{"id":75721,"date":"2016-06-27T12:00:03","date_gmt":"2016-06-27T11:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=75721"},"modified":"2016-06-27T10:59:50","modified_gmt":"2016-06-27T09:59:50","slug":"portugues-caes-sao-uma-licao-de-vida-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/06\/portugues-caes-sao-uma-licao-de-vida-a-humanidade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Os meus c\u00e3es deram-me uma li\u00e7\u00e3o de humanidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_75722\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/o-amor-de-um-c\u00e3o-dog.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-75722\" class=\"size-full wp-image-75722\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/o-amor-de-um-c\u00e3o-dog.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\" width=\"480\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/o-amor-de-um-c\u00e3o-dog.jpg 480w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/o-amor-de-um-c\u00e3o-dog-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-75722\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>20 de junho de 2016 &#8211; <em>\u201c[Glasgow e Seismic] foram, de certa forma, os meus primeiros filhos. Ensinaram-me a ser humano. Ou como ser um ser humano melhor, a p\u00f4r as necessidades de outra pessoa \u00e0 frente das minhas. Ou talvez tenha sido a minha primeira mulher que me ensinou isso quando decidiu deixar-me com dois c\u00e3es e uma casa vazia\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, cheguei a casa numa tarde chuvosa de novembro, encontrei um caminh\u00e3o de mudan\u00e7as no caminho de acesso e, atr\u00e1s dele, um carro da pol\u00edcia. O meu primeiro pensamento foi r\u00e1pido, claro e instintivo: est\u00e1vamos a ser despejados?<\/p>\n<p>H\u00e1 quase um ano que vivia com a minha mulher numa pequena casa arrendada em Middlebury, Vermont. N\u00e3o tinha sido um ano f\u00e1cil. Discut\u00edamos constantemente, as discuss\u00f5es transformavam\u2013se em confronta\u00e7\u00f5es feias e as confronta\u00e7\u00f5es duravam at\u00e9 tarde na noite.<\/p>\n<p>Mas nessa manh\u00e3 tinha sa\u00eddo de casa sem suspeitar de nada. N\u00e3o estava de todo preparado para a cena que iria encontrar mais tarde nesse dia, a cabeceira de madeira da minha cama a sair pela porta principal, nos bra\u00e7os do meu sogro.<\/p>\n<p>\u201cO que se passa?\u201d, perguntei. \u201cO que est\u00e1 a fazer?\u201d<\/p>\n<p>Ele nem sequer olhou para mim enquanto se dirigia para o caminh\u00e3o de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cVamos precisar que o senhor se afaste da resid\u00eancia\u201d, disse o pol\u00edcia, aparecendo de repente muito perto de mim.<\/p>\n<p>Passariam mais nove anos at\u00e9 eu deixar de beber e, assim, nessa noite \u2013 a noite em que a minha mulher me deixou \u2013 culpei tudo e toda a gente exceto a mim pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Afastei-me da casa e da vis\u00e3o demasiado triste do caminh\u00e3o de mudan\u00e7as, da pol\u00edcia e da carrinha do meu sogro, e dirigi-me diretamente para o bar mais pr\u00f3ximo, onde contei a minha hist\u00f3ria a toda a gente enquanto despejava caneca ap\u00f3s caneca de cerveja morna a dois d\u00f3lares (1,7 euros). N\u00e3o me sentia culpado. N\u00e3o me sentia envergonhado.<\/p>\n<p>Mal me lembro do regresso a casa. Lembro-me \u00e9 do que encontrei quando l\u00e1 cheguei. \u00c0 minha espera \u00e0 porta, esfomeados e desorientados, estavam Glasgow e Seismic, os nossos dois c\u00e3es S\u00e3o Bernardo. Em cima de um caixote de papel\u00e3o logo \u00e0 entrada encontrei uma carta.<\/p>\n<p>A minha mulher explicava que n\u00e3o podia levar os c\u00e3es com ela. Ia mudar-se para casa dos pais enquanto punha a sua vida em ordem e l\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para dois animais de quase 70 quilos cada. No entanto, ela esperava que eu cumprisse as minhas obriga\u00e7\u00f5es para com ela e para com os nossos animais e tomasse conta deles.<\/p>\n<p>Os c\u00e3es olharam para mim. Eu olhei para eles. Come\u00e7\u00e1mos a nossa nova vida juntos.<\/p>\n<p>Nessa primeira noite, subi para o que tinha sido o nosso quarto e, n\u00e3o sabendo o que fazer mais, apaguei as luzes e deitei-me no ch\u00e3o. Os c\u00e3es imitaram-me. Deitaram-se comigo, um de cada lado. Glasgow, a cadela de quatro anos que estava conosco desde cachorrinha, deitou-se nas minhas costas. Seismic, o macho que t\u00ednhamos adotado da Sociedade Protetora dos Animais de Chittenden County, aninhou-se na curva do meu bra\u00e7o. Ele cheirava muito mal. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o cheirava muito melhor.<\/p>\n<p>Numa casa vazia, tudo soa mais alto. Parece uma coisa sem import\u00e2ncia, mas foi transformadora; eu vivia naquela casa h\u00e1 quase um ano e, de repente, ela era-me completamente estranha e deixava\u2013me desorientado. Todas as manh\u00e3s, eu acordava com dois animais gigantes em cima de mim, a respirarem na minha cara, exigindo ser passeados. Eu sa\u00eda com eles e, no regresso, ia verificar o telefone na esperan\u00e7a de, por qualquer raz\u00e3o, ter perdido uma chamada da minha mulher dizendo que tinha mudado de ideias e estava de regresso a casa. Tal chamada nunca aconteceu.<\/p>\n<p>Tentei continuar com a minha vida. Comprava comida, cumprimentava os vizinhos. Agora percebo que estava em estado de choque, fingindo que tudo iria ficar bem. A casa ia ficando desmazelada. O cesto da roupa suja transbordava, os sacos de lixo acumulavam-se na cozinha. A minha cama era um saco-cama.<\/p>\n<p>Os pelos de c\u00e3o juntavam-se em rolos gigantes nos cantos das divis\u00f5es e formavam grandes manchas no tapete. Todos os dias fazia uma hora de caminho para o trabalho e outra de regresso a casa e, sem me ter libertado da minha vida anterior, n\u00e3o conseguia gerir as minhas responsabilidades. Tratei de arranjar algu\u00e9m que tomasse conta dos c\u00e3es.<\/p>\n<p>\u201cAcabou de se mudar para c\u00e1?\u201d, perguntou ela, examinando a casa quase vazia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o\u201d, respondi, incapaz de lhe dizer a verdade. \u201cSabe como \u00e9, optei por uma forma de vida minimalista.\u201d<\/p>\n<p>\u201cCerto.\u201d<\/p>\n<p>Um dia, tive de sair mais cedo do que o habitual para o trabalho. Liguei para a rapariga e disse-lhe que iria deixar a chave debaixo do tapete. Mas ela nunca apareceu. Naquela noite, quando cheguei encontrei o hall encharcado de urina. Na semana seguinte recebi um telefonema no gin\u00e1sio. Os c\u00e3es tinham conseguido sair e estavam a vasculhar no lixo da mercearia ao fundo da rua, a comer salada de frango e outros restos de comida passada de prazo. Tinham sido reconhecidos por um vizinho.<\/p>\n<p>Fui para casa, aterrorizado com a ideia de que eles tivessem sido levados, de que j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estivessem quando eu chegasse, e, em vez deles, encontrasse um carro da pol\u00edcia \u00e0 frente de casa mais uma vez, e um rasto de bolas de pelo a esvoa\u00e7ar pelo p\u00e1tio. Glasgow e Seismic ficavam sempre felizes por me ver, acreditando sempre que eu traria comigo comida de c\u00e3o ou uma pizza de queijo, lhes proporcionasse um belo passeio ou lhes desse um banho. Eles acreditavam em mim quando mais ningu\u00e9m o fazia, nem sequer eu pr\u00f3prio. Acho que os mantive por tanto tempo naquele caos, porque n\u00e3o conseguia suportar a ideia de deixar de os amar, n\u00e3o conseguia suportar a ideia de deixar de ser amado por eles. Mas a verdade era que eu n\u00e3o conseguia cuidar deles, n\u00e3o da maneira que eles precisavam.<\/p>\n<p>Em maio, ouvi um rumor de que uma fam\u00edlia que vivia nos arredores da cidade estava \u00e0 procura de dois c\u00e3es de grande porte para adotar. Passei pela quinta e vi uma cerca branca com mais de um quilometro, um canteiro de flores limpo e arranjado, uma caixa de correio rec\u00e9m-pintada. Guardei o n\u00famero de telefone deles na minha carteira por uma semana antes de lhes ligar. Outra semana passou antes de eu conseguir falar quando algu\u00e9m atendia.<\/p>\n<p>Combinei encontrar-me com a fam\u00edlia numa noite quente de ver\u00e3o, em junho. Meti os c\u00e3es dentro da minha carrinha Chevrolet preta juntamente com os seus brinquedos de roer, camas e tigelas de comida.<\/p>\n<p>Glasgow, como sempre, estava toda animada para entrar no carro. Ela gostava de se sentar no banco do passageiro. Eu abria uma fresta da janela e ela enfiava o nariz no pequeno espa\u00e7o aberto e come\u00e7ava a babar-se, deixando fios de saliva seca ao longo do vidro. Naquele dia, eu estendi a m\u00e3o e afaguei\u2013lhe as orelhas. Chorei enquanto conduzia, chorei enquanto estacionava no parque do supermercado local.<\/p>\n<p>A nova fam\u00edlia l\u00e1 estava dentro da sua carrinha Ford de caixa aberta. Um homem saiu do carro e caminhou na minha dire\u00e7\u00e3o. Eu abri a porta traseira do meu Chevrolet Blazer.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o estes os c\u00e3es?\u201d, perguntou ele.<\/p>\n<p>Eu limitei-me a acenar com a cabe\u00e7a. \u201cPor favor, cuidem bem deles\u201d, disse eu com a voz embargada.<\/p>\n<p>A perda da minha mulher tinha sido repentina, um golpe forte que me atingiu subitamente. A perda dos c\u00e3es, no entanto, tinha tido um per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o; fui-me aproximando dela de forma gradual e, depois, vi-me para l\u00e1 dela, com a press\u00e3o do tempo a empurrar-me inevitavelmente para a frente e para baixo.<\/p>\n<p>Naquela noite, no parque de estacionamento do supermercado, lembro-me de levar o Seismic, que n\u00e3o hesitou, para a parte de tr\u00e1s da outra carrinha. Com Glasgow foi necess\u00e1rio mais persuas\u00e3o. Estava com alguns problemas nos quadris e tinha come\u00e7ado a mover-se mais lentamente. Penso que, atenta ao meu estado de esp\u00edrito, ela entendeu alguma coisa do que estava a acontecer. Finalmente, ambos estavam no outro carro. Abracei-os, inalando o seu cheiro, apertando Glasgow contra mim uma \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Deixei Vermont quando o div\u00f3rcio ficou conclu\u00eddo. N\u00e3o havia nada para mudar, s\u00f3 eu. Pensei que tudo seria diferente quando sa\u00edsse daquela casa, quando as quest\u00f5es legais estivessem resolvidas, quando tivesse um novo emprego, quando deixei de ter esperan\u00e7a de que a minha ex-mulher me ligasse. N\u00e3o passei pela quinta depois de lhes ter entregado Seismic e Glasgow. N\u00e3o os fui visitar. E se eles achassem que eu estava ali para os levar para casa?<\/p>\n<p>S\u00f3 quando fiquei s\u00f3brio e tive os meus pr\u00f3prios filhos \u00e9 que voltei a sentir novamente aquela responsabilidade incr\u00edvel \u2013 a confian\u00e7a total que outro ser deposita em n\u00f3s -, a f\u00e9 em que vamos trazer a pizza, dar os passeios e os banhos quentes. Em que n\u00f3s seremos aquele que guia, que cuida, que ouve.<\/p>\n<p>Glasgow e Seismic j\u00e1 morreram. J\u00e1 passou o dobro, ou mais, do tempo normal de vida de um S\u00e3o Bernardo. Mas eles foram, de certa forma, os meus primeiros filhos. Eles ensinaram-me a ser humano. Ou como ser um ser humano melhor, a p\u00f4r as necessidades de outra pessoa \u00e0 frente das minhas. Ou talvez tenha sido a minha primeira mulher que me ensinou isso quando decidiu deixar-me com dois c\u00e3es e uma casa vazia.<\/p>\n<p>H\u00e1 relativamente pouco tempo, uma noite em que estava sozinho em casa, ouvi a minha filha a gritar no quarto dela. Estava a ter um pesadelo. Subi as escadas, mas quando cheguei ela j\u00e1 tinha adormecido novamente.<\/p>\n<p>Deitei-me ao lado dela na sua pequena cama, beijei-lhe a nuca e afastei-lhe o cabelo do rosto. Depois disse uma pequena ora\u00e7\u00e3o de agradecimento e dei gra\u00e7as por este papel, por esta oportunidade de cuidar.<\/p>\n<p>_______________________________________<\/p>\n<p><em>Pauls Toutonghi, que leciona no Lewis &amp; Clark College, \u00e9 autor do livro de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o <\/em>Dog Gone<em>, editado neste m\u00eas pela Knopf.<\/em><\/p>\n<p><em>Exclusivo <\/em>DN\/The New York Times<\/p>\n<p><em>Esta not\u00edcia foi escrita, originalmente, em portugu\u00eas europeu e foi mantida em seus padr\u00f5es lingu\u00edsticos e ortogr\u00e1ficos, em respeito a nossos leitores.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: <\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/interior\/os-meus-caes-deram-me-uma-licao-de-humanidade-5235812.html\" >Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/20\/06\/2016\/caes-sao-uma-licao-de-vida-humanidade\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c[Glasgow e Seismic] foram, de certa forma, os meus primeiros filhos. 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