{"id":76191,"date":"2016-07-11T12:00:19","date_gmt":"2016-07-11T11:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=76191"},"modified":"2016-07-08T16:07:49","modified_gmt":"2016-07-08T15:07:49","slug":"portugues-doenca-respiratoria-atinge-cerca-de-500-mil-trabalhadores-da-mineracao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/07\/portugues-doenca-respiratoria-atinge-cerca-de-500-mil-trabalhadores-da-mineracao-no-brasil\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Doen\u00e7a respirat\u00f3ria atinge cerca de 500 mil trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>Nova Lima enterra cotidianamente v\u00edtimas de silicose; falta de indeniza\u00e7\u00e3o e \u00f4nus ao Estado s\u00e3o \u201cheran\u00e7as\u201d da minera\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_76192\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/minera\u00e7\u00e3o-brasil-doen\u00e7as.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76192\" class=\"wp-image-76192\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/minera\u00e7\u00e3o-brasil-doen\u00e7as.jpg\" alt=\"Trabalhadores na minera\u00e7\u00e3o \/ Marcelo Cruz\/ Brasil de Fato\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/minera\u00e7\u00e3o-brasil-doen\u00e7as.jpg 640w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/minera\u00e7\u00e3o-brasil-doen\u00e7as-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76192\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores na minera\u00e7\u00e3o \/ Marcelo Cruz\/ Brasil de Fato<\/p><\/div>\n<p><em>6 julho 2016 &#8211; <\/em>Acamado e com uma tosse constante, o ex-minerador Raimundo Brito pede com dificuldades um copo de \u00e1gua \u00e0 filha mais nova, Raquel. Os dias do senhor de 68 anos t\u00eam se resumido \u00e0 fadiga e falta de ar recorrente, tendo a cama como amparo e a morte como certeza.<\/p>\n<p>O aparelho de oxig\u00eanio \u00e9 a mais presente companhia no quarto. Aos 36 anos, Raquel praticamente vive para ajudar o pai. \u201cDou banho, comida na boca, carrego ele para tomar sol, troco a fralda e levo para o hospital quando ele tem crises piores\u201d, relata a filha.<\/p>\n<p>\u201c[S\u00e3o os] anos de trabalho na minera\u00e7\u00e3o\u201d, balbucia Brito.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dele \u00e9 a mesma de um grande n\u00famero de ex-trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o das cidades de Nova Lima, Raposos e Sabar\u00e1, na regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais.<\/p>\n<p>O n\u00famero de trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o no Brasil que t\u00eam silicose (doen\u00e7a respirat\u00f3ria que causa fibrose pulmonar pela inala\u00e7\u00e3o de part\u00edculas contendo di\u00f3xido de sil\u00edcio e poeiras minerais)\u00a0chega a 500 mil nas empresas de extra\u00e7\u00e3o mineral e garimpo, informou a diretora Marta Freitas, da Secretaria de Sa\u00fade de Minas Gerais, a partir dos dados da Frente Sindical Mineral e Funda\u00e7\u00e3o Jorge Duprat e Figueiredo (Fundacentro).<\/p>\n<p>O complexo minerador conhecido como Morro Velho e atual Anglo Gold Ashanti, com sede em Nova Lima, esteve, no per\u00edodo colonial e no s\u00e9culo 20, entre as minas que mais produziram ouro no mundo.<\/p>\n<p>Dominada pelo capital transnacional, a empresa s\u00f3 passou a distribuir Equipamento de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI) a partir dos anos 1990.\u00a0Como consequ\u00eancia disso, trabalhadores j\u00e1 idosos agonizam doentes.<\/p>\n<p>Em 2009, relat\u00f3rio da Anglo Gold Ashanti indicava 3.077 mil ex-trabalhadores diagnosticados com a doen\u00e7a.\u00a0Mas, para o soci\u00f3logo T\u00e1dzio Peters Coelho, que pesquisa a mortalidade desses ex-mineradores, essa conta n\u00e3o fecha.<\/p>\n<p>\u201cCom certeza \u00e9 bem maior esse n\u00famero de doentes, porque tinha muita gente lutando justamente para ser diagnosticada. Muita gente j\u00e1 morreu em decorr\u00eancia da silicose e sem o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Fora os que morreram antes ao longo dos s\u00e9culos\u201d, destacou o acad\u00eamico.<\/p>\n<p><strong>Suborno<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e1dzio explica que muitos trabalhadores se dirigiam aos m\u00e9dicos da Justi\u00e7a do Trabalho e n\u00e3o recebiam o diagn\u00f3stico correto. \u201cCriou-se uma pol\u00eamica na regi\u00e3o, porque esses trabalhadores faleciam sem ter a doen\u00e7a diagnosticada e sem uma causa de morte convincente\u201d, conta.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, h\u00e1 suspeita de suborno pelas mineradoras. \u201cOs m\u00e9dicos que faziam a avalia\u00e7\u00e3o [eram pagos] para esconder o alto \u00edndice de silicose entre os trabalhadores da Anglo Gold Ashanti\u201d, apontou.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica Ana Paula Scalia explica que a silicose \u00e9 facilmente diagnosticada com uma\u00a0radiografia. &#8220;Ou, quando n\u00e3o se esgota o diagn\u00f3stico, \u00e9 poss\u00edvel confirm\u00e1-la com uma tomografia de alta resolu\u00e7\u00e3o no t\u00f3rax\u201d, esclareceu.<\/p>\n<p>Com a deturpa\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico, trabalhadores entraram, nos anos 1990,\u00a0com pedidos de indeniza\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a, recebendo valores de R$ 10 mil a R$ 15 mil, que n\u00e3o custeavam nem os gastos com a doen\u00e7a nem os custos de subsist\u00eancia familiar diante da impossibilidade de o doente trabalhar.<\/p>\n<p><strong>\u201cSem eira nem beira\u201d\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Depois de quase 20 anos da primeira leva de trabalhadores que recebeu algum tipo de compensa\u00e7\u00e3o, em 2010, 25 ex-mineradores com silicose receberam benef\u00edcios.<\/p>\n<p>Desses, oito j\u00e1 haviam morrido quando a senten\u00e7a foi proferida. Um ter\u00e7o deles perdeu, portanto, o direito \u00e0 pens\u00e3o vital\u00edcia determinada pela Justi\u00e7a enquanto vivessem e ao pagamento dos atrasados, cujo total j\u00e1 atingia\u00a0R$ 1,2 milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Brito, mesmo com todas as dificuldades provocadas pela doen\u00e7a, \u00e9 um dos que ainda n\u00e3o recebeu indeniza\u00e7\u00e3o. Mensalmente, ele tem direito a um pec\u00falio do Estado no valor de R$ 280 por conta da silicose.<\/p>\n<p>A filha Raquel diz que o valor n\u00e3o cobre nem as despesas com medicamento e com transporte para idas constantes ao hospital.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 com o espessante, produto para deixar a \u00e1gua mais grossa, pois ele n\u00e3o pode tomar l\u00edquido que engasga, d\u00e1 um gasto de R$ 360 por m\u00eas, fora os gastos quando temos que sair com ele de t\u00e1xi\u201d, reclama.<\/p>\n<p>Edson Morato, de 66 anos, que entrou na mineradora Morro Velho em 1987, est\u00e1 com a mesma doen\u00e7a de Brito e\u00a0vive em uma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria por n\u00e3o receber qualquer compensa\u00e7\u00e3o pelos anos de trabalho na mina.<\/p>\n<p>Com 60% do pulm\u00e3o comprometido pela doen\u00e7a, ele teve mais de oito pneumonias nos \u00faltimos anos. \u201cMesmo com o diagn\u00f3stico de silicose e com muita dificuldade para trabalhar, eu n\u00e3o consegui me aposentar por invalidez. Tamb\u00e9m n\u00e3o consegui uma indeniza\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a\u201d, lamenta.<\/p>\n<p><strong>Massa enferma\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Minas Gerais \u00e9 o estado brasileiro com maior n\u00famero de silicoses diagnosticadas. \u201cAntes um trabalhador adquiria um quadro grave de silicose com 15 anos de trabalho. Recentemente, encontramos trabalhadores de empresas de minera\u00e7\u00e3o e garimpo com quadro avan\u00e7ado de silicose com apenas tr\u00eas anos de trabalho. Ou seja, teremos mais silicose nesse per\u00edodo recente de 70 anos de retomada da minera\u00e7\u00e3o no Brasil do que nos 180 anos do primeiro ciclo de explora\u00e7\u00e3o no per\u00edodo colonial\u201d, revela Marta Freitas, diretora da Secretaria de Sa\u00fade de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9dico auditor do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT), Mario Parreira, um caso de silicose custa muito aos cofres p\u00fablicos. \u201cA Previd\u00eancia Social \u00e9 onerada em R$ 293 mil por cada benefici\u00e1rio, considerando uma vida \u00fatil minimizada depois de adquirir a doen\u00e7a ap\u00f3s a aposentadoria do trabalhador\u201d, explica.<\/p>\n<p>Diante do cen\u00e1rio de epidemia, Raquel\u00a0demonstra rancor com a hist\u00f3ria da minera\u00e7\u00e3o em Nova Lima. \u201c\u00c9 um monte de gente acamada numa cidade que tinha tanto ouro embaixo de uma terra que hoje s\u00f3 sobrou para enterrar, no mesmo lugar dos ouros, esse monte de ex-minerador\u201d, desabafa.<\/p>\n<p><strong>Posi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a Anglo Gold Ashanti, mas n\u00e3o obteve retorno.<\/p>\n<p>_____________________________________<\/p>\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o: Camila Rodrigues da Silva<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/brasildefato.com.br\/2016\/07\/06\/doenca-respiratoria-atinge-cerca-de-500-mil-trabalhadores-da-mineracao\/\" >Go to Original \u2013 brasildefato.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O n\u00famero de trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o no Brasil que t\u00eam silicose (doen\u00e7a respirat\u00f3ria que causa fibrose pulmonar pela inala\u00e7\u00e3o de part\u00edculas contendo di\u00f3xido de sil\u00edcio e poeiras minerais) chega a 500 mil nas empresas de extra\u00e7\u00e3o mineral e garimpo. Nova Lima enterra cotidianamente v\u00edtimas de silicose; falta de indeniza\u00e7\u00e3o e \u00f4nus ao Estado s\u00e3o \u201cheran\u00e7as\u201d da minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-76191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76191\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}