{"id":71679,"date":"2016-04-11T12:00:30","date_gmt":"2016-04-11T11:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=71679"},"modified":"2016-04-08T12:57:39","modified_gmt":"2016-04-08T11:57:39","slug":"portugues-as-invasoes-barbaras-ao-espelho-de-nos-mesmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/04\/portugues-as-invasoes-barbaras-ao-espelho-de-nos-mesmos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) As \u201cinvas\u00f5es b\u00e1rbaras\u201d ao espelho de n\u00f3s mesmos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe\"  rel=\"attachment wp-att-69425\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-69425\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe\" alt=\"Paulo Mendes Pinto\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe 171w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><em>As popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas. Movem-se. E na Europa sempre foi assim.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;As primeiras reac\u00e7\u00f5es dos nobres e do povo foram de surpresa e indigna\u00e7\u00e3o, ao verem um vil b\u00e1rbaro [Alarico] atrever-se a ultrajar a capital do mundo&#8221; Edward Gibbon, <em>Decl\u00ednio e queda do Imp\u00e9rio Romano<\/em><\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, muitas t\u00eam sido as leituras e as interpreta\u00e7\u00f5es desse que ficou como um dos <em>topoi <\/em>mais importantes da nossa cultura: a decad\u00eancia e queda do Imp\u00e9rio Romano, as chamadas invas\u00f5es b\u00e1rbaras, num sentido que torna externo o factor fulminante desse imp\u00e9rio que parecia eterno e modelar em tudo, seja na arte, na literatura, no pensamento, ou no direito.<\/p>\n<p>Mas o marco tremendo, o trauma teve um ponto alto, um acto marcante. Corria o ano de 410 e Agostinho de Hipona, um muito famoso cidad\u00e3o romano nascido no Norte de \u00c1frica, que passaria \u00e0 Hist\u00f3ria como um dos te\u00f3logos mais importantes do Cristianismo, debatia-se psicologicamente com o que era inevit\u00e1vel: Roma fora invadida e saqueada por Alarico. Ainda havia um Imperador, mas a velha ordem, o antigo imp\u00e9rio centrado na sua Cidade Eterna, era j\u00e1 um monte destro\u00e7os \u00e0s m\u00e3os dos ditos B\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>Agostinho, como um ventre de todo o Ocidente Latino, faria uma longa digest\u00e3o dos eventos traumatizantes atrav\u00e9s da sua <em>Cidade de Deus<\/em>, a fuga teol\u00f3gica para um tempo em que o Cristianismo manter-se-ia para sempre romano \u2014 at\u00e9 hoje \u2014 mas olharia para os ditos b\u00e1rbaros como potenciais crist\u00e3os, remetendo, ainda, toda a ideia de eternidade apenas para a dimens\u00e3o celeste e escatol\u00f3gica, a dita Cidade de Deus, e nunca mais uma Cidade dos Homens. Acabava uma Europa e come\u00e7ava outra, a nossa \u2014 tudo o que \u00e9 mundano \u00e9 pecaminoso.<\/p>\n<p>Fora doloroso o vislumbre do fim de um imp\u00e9rio que formulara o mundo com punho f\u00e9rreo. Mas esse poder tremendo antigo nada foi contra as muitas vezes frustes, desorganizadas hordas de gentes que viam nesse vasto e rico territ\u00f3rio uma oportunidade de futuro depois de atravessar a s longas estepes e os terrenos agrestes do interior do continente euro-asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Contudo, a leitura n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples, sob o risco de se tornar simplista. Obviamente, \u00e9-nos sempre muito mais c\u00f3modo colocar um inimigo externo como respons\u00e1vel da queda do que queremos ser, do que julgamos ter sido, do que gostamos de ver como nosso.<\/p>\n<p>Depois de Gibbon, muito se investigou e escreveu sobre as efectivas causas da queda do Imp\u00e9rio Romano. Hoje sabemos que muito aconteceu na movimenta\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, na economia, nos h\u00e1bitos, na religi\u00e3o e at\u00e9 no clima! O Imp\u00e9rio teria sempre ca\u00eddo, tivesse Alarico invadido Roma, ou n\u00e3o. Os sintomas de fim de um modelo, de fim de uma hegemonia estavam j\u00e1 patentes h\u00e1 mais de dois s\u00e9culos. Alarico e os povos b\u00e1rbaros \u201capenas\u201d vieram atestar e passar a certid\u00e3o de um \u00f3bito que apenas os nobres de Roma ainda n\u00e3o tinham dado conta, como Gibbon nos diz na frase com que abro esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>De resto, o continente europeu \u00e9 um dos mais enraizados mitos com p\u00e9s de barro. O que \u00e9 a Europa? Gostamos de nos afirmar como herdeiros do Mundo Cl\u00e1ssico, o perfeito, o modelo, aquele que quisemos imitar e recriar no Renascimento e nos v\u00e1rios neoclassicismos que fomos recriando.<\/p>\n<p>Mas a ideia de modelo \u00e9 altamente perigosa e goza de um aliado que a confirma como garante de tudo, a Hist\u00f3ria, as narrativas que sobre o passado vamos repetindo, quase sempre prenhes de mitos ou mesmo de erros. Seria Roma um modelo? Os escravos, os direitos das mulheres, o circo, a morte como divers\u00e3o, ou a forma de encarar o \u201coutro\u201d, a c\u00e9lebre <em>Pax Romana<\/em>, que era a efic\u00e1cia de uma paz que resultava, de facto, atrav\u00e9s da plena aniquila\u00e7\u00e3o do inimigo.<\/p>\n<p>Ora, tamb\u00e9m n\u00f3s hoje nos gostamos de afirmar no mundo com uma imagem que n\u00e3o condiz com as pr\u00e1ticas, redesenhando uma Europa, j\u00e1 n\u00e3o com o Imp\u00e9rio Romano, mas com uma vis\u00e3o dele muito herdeira, pelo menos na forma egocentrada de ver o mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 bem pouco tempo, a forma como se deu aten\u00e7\u00e3o a algumas poucas v\u00edtimas europeias e americanas do \u00c9bola, em contraste com o pouco que se fez pelas v\u00edtimas em \u00c1frica, em tudo \u00e9 imagem do que aconteceu com o tempo de antena dado \u00e0s not\u00edcias sobre um jornalista ocidental decapitado pelo pretenso Estado Isl\u00e2mico, e o nada feito pelos milhares de mortos locais.<\/p>\n<p>Hoje, mais de 1500 anos depois de Alarico ter entrado em Roma, voltamos a construir muralhas como os romanos faziam no limes, na esperan\u00e7a v\u00e3 de que elas fossem eficazes na conten\u00e7\u00e3o dos povos que cirandavam em busca de um futuro melhor.<\/p>\n<p>Hoje, somos essencialmente filhos e descendentes desses b\u00e1rbaros que nos invadiram. Somos esse emaranhado de gentes que lutou por um espa\u00e7o aqui, nesta Europa. Somos todos imigrantes vindos de um al\u00e9m mais ou menos distante, desde que o <em>Homo Sapiens Sapiens<\/em> saiu de \u00c1frica e colonizou um territ\u00f3rio que n\u00e3o era seu, que j\u00e1 era habitado pelo <em>Homo Neandertalensis<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 que as popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas. Movem-se. E na Europa sempre foi assim. E sempre foi assim de fora para dentro, invadidos, mas tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio, da Europa para fora, buscando novas vidas nas Am\u00e9ricas, em \u00c1frica, ou ainda mais longe.<\/p>\n<p>A frase de Gibbon colocada como ep\u00edgrafe neste texto n\u00e3o termina onde cita\u00e7\u00e3o encerra. Diz, concluindo, numa sabedoria que nos deveria dar olhos para ver e ouvidos para ouvir: <em>Mas a arrog\u00e2ncia deles [dos romanos] n\u00e3o tardou a ceder ao infort\u00fanio<\/em> [\u2026]. Sim, Roma foi conquistada por Alarico nesse ano de 410. Pouco depois cairia o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Mas, tal como a Europa de hoje, mesmo sem Alarico, o Imp\u00e9rio teria ca\u00eddo devido \u00e0s feridas que estavam abertas no seu interior. Sim, mas \u00e9 sempre mais c\u00f3modo ter um inimigo externo, nem que seja um grupo desorganizado, indefeso e nada perigoso de \u201cb\u00e1rbaros\u201d \u00e1 porta do t\u00fanel da mancha.<\/p>\n<p>____________________________________<\/p>\n<p><em>Prof. Paulo Mendes Pinto \u00e9 diretor da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona em Lisboa, Portugal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.publico.pt\/mundo\/noticia\/as-invasoes-barbaras-ao-espelho-de-nos-mesmos-1705187?page=-1\" >Go to Original \u2013 publico.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas. Movem-se. 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