{"id":70753,"date":"2016-03-14T12:57:35","date_gmt":"2016-03-14T12:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=70753"},"modified":"2016-03-14T13:39:11","modified_gmt":"2016-03-14T13:39:11","slug":"portugues-sobre-a-formacao-dos-estados-nacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/03\/portugues-sobre-a-formacao-dos-estados-nacao\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Sobre a Forma\u00e7\u00e3o dos Estados-Na\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\u201cApenas ap\u00f3s a Segunda guerra Mundial \u00e9 que quase todo o mundo foi ocupado por Estados nominalmente independentes cujos governantes reconhecem, mais ou menos de forma rec\u00edproca, o direito de cada um a existir\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. (Tilly, 1990, p. 3)<\/p>\n<p>O argumento de Charles Tilly compreende a problem\u00e1tica da forma\u00e7\u00e3o dos Estados-Na\u00e7\u00e3o na Europa como modelo predominante, atrav\u00e9s da an\u00e1lise das din\u00e2micas relacionais com o capitalismo, a guerra e o poder politico. Segundo o mesmo, os Estados-Na\u00e7\u00e3o e os seus principais componentes n\u00e3o foram planeados pelos governadores europeus, ao inv\u00e9s, os primeiros surgiram com as rela\u00e7\u00f5es que se estabeleceram entre as v\u00e1rias unidades de sobreviv\u00eancia (como imp\u00e9rios e cidades-estado) e os \u00faltimos como subprodutos inadvertidos dos esfor\u00e7os de realiza\u00e7\u00e3o de tarefas mais imediatas, principalmente a cria\u00e7\u00e3o e suporte das for\u00e7as armadas (p. 26). Por estas raz\u00f5es, os Estados &#8211; e todo o sistema de Estados que eventualmente se estabeleceu \u2013 influenciaram as mudan\u00e7as que cada Estado seguiu, o que indica que estes eram (e continuam a ser) interdependentes e n\u00e3o se orientavam ou agiam por si s\u00f3.<\/p>\n<p>Neste sentido, o autor define os conceitos de coer\u00e7\u00e3o &#8211; como \u201c(\u2026) formas combinadas de ac\u00e7\u00e3o, efectivas ou sob a forma de amea\u00e7a, que causam perda ou dano a indiv\u00edduos, posses de indiv\u00edduos ou grupos, que est\u00e3o conscientes da ac\u00e7\u00e3o e do seu potencial dano\u201d (1990, p. 19)<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> -, E capital &#8211; que pode ser \u201cgenerosamente\u201d visto como qualquer recurso m\u00f3vel e tang\u00edvel, e as reivindica\u00e7\u00f5es sobre esses mesmos recursos -, como dois factores que serviram de alicerce \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos Estados-Na\u00e7\u00e3o. Estes conceitos remetem respectivamente para as dimens\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o que envolvem as din\u00e2micas estatais. Tilly argumenta que \u201cos Estados reflectem a organiza\u00e7\u00e3o da coer\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m os efeitos do capital, assim como as cidades respondem \u00e0s mudan\u00e7as no capital mas a organiza\u00e7\u00e3o da coer\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afecta o seu car\u00e1cter\u201d (1990, p. 17)<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p>Para explicar melhor esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio recorrer ao conceito weberiano de territoriedade: para o autor, qualquer entidade institucional que procure agir necessita de um territ\u00f3rio espec\u00edfico no qual tenha legitimidade para o fazer. Neste sentido, os Estados precisavam inevitavelmente de um territ\u00f3rio para se afirmarem como soberanos e exercerem o controlo coercivo e econ\u00f3mico dentro dos limites do mesmo, e no seio destes desenvolveram-se cidades como polos econ\u00f3micos em crescimento que actuavam segundo as l\u00f3gicas do capitalismo industrial. Contudo, a soberania estava igualmente vinculada a uma componente territorial pois o seu princ\u00edpio estruturador \u00e9 a delimita\u00e7\u00e3o de fronteiras, culminando em disputas territoriais travadas entre Estados, que tomaram tendencialmente a forma de guerras. Podemos compreender ent\u00e3o que os Estados dependem, na sua forma\u00e7\u00e3o, das suas capacidades b\u00e9licas iniciais e da forma como as desenvolvem, assim como da riqueza territorial que possuem e a forma como a capitalizam.<\/p>\n<p>Durante a maior parte da hist\u00f3ria Europeia os detentores do poder locais e regionais detinham meios de coer\u00e7\u00e3o que lhes permitiam fazer guerras privadas com as quais lucravam e, at\u00e9 mesmo, fazer frente ao Estado e destabilizar o poder dos governantes. Da mesma forma, os indiv\u00edduos comuns tinham f\u00e1cil acesso a armas. A partir do s\u00e9culo XVII, os governantes europeus conseguiram inverter este equil\u00edbrio de forma decisiva contra os indiv\u00edduos e detentores de poder dentro do seu Estado, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de medidas que criminalizaram o direito civil a ter armas e proibiram os ex\u00e9rcitos privados, estabelecendo uma nova ordem: o ex\u00e9rcito foi nacionalizado e a exclusividade dos agentes armados do estado exercerem autoridade sobre os civis tornou-se a norma. Rapidamente a expans\u00e3o do poderio militar do Estado sobrep\u00f4s-se ao armamento dispon\u00edvel para qualquer rival interno, concentrando uma quantidade assustadora de meios coercivos enquanto a popula\u00e7\u00e3o geral era privada dos mesmos e reivindicando para si a legitimidade para exercer a viol\u00eancia f\u00edsica. Nesta explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica est\u00e1 presente o recurso que Tilly faz ao conceito weberiano de monop\u00f3lio da viol\u00eancia para explicar a forma\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do aparelho estatal, que se articula com uma das quatro actividades b\u00e1sicas do Estado enunciadas pelo autor: Statemaking<em> (1990)<\/em> \u00b8 ou seja, a afirma\u00e7\u00e3o de uma soberania contra rivais internos, na procura da pacifica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o dominada. Para esta atividade os governantes dependiam de recursos ou o ex\u00e9rcito n\u00e3o se desenvolvia, atrav\u00e9s de avultados empr\u00e9stimos e concess\u00f5es de cr\u00e9dito pelos capitalistas, e a afirma\u00e7\u00e3o de um estado fiscal, esta tarefa tornou-se poss\u00edvel. Contudo, uma pe\u00e7a ainda mais fundamental para este processo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 a estrutura de classe, porque esta revelava-se simultaneamente como possibilitadora e condicionante da tentativa de criar as for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Esta estrutura resultava do modo de produ\u00e7\u00e3o de cada Estado e das din\u00e2micas interaccionais que se estabeleciam com os detentores dos recursos produtivos, ou seja, atrav\u00e9s de conflitos, negocia\u00e7\u00f5es e constates interac\u00e7\u00f5es. \u00c9 de ressalvar que as classes dominantes eram as que deixavam a maior \u201cpegada estrutural\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a> e por isso, um Estado dominado por senhores feudais desenvolveu estruturas muito diferentes daquele dominado por capitalistas. Compreendendo estas din\u00e2micas, eram as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o entre classes que ajudavam a determinar a organiza\u00e7\u00e3o estatal, nomeadamente no que \u00e9 relativo ao seu aparelho repressivo, administra\u00e7\u00e3o fiscal, servi\u00e7os e formas de representa\u00e7\u00e3o (1990, p. 100). A tradu\u00e7\u00e3o da estrutura de classe para a organiza\u00e7\u00e3o estatal ocorreu atrav\u00e9s do conflito e produziu varia\u00e7\u00f5es consoante o contexto de cada Estado. \u00c0 medida que o estado fiscal se ia afirmando na europa ocidental do s\u00e9culo XVII, as classes dominadas mostraram-se resistentes atrav\u00e9s de rebeli\u00f5es e estas dificultavam seriamente os objectivos das classes dominantes. Para al\u00e9m disso, as popula\u00e7\u00f5es na europa deste s\u00e9culo eram largamente heterog\u00e9neas e dificultavam a imposi\u00e7\u00e3o de uma administra\u00e7\u00e3o uniforme. Pelo contr\u00e1rio, esta imposi\u00e7\u00e3o tornava-se significativamente mais vi\u00e1vel com uma popula\u00e7\u00e3o homog\u00e9nea, com algum elemento conectivo.<\/p>\n<p>At\u00e9 1750, o autor refere que a maior parte dos Estados exercia um controlo indirecto sobre a sua popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de intermedi\u00e1rios, indiv\u00edduos que gozavam de autonomia e relegavam as ordens estatais que n\u00e3o os favoreciam, optando por lucrar e satisfazer os seus pr\u00f3prios interesses com exerc\u00edcio do poder estatal que lhes era atribu\u00eddo. A partir deste ano, nas eras da nacionaliza\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o, os Estados viraram-se agressivamente para um controlo directo das comunidades, casas e empresas que actuavam nos seus limites, atrav\u00e9s da recruta de soldados locais para um ex\u00e9rcito nacionalizado, recolha de impostos para alimentar a sua expans\u00e3o e negocia\u00e7\u00f5es com as comunidades e empresas eliminando os intermedi\u00e1rios referidos. A passagem para aquilo que o autor designa como \u201c<em>Direct Rule\u201d (1990) <\/em>permitiu aos dominantes ter acesso aos cidad\u00e3os e aos seus recursos atrav\u00e9s da taxa de habita\u00e7\u00e3o, pol\u00edcia e outras invas\u00f5es de pequena escala da vida social. Neste per\u00edodo os Estados recorreram a esfor\u00e7os de unifica\u00e7\u00e3o das suas popula\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas, religi\u00f5es, moeda e sistemas legais, assim como a promo\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de sistemas troca, comunica\u00e7\u00e3o e transporta\u00e7\u00e3o conectados. O objectivo destas ac\u00e7\u00f5es era a homogeneiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, quebrar os seus segmentos diferenciados e impor uma identidade comum a todos. A tarefa de dividir e conquistar tornara-se mais dispendiosa face a uma popula\u00e7\u00e3o agora unida por tra\u00e7os comuns, mas ao mesmo tempo existiam as vantagens de identifica\u00e7\u00e3o com as classes dominantes, maior fluidez da comunica\u00e7\u00e3o e maior probabilidade da administra\u00e7\u00e3o de um segmento funcionar noutro. Da mesma forma, uma perten\u00e7a comum era eficaz na uni\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o contra inimigos externos.<\/p>\n<p>Contudo, estes esfor\u00e7os tiveram uma tremenda resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o e levou uma grande parte dos Estados a conflitos como guerras civis. A ac\u00e7\u00e3o das classes dominantes para combater a resist\u00eancia traduziu-se na revolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o do governo em fun\u00e7\u00e3o da burocracia. Os funcion\u00e1rios do governo aumentaram consideravelmente e foi constru\u00edda uma nova hierarquia regida por uma rela\u00e7\u00e3o de autoridade que se estabelecia do topo at\u00e9 \u00e0 base. Este modelo n\u00e3o se traduzia apenas na administra\u00e7\u00e3o politica \u2013 da qual farei a exposi\u00e7\u00e3o mais \u00e0 frente nesta orienta\u00e7\u00e3o tutorial &#8211; mas tamb\u00e9m no sistema de produ\u00e7\u00e3o e na organiza\u00e7\u00e3o militar. Charles Tilly refere alguns exemplos hist\u00f3ricos como a revolu\u00e7\u00e3o francesa e o estabelecimento de uma nova ordem politica e o desenvolvimento de um imp\u00e9rio russo altamente coercivo na sua l\u00f3gica burocr\u00e1tica. Um dos principais contributos da burocracia para o desenvolvimento dos Estados \u00e9 a sua l\u00f3gica de racionaliza\u00e7\u00e3o administrativa, que estabelece um modelo de maximiza\u00e7\u00e3o dos recursos materiais e humanos para a prossecu\u00e7\u00e3o das actividades do Estado: nomeadamente a prepara\u00e7\u00e3o e afina\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina estatal para desenvolver e fazer a guerra contra os inimigos externos e estados rivais (<em>Warmaking)<\/em>; a institui\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica de protec\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios atrav\u00e9s do imposto e da elimina\u00e7\u00e3o ou neutraliza\u00e7\u00e3o de inimigos dos seus clientes e aliados (<em>Protection<\/em>); e o desenvolvimento da capacidade de extrair recursos para assegurar estas actividades (<em>Extraction)<\/em>, n\u00e3o esquecendo <em>Statemaking. <\/em><\/p>\n<p>Orientados por um quadro competitivo fundamental, os Estados \u201csurgiram\u201d, se puder assim dizer, em competi\u00e7\u00e3o uns com os outros e constru\u00edram a sua identidade em contraste com o Estado rival. Uma l\u00f3gica comunicativa baseada na guerra promoveu competitivas e violentas demarca\u00e7\u00f5es, como a supress\u00e3o das pot\u00eancias emergentes que poderiam afirmar-se como poderosos rivais, transformando o conflito b\u00e9lico num eficaz aferidor de compet\u00eancias \u2013 as capacidades militares ganharam centralidade nos requisitos de forma\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o estatal. Esta l\u00f3gica competitiva teve ainda um curioso e fascinante impacto, a aproxima\u00e7\u00e3o entre os capitalistas e os beligerantes: Para proteger as cidades e a soberania contra os Estados inimigos, os governadores viram-se obrigados a tornar os ex\u00e9rcitos e os mecanismos de defesa mais eficazes, sofisticados e complexos \u2013 a revolu\u00e7\u00e3o militar entrou em curso. As guerras tornaram-se mais r\u00e1pidas e passaram a requerer mais recursos t\u00e9cnicos e econ\u00f3micos, em prol de um aumento significativo dos soldados e das capacidades da artilharia.<\/p>\n<p>Em ultima inst\u00e2ncia, as guerras tornaram-se mais caras devido \u00e0 l\u00f3gica de racionaliza\u00e7\u00e3o que era imposta na competi\u00e7\u00e3o b\u00e9lica entre os Estados em confronto. A quest\u00e3o aqui \u00e9 que os governantes n\u00e3o detinham, efectivamente, dos recursos monet\u00e1rios para financiar esta revolu\u00e7\u00e3o, dependendo por isso das rela\u00e7\u00f5es de neg\u00f3cio que conseguiram estabelecer com os detentores de capital que constru\u00edram as suas empresas nas cidades dentro do territ\u00f3rio. Tentados pela possibilidade de recolher os lucros dos empr\u00e9stimos para as guerras atrav\u00e9s do sistema de fiscaliza\u00e7\u00e3o e de uma parte significativa que este gerava, os capitalistas ajudaram os beligerantes a fazer guerras a cr\u00e9dito e construir um ex\u00e9rcito forte e eficaz atrav\u00e9s do endividamento. Estava impl\u00edcito nesta rela\u00e7\u00e3o a possibilidade dos capitalistas recolherem os impostos dos empr\u00e9stimos atrav\u00e9s da autoridade militar do Estado e de reivindicar uma por\u00e7\u00e3o avultada dos mesmos como o seu pagamento pelo cr\u00e9dito concedido, riscos que corriam e esfor\u00e7os que tinham que fazer.<\/p>\n<p>Estas actividades geraram uma transforma\u00e7\u00e3o de enorme import\u00e2ncia: a monetariza\u00e7\u00e3o da economia estatal. Um acesso mais r\u00e1pido dos governantes aos empr\u00e9stimos dos capitalistas tornou a guerra muito mais f\u00e1cil de fazer e com isto mais f\u00e1cil a extrac\u00e7\u00e3o de recursos dos outros territ\u00f3rios; com os soldados do pr\u00f3prio Estado, comandados pela sua pr\u00f3pria classe dominante tornou-se mais fi\u00e1vel e barato que contratar mercen\u00e1rios e mil\u00edcias, para al\u00e9m de que permitiu o aumento do controlo da popula\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica atrav\u00e9s da especializa\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia do ex\u00e9rcito para exercer a coer\u00e7\u00e3o fora da guerra, sustentadas por uma forte infra-estrutura; a efic\u00e1cia fiscal do estado para recolher os seus recursos para a guerra tamb\u00e9m dependiam desta monetariza\u00e7\u00e3o e apenas se consolidava e tornava dur\u00e1vel como uma fonte de receitas numa economia onde todos (ou quase todos) estivessem envolvidos na economia monet\u00e1ria e a maior parte dos trabalhadores trabalhassem por sal\u00e1rios. O poder passou a ser partilhado pelos actores sociais envolvidos nestas rela\u00e7\u00f5es e originou a ascens\u00e3o de um Estado plutocr\u00e1tico, preocupado com a seguran\u00e7a do sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista e do Estado fiscal, atrav\u00e9s do qual os ricos colocam os seus objectivos mercantis nos objectivos do ex\u00e9rcito e dos pol\u00edticos \u2013 assim, n\u00e3o s\u00f3 as estrat\u00e9gias pol\u00edticas, como o caracter e a intensidade da guerra eram fortemente influenciados pelos seus interesses. Os seus neg\u00f3cios s\u00e3o protegidos atrav\u00e9s de um forte circuito de retroalimenta\u00e7\u00e3o: uma economia com recurso b\u00e9lico e um ex\u00e9rcito com recursos econ\u00f3micos que dependem por sua vez dos mecanismos pol\u00edticos de administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para sumarizar, vou recorrer a uma cita\u00e7\u00e3o do autor que me parece pertinente: \u201cO Estado omnipresente, as lutas sobre os seus governantes e politicas, a forma\u00e7\u00e3o de competidores or\u00e7amentais s\u00e9rios para as for\u00e7as armadas e muitas outras caracter\u00edsticas dos Estados que hoje tomamos como garantidas emergiram na absor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o geral pelo Estado no s\u00e9culo XIX. Os Estados Europeus, apesar de todas as suas diferen\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es entre estado e economia, convergiram progressivamente num modelo de burocracia, interven\u00e7\u00e3o e controlo.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>\u201d (1990, p. 63)<\/p>\n<p>Para n\u00e3o cair no erro de generalizar estas condi\u00e7\u00f5es para todos os Estados na Europa, vou apoiar-me primeiro nas diferentes formas de organiza\u00e7\u00e3o das unidades de sobreviv\u00eancia que proliferaram na europa apontadas pelo autor (Imp\u00e9rios Tribut\u00e1rios, sistemas de soberania fragmentada<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a> e Estados-Na\u00e7\u00e3o) e as estrat\u00e9gias de organiza\u00e7\u00e3o da coer\u00e7\u00e3o, e segundo, nas diferentes traject\u00f3rias de organiza\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Os Imp\u00e9rios Tribut\u00e1rios constru\u00edram um aparelho militar e extractivo e delegaram a administra\u00e7\u00e3o para detentores do poder significativamente aut\u00f3nomos. Desenvolveram-se em condi\u00e7\u00f5es de relativamente baixa acumula\u00e7\u00e3o dos meios coercivos mas uma concentra\u00e7\u00e3o alta dos meios dispon\u00edveis<strong>.<\/strong> Nos sistemas de soberania fragmentada as coliga\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias e organiza\u00e7\u00f5es consultivas detinham um papel significativo na guerra e extrac\u00e7\u00e3o de recursos, contudo nenhum aparelho de organiza\u00e7\u00e3o estatal \u00e0 escala nacional foi constru\u00eddo. Contrariamente aos Imp\u00e9rios, estes sistemas dependiam de relativamente alta acumula\u00e7\u00e3o destes meios mas uma relativa baixa concentra\u00e7\u00e3o dos mesmos<strong>. <\/strong>Por sua vez, os Estados Na\u00e7\u00e3o \u201cuniram organiza\u00e7\u00f5es militares, extractivas, administrativas e por vezes at\u00e9 distributivas e produtivas, substanciais numa estrutura central e relativamente coordenada\u201d (1990, p.21). Ou seja, esta forma de organiza\u00e7\u00e3o conseguiu combinar uma alta acumula\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o dos meios de coer\u00e7\u00e3o. Tilly argumenta que a coexist\u00eancia dos 3 modelos de organiza\u00e7\u00e3o contraria a no\u00e7\u00e3o de que o processo de forma\u00e7\u00e3o estatal na Europa foi unilinear.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0s traject\u00f3rias seguidas pelos Estados, estas resultaram de diferentes estrat\u00e9gias adoptadas pelas classes dominantes para lidar com as classes dominadas e o ambiente especifico na prossecu\u00e7\u00e3o de recursos para a guerra. A de <em>coer\u00e7\u00e3o intensiva<\/em>, era caracterizada por um registo autorit\u00e1rio que se apoiava numa l\u00f3gica militar para impor as vontades da classe dominante e resolver as contradi\u00e7\u00f5es, como a resist\u00eancia \u00e0 recolha de impostos, atrav\u00e9s da opress\u00e3o. Da\u00ed resultava um quadro socioecon\u00f3mico pouco desenvolvido, uma economia pouco monetarizada e uma dificuldades significativa em recolher impostos e capitalizar recursos para o desenvolvimento militar sustent\u00e1vel. Por outro lado, a traject\u00f3ria de capitaliza\u00e7\u00e3o intensiva era capaz de afirmar um estado fiscal plutocr\u00e1tico eficaz &#8211; ao ser liderado por grupos sociais capitalistas foi poss\u00edvel canalizar uma eficaz m\u00e1quina de recolha de impostos para os seus interesses e construir um Estado com a capacidade de se adaptar a despesas militares crescentes. No interm\u00e9dio est\u00e1 a traject\u00f3ria de coer\u00e7\u00e3o capitalizada, na qual os detentores de capital e de coer\u00e7\u00e3o agiam mais ou menos de forma igualit\u00e1ria, por forma a exercerem maior controlo sobre a os meios produtivos, distributivos e sobre a popula\u00e7\u00e3o geral de forma mais consensual. O autor refere-se a Estados socialistas como a Fran\u00e7a e a Inglaterra.<\/p>\n<p>J\u00e1 expostos os mecanismos capitalistas e b\u00e9licos na forma\u00e7\u00e3o dos Estado-Na\u00e7\u00e3o, torna-se necess\u00e1rio explicar os mecanismos do poder pol\u00edtico<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. Para o autor, o Estado \u00e9 \u201cuma organiza\u00e7\u00e3o que controla os principais meios de coer\u00e7\u00e3o concentrados num territ\u00f3rio delimitado, e exerce prioridade em alguns aspectos sobre todas as outras organiza\u00e7\u00f5es que actuam dentro desse territ\u00f3rio<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>\u201d (1990, p. 5) Ou seja, o Estado \u00e9 como um ente aut\u00f3nomo perante a sociedade que regula as vontades individuais e oferece defesa perante outros Estados, reivindicando para si a legitimidade para mandar. A partir desta defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ressalvar um dos marcos weberianos fundamentais \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de um Estado: a domina\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. Segundo o autor, esta domina\u00e7\u00e3o alicer\u00e7a-se numa autoridade racional legal que, diferentemente da tradicional e carism\u00e1tica, se transformou em conson\u00e2ncia com o desenvolvimento da Burocracia. A l\u00f3gica de racionaliza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e administrativa permitiu o referido modelo de organiza\u00e7\u00e3o semelhante a uma pir\u00e2mide<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>, na qual as rela\u00e7\u00f5es de mando-obedi\u00eancia se estabelecem do topo para base, com maior concentra\u00e7\u00e3o de autoridade no topo.<\/p>\n<p>O poder est\u00e1 impl\u00edcito nestas rela\u00e7\u00f5es e torna-se pol\u00edtico quando passa a possuir maior especificidade no quadro das rela\u00e7\u00f5es de mando-obedi\u00eancia, o que demonstra a influ\u00eancia burocr\u00e1tica no exerc\u00edcio pol\u00edtico. Contudo, este modelo de exerc\u00edcio da autoridade est\u00e1 sujeito a um processo de legitima\u00e7\u00e3o que passa pela autonomiza\u00e7\u00e3o de uma esfera espec\u00edfica de autoridade numa sociedade em que \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer quem domina e quem \u00e9 dominado, e pela constru\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio de legitimidade para exercer o mando atrav\u00e9s de um trabalho de consensualiza\u00e7\u00e3o, de sujei\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es estatais. Assim, as sociedades tornam-se politicamente organizadas quando a rela\u00e7\u00e3o mando-obedi\u00eancia come\u00e7a a definir o seu futuro e surgem institui\u00e7\u00f5es promotoras da consensualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o social s\u00e3o recompostos, verificando-se um distanciamento dos princ\u00edpios religiosos e uma *aproxima\u00e7\u00e3o ao modelo de racionaliza\u00e7\u00e3o administrativa, do qual resulta a seculariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a organiza\u00e7\u00e3o institucional moderna. A import\u00e2ncia do poder pol\u00edtico est\u00e1 na teia de rela\u00e7\u00f5es com capitalistas e beligerantes, o Estado plutocr\u00e1tico apoia-se na constru\u00e7\u00e3o de um quadro pol\u00edtico capaz de cumprir os objectivos destes. A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica constr\u00f3i-se assim como um elemento aferidor de compet\u00eancias para os actores sociais envolvidos, dependendo das suas capacidades de gerir recursos materiais e humanos para implementar e fazer a guerra.\u00a0 Concluindo, os Estados-Na\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o moderna interdependente da guerra e imposs\u00edvel de ser dissociada do capitalismo industrial, na qual as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas transformaram a administra\u00e7\u00e3o. Como resultado da 2\u00aa Guerra Mundial, foi o modelo que se afirmou como o mais forte e proliferou no mundo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>BORGES, Virg\u00edlio (2015) \u2013 Apontamentos das aulas leccionadas pelo docente na unidade Curricular Sociologia do Poder Politico<\/p>\n<p>TILLY, Charles (1990); \u201cCoercion, Capital, and European States, AD 990 \u2013 1990\u201d, Basil Blackwell<\/p>\n<p>GIDDENS, Anthony (2013) \u2013 Sociologia 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian. Dep\u00f3sito Legal 365 360\/13; ISBN 978-972-31-1503-1<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o Minha<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o minha<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o minha<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Refiro-me aos efeitos nas transforma\u00e7\u00f5es da estrutura de classe.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o Minha<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Como Cidades-Estado e Federa\u00e7\u00f5es Urbanas. A an\u00e1lise do autor centra-se na coer\u00e7\u00e3o apenas e n\u00e3o faz refer\u00eancia substancial ao capital.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> As din\u00e2micas relacionais entre capitalismo, guerra e administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00e3o constantes mas tornou-se necess\u00e1rio separar a explica\u00e7\u00e3o para n\u00e3o tonrar confuso o racioc\u00ednio.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o Minha<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> <em>Direct Rule <\/em><\/p>\n<p>_______________________________<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Filipe Leite Nogueira de Sousa \u00e9 2016 formando em sociologia pela Universidade do Porto, Portugal.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> \u201cApenas ap\u00f3s a Segunda guerra Mundial \u00e9 que quase todo o mundo foi ocupado por Estados nominalmente independentes cujos governantes reconhecem, mais ou menos de forma rec\u00edproca, o direito de cada um a existir.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-70753","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70753","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70753"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70753\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}