{"id":70087,"date":"2016-02-22T12:00:43","date_gmt":"2016-02-22T12:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=70087"},"modified":"2016-02-21T17:41:35","modified_gmt":"2016-02-21T17:41:35","slug":"portugues-um-ano-apos-charlie-a-facilidade-do-bode-expiatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/02\/portugues-um-ano-apos-charlie-a-facilidade-do-bode-expiatorio\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Um ano ap\u00f3s \u201cCharlie\u201d: A facilidade do \u201cbode-expiat\u00f3rio&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe\"  rel=\"attachment wp-att-69425\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-69425\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe\" alt=\"Paulo Mendes Pinto\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe 171w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><em>Haveria tanto para caricaturar\u2026 mas \u00e9 mais f\u00e1cil desenhar Deus a matar.<\/em><\/p>\n<p>Faz um ano que teve lugar o terr\u00edvel ataque \u00e0 redac\u00e7\u00e3o do \u201cCharlie\u201d. Na altura, todos fal\u00e1mos e escrevemos sobre a trag\u00e9dia, especialmente sobre o que na Europa e no Ocidente se iria alterar com este ataque. O universo da Liberdade, especialmente a de Express\u00e3o, seria obviamente afectado. Mas os ataques, na mesma Paris, nos finais do ano findo vieram mostrar que, afinal, as reflex\u00f5es muito s\u00e1bias que todos fizemos em nada se aproximavam do que veio, nesse fim de ano, cercear a nossa liberdade.<\/p>\n<p>De facto, um ano depois, a quest\u00e3o da Liberdade \u00e9 a menos importante das reflex\u00f5es a enquadrar. J\u00e1 vimos que o clima de terror se instala muito facilmente; j\u00e1 todos percebemos que a maioria dos cidad\u00e3os abdica de parte da sua liberdade se isso for o pre\u00e7o a pagar por seguran\u00e7a. Tamb\u00e9m j\u00e1 vimos que a escalada do terrorismo facilmente nos transporta para realidades, viol\u00eancia e n\u00famero de mortes cada vez mais impressionantes. Portanto, sendo uma realidade altamente din\u00e2mica a que temos \u00e0 frente, nada nos espanta no que ela nos venha a afectar no campo das diversas liberdades que d\u00e1vamos por adquiridas.<\/p>\n<p>E, como sin\u00f3nimo do quadro em que vivemos &#8211; essencialmente um quadro mental de representa\u00e7\u00f5es \u2013 somos hoje diariamente bombardeados com afirma\u00e7\u00f5es quase apocal\u00edpticas que usam a compara\u00e7\u00e3o com a II Guerra Mundial para descrever o tempo presente: \u201cmaior vaga migrat\u00f3ria desde a II GM\u201d, por exemplo. Levando ao limite do horror dessa guerra em que tanto se matou, tudo parece talhado a resolu\u00e7\u00f5es que tudo atropelam e que perdem o senso da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>E os tempos que vivemos s\u00e3o tudo menos propensos ao senso da an\u00e1lise. Os medos suscitam reac\u00e7\u00f5es, retraem a possibilidade de conv\u00edvio, criam bodes-expiat\u00f3rios. As redes sociais est\u00e3o pejadas de afirma\u00e7\u00f5es de horror que induzem ao medo, \u00e0 revolta, \u00e0 retrac\u00e7\u00e3o do projecto europeu. A todo e qualquer momento vemos estalar o leve verniz civilizacional que nos dizia que \u00e9ramos af\u00e1veis, compreensivos, hospitaleiros e humanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Incapazes de encontrar as verdadeiras raz\u00f5es e os ainda mais importantes agentes do terror, ca\u00edmos em generaliza\u00e7\u00f5es que nos descansam por darem um nome que podemos ofender. De resto, a maior marca, a melhor prova, de que a religi\u00e3o nos moldou irreversivelmente os comportamentos e a forma de pensar \u00e9 a dificuldade, quase incapacidade, secular de olhar para o fen\u00f3meno religioso e apontar o dedo exactamente a quem tem culpas ou lucra com as coniv\u00eancias.<\/p>\n<p>Henrique Monteiro, divergindo da vis\u00e3o mais comum, numa excelente cr\u00f3nica de no <em>Expresso Di\u00e1rio<\/em>, \u201c<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/expresso.sapo.pt\/blogues\/blogue_chamem_me_o_que_quiserem\/2016-01-06-Um-Charlie-medroso-a-fingir-que-nao-e\" >Um \u2018Charlie\u2019 medroso, a fingir que n\u00e3o \u00e9<\/a>\u201d mostra-nos a forma como o pr\u00f3prio Charlie, na data do anivers\u00e1rio do ataque que dizimou boa parte da sua equipa, n\u00e3o consegue sair do primarismo, do simplista, da ofensa imediatista de colocar a figura de Deus a matar. Nesse gesto de afirma\u00e7\u00e3o de poder comunicacional, ofende-se, por arrastamento, todos os que n\u00e3o se rev\u00eam nos atentados mas se rev\u00eam na ideia de Deus, deixando de fora os nomes, as caras, aqueles que foram, esses, sim, os respons\u00e1veis por tudo.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o mais f\u00e1cil usar de um humor simplista e colocar Deus a matar, em vez de questionar, por exemplo, a inac\u00e7\u00e3o europeia at\u00e9 certos momentos, ou mesmo a validade dos discursos que foram usados para justificar uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es militares verdadeiramente assassinas. \u00c9 t\u00e3o mais f\u00e1cil apontar o dedo a uma realidade que materialmente n\u00e3o existe, uma religi\u00e3o e o seu suposto deus, se isso nos possibilitar continuar a ter um modelo de cultura que n\u00e3o se preocupa com uma an\u00e1lise que nos leve ao fundo dos problemas, quer nas suas causas, quer nas suas futuras consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>A cultura europeia parece ainda n\u00e3o ter ultrapassado um certo Complexo de \u00c9dipo em rela\u00e7\u00e3o ao universo religioso, n\u00e3o assumindo nunca o lugar e o peso dessa paternidade, esgotando-se em diatribes perfeitamente inconsequentes. No limite, enquanto sociedade, por exemplo, para que nos interessa se h\u00e1 argumentos que comprovem a exist\u00eancia de Deus? Para que interessa acusar um suposto deus e uma religi\u00e3o se quem alguma vez poderemos julgar em lugar pr\u00f3prio s\u00e3o os crentes?<\/p>\n<p>Mas \u00e9 t\u00e3o mais f\u00e1cil usar, como milenarmente se tem feito, um bode-expiat\u00f3rio, lan\u00e7ar para ele as culpas, e seguir como se nada fosse. Incapazes de chamar \u00e0 realidade os nomes que transportam as verdadeiras culpas, perdemos o \u00e2nimo a dar realidade a culpas que nunca poderemos levar a tribunal.<\/p>\n<p>Dos agentes e l\u00edderes assassinos do DAESH aos pol\u00edticos ocidentais que nos lan\u00e7aram nesta situa\u00e7\u00e3o irresol\u00favel, passando pelos l\u00edderes de todo o mundo, especialmente das grandes pot\u00eancias regionais, tanto haveria para caricaturar\u2026 mas \u00e9 mais f\u00e1cil desenhar Deus a matar.<\/p>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p><em>Prof. Paulo Mendes Pinto \u00e9 diretor da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona em Lisboa, Portugal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/bolsa-de-especialistas\/2016-01-08-Um-ano-apos-Charlie-a-facilidade-do-bode-expiatorio\" >Go to Original \u2013 visao.sapo.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 t\u00e3o mais f\u00e1cil usar de um humor simplista e colocar Deus a matar, em vez de questionar, por exemplo, a inac\u00e7\u00e3o europeia at\u00e9 certos momentos, ou mesmo a validade dos discursos que foram usados para justificar uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es militares verdadeiramente assassinas.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-70087","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70087"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70087\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}