{"id":75361,"date":"2016-06-20T12:00:53","date_gmt":"2016-06-20T11:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=75361"},"modified":"2016-06-19T17:10:08","modified_gmt":"2016-06-19T16:10:08","slug":"portugues-espiritualidade-especismo-e-a-lacuna-da-simetria-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/06\/portugues-espiritualidade-especismo-e-a-lacuna-da-simetria-etica\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Espiritualidade, especismo e a lacuna da simetria \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_75362\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/m\u00e3o-budista-budhist-hand-medita.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-75362\" class=\"size-full wp-image-75362\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/m\u00e3o-budista-budhist-hand-medita.jpg\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"200\" height=\"160\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-75362\" class=\"wp-caption-text\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>16 de junho de 2016 &#8211; <\/em>A pedra angular do veganismo abolicionista \u00e9 a consist\u00eancia, uma simetria entre pensamento, palavra e a\u00e7\u00e3o. Uma refuta\u00e7\u00e3o sonora da vis\u00e3o de mundo abolicionista certamente nega seus deveres \u00e9ticos correspondentes. Mas a verdade \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o os rejeitamos, j\u00e1 concordamos com eles totalmente.<\/p>\n<p>O veganismo abolicionista, tal como foi desenvolvido por Gary Francione, baseia-se na ideia simples de que todos os animais, humanos e n\u00e3o humanos importam moralmente. N\u00f3s paramos nossos carros na frente de c\u00e3es, guaxinins e veados, porque reconhecemos que estes animais t\u00eam import\u00e2ncia. Eles importam primeiro no sentido de que suas pr\u00f3prias vidas significam algo para eles, e esse \u201csignifica para eles\u201d produz o reconhecimento em n\u00f3s que suas vidas tamb\u00e9m significam algo para n\u00f3s. N\u00f3s intuitivamente entendemos que a forma como nos comportamos em rela\u00e7\u00e3o aos animais importa, significa alguma coisa. Como Gary Steiner afirma em Animais e os Limites do P\u00f3s-modernismo, \u201cA origem dos princ\u00edpios \u00e9ticos n\u00e3o \u00e9 um ponto de vista transcendente isolado. \u00c9 uma sentida rela\u00e7\u00e3o de afinidade de vida com outros seres sencientes. \u201cOs princ\u00edpios \u00e9ticos derivam desta intui\u00e7\u00e3o de \u201cimport\u00e2ncia\u201d, n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as apreendem isso imediatamente. Recentemente, enquanto falava a um grupo de alunos do ensino m\u00e9dio, perguntei se h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre chutar uma bola de futebol e chutar um filhote de cachorro. Os alunos me encararam, incr\u00e9dulos, se perguntando se responder valia a pena. Eu substitu\u00ed o filhote de cachorro com um leit\u00e3o e recebi a mesma resposta. Substituiu a bola de futebol com um girassol e tive a mesma resposta. Eles captaram, os animais s\u00e3o importantes. Dado que os animais importam ent\u00e3o, apenas algo que \u00e9 mais importante pode justificar submete-los ao confinamento, sofrimento e morte. Mas quando somos honestos com n\u00f3s mesmos e admitimos que quase exclusivamente usamos e consumimos animais por raz\u00f5es de gosto, conveni\u00eancia e h\u00e1bito, ent\u00e3o a balan\u00e7a permanece sempre apontando em favor deles. A vida dos animais simplesmente importa mais.<\/p>\n<p>Viver de forma consistente exige que a gente se abstenha de usar e consumir animais completamente. Esta conclus\u00e3o se alinha com o que j\u00e1 acreditamos e um reconhecimento honesto disto pode ser perturbador no in\u00edcio. Muitos n\u00e3o-vegans, especialmente aqueles que participam de comunidades \u201cespirituais\u201d, concordam que os animais importam moralmente. No entanto, ao reconhecer as ramifica\u00e7\u00f5es do mundo real que esta consist\u00eancia demanda, essas mesmas pessoas muitas vezes recuam para no\u00e7\u00f5es \u201cespirituais\u201d supramundanas que assumidamente exoneram seu uso e consumo de animais continuado. De repente, de alguma forma os animais deixam de ter import\u00e2ncia moralmente. De repente os n\u00e3o-vegans invocam a falta de sentido subjacente, a interdepend\u00eancia, a unidade, ou o vazio de toda a exist\u00eancia; como a moralidade \u00e9 apenas uma constru\u00e7\u00e3o humana oca; como todos os seres vivos terrestres s\u00e3o nada al\u00e9m de sofrimento; ou como todas as dualidades, tais como o bem e o mal e certo e errado, s\u00e3o falsas a partir da perspectiva de uma verdade \u201csuperior\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo.<\/p>\n<p>O trecho a seguir \u00e9 de uma entrevista de 2007 para o jornal The Sun com Adyashanti, um professor espiritual americano contempor\u00e2neo. Ele est\u00e1 respondendo a perguntas sobre viol\u00eancia em geral e, em seguida, viol\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos animais:<\/p>\n<p>\u201cO primeiro preceito budista \u00e9 \u2018N\u00e3o mate \u2026\u201d [ainda]<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais despertos ficamos, menos vemos a vida em absolutos. A a\u00e7\u00e3o iluminada n\u00e3o decorre de absolutos. Ela vem da totalidade movendo-se atrav\u00e9s de voc\u00ea. \u201d<\/p>\n<p>O significado do que disse Adyashanti \u00e9 que, mesmo que haja um preceito \u00e9tico objetivo autorit\u00e1rio -\u201cN\u00e3o matar\u201d- um \u201cdespertar\u201d envolve o reconhecimento de que \u201ca a\u00e7\u00e3o iluminada\u201d n\u00e3o deriva de preceitos \u00e9ticos objetivos. Preferencialmente \u201ca\u00e7\u00e3o iluminada\u201d decorre de uma determina\u00e7\u00e3o \u00e9tica subjetiva com base em como \u201ca totalidade move-se atrav\u00e9s de voc\u00ea.\u201d Em outras palavras, a a\u00e7\u00e3o apropriada \u00e9 determinada subjetivamente.<\/p>\n<p>\u201cA vida est\u00e1 matando. Se comemos um vegetal, n\u00f3s o matamos. Se comemos um animal,n\u00f3s o matamos. Ser um organismo vivo \u00e9 matar. N\u00e3o h\u00e1 vida sem morte. Quando morremos, vamos ser nutrientes para outra coisa. \u201d<\/p>\n<p>No entanto, do ponto de vista \u201cdesperto\u201d e, aparentemente objetivo, o orador defende uma equival\u00eancia \u00e9tica entre os que (quem?) s\u00e3o mortos. Qualquer determina\u00e7\u00e3o subjetiva, que alega uma diferen\u00e7a fundamental entre arrancar uma cenoura e esfaquear um porco no pesco\u00e7o \u00e9, portanto, equivocada. Vegetais e animais s\u00e3o igualmente \u201cmortos\u201d e trat\u00e1-los de outra forma ignora a realidade de que \u201ca vida est\u00e1 matando\u201d e que \u201cser um organismo vivo \u00e9 matar.\u201d No entanto, se este \u00e9 realmente o caso, n\u00e3o deve essa equival\u00eancia naturalmente estender-se aos seres humanos, bem como, suas mortes n\u00e3o s\u00e3o diferentes do desenraizamento de cenouras? Bem, n\u00e3o exatamente.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o vejo a vida como um \u201cvale tudo \u201c, mas vi a totalidade passar atrav\u00e9s de pessoas diferentes, de formas diferentes.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo que matar seja matar, seja animal ou vegetal, Adhyashanti nega o \u201cvale tudo\u201d da perspectiva \u00e9tica, que \u00e9 exatamente a conclus\u00e3o l\u00f3gica de sua no\u00e7\u00e3o de uma \u201ctotalidade\u201d com subjetivamente determinados \u201cmovimentos\u201d. E aqui reside o problema central, que \u00e9 bilateral.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, se existem algumas a\u00e7\u00f5es que categoricamente n\u00e3o podem \u201cacontecer\u201d, ent\u00e3o existe um padr\u00e3o objetivo ou \u201cabsoluto\u201d que circunscreve o comportamento, n\u00e3o importa \u201ccomo se move atrav\u00e9s totalidade\u201d o agente em quest\u00e3o. Mas isso simplesmente n\u00e3o se pode obter, se \u201ca a\u00e7\u00e3o iluminada n\u00e3o decorre de absolutos.\u201d<\/p>\n<p>Simultaneamente afirmar que \u201ca totalidade move-se atrav\u00e9s de pessoas de maneiras diferentes\u201d e \u00e9 assim a base para a \u201ca\u00e7\u00e3o iluminada\u201d, enquanto rejeita a permissividade \u00e9tica de certas manifesta\u00e7\u00f5es desta \u201ctotalidade\u201d \u00e9 claramente problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, se algu\u00e9m aceita um limite objetivo para \u201ca\u00e7\u00e3o iluminada\u201d, \u00e9 perfeitamente razo\u00e1vel colocar viol\u00eancia desnecess\u00e1ria para com os animais de forma segura para al\u00e9m desse limite. Em outras palavras, a exce\u00e7\u00e3o do \u201cn\u00e3o vale tudo\u201d pode e deve estender-se a n\u00e3o-humanos. Animais n\u00e3o-humanos, infelizmente, raramente s\u00e3o considerados benefici\u00e1rios dignos da cl\u00e1usula \u201cn\u00e3o vale tudo\u201d, e isto \u00e9 aparentemente o que o orador tem em mente. Essa exce\u00e7\u00e3o \u00e9 quase exclusivamente reservada para as v\u00edtimas humanas de viol\u00eancia, com base em nada mais do que a suposi\u00e7\u00e3o de que o pertencimento \u00e0 esp\u00e9cie em si \u00e9 eticamente relevante. Esta suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia do especismo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou tentando refutar ou humilhar a veracidade da vis\u00e3o de mundo metaf\u00edsica esot\u00e9rica de Adyashanti (ou de qualquer outra pessoa). Eu simplesmente questiono como estritamente os cr\u00edticos contemplativos do veganismo vivem de acordo com as implica\u00e7\u00f5es de suas concep\u00e7\u00f5es supramundanas? Qu\u00e3o harmonizados est\u00e3o seus comportamentos di\u00e1rios com o suposto reconhecimento \u201csuperior\u201d que animais (e humanos?) na verdade n\u00e3o importam moralmente?<\/p>\n<p>Felizmente, eu ainda n\u00e3o encontrei algu\u00e9m que critica a procura de uma mulher por igualdade de remunera\u00e7\u00e3o com base na eventual falsidade de todas as dualidades. Felizmente eu ainda n\u00e3o encontrei algu\u00e9m que evita desviar de c\u00e3es, devido ao natural sofrimento fundamental para com toda a exist\u00eancia encarnada. Felizmente eu ainda n\u00e3o encontrei algu\u00e9m que tolere estupro e genoc\u00eddio baseado na unicidade final de todos os seres e o vazio da individualidade. Felizmente eu ainda n\u00e3o encontrei algu\u00e9m que tacha o assassinato de sua filha \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cser um organismo vivo \u00e9 matar.\u201d Felizmente essas perspectivas \u201csuperiores\u201d n\u00e3o tem jurisdi\u00e7\u00e3o em nossas vidas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Infelizmente h\u00e1 um reflexo nervoso para chamar verdades \u201csuperiores\u201d quando a \u00e9tica do mundo real em rela\u00e7\u00e3o aos animais exige uma mudan\u00e7a fundamental nos h\u00e1bitos pessoais. Mas sejamos honestos. Vamos parar de fingir. Animais importam. N\u00f3s j\u00e1 acreditamos nisso.<\/p>\n<p>Viva de forma consistente. Seja vegan.<\/p>\n<p>____________________________________<\/p>\n<p><em>O artigo foi postado originalmente no portal Ecorazzi e traduzido livremente pela equipe do portal Veggi &amp; Tal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/16\/06\/2016\/espiritualidade-especismo-e-lacuna-da-simetria-etica\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O veganismo abolicionista, tal como foi desenvolvido por Gary Francione, baseia-se na ideia simples de que todos os animais, humanos e n\u00e3o humanos importam moralmente. N\u00f3s paramos nossos carros na frente de c\u00e3es, guaxinins e veados, porque reconhecemos que estes animais t\u00eam import\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-75361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75361\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}