade. Temos sede, num mundo feito deserto, sede de encontrar companheiros com os quais condividimos o p\u00e3o\u201d (Macondo Libri 2015, p.20). E termina a <em>Carta ao General \u201cX\u201d<\/em>: \u201dTemos tanta necessidade de um Deus\u201d(op.cit. 36).<\/p>\n<p>Efetivamnte, s\u00f3 <em>a vida do esp\u00edrito<\/em> satisfaz plenamente o ser humano. Ela representa um belo sin\u00f4nimo para espiritualidade, n\u00e3o raro identificada ou confundida com religiosidade. <em>A vida do esp\u00edrito<\/em> \u00e9 mais, \u00e9 um dado origin\u00e1rio de nossa dimens\u00e3o profunda, um dado antropol\u00f3gico como a intelig\u00eancia e a vontade, algo que pertence \u00e0 nossa ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Sabemos cuidar da <em>vida do corpo<\/em>, hoje um verdadeiro culto celebrado em tantas academias de gin\u00e1stica. Os psicanalistas de v\u00e1rias tend\u00eancias nos ajudam a cuidar da <em>vida da psique<\/em>, de como equilibrar nossas puls\u00f5es, os anjos e dem\u00f4nios que nos habitam para levarmos uma vida com relativo equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Mas na nossa cultura, praticamente, esquecemos de cultivar <em>a vida do esp\u00edrito<\/em> que \u00e9 nossa dimens\u00e3o mais radical, onde se albergam as grandes perguntas, se aninham os sonhos mais ousados e se elaboram as utopias mais generosas. A <em>vida do esp\u00edrito<\/em> se alimenta de bens n\u00e3o tang\u00edveis como \u00e9 o amor, a amizade, a compaix\u00e3o, o cuidado e a abertura ao infinito. Sem a <em>vida do esp\u00edrito<\/em> divagamos por a\u00ed, desenraizados e sem um sentido que nos oriente e que torna a vida apeticida.<\/p>\n<p>Uma \u00e9tica da Terra n\u00e3o se sustenta sozinha por muito tempo sem esse <em>suppl\u00e9ment d\u2019ame<\/em> que \u00e9 a <em>vida do esp\u00edrito<\/em>. Ela nos convoca para o alto e para a\u00e7\u00f5es salvadoras e regeneradoras da M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>______________________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff<\/em><em> \u00e9 um te\u00f3logo brasileiro, escritor e professor universit\u00e1rio, expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil e <\/em><em>membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra<\/em><em>. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais.<\/em><em> Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, e<\/em><em>screveu<\/em> Francisco de Assis: ternura e vigor, <em>Vozes 2000 e <\/em><em>A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<\/em><em>,Vozes 2016.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2016\/01\/29\/antoine-de-saint-exupery-a-vida-do-espirito-e-a-etica-da-terra\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabemos cuidar da vida do corpo, hoje um verdadeiro culto celebrado em tantas academias de gin\u00e1stica. Os psicanalistas de v\u00e1rias tend\u00eancias nos ajudam a cuidar da vida da psique. Mas na nossa cultura, praticamente, esquecemos de cultivar a vida do esp\u00edrit. 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