{"id":76274,"date":"2016-07-11T12:00:17","date_gmt":"2016-07-11T11:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=76274"},"modified":"2016-07-10T15:05:09","modified_gmt":"2016-07-10T14:05:09","slug":"portugues-jose-oiticica-definia-o-consumo-de-carne-como-um-vicio-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/07\/portugues-jose-oiticica-definia-o-consumo-de-carne-como-um-vicio-social\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Jos\u00e9 Oiticica definia o consumo de carne como um v\u00edcio social"},"content":{"rendered":"<p><em>Para o escritor e anarquista,\u00a0a sa\u00fade humana deve envolver a alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_76275\" style=\"width: 367px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76275\" class=\"size-full wp-image-76275\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal.jpg\" alt=\"Oiticica via a doen\u00e7a como consequ\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o das leis biol\u00f3gicas (Acervo: Biblioteca Nacional de Portugal)\" width=\"357\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal.jpg 357w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal-216x300.jpg 216w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76275\" class=\"wp-caption-text\">Oiticica via a doen\u00e7a como consequ\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o das leis biol\u00f3gicas (Acervo: Biblioteca Nacional de Portugal)<\/p><\/div>\n<p>\u201cEle comprovou ser o homem, como primata (pelo seu tubo digestivo, intestinos, gl\u00e2ndulas, f\u00f3rmula dent\u00e1ria, por sua estrutura anat\u00f4mica, por sua natureza, enfim), animal vegetalivoro, como muitos povos orientais e habitantes de aldeias da Europa, e n\u00e3o carn\u00edvoro, como as feras. Compreendeu ent\u00e3o que a doen\u00e7a apareceu no homem, como nas plantas, em consequ\u00eancia de um erro de nutri\u00e7\u00e3o. A doen\u00e7a \u00e9, assim, uma decorr\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o das leis biol\u00f3gicas, como que uma puni\u00e7\u00e3o da natureza. Oiticica converte-se ent\u00e3o ao vegetarianismo e a abstin\u00eancia e combate ao \u00e1lcool e o tabaco, discorrendo em muitas confer\u00eancias sobre esses v\u00edcios sociais\u201d, escreveu o anarquista e vegetariano Roberto das Neves, reproduzindo a vis\u00e3o do amigo anarquista, poeta, fil\u00f3logo e ativista vegetariano Jos\u00e9 Oiticica no livro \u201c<em>A\u00e7\u00e3o direta: meio s\u00e9culo de prega\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Reconhecido como o criador da primeira teoria anarquista do Brasil, Oiticica j\u00e1 era vegetariano em 1912, e desde ent\u00e3o assumiu a posi\u00e7\u00e3o de conciliar sua ideologia pol\u00edtica com a defesa do vegetarianismo. De acordo com Neves, ele abandonou o curso de medicina quando conheceu livros sobre evolucionistas e naturalistas que qualificavam a alimenta\u00e7\u00e3o como a melhor forma de preven\u00e7\u00e3o e combate \u00e0s doen\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cSempre fui meio rebelde. Ainda garoto fui expulso do semin\u00e1rio S\u00e3o Jos\u00e9 porque recusei a m\u00e3o \u00e0 palmat\u00f3ria. Mas acabei indo para a Faculdade de Direito e com tal cren\u00e7a que disputei sempre os primeiros lugares com Levi Carneiro, que foi da minha turma. Pois, assim, com uma cren\u00e7a sagrada no direito, fui ao F\u00f4ro levar um alvar\u00e1 para registro. O oficial do registro me cobrou 13$600, quando o Regimento de Custos marcava para o caso apenas 3$600. Protestei. O homenzinho foi perempt\u00f3rio: \u2018N\u00e3o me interessa o que o Regimento diz. Eu preciso viver\u2019. Ap\u00f3s isto larguei o direito\u201d, revela Jos\u00e9 Oiticica em entrevista ao jornalista Mario Camarina em \u201c<em>Confiss\u00f5es de um Anarquista Em\u00e9rito\u201d<\/em>, publicada na revista O Cruzeiro de 23 de maio de 1953.<\/p>\n<p>Oiticica defendia que todo anarquista deveria tornar-se vegetariano e trabalhar em prol da extirpa\u00e7\u00e3o dos v\u00edcios. Segundo ele, a sa\u00fade do homem, tanto f\u00edsica como mental, deve envolver a alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana e uma nova rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com o corpo e com a mente. \u201cA intelig\u00eancia e o aprofundamento intelectual, o exerc\u00edcio da vontade associado \u00e0 moral, a habilidade e a solidariedade, s\u00e3o elementos essenciais para o progresso humano. A forma pela qual os indiv\u00edduos usam as suas energias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s energias c\u00f3smicas como o sol, o ar e a terra chama-se trabalho\u201d, declarou em registro publicado no livro \u201c<em>Nem barb\u00e1rie Nem Civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, de Tereza Ventura.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1911 e 1955, Jos\u00e9 Oiticica lan\u00e7ou 14 livros de poesia, teoria anarquista e filologia. Tamb\u00e9m escreveu as pe\u00e7as teatrais <em>\u201cAzalan!\u201d, \u201cPedras que Rolam\u201d e \u201cQuem os Salva\u201d<\/em>. \u201cPublicou obras de sociologia e lingu\u00edstica, inclusive em jornais populares; difundiu o vegetarianismo entre os trabalhadores; al\u00e9m de ter deixado obras espiritualistas como o op\u00fasculo <em>\u2018Os Sete Eu Sou\u2019<\/em> e uma tradu\u00e7\u00e3o dos <em>\u2018Versos \u00c1ureos\u2019<\/em>, atribu\u00eddos a Pit\u00e1goras\u201d, comenta Tereza.<\/p>\n<p>Oiticica vivia um conflito entre o esp\u00edrito ativo e ativista, portador de conceitos de uma vis\u00e3o pol\u00edtica, e o esp\u00edrito sens\u00edvel e inspirado de um poeta preocupado com a natureza humana, segundo o artigo <em>\u201cAnarquia nos Sonetos de Jos\u00e9 Oiticica\u201d<\/em>, de Maria Aparecida Munhoz de Omena. Considerado pr\u00e9-modernista, ele produziu muitos sonetos, principalmente nos anos de 1911 e 1919. Ainda assim, passou despercebido pelas publica\u00e7\u00f5es que contam a hist\u00f3ria do modernismo no Brasil \u2013 talvez por suas inclina\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. \u201cUma primeira leitura do \u00faltimo livro que publicou em vida, <em>\u2018Fonte Perene\u2019<\/em>, de 1954, revela uma poesia vigorosa, \u00e0 altura dos considerados bons poetas do per\u00edodo\u201d, enfatiza Maria Omena.<\/p>\n<div id=\"attachment_76276\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal2.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76276\" class=\"wp-image-76276\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal2.jpg\" alt=\"\u201cEle comprovou ser o homem, animal vegetalivoro\u201d (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)\" width=\"250\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal2.jpg 345w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/jose-oiticica-vegetarianism-carne-animal2-278x300.jpg 278w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76276\" class=\"wp-caption-text\">\u201cEle comprovou ser o homem, animal vegetalivoro\u201d (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>Idealista, Jos\u00e9 Oiticica que se dividia entre a literatura, o magist\u00e9rio e a milit\u00e2ncia anarquista, escreveu no livro<em> \u201cPrinc\u00edpios e Fins do Programa Anarquista-Comunista\u201d<\/em>, de 1919, que o fim mais alto do anarquismo \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o da plebe, dos verdadeiros produtores, a sentimentos e gostos aristocr\u00e1ticos, substituindo assim a democracia atual, calcada na ignor\u00e2ncia e na pobreza, por uma aristocracia geral, humana. E como o poeta era um desdobramento natural do anarquista, suas insatisfa\u00e7\u00f5es eram comumente transmitidas em seus poemas:<\/p>\n<p><em>\u201cEssa invis\u00edvel causa, que eu procuro<\/em><br \/>\n<em>nos meus tormentos de medita\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>inda \u00e9 o mesmo problema ingrato e obscuro<\/em><br \/>\n<em>Que atormenta homens bons desde Plat\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Esse maldito sonho de ser puro<\/em><br \/>\n<em>\u2013 Apurado na dor \u2013 \u00e9 sonho v\u00e3o:<\/em><br \/>\n<em>E ira semeando dores no futuro\u2026<\/em><br \/>\n<em>Pobres sonhadores que vir\u00e3o!\u201d<\/em><\/p>\n<p>O falecido professor e fil\u00f3logo Olmar Guterres da Silveira, membro da Academia Brasileira de Filologia, definia Jos\u00e9 Oiticica como um sujeito de semblante fechado, sem refinamentos elementares e de sobrecenho carregado. \u201cEis o exterior de um homem cujo brilho eterno desmentia a primeira impress\u00e3o: culto, dedicado, agrad\u00e1vel naquilo que fazia e suave no trato com os alunos\u201d, assinalou. Oiticica faleceu em decorr\u00eancia de infarto no Rio de Janeiro em 30 de junho de 1957, aos 74 anos. Ap\u00f3s sua morte, o advogado e escritor Levi Carneiro o descreveu em mat\u00e9ria publicada no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, como um homem de virtudes f\u00edsicas, morais e intelectuais que n\u00e3o gostava muito de aparecer. Preferia refugiar-se dentro de si mesmo, dedicando-se aos estudos.<\/p>\n<p>O anarquista e escritor foi qualificado como um homem que nada ambicionava a n\u00e3o ser o saber: \u201cNada receava, sen\u00e3o errar. (\u2026) Erudito, cada vez mais refugiado no seu pensamento, n\u00e3o deserdava das ideias que afirmava, nem transigia com os interesses criados numa sociedade da qual se considerava parte\u201d, publicou o Correio da Manh\u00e3, tamb\u00e9m do Rio de Janeiro, no dia 2 de julho de 1957. \u00c9\u00a0atribu\u00edda a Jos\u00e9 Oiticica uma frase que parece referenciar criticamente tanto as desigualdades sociais quanto a rela\u00e7\u00e3o da humanidade com os animais: \u201cQuem vence um fraco, sempre sai vencido.\u201d<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Neves, Roberto. Jos\u00e9 Oiticica: Um anarquista exemplar e uma figura \u00edmpar na hist\u00f3ria do Brasil \u2013 Rio de Janeiro (1970).<\/p>\n<p>Oiticica, Jos\u00e9. A\u00e7\u00e3o Direta: meio s\u00e9culo de prega\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria. Introdu\u00e7\u00e3o e notas de Roberto das Neves. Rio de Janeiro. Editora Germinal (1970).<\/p>\n<p>Ventura, Tereza. Nem Barb\u00e1rie Nem Civiliza\u00e7\u00e3o! S\u00e3o Paulo. Annablume (2006).<\/p>\n<p>Omena, Maria Aparecida Munhoz. Anarquia nos sonetos de Jos\u00e9 Oiticica. Revista Litteris (2009).<\/p>\n<p>Junior, Renato Luiz Lauris. Jos\u00e9 Oiticica: reflex\u00f5es e viv\u00eancias de um anarquista. Universidade Estadual Paulista (2009).<\/p>\n<p>Camarina, Mario. Confiss\u00f5es de um Anarquista Em\u00e9rito. Revista O Cruzeiro, 23\/05\/1953. Ano XXV. N\u00ba 32.<\/p>\n<p>Silveira, Olmar Guterres. Para um ide\u00e1rio do professor Jos\u00e9 Oiticica. Revista Idioma. N\u00ba 20 (1998).<\/p>\n<p>________________________________________<\/p>\n<p><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Rodrigues Leite e Oiticica nasceu em 22 de julho de 1882 em Oliveira, Minas Gerais, Brasil. Era o quarto filho do senador e constituinte Francisco Leite e Oiticica.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2016\/07\/06\/jose-oiticica-definia-o-consumo-de-carne-como-um-vicio-social\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o escritor e anarquista, a sa\u00fade humana deve envolver a alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-76274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76274\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}