{"id":73237,"date":"2016-05-09T12:00:34","date_gmt":"2016-05-09T11:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=73237"},"modified":"2016-05-08T16:05:31","modified_gmt":"2016-05-08T15:05:31","slug":"portugues-religiao-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/05\/portugues-religiao-na-cidade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Religi\u00e3o na Cidade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-69425\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe\" alt=\"Paulo Mendes Pinto\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Paulo-Mendes-Pinto.jpe 171w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><em>3 maio 2016 &#8211; <\/em>Nunca me irei esquecer da frase que no primeiro filme da trilogia <em>Matrix <\/em>marca a recupera\u00e7\u00e3o, o regresso \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Morfeus. Nessa situa\u00e7\u00e3o em que o her\u00f3i est\u00e1 quase a sucumbir, um dos Mr. Smith, um dos muitos iguais, mas ironicamente muito sapiente, interroga-o. Incapaz de dele tirar alguma informa\u00e7\u00e3o, ataca com uma afirma\u00e7\u00e3o demolidora, comparando o ser humano, a esp\u00e9cie biol\u00f3gica, que Morfeus defende de forma irredut\u00edvel, a um v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas v\u00e3o para uma \u00e1rea e multiplicam-se e multiplicam-se, at\u00e9 que todos os recursos naturais sejam consumidos. A \u00fanica forma de sobreviverem \u00e9 indo para uma outra \u00e1rea. H\u00e1 um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padr\u00e3o. Voc\u00ea sabe qual \u00e9? Um v\u00edrus.\u00a0Os seres humanos s\u00e3o uma doen\u00e7a, um cancro neste planeta. Voc\u00eas s\u00e3o uma praga.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9, de facto, curiosa a forma de vida desta esp\u00e9cie que se auto proclamou, n\u00e3o apenas de <em>Sapiens<\/em>, mas de <em>Sapiens sapiens<\/em>. Ora, depois da revolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ter votado muitas das terras f\u00e9rteis para a desertifica\u00e7\u00e3o por explora\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao limite, depois da revolu\u00e7\u00e3o industrial ter levado a uma corrida louca \u00e0s mat\u00e9rias-primas, tendo desenvolvido formas de colonialismo de que hoje ainda somos herdeiros nos traumas e nos conflitos que temos, por exemplo, no M\u00e9dio Oriente, estes \u201cduplamente s\u00e1bios\u201d est\u00e3o \u00e0 beira de rebentar com um planeta atrav\u00e9s de um sem n\u00famero de ataques sistem\u00e1ticos que deixaram uma pegada ecol\u00f3gica imposs\u00edvel de limpar em muitos casos.<\/p>\n<p>Estes \u201cduplamente s\u00e1bios\u201d perderam, at\u00e9, os limites de uma fraternidade biol\u00f3gica, de esp\u00e9cie. Deixam fora da civiliza\u00e7\u00e3o uma enorme fatia dos seus, vivendo grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial em n\u00edveis de subsist\u00eancia rid\u00edcula, comparado com a riqueza que circula entre as institui\u00e7\u00f5es financeiras \u2013 ir\u00f3nica e provocantemente, quantas vezes n\u00e3o \u00e9 muito melhor e mais digno ser-se um qualquer\u00a0<em>Canis vulgaris<\/em>\u00a0ou um <em>Felis catus<\/em> numa cidade europeia ou norte americana, com alimenta\u00e7\u00e3o cuidada, veterin\u00e1rio e carinho, que\u00a0<em>Homo sapiens sapiens<\/em>\u00a0na boa parte das cidades dos pa\u00edses menos desenvolvidos?<\/p>\n<div id=\"attachment_73238\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/toureiro-tourada-bullfight.jpe\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-73238\" class=\"wp-image-73238\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/toureiro-tourada-bullfight.jpe\" alt=\"p\u00fablico\/arquivo\" width=\"700\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/toureiro-tourada-bullfight.jpe 460w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/toureiro-tourada-bullfight-300x192.jpe 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-73238\" class=\"wp-caption-text\">p\u00fablico\/arquivo<\/p><\/div>\n<p>Mas numa coisa somos invulgarmente coerentes. Conseguimos ser maus cuidadores de tudo o que temos \u00e0 nossa volta, seja o planeta, sejam os ecossistemas, seja o nosso semelhante, os da nossa esp\u00e9cie, ou os restantes animais. E n\u00e3o sei desde quando temos essa marca no nosso comportamento, na nossa hierarquia de valores que faz com que seja t\u00e3o dif\u00edcil encetar uma qualquer mudan\u00e7a de paradigma de pensamento em rela\u00e7\u00e3o ao planeta, aos outros humanos, ou aos animais n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>De facto, assim somos n\u00f3s. Seres vivos que moldamos os <em>habitats <\/em>e, acima de tudo, os gerimos a nosso belo prazer. Muitos s\u00e3o os Textos Sagrados que d\u00e3o lugar a um dom\u00ednio da natureza, do planeta. O Homem, como esp\u00e9cie, est\u00e1 acima dos restantes animais, fora dos ecossistemas, dominando-os. \u201cCrescei, multiplicai-vos e dominai a terra\u201d foi o mote para toda uma postura que nesse trecho do G\u00e9nesis (1, 28) colocou o planeta sob a nossa al\u00e7ada.<\/p>\n<p>Contudo, esse chamado \u201cmandato cultural\u201d escrito no texto b\u00edblico \u00e9 tamb\u00e9m responsabilidade. Sim, a entrega do resultado da cria\u00e7\u00e3o divina ao ser humano implicava um respeito devido \u00e1 sua pr\u00f3pria natureza. A cria\u00e7\u00e3o era divina e deveria ser mantida, continuada, mesmo.<\/p>\n<p>Mas muito a nossa cultura, a nossa esp\u00e9cie, mesmo, parece ter perdido dessa necessidade de rela\u00e7\u00e3o em respeito com o criado, acredite-se t\u00ea-lo sido por um deus, ou n\u00e3o. O caso dos maus tratos a animais \u00e9 uma marca da nossa profunda liga\u00e7\u00e3o a pr\u00e1ticas de profundo atropelo ao mais simples relacionamento com o que nos transcende. E \u00e9-o, n\u00e3o por uma quest\u00e3o de religi\u00e3o ou de f\u00e9. \u00c9 um atropelo ao que nos transcende porque implica uma total ignor\u00e2ncia por muita coisa, seja o facto j\u00e1 mais que conhecido de muitos dos animais sentirem de forma muito pr\u00f3xima \u00e0 nossa, seja, t\u00e3o simplesmente, por no\u00e7\u00e3o da nossa pequenez e l\u00f3gica posi\u00e7\u00e3o de humildade perante uma natureza t\u00e3o gigante, poderosa e fascinante.<\/p>\n<p>Um amigo com quem tenho desenvolvido alguns projectos educacionais, dizia-me hoje sobre a forma que usa para rapidamente avaliar a sociedade de uma cidade. Dizia-me o Walter Borges \u201cquando chego a uma cidade vou ao Zoo. A forma como trata o Zoo diz-me como \u00e9 a cidade\u201d. S\u00e1bia esta postura. Fez-me pensar na dignidade com que tratamos os animais e levou-me a fazer este texto<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, hoje a rela\u00e7\u00e3o com os animais, sejam humanos ou n\u00e3o, deveria fezer-se atrav\u00e9s da dignidade. Mas \u00e9 muito estranho que muitos de n\u00f3s necessitem da dor para criar prazer. Seja a dor do comprazimento com desportos de luta, seja a dor infringida a quem \u00e9 inferior hier\u00e1rquico, ou visto, retratado e tido como inferior em termos de g\u00e9nero, de religi\u00e3o ou, simplesmente, por ter gostos e h\u00e1bitos diferentes, ou seja a dor por abandonar, bater, matar um animal. Ou pior, por ter h\u00e1bitos de prazer, sociais, a que chama cultura, como o caso das touradas.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 muito estranho que continuemos a chamar cultura a formas verdadeiramente b\u00e1rbaras de lidar com os animais. E b\u00e1rbaras porque anacr\u00f3nicas. Sou o primeiro a perceber o qu\u00e3o est\u00e1 nos nossos tra\u00e7os mentais toda uma linha de ac\u00e7\u00e3o social em torno da luta, das ferramentas mentais da virilidade castreja que desaguaram, por exemplo, na tourada por altera\u00e7\u00e3o do modelo guerreiro feudal, medieval. Com o fim de um percurso hist\u00f3rico de v\u00e1rios milhares de anos em que a classe guerreira se ginasticava e exercia o poder simb\u00f3lico na luta entre pares ou na ca\u00e7a, chegamos ao chamado Mundo Moderno (s\u00e9cs. XV a XVIII) e o modelo altera-se: a ca\u00e7a de grandes mam\u00edferos desaparece da Europa, e os torneios deixam de fazer sentido na nova sociedade de corte. A tourada \u00e9 uma recria\u00e7\u00e3o desse esp\u00edrito num novo ambiente.<\/p>\n<p>Sei, ainda, o qu\u00e3o antigos s\u00e3o os s\u00edmbolos em torno da forma como se organizou uma sociedade sempre preparada para uma sobreviv\u00eancia colectiva que passava pela luta, pela guerra, pela afirma\u00e7\u00e3o e culto de tudo o que fosse confluir nesse desiderato. O cavalo e o touro s\u00e3o elementos simb\u00f3licos desde as mais recuadas gera\u00e7\u00f5es do Neol\u00edtico por isso mesmo.<\/p>\n<p>Contudo, a nossa civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos levou a outros patamares de consci\u00eancia. Fomos \u00e0 Lua, fazemos m\u00e1quinas excepcionais, cri\u00e1mos formas de globalizar o conhecimento, demos ao mundo obras-primas de sofistica\u00e7\u00e3o e de est\u00e9tica, mas continuamos a bater palmas quando um touro, em agonia, a esvair-se em sangue, com farpas presas ao corpo, avan\u00e7a contra um cavalo e cavaleiro que lhe fogem e que, num momento derradeiro, mais uma farpa lhe cravam no corpo para \u00eaxtase de muitos.<\/p>\n<p>Perdemos o sentido das coisas tornando-as anacr\u00f3nicas. No que respeita \u00e0 tourada, fazia sentido uma luta entre um nobre, ou mesmo um grupo de gente do povo, e um touro quando nas festividades agr\u00e1rias se procurava potenciar a natureza benfazeja para dar alimento, colheitas ricas, para dar \u00e0s comunidades a for\u00e7a dessa natureza contida na pujan\u00e7a do animal selvagem. Fazia ainda sentido essa luta contra um touro quando toda uma comunidade vivia aterrada com a possibilidade de um qualquer recontro b\u00e9lico, e onde a valentia, a virilidade dos seus nobres e guerreiros eram a \u00fanica garantia de paz.<\/p>\n<p>Por mais estranho que possa parecer, nestes dois quadros, a tourada era ecol\u00f3gica. N\u00e3o de uma ecologia simplesmente referente aos seres vivos em equil\u00edbrio no meio envolvente, mas de uma ecologia em que as quest\u00f5es do esp\u00edrito eram desenvolvidas atrav\u00e9s destes ritos de rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<\/p>\n<p>Mas hoje, s\u00e9culo XXI, nada disto faz j\u00e1 sentido. Pior, o que fazia sentido h\u00e1 alguns s\u00e9culos, hoje transformou-se em espect\u00e1culo para g\u00e1udio de uns. Anacr\u00f3nico, perdido o sentido ancestral, em vez de se terem reformulado os ritos, de se terem abandonado as pr\u00e1ticas obsoletas, criaram-se mecanismo de perpetua\u00e7\u00e3o, agora j\u00e1 sem funcionalidade alguma para al\u00e9m de um estilo de vida de certos grupos que se refugiaram em mem\u00f3rias de valentias, de nobrezas e linhagens.<\/p>\n<p>Transformada naquilo que a palavra tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o facilmente permite, a tourada fixou-se e agarrou-se a um quadro de pseudo-identidade, como se lhe fosse poss\u00edvel permanecer inalter\u00e1vel quando todo o mundo se modificou.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, hoje a tourada j\u00e1 n\u00e3o torna sacro um touro. O animal j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 oferecido em sacrif\u00edcio (sacrif\u00edcio = tornar sagrado) para uma fun\u00e7\u00e3o nobre e necess\u00e1ria para a comunidade se sentir entrosada com a natureza, parte dela, e dela recebedora de ben\u00e7\u00e3os. N\u00e3o, hoje temos espect\u00e1culo, com palmas e bilhetes, com neg\u00f3cio. O touro sofre simplesmente para que uns dos tais <em>Sapiens sapiens<\/em> possam ter um momento de adrenalina e de prazer ao ver a dor de outro animal.<\/p>\n<p>Eventualmente, somos os piores cuidadores que o Criador, qualquer que ele seja, colocou para cuidar do Jardim. Talvez, mesmo, o Mr. Smith tenha raz\u00e3o. Somos um v\u00edrus, um cancro para o planeta.<\/p>\n<p>_______________________________________<\/p>\n<p><em>Prof. Paulo Mendes Pinto \u00e9 diretor da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona em Lisboa, Portugal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/lifestyle.publico.pt\/religiaonacidade\/360732_animalia-humana\" >Go to Original \u2013 publico.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transformada naquilo que a palavra tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o facilmente permite, a tourada fixou-se e agarrou-se a um quadro de pseudo-identidade&#8230;. Hoje temos espect\u00e1culo, com palmas e bilhetes, com neg\u00f3cio. O touro sofre simplesmente para que uns dos tais Sapiens sapiens possam ter um momento de adrenalina e de prazer ao ver a dor de outro animal. 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