{"id":76551,"date":"2016-07-18T12:02:29","date_gmt":"2016-07-18T11:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=76551"},"modified":"2016-07-18T12:22:20","modified_gmt":"2016-07-18T11:22:20","slug":"portugues-a-violencia-uma-contribuicao-a-suas-varias-interpretacoes-1a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/07\/portugues-a-violencia-uma-contribuicao-a-suas-varias-interpretacoes-1a-parte\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Viol\u00eancia: Uma contribui\u00e7\u00e3o a suas v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es (1\u00aa Parte)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-43415\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/leonardo-boff-niemeyer-veja-150x150.jpg\" alt=\"leonardo-boff-niemeyer-veja\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><em>11 julho 2016 &#8211; <\/em>A viol\u00eancia \u00e9 crescente no mundo, particularmente depois das duas guerras contra o Afeganist\u00e3o e o Iraque levadas a efeito pelos USA e seus aliados, ap\u00f3s o atentado em 2001 \u00e0s Torres G\u00eameas em Nova York. Ela \u00e9 particularmente forte no Brasil. Os fatos conhecidos de assaltos de rua e em pr\u00e9dios, de sequestros, de exterm\u00ednio de crian\u00e7as abandonadas e de chacinas por parte de grupos e at\u00e9 de policiais n\u00e3o podem ser entendidos como epis\u00f3dios. Suas ra\u00edzes, como veremos, alcan\u00e7am mais profundas.<\/p>\n<p>O Brasil comparece como um dos pa\u00edses mais violentos do mundo. S\u00f3 no ano de 2015 foram assassinados 66 mil pessoas, a maioria delas negros e habitantes pobres das periferias. Isso \u00e9 mais que as v\u00edtimas das guerras do Iraque, do Afeganist\u00e3o e atualmente da S\u00edria.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise mais cuidadosa mostra uma conex\u00e3o de tais fatos com a totalidade social. Esta \u00e9 marcada por um modelo altamente predat\u00f3rio de capitalismo n\u00e3o civilizado, que leva a uma acumula\u00e7\u00e3o espantosa de riqueza \u00e0 custa da degrada\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, de falta de justi\u00e7a social e da devasta\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>O n\u00famero dos exclu\u00eddos \u00e9 cada vez maior especialmente nesta fase atual de grande crise econ\u00f4mica e financeira (2015) associada \u00e0 crise pol\u00edtica, \u00e9tica e de uma espantosa corrup\u00e7\u00e3o que envolve as grandes empreiteiras e empresas como a Petrobr\u00e1s, a Eletronuclear e outras, al\u00e9m de parte significativa da classe pol\u00edtica da C\u00e2mara e do Senado.<\/p>\n<p>\u00c9 um luxo hoje ser explorado pelo sistema do capital, que compra de forma aviltada a for\u00e7a de trabalho, remunerando-a miseravelmente com a pequena vantagem de, por lei, oferecer um m\u00ednimo de seguridade social. Apesar das pol\u00edticas de inclus\u00e3o dos governos Lula-Dilma h\u00e1 milh\u00f5es que vivem no mercado informal, fora de qualquer benef\u00edcio social que lhes tranquilize em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Tal situa\u00e7\u00e3o configura, objetivamente, um estado de viol\u00eancia. Mais que atos de viol\u00eancia, t\u00eam a ver com estruturas permanentes e continuadas de viol\u00eancia. Vamos analisar-lhes as causas por v\u00e1rios caminhos diferentes. \u00c9 uma pequena contribui\u00e7\u00e3o ao tema t\u00e3o presente e avassalador na realidade nacional e internacional.<\/p>\n<p><strong>Causas Hist\u00f3ricas: Um Pecado de Origem, Nosso Passado Escravocrata e Colonial<\/strong>.<\/p>\n<p>O Brasil tem, no seu come\u00e7o, um pecado original: a viol\u00eancia da conquista e da invas\u00e3o. Fomos e continuamos a ser, de certa forma, col\u00f4nia. A estrat\u00e9gia da atual globaliza\u00e7\u00e3o hegemonizada pelos pa\u00edses centrais \u00e9 recolonizar toda a Am\u00e9rica Latina, quer dizer, reduzi-la a uma produtora e exportadora de <em>commodities<\/em>, reservando para si a inven\u00e7\u00e3o e a tecnologia, vendida cara para o resto do mundo.<\/p>\n<p>De qualquer forma a coloniza\u00e7\u00e3o implica um ato de extrema viol\u00eancia organizada, sistem\u00e1tica e continuada: \u00e9 colocar toda uma na\u00e7\u00e3o, com sua popula\u00e7\u00e3o, com sua cultura, com tudo o que tem, \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o do outro. O colonizado assiste ao congelamento de sua hist\u00f3ria. \u00c9 obrigado a internalizar o outro e o seu mundo de valores e a sua forma de ver o mundo, de organizar a sociedade e de pensar e venerar a divindade.<\/p>\n<p>Todo poder totalit\u00e1rio cria um contra-poder, seja simb\u00f3lico, seja real. A aceita\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o nunca foi pac\u00edfica. Nossa hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de revoltas frustradas, mas nunca totalmente dominadas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, em <em>Concilia\u00e7\u00e3o e reforma, um desafio hist\u00f3rico-cultural <\/em>(Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1965), conta a hist\u00f3ria brasileira a partir das v\u00edtimas. Destr\u00f3i o mito do brasileiro como pac\u00edfico e cordial.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria p\u00e1tria, observa ele, notamos o seguinte paradoxo:<\/p>\n<p><em>\u201c(\u2026) a maioria dominante \u2013 conservadora ou liberal \u2013 foi sempre alienada, antiprogressista, antinacional e n\u00e3o contempor\u00e2nea(\u2026). A lideran\u00e7a nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que n\u00e3o \u00e9. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus servi\u00e7os ao Pa\u00eds, chamou-o de tudo \u2013 Jeca-Tatu -, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprova\u00e7\u00e3o, conspirou para coloc\u00e1-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence\u201d(p.16).<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Por outro lado, as maiores constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto da a\u00e7\u00e3o popular:<\/p>\n<p><em>\u201c(\u2026) a unidade lingu\u00edstica e pol\u00edtica, a expans\u00e3o e a integridade territoriais, a homogeneidade cultural, a toler\u00e2ncia racial e religiosa. No povo, n\u00e3o nas elites poderosas, prevaleceu o esp\u00edrito de concilia\u00e7\u00e3o que atenuava os antagonismos raciais e sociais. Se a massa ind\u00edgena e negra, mesti\u00e7a e cabocla era nas rela\u00e7\u00f5es humanas essencialmente conciliadora, era entretanto inconcili\u00e1vel nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Mostraram um rude inconformismo, que gerou grande derramamento de sangue, a ponto de Capistrano de Abreu escrever que no fim do per\u00edodo colonial, o povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado\u201d(p.30).<\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/strong><strong>A hist\u00f3ria recente do Brasil est\u00e1 em continuidade com seu passado, sendo que quase sempre escrita apenas pela m\u00e3o branca.\u00a0\u00a0 Nela n\u00e3o falaram \u2013 e, se falaram, n\u00e3o foram ouvidos \u2013 os negros, os \u00edndios, os mulatos, as mulheres e os pobres em geral.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um agravante: temos vivido sob o<strong> modo de produ\u00e7\u00e3o escravagista<\/strong>. \u00c9 a maior viol\u00eancia que uma sociedade pode conhecer: a redu\u00e7\u00e3o do outro a pe\u00e7a, a escravo, com senhorio de vida e morte sobre ele. Durante praticamente quatro s\u00e9culos, convivemos com a escravid\u00e3o. Tivemos apenas um s\u00e9culo para desfazer suas perversas consequ\u00eancias. Procura-se desatar um n\u00f3 que na verdade deve ser cortado, como se corta, de vez, um tumor.<\/p>\n<p>Estudos sobre a escravid\u00e3o urbana mostram as ra\u00edzes de alguns h\u00e1bitos culturais e policialescos ainda hoje existentes. O escravo urbano era alugado para servi\u00e7os na rua e vigiado pela pol\u00edcia no lugar do dono; por causa disso, a pol\u00edcia comumente desconfia at\u00e9 hoje do negro e aplica-lhe viol\u00eancia quando o prende ou det\u00e9m (cf. Leila Mezan Alegranti, <em>O feitor ausente<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1988; Ronaldo Vainfas, <em>Ideologia e escravid\u00e3o: os letrados e a sociedade escravista no Brasil colonial.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes, 1986). Importante \u00e9 a obra de Jacob Gorender; <em>A escravid\u00e3o reabilitada<\/em> (S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1990), que critica a moderna produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social sobre o tema, que pretende mostrar a escravid\u00e3o em tons mais benevolentes. Ao inv\u00e9s de rebeli\u00f5es, resist\u00eancia e acomoda\u00e7\u00e3o, o regime escravocrata seria equitativo, doce, na linha do patriarcalismo pintado por <em>Casa-Grande e Senzala<\/em>, de Gilberto Freire. Gorender destr\u00f3i o imagin\u00e1rio mistificador e reincidente dessa interpreta\u00e7\u00e3o com dados irrefut\u00e1veis.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade urbana livre, a viol\u00eancia caracteriza o Estado em sua rela\u00e7\u00e3o para com o movimento oper\u00e1rio e sindical. Maus tratos e torturas eram frequentes contra oper\u00e1rios e l\u00edderes sindicais. Se brasileiros, eram desterrados para lugares long\u00ednquos (Ilha Grande, Fernando de Noronha, etc.); se estrangeiros, eram devolvidos aos pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>A sociedade mostra uma contradi\u00e7\u00e3o absurda: por um lado, n\u00e3o consegue criar emprego para todos; e por outro, prende, por vadiagem, aqueles que encontra na rua e que n\u00e3o conseguem mostrar uma carteira de trabalho assinada. O Estado det\u00e9m, sabidamente, o uso leg\u00edtimo da viol\u00eancia. Mas aqui h\u00e1 um uso injusto e perverso que contradiz a legitimidade do Estado como Estado Democr\u00e1tico de Direito, fruto de um pacto social de cidadania que ganhou corpo na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o social foi, durante muito tempo, tratada como caso de pol\u00edcia, e n\u00e3o como caso pol\u00edtico. Em alguns lugares, a pol\u00edcia prende e maltrata quem se enquadra em algum dos seguintes \u201cp\u00eas: pobre, preto e prostituta. O grave reside nisto: essa viol\u00eancia hist\u00f3rica, na base da domina\u00e7\u00e3o do outro e de sua escraviza\u00e7\u00e3o, formou a subjetividade coletiva de nossas elites. Elas criaram a mentalidade de que o povo nada vale; de que o negro deve ser tratado com viol\u00eancia, porque sempre foi assim; de que, na verdade, n\u00e3o deveria receber nada, nem o sal\u00e1rio m\u00ednimo, pois historicamente sempre serviu gratuitamente aos senhores. E entendem o sal\u00e1rio como ato de generosidade por parte do patr\u00e3o, e n\u00e3o como express\u00e3o de justi\u00e7a. O mecanismo de viol\u00eancia social reside, primeiramente, nas estruturas mentais da classe dominante.<\/p>\n<p><em>Resumindo<\/em><strong>,<\/strong> numa palavra: violenta foi a conquista, violenta foi a rela\u00e7\u00e3o para com o \u00edndio, violenta a rela\u00e7\u00e3o para com o negro, violenta para com o trabalhador organizado, violenta para com todos os que quiseram mudar esta situa\u00e7\u00e3o e sempre violente os pobres at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p><strong>Causas Culturais da Viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A cultura hoje dominante foi imposta pelos dominadores hist\u00f3ricos do povo brasileiro; por isso \u00e9 dominante. O eixo estruturador dessa cultura, como foi visto h\u00e1 muito pelos fil\u00f3sofos sociais, \u00e9 a vontade de poder\/domina\u00e7\u00e3o. Usou-se a viol\u00eancia dura como forma de manter a domina\u00e7\u00e3o; e depois a doce, para garantir a hegemonia. \u00c9 socialmente aceito o uso da viol\u00eancia nesse tipo de cultura dominante. A persist\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se deve principalmente porque ele criou uma cultura produtivista e consumista, hoje difundida no mundo inteiro.<\/p>\n<p>Essa domina\u00e7\u00e3o obriga a tr\u00eas atitudes: ou ao submetimento para sobreviver, implicando a trai\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria hist\u00f3ria; ou a resist\u00eancia, a rebeli\u00e3o e a clandestinidade, com a consequente possibilidade de persegui\u00e7\u00e3o, de c\u00e1rcere, de tortura e de morte; ou o disfarce, o simulacro e o \u201cjeitinho\u201d- sobrevive adaptando-se e, ao mesmo tempo, aproveitando todos os espa\u00e7os, frestas e contradi\u00e7\u00f5es da domina\u00e7\u00e3o para manter e preservar a pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Criou-se uma cultura do medo, hoje dominante; cultura da seguran\u00e7a dos grupos abastados, das grades, do ex\u00e9rcito paralelo de defesa dos opulentos, causadores do conflito b\u00e1sico da sociedade. E do outro lado, gangues, organiza\u00e7\u00f5es de assaltantes, crime organizado. Essas duas realidades se implicam dialeticamente.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cultura da corrup\u00e7\u00e3o de colarinho branco. H\u00e1 o mundo do crime organizado no estrato empresarial. No mercado e dentro do pr\u00f3prio aparelho de Estado. Essa pol\u00edtica, para ser efetiva, necessita corromper a imprensa, a justi\u00e7a, as autoridades de controle e a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, dialeticamente, um outro tipo de viol\u00eancia, que vem das organiza\u00e7\u00f5es da criminalidade, baseadas na vontade de enriquecer por meio do crime ou mediante o tr\u00e1fico de drogas, o jogo e a venda de armas e produtos importados. Esta \u00e9 movida por prop\u00f3sitos individualistas de enriquecimento r\u00e1pido e pela busca desenfreada de prazer. Aqui funcionam duas regras b\u00e1sicas: a da for\u00e7a bruta das armas de fogo, cada vez mais potentes e sofisticadas, e a posse de muito dinheiro, com o qual tudo se compra.<\/p>\n<p>H\u00e1 hoje quadrilhas, nos grandes centros urbanos, que se articulam numa organiza\u00e7\u00e3o central; h\u00e1 hierarquia, e os <em>cabe\u00e7as<\/em> devem obedi\u00eancia a comandos mais altos. Ali se decide sobre a vida e a morte dos membros das v\u00e1rias gangues. Vigora uma l\u00f3gica de submetimento total; caso contr\u00e1rio, funciona o mecanismo da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Mata-se para mostrar coragem e disposi\u00e7\u00e3o; mata-se pelo prazer de matar; mata-se para eliminar um advers\u00e1rio do amigo, e assim dar-lhe um agrado ou fazer-lhe uma surpresa; mata-se por qualquer erro, porque deu \u201cderrame\u201d, deu \u201cvolta\u201d, porque criou inc\u00f4modo no arranjo de poder das quadrilhas. A rela\u00e7\u00e3o do chefe com os subordinados \u00e9 de total domina\u00e7\u00e3o, respectivamente de depend\u00eancia. Nas guerras entre quadrilhas, produz-se um verdadeiro exterm\u00ednio de um e de outro lado. A l\u00f3gica \u00e9 a da guerra total. No conjunto da CEHAB, no Rio (com 150 mil habitantes), em 13 anos morreram 722 jovens com idade entre 13 e 25 anos (Cf. Alba Zaluar, A criminaliza\u00e7\u00e3o de drogas e o reencantamento do mal. In: <em>Revista do Rio de Janeiro<\/em>, UERJ, n. 1, 1993, p. 8-15; aqui, 12).<\/p>\n<p><strong>Causas Pol\u00edticas Da Viol\u00eancia: A Sociedade de Exclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>O tipo de sociedade vigente vem organizada na espolia\u00e7\u00e3o violenta da mais-valia do trabalho e na exclus\u00e3o de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. O conflito real \u00e9 entre o capital e o trabalho, que d\u00e1 origem a uma desenfreada luta de classes, com a domina\u00e7\u00e3o permanente dos donos do poder desde o in\u00edcio de nossa hist\u00f3ria. Essa luta cria viol\u00eancia em todos os campos:<\/p>\n<ul>\n<li>no campo econ\u00f4mico, com os baixos sal\u00e1rios e a privatiza\u00e7\u00e3o da verba p\u00fablica;<\/li>\n<li>no campo pol\u00edtico, mediante a produ\u00e7\u00e3o de uma cidadania menor, que se expressa pela corrida aos cargos p\u00fablicos por parte dos partidos que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao governo e se valem de benesses p\u00fablicas; pelos sindicatos pelegos, cooptados ou desnaturados em sua fun\u00e7\u00e3o; pela guerra no campo por falta de reforma agr\u00e1ria e devido \u00e0s dificuldades de organiza\u00e7\u00e3o participativa;<\/li>\n<li>no campo cultural, pelo desprezo \u00e0 cultura popular e pela domina\u00e7\u00e3o da cultura da m\u00eddia de massa sobre a popula\u00e7\u00e3o, influenciada pelos estere\u00f3tipos da cultura globalizada de origem norte-americana;<\/li>\n<li>no campo religioso, pelo n\u00e3o-reconhecimento das religi\u00f5es populares, afros; pela manipula\u00e7\u00e3o dos sentimentos religiosos do povo por l\u00edderes que transformam os templos em verdadeiras casas de c\u00e2mbio ou em programas de televis\u00e3o que propiciam o fundamentalismo e \u00e0 guerra religiosa; e ainda pela folcloriza\u00e7\u00e3o da piedade popular;<\/li>\n<li>no campo educacional, com a escola negada a milh\u00f5es de pessoas, o que explica o alto \u00edndice de analfabetismo real ou funcional e com os professores desestimulados;<\/li>\n<li>no campo sanit\u00e1rio, pela falta de cuidado com a sa\u00fade do povo, sem hospitais, postos de sa\u00fade, rem\u00e9dios e dentistas apesar da cria\u00e7\u00e3o do SUS e das UPAS. O Brasil real \u00e9 feito de doentes e de sobreviventes da grande tribula\u00e7\u00e3o que os afeta secularmente.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, sob a influ\u00eancia do ajustes estruturais, leva a substituir a preocupa\u00e7\u00e3o pelo desenvolvimento por aquela da estabiliza\u00e7\u00e3o e do combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o sempre beneficiando o mercado e as grandes fortunas. Segundo dados do IBGE de 2013 s\u00e3o 10% da popula\u00e7\u00e3o que controlam 42% renda nacional. Jess\u00e9 de Souza fornece-nos o n\u00famero, exatamente 77.440 pessoas de biblion\u00e1rios que influenciam as pol\u00edticas oficiais, pressionam o Estado e o Parlamento, constituindo o verdadeiro poder oculto do pa\u00eds (Jess\u00e9 Souza, <em>A tolice da intelig\u00eancia brasileira, Leya 2015)<\/em>.<\/p>\n<p>Quando v\u00ea seus interesses contrariados, n\u00e3o lhes custa, de tempos em tempo, passar por cima da Constitui\u00e7\u00e3o e dar um golpe de classe, seja usando a for\u00e7a militar como em 1964, seja como em 2016 o impeachment de uma Presidenta eleita, Dilma Rousseff com mais de 54 milh\u00f5es de votos, contra a qual, pessoalmente n\u00e3o se pode apontar nenhum crime, usando o Parlamento e o Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pouco considera os custos sociais (congelamento da mis\u00e9ria e a pobreza); cobra a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no mercado mundial, com descaso pela soberania nacional e popular; imp\u00f5e um di\u00e1logo Norte-Sul, mas exclui da agenda os temas da fome mundial, da d\u00edvida externa e seus perversos efeitos sociais e atualmente a grave quest\u00e3o do aquecimento global e a degrada\u00e7\u00e3o crescente das bases f\u00edsico-qu\u00edmicas que sustentam a vida.<\/p>\n<p>Todo esse processo tem por efeito prolongar a heran\u00e7a tr\u00e1gica e exclus\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros que, para sobreviver, t\u00eam de continuamente cometer o ilegal, viver do com\u00e9rcio informal, de pequenos roubos e delitos. Sobre eles caem pesadas puni\u00e7\u00f5es legais e sociais (cf. Ribeiro, H<em>. A identidade do brasileiro: capado, sangrado e festeiro.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes, 1994).<\/p>\n<p><strong>Causas Psicossociais da Viol\u00eancia: O Desejo de Compensa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As classes dominantes internalizaram dentro de si a convic\u00e7\u00e3o de que elas tudo podem. E de que s\u00e3o impunes. O autoritarismo ligado \u00e0 impunidade e, por isso, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, que tudo acoberta, \u00e9 uma das origens da viol\u00eancia, como o viu bem a pesquisadora Alba Zaluar (cf. Estat\u00edsticas macabras. In: <em>Jornal do Brasil<\/em> de 1.9.1994, p. 11).<\/p>\n<p>As classes dominadas internalizaram o car\u00e1ter violento, injusto e desigual de sua situa\u00e7\u00e3o. Elas n\u00e3o veem seu direito \u00e0 seguran\u00e7a realizado; t\u00eam de se defender por si mesmas. Usam da viol\u00eancia \u2013 que, na verdade, \u00e9 antiviol\u00eancia, rea\u00e7\u00e3o a uma viol\u00eancia anterior \u2013 como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia e tamb\u00e9m como meio pol\u00edtico de recuperar o que lhes foi negado ou expropriado. Vingam-se assaltando e destruindo. Esse processo, geralmente, n\u00e3o \u00e9 conscientizado nem racionalizado pelas classes dominadas, no sentido de ser fruto de uma reflex\u00e3o anterior. \u00c9 uma rea\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do inconsciente, que busca uma compensa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 uma vingan\u00e7a pelo mal de que foram v\u00edtimas. Psicanalistas enfatizaram esse tipo de viol\u00eancia (cf. R. Amoretti (org). <em>Psican\u00e1lise e viol\u00eancia<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1992)<\/p>\n<p>Rubem Fonseca retratou bem essa situa\u00e7\u00e3o no seu livro de contos <em>O cobrador<\/em> (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979). O personagem \u00e9 um empobrecido da classe m\u00e9dia, tamb\u00e9m chamado na linguagem comum de \u201cmarginal\u201d, por praticar atos il\u00edcitos. Ele entende ser sua miss\u00e3o conquistar \u00e0 for\u00e7a o que julga ter-lhe sido roubado pela sociedade dominante. Por isso, diz:<\/p>\n<p><em>\u201cT\u00e3o me devendo col\u00e9gio, namorada, aparelho de som, respeito, sandu\u00edche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol. Est\u00e3o me devendo meia, cinema, fil\u00e9 mignon\u2026 Est\u00e3o me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume\u2026 Sempre tive uma miss\u00e3o e n\u00e3o sabia. Agora sei\u2026 sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo<\/em> <em>seria melhor e mais justo\u201d (p. 168, 174, 176, 181).<\/em><\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 o princ\u00edpio de um pensamento social constru\u00eddo a partir da criminalidade social. Descobre-se a sociedade de desiguais como causadora da pobreza. Usa-se ainda a for\u00e7a individual, a fim de alcan\u00e7ar a compensa\u00e7\u00e3o para interesse particular. \u00c9 uma vis\u00e3o individualista. Por isso, ela n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1ria. Na verdade, ela refor\u00e7a uma vis\u00e3o conservadora, porque, se por um lado questiona a estrutura social in\u00edqua \u2013 o que \u00e9 um problema pol\u00edtico -, por outro, n\u00e3o percebe que esta deve ser mudada coletivamente para impedir a perpetua\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a e da desigualdade. O indiv\u00edduo busca o seu, pela viol\u00eancia, para se compensar, sem mudar nada no sistema. Um problema pol\u00edtico demanda uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e n\u00e3o meramente individualista.<\/p>\n<p>Pol\u00edtico seria organizar grupos marginais no sentido de querer transformar semelhante sociedade mediante processos de conscientiza\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de \u201corganiza\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas\u201d, com pr\u00e1ticas transformadoras, a partir de um projeto de nova sociedade. Esse discurso apenas apontou em alguns l\u00edderes \u201cmarginais\u201d, como, h\u00e1 tempos, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ao serem presos ap\u00f3s um enfrentamento com policiais, declararam que as favelas precisavam de um Lenin e de um Che Guevara. Numa palavra: de revolucion\u00e1rios para instaurar uma nova sociedade sem favelas. Dias ap\u00f3s foram todos mortos.<\/p>\n<p>Mas a burguesia e o Estado temem exatamente esse tipo de racioc\u00ednio. Pois este, sim, \u00e9 revolucion\u00e1rio e os amea\u00e7a como um todo. Enquanto ficar individualizada, a viol\u00eancia n\u00e3o mete medo. Pelo contr\u00e1rio, o Estado pode aplicar tranquilamente as leis e punir os marginais. E a burguesia se sente segura em sua ordem que, na verdade, \u00e9 ordem pol\u00edtico-jur\u00eddica dentro de uma grande desordem social da qual ela \u00e9 sua principal causa.<\/p>\n<p>A burguesia gosta de dramatizar a viol\u00eancia pelos jornais, pela TV, mostrando os n\u00edveis de perversidade dos crimes e o n\u00famero de v\u00edtimas feitas. Consegue elevar a viol\u00eancia urbana ao n\u00edvel de problema nacional e, num certo tempo, de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Na verdade, olhando-se os n\u00fameros, morre muito mais gente em acidentes de tr\u00e1fego (cerca de 50 mil anualmente), em acidentes de trabalho e em consequ\u00eancia da fome e das doen\u00e7as da fome do que v\u00edtimas de assaltos. Aqueles n\u00fameros n\u00e3o amea\u00e7am os detentores do sistema e a ordem que os beneficia. Tal realidade violenta, que mata a cada minuto, n\u00e3o \u00e9 dramatizada, e por isso \u00e9 feita socialmente suport\u00e1vel.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia urbana vem dramatizada visando a um efeito pol\u00edtico: conseguir a persegui\u00e7\u00e3o, a pris\u00e3o e eventualmente a morte dos criminosos. Dessa forma, a classe dominante consegue fazer esquecer que ela est\u00e1 assentada sobre uma viol\u00eancia origin\u00e1ria, provocada por ela mesma. Encontra bodes expiat\u00f3rios nos criminosos comuns. Da\u00ed a import\u00e2ncia da vigil\u00e2ncia, do controle e da repress\u00e3o, com aparato e circunst\u00e2ncia, sobre as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas ou \u201cmarginais\u201d ao sistema. (cf. L. Moscatelli. <em>Pol\u00edtica da<\/em> <em>repress\u00e3o: for\u00e7a e poder de uma justi\u00e7a de classe<\/em>. Rio de Janeiro: Achiam\u00e9, 1982).<\/p>\n<p><strong>Causas Individuais da Viol\u00eancia: a Agressividade humana<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m viol\u00eancia por raz\u00f5es subjetivas em pessoas individuais e em grupos. \u00c9 conhecida uma cl\u00e1ssica discuss\u00e3o cient\u00edfica sobre a origem da agressividade humana. Freud, Einstein. Lorenz, Fromm e outros a abordaram explicitamente. Ultimamente, Ren\u00e9 Girard, como abordaremos com mais detalhe, pretende estabelecer a arqueologia da viol\u00eancia social.<\/p>\n<p>Para Freud, a agressividade \u00e9 express\u00e3o da dramaticidade da vida humana, cujo motor \u00e9 a luta renhida entre o princ\u00edpio de vida (<em>eros<\/em>) e o princ\u00edpio de morte (<em>th\u00e1natos<\/em>). Sentindo-se amea\u00e7ada, a pessoa se antecipa e agride ou eventualmente mata a outra. Para Freud, \u00e9 imposs\u00edvel aos humanos controlar totalmente o princ\u00edpio de morte. Por isso, sempre haver\u00e1 viol\u00eancia na sociedade. Mas por leis, pela religi\u00e3o, pela educa\u00e7\u00e3o e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virul\u00eancia e controlar seus efeitos perversos (cf. Sobre mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. <em>Obras Completas.<\/em> Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 5).<\/p>\n<p>Para Lorenz, a agressividade \u00e9 um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a raz\u00e3o construiu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializa sua for\u00e7a e assim pode se impor aos demais. E criou-se uma l\u00f3gica pr\u00f3pria da viol\u00eancia. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrar substitutivos: voltar \u00e0 raz\u00e3o dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodom\u00ednio cr\u00edtico do pr\u00f3prio entusiasmo que leva \u00e0 cegueira e, da\u00ed, \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Mas Lorenz reconhece que a guerra somente desaparecer\u00e1 quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a for\u00e7a bruta (cf. <em>Das sogenannte B\u00f6se: Zur Naturgeschichte der Aggression<\/em>. Viena, 1964).<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o nos reconduz ao ch\u00e3o da hist\u00f3ria. Devemos ser realistas. Da forma como o ser humano est\u00e1 cultural e socialmente estruturado, ele traz consigo consider\u00e1veis fatores de viol\u00eancia objetiva. Estes poder\u00e3o ser minimizados, controlados, mas n\u00e3o totalmente eliminados. E assim chegamos a um ponto radical da an\u00e1lise que importa enfrentar: a raiz origin\u00e1ria da viol\u00eancia, a a estrutura do desejo humano articulado para a rivalidade e que gera as desigualdades sociais e, assim, conflito e viol\u00eancia. Al\u00e9m disso verificou-se historicamente a ruptura da re-liga\u00e7\u00e3o com todas as coisas, tornando-nos inimigos delas e assim passaos a agredi-ls. Analisemos essas perspectivas.<\/p>\n<p><strong>A causa profunda da Viol\u00eancia: A Hip\u00f3tese no Desejo Mim\u00e9tico<\/strong><\/p>\n<p>O formulador dessa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 Ren\u00e9 Girard (1923-), professor de Letras, antrop\u00f3logo e fil\u00f3sofo franc\u00eas que vive nos EUA (<em>A viol\u00eancia e o<\/em> <em>sagrado.<\/em> Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; <em>Le bouc \u00e9missaire<\/em>. Paris: Grasset, 1982; <em>Des choses cach\u00e9es depuis la fondation du monde.<\/em> Paris: Grasset, 1978, e outros). Vamos nos deter com mais detalhe nesta interpreta\u00e7\u00e3o pelo seu alto valor explicativo.\u00a0 Analisando grandes obras liter\u00e1rias e mitos transculturais, Girard observou o seguinte mecanismo: na raiz de tudo, est\u00e1 a estrutura do desejo humano, coisa que os grandes mestres e pensadores sempre viram (Isa\u00edas, Arist\u00f3teles, Freud, s\u00e1bios budistas\u2026). O desejo constitui a grande mola propulsora das transforma\u00e7\u00f5es e da busca do novo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma particularidade, observa Girard, que escapou \u00e0 an\u00e1lise, geralmente de cunho privatista e subjetivista: no desejo n\u00e3o h\u00e1 apenas dois termos, o sujeito desejante e o objeto desejado; h\u00e1 sempre o outro, o terceiro, que, segundo Girard, funciona como rival. O rival deseja o mesmo objeto que o outro, n\u00e3o por acaso ou por mera coincid\u00eancia, mas por uma estrutura de fundo, ligada ao pr\u00f3prio desejo humano. Este \u00e9 tendencialmente infinito. Deseja-se n\u00e3o somente isto e aquilo, mas a totalidade, tudo. \u00c9 um projeto aberto ao infinito.<\/p>\n<p>Por isso, o ser humano n\u00e3o sabe concretamente o que deseja. O ser, o todo, a parte? Arist\u00f3teles j\u00e1 observava que o objeto do desejo \u00e9 o <em>\u00e1peiron<\/em>, o todo indeterminado. Por essa porta, entra Girard ao dizer: o desejo se determina somente a partir do rival. Cada pessoa deixa o vago e ganha configura\u00e7\u00e3o concreta. Portanto, o desejo \u00e9 essencialmente mim\u00e9tico. Eis a palavra-chave de Girard: o desejo mim\u00e9tico (<em>mimesis<\/em> = imita\u00e7\u00e3o). O ser humano desejo o que o outro deseja. Um imita o outro.<\/p>\n<p>O desejo mim\u00e9tico, entretanto, \u00e9 gerador de conflito, pois os dois desejam o mesmo objeto. Entram em rivalidade. Cada um quer tomar exclusivamente para si o objeto e com isso realizar o seu desejo. Para tal efeito, sente-se obrigado a excluir o outro. Esse conflito se agiganta quando entram grupos que coletivamente desejam. Quanto mais pessoas e grupos desejam o mesmo objeto, mais cresce a rivalidade, mais aumenta o conflito, mais se agu\u00e7a a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O desejo mim\u00e9tico funciona como um <em>feedback<\/em>: eu imito meu rival; meu rival me imita. O modelo vai tornar-se o modelo de seu modelo. Ent\u00e3o, tudo se torna rec\u00edproco. Por que essa reciprocidade? pergunta-se Girard. Ele constata que essa reciprocidade, no bem e no mal, nunca foi devidamente analisada pelos antrop\u00f3logos que dela se ocupam. A partir dela, surge a seguinte l\u00f3gica: quanto mais se deseja o mesmo objeto, mais se procura imitar o outro e mais e mais se procura destruir o outro, ou destruir o objeto desejado pelo outro ou por todos os outros.<\/p>\n<p>O auge do mimetismo e, com isso, o auge da viol\u00eancia, \u00e9 alcan\u00e7ado quando os rivais se unem e criam a unanimidade mim\u00e9tica. Todos se unem contra um s\u00f3, sobre o qual todos realizam o bouling e descarregam sua viol\u00eancia. Os muitos t\u00eam diante de si apenas um rival, que importa abater. Ele ser\u00e1 a v\u00edtima.<\/p>\n<p>O desejo mim\u00e9tico \u00e9, pois, essencialmente vitimat\u00f3rio. Produz v\u00edtimas por todos os campos onde se expressa o desejo concorrencial humano.<\/p>\n<p>O processo vitimat\u00f3rio \u00e9 extremamente fecundo. Para Girard, a produ\u00e7\u00e3o da v\u00edtima funda a sociedade e a cultura. Vejamos as raz\u00f5es dessa surpreendente afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando todos (menos um, feito v\u00edtima) se unem para descarregar a viol\u00eancia em cima da v\u00edtima, criam uma comunidade. Descarregam toda a viol\u00eancia em cima dela. Disso resulta a paz e a harmonia, vistas como gra\u00e7a alcan\u00e7ada pela pr\u00f3pria v\u00edtima, que, com sua morte, trouxe tal benef\u00edcio. A v\u00edtima aparece como causa da desordem (todos se unem para elimin\u00e1-la) e, ao mesmo tempo, causa do retorno da ordem (porque agora, morta, n\u00e3o amea\u00e7a a mais ningu\u00e9m, e todos desaguaram sobre ela sua viol\u00eancia e assim se apaziguaram).<\/p>\n<p>Girard afirma que a cria\u00e7\u00e3o da v\u00edtima (o bode expiat\u00f3rio) \u00e9 fundadora da comunidade e da cultura. Todos se unem para punir a v\u00edtima. A raz\u00e3o reside nisso: se a viol\u00eancia fosse deixada por si mesma, criar-se-ia uma cadeia ininterrupta de viol\u00eancia e de vingan\u00e7a. Um teria de matar o outro, porque esse outro, matou, e assim indefinidamente, como, ali\u00e1s, aparece claramente nas trag\u00e9dias gregas. A cria\u00e7\u00e3o da v\u00edtima faz com que todos descarreguem a viol\u00eancia nela, e assim se constitui a comunidade sem viol\u00eancia autodevoradora.<\/p>\n<p>Os gregos chamavam de <em>ph\u00e1rmakos<\/em> (donde vem a palavra farm\u00e1cia, loja de produtos curativos e farmac\u00eauticos) \u00e0s v\u00edtimas humanas. Eram pessoas que a sociedade mantinha a expensas do er\u00e1rio e que eram sacrificadas em momentos de crise. Nessa ocasi\u00e3o, eram levadas pelas ruas, em todos os cantos da cidade, para absorver as impurezas do ambiente. Eram pessoas a um tempo desprez\u00edveis e respeit\u00e1veis. Desprez\u00edveis porque incorporavam toda a perversidade da comunidade. Respeit\u00e1veis porque, mediante a sua sacrifica\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ar-se-ia o apaziguamento da comunidade. Com sua sacrifica\u00e7\u00e3o, produzir-se-ia um efeito \u201cfarmac\u00eautico\u201d, isto \u00e9, curativo. Toda a hostilidade e viol\u00eancia latente da cidade ficava drenada e apaziguada pela v\u00edtima.<\/p>\n<p>Inicialmente, sacrificava-se um filho, um deficiente f\u00edsico, um prisioneiro, um escravo, enfim, algu\u00e9m da fam\u00edlia humana. Depois, substituiu-se a v\u00edtima por um animal que guardasse certa analogia com os humanos \u2013 o cordeiro ou o bode expiat\u00f3rio em quem se pudesse descarregar toda a vingan\u00e7a. A v\u00edtima tem sempre uma fun\u00e7\u00e3o vic\u00e1ria: ela est\u00e1 no lugar de toda a comunidade, que, ao descarregar sobre ela sua viol\u00eancia, chega \u00e0 paz e \u00e0 conc\u00f3rdia social.<\/p>\n<p>Com o processo civilizat\u00f3rio, procurou-se substituir a v\u00edtima pela lei. N\u00e3o basta sacrificar de vez em quando. O processo do desejo mim\u00e9tico sempre est\u00e1 ativo. Ent\u00e3o surge a lei, que cria o interdito e a proibi\u00e7\u00e3o, e destarte se rompe a cadeia da viol\u00eancia e da vingan\u00e7a. A lei cumpre a fun\u00e7\u00e3o de ordem social. A comunidade, agora, em vez de matar as pessoas (v\u00edtimas), aplica-lhes as leis e as penas da lei. Com isso, a sociedade se apazigua, como outrora, quando matava de verdade. Agora mata simbolicamente, impondo penas, isolando as pessoas em cadeias e, em casos-limite, condenando-as legalmente \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Nessa passagem do sacrif\u00edcio \u00e0 lei, cria-se, segundo Girard, o rito. Pelo rito se recorda e se celebra o benef\u00edcio que a v\u00edtima trouxe com sua morte; vale dizer, a paz, o apaziguamento e a coes\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ao da comunidade. Por fim, elabora-se o mito, que \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica e dram\u00e1tica de todo esse processo ritualizado.<\/p>\n<p>Lei, rito e mito, consoante Ren\u00e9 Girard, est\u00e3o na base de toda cultura e das institui\u00e7\u00f5es que dela derivam. Essas tr\u00eas pilastras visam a fechar a boca da v\u00edtima; s\u00e3o constru\u00eddas pelos que sacrificaram a v\u00edtima e a mant\u00eam como v\u00edtima.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o fazemos sacrif\u00edcios como outrora. Mas temos tamb\u00e9m nossas v\u00edtimas, dentro de mecanismos sacrificialistas quem sabe at\u00e9 mais perversos. Como tese geral, devemos dizer: onde h\u00e1 institui\u00e7\u00f5es, rebrota a viol\u00eancia. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o sistemas auto-reguladores e sacrificiais.\u00a0\u00a0 Punem, excluem e at\u00e9 eliminam quem n\u00e3o se ajusta a elas. Elas concretizam leis e normas estruturadas, possuem seus ritos e elaboram um mito justificador de sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Especialmente sacrificiais s\u00e3o, na atualidade, o sistema econ\u00f4mico e o mercado. J\u00e1 Adam Smith, pai da economia pol\u00edtica, dizia: toda sociedade civilizada deixa morrer aqueles que n\u00e3o chegam a garantir sua subsist\u00eancia. Quem est\u00e1 no sistema, no conjunto articulado de leis, normas e institui\u00e7\u00f5es, vive; quem n\u00e3o est\u00e1, \u00e9 alijado e morre.<\/p>\n<p>A harmonia, portanto, est\u00e1 baseada em algo terr\u00edvel: deixar morrer aqueles que n\u00e3o entram na harmonia. Ent\u00e3o, a ordem institu\u00edda produz desordem. E vive como ordem na medida em que exclui todos os que n\u00e3o s\u00e3o capazes de entrar nela e nela se manter. Assim \u00e9 no mercado auto-regulador: quem \u00e9 forte no mercado, vive e progride; quem \u00e9 fraco, \u00e9 apeado, eliminado e exclu\u00eddo do mercado. Quando, portanto, celebra-se a capacidade auto-reguladora do mercado, significa que se est\u00e1 celebrando sua sacrificialidade. O desemprego \u00e9 necess\u00e1rio para salvar empresas. Poupar empregados, n\u00e3o demiti-los \u00e9 ser n\u00e3o-sacrificialista. Mas h\u00e1 um pre\u00e7o: ser ineficaz, ficar economicamente fraco, perder na concorr\u00eancia e se auto-sacrificar, morrendo empresarialmente.<\/p>\n<p>Nesta mesma l\u00f3gica, cobrar a d\u00edvida externa implica gerar um genoc\u00eddio inconsciente. Por ter de pagar a d\u00edvida externa, um governo v\u00ea-se obrigado a reduzir os investimentos sociais \u2013 em merendas nas escolas, em sa\u00fade p\u00fablica, em saneamento b\u00e1sico (investimentos sem retorno financeiro, apenas social), em seguran\u00e7a -, o que produz a doen\u00e7a e a morte de muit\u00edssimas pessoas, sobretudo velhos e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Como, entretanto, argumentam os representantes do sistema financeiro? Seria irrespons\u00e1vel n\u00e3o cobrar a d\u00edvida externa. Finalmente, h\u00e1 contratos em jogo e existe uma legisla\u00e7\u00e3o internacional. Ningu\u00e9m, na esfera dos neg\u00f3cios, d\u00e1 nada a ningu\u00e9m. Logo, cobremo-la. Em outras palavras: seria irrespons\u00e1vel n\u00e3o querermos o genoc\u00eddio impl\u00edcito. Permitamo-lo. Bem como os nazistas argumentavam: \u00e9 irrespons\u00e1vel n\u00e3o matar judeus. Existe a legisla\u00e7\u00e3o sobre a pureza racial. Portanto, matemo-los. \u00c9 legal. Mas \u00e9 justo?<\/p>\n<p>Aqui aparece o mecanismo sacrificialista do sistema econ\u00f4mico atual em sua forma contempor\u00e2nea, neoliberal e mundializada (cf. F. Hinkelhammert. <em>La l\u00f3gica de la expuls\u00edon del mercado capitalista y el proyecto de liberaci\u00f3n<\/em>. Costa Rica: Pasos, 1992). Ele sacrifica mais pessoas do que os astecas sacrificaram nas pir\u00e2mides ou os cananeus \u00e0 sua est\u00e1tua de Moloc. Ocorre que os agentes do mercado n\u00e3o reconhecem tal fato. Mas o n\u00edveis de mis\u00e9ria, fome e exclus\u00e3o dos pa\u00edses empobrecidos o comprova irrefutavelmente, pelos \u00edndices dos mesmos organismos do mercado, como o Banco Mundial e o FMI.<\/p>\n<p>Aqui caberia uma palavra sobre a necessidade da planifica\u00e7\u00e3o ao lado do livre mercado auto-regulador. O mercado se auto-regula \u00e0 custa de sacrif\u00edcios crescentes. \u00c9 fun\u00e7\u00e3o do Estado, como gerenciador do bem comum, numa perspectiva realista, planificar, a fim de reduzir essa voracidade a n\u00edveis suport\u00e1veis, particularmente em tr\u00eas \u00e1reas: garantindo pleno emprego (tendencialmente), cuidando da distribui\u00e7\u00e3o da renda e zelando pela preserva\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia \u00e9tica da op\u00e7\u00e3o socialista democr\u00e1tica reside nisso: em n\u00e3o entregar aos mecanismos pretensamente auto-reguladores do mercado a consecu\u00e7\u00e3o das metas sociais fundamentais. Pelo socialismo democr\u00e1tico se pretender garantir razoavelmente o princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o comum dos bens da natureza, inclusive os frutos do trabalho humano, formando o bem comum social e ecol\u00f3gico. A crise de 2007-2008 mostrou a fal\u00e1cia do mercado autoregulador. O colapso do Banco Lehman Brothers que levou a uma crise generalizada econ\u00f4mico-financeira foi superado pela interven\u00e7\u00e3o do Estado que impediu a ruina do sistema do capital.<\/p>\n<p>A teoria de Girard acerca do desejo mim\u00e9tico nos permite entender melhor os mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. A viol\u00eancia dos marginalizados e oprimidos \u00e9 reflexo mim\u00e9tico da viol\u00eancia primeira e modelar das classes dominantes, que impedem a realiza\u00e7\u00e3o do desejo das maiorias. Os oprimidos s\u00e3o violentos porque se encontram, \u00e0 sua revelia, enquadrados numa sociedade violenta. Eles s\u00e3o feitos v\u00edtimas sobre as quais a classe dominante descarrega toda a sua viol\u00eancia e elabora a paz entre os lobos. Sua viol\u00eancia \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o a uma viol\u00eancia primeira.<\/p>\n<p>A classe dominante (e \u00e9 dominante porque usa permanentemente a viol\u00eancia), inventa continuamente bodes expiat\u00f3rios. Precisa invent\u00e1-los para esconder sua pr\u00f3pria viol\u00eancia. Ora s\u00e3o os pobres, ora os negros, ora os sem-terra, ora os marxistas, ora os subversivos, ora os golpistas ora a Igreja progressista, ora as esquerdas, ora os refrat\u00e1rios \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o neoliberal e \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o. Objetivando aniquilar a v\u00edtima, pode descarregar sobre ela sua viol\u00eancia, aplicar-lhe as leis, puni-la de mil formas, at\u00e9 pela exclus\u00e3o sistem\u00e1tica do processo de produ\u00e7\u00e3o e consumo, como vem ocorrendo atualmente em n\u00edvel mundial. Mais ainda: cria uma interpreta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da situa\u00e7\u00e3o de permanente crise do Brasil, no sentido de ela ser consequ\u00eancia da escravid\u00e3o, da miscigena\u00e7\u00e3o, do nosso substrato latino-cat\u00f3lico-medieval. Tais \u00e1libis visam a ocultar o fato de que \u00e9 ela a causadora principal (n\u00e3o exclusiva) da heran\u00e7a de exclus\u00e3o que estigmatiza historicamente nossa realidade social.<\/p>\n<p>Na verdade, se bem olharmos, os \u00fanicos que trabalharam de fato, de sol a sol, e constru\u00edram quase tudo o que existe neste Pa\u00eds foram os negros, um dia escravizados. Hoje eles s\u00e3o difamados como pregui\u00e7osos, vadios, refrat\u00e1rios a todo tipo de trabalho, s\u00f3 pensando em carnaval e em samba. Trata-se de profunda injusti\u00e7a e mentira hist\u00f3rica. Mas s\u00e3o recursos do desejo mim\u00e9tico das classes dominantes, criando bodes expiat\u00f3rios para mascarar a pr\u00f3pria viol\u00eancia e ocultar a falta de solidariedade e de sentido de justi\u00e7a hist\u00f3rica com as quais se reparariam as perversidades perpetradas contra os negros e os pobres na hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Por outro lado, as v\u00edtimas coletivas n\u00e3o aceitam essa condena\u00e7\u00e3o e procuram se defender dentro do mesmo c\u00edrculo f\u00e9rreo de viol\u00eancia, agora de antiviol\u00eancia mim\u00e9tica. O c\u00edrculo fica sempre vicioso, sem chances de ser virtuoso. Isso implicaria uma revolu\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais, baseadas n\u00e3o mais no desejo mim\u00e9tico, mas no desejo solid\u00e1rio e comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o \u00e9 fatal que o terceiro, o rival que tamb\u00e9m deseja, deseja s\u00f3 para si, com exclus\u00e3o do outro. H\u00e1 uma atitude alternativa. Ele pode entrar numa parceria com os outros desejantes. Pode construir a solidariedade e a comunh\u00e3o ao redor do mesmo objeto desejado. Emergiria ent\u00e3o outro tipo de sociedade origin\u00e1ria; n\u00e3o violenta, mas solid\u00e1ria; n\u00e3o individualista, mas comunional; n\u00e3o dilacerada, mas integrada.<\/p>\n<p>Ren\u00e9 Girard entrev\u00ea no fen\u00f4meno crist\u00e3o a supera\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica sacrificialista. Jesus inaugura outro desejo mim\u00e9tico (<em>desiderio desideravi<\/em>\u2026desejei ardentemente comer esta p\u00e1scoa convosco\u201d, do evangelho de Lucas 22,15), aquele da doa\u00e7\u00e3o e da auto-entrega. Ao sacrif\u00edcio que elimina o outro, Jesus apresenta o dom de si, livre, amoroso e total, a ponto de se auto-sacrificar por ele. Essa atitude, que rompe a viol\u00eancia, inaugura uma nova comunh\u00e3o e uma nova comunidade humana, na qual a colabora\u00e7\u00e3o, na qual a colabora\u00e7\u00e3o e o amor s\u00e3o a lei e a norma. A competitividade \u00e9 somente o sentido do melhor e do mais generoso em fun\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p><strong>A causa \u00faltima da viol\u00eancia sist\u00eamica: a ruptura da re-liga\u00e7\u00e3o universal<\/strong><\/p>\n<p>Temos considerado as v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia de car\u00e1ter generalizado e, de certa forma, misterioso. Mas temos que chegar \u00e0 \u00faltima: a <em>ruptura <\/em>permanente da re-liga\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que o ser humano introduziu, alimentou e perpetuou com o conjunto do universo e com seu Criador. \u00c9 aqui que tem o seu lugar a reflex\u00e3o teol\u00f3gica que possui s\u00e9culos de exist\u00eancia e que ocupou as mentes mais brilhantes do pensamento, como um Or\u00edgenes, um Santo Agostinho, S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, Lutero, Calvino e modernamente Karl Barth e Karl Rahner.<\/p>\n<p>Temos a ver aqui com uma dimens\u00e3o profundamente misteriosa e tr\u00e1gica da hist\u00f3ria humana e universal. A tradi\u00e7\u00e3o judeo-crist\u00e3 chama a essa frustra\u00e7\u00e3o fundamental de <em>pecado do mundo<\/em> e a teologia no seguimento de Santo Agostinho que inventou esta express\u00e3o: <em>pecado original<\/em> ou <em>queda original.<\/em> O original aqui n\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com as origens hist\u00f3ricas deste anti-fen\u00f4meno, portanto, ao ontem. Mas ao que \u00e9 origin\u00e1rio no ser humano, ao que afeta seu fundamento e sentido radical de ser, portanto, ao agora de sua condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Pecado tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzido a uma mera dimens\u00e3o moral ou a um ato falho do ser humano. Temos a ver com uma <em>atitude<\/em> globalizadora, portanto, com uma subvers\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es nas quais ele est\u00e1 inserido. Trata-se de uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica que concerne ao ser humano, entendido como um n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es. Esse n\u00f3 se encontra distorcido e viciado, prejudicando todos os tipos de rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importa enfatizar que o pecado original \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia fundamental, uma resposta a um enigma desafiante. Por exemplo, existe o esplendor de uma cerejeira em flor no Jap\u00e3o e simultaneamente um tsunami em Fukushima que tudo arrasa. Existe uma Madre Teresa de Calcut\u00e1 que salva moribundos das ruas e um Hitler que envia seis milh\u00f5es de judeus para as c\u00e2maras de g\u00e1s. Por que esta contradi\u00e7\u00e3o? Os fil\u00f3sofos e os te\u00f3logos continuam quebrando a cabe\u00e7a para encontrar uma resposta. E at\u00e9 hoje n\u00e3o a encontraram.<\/p>\n<p>Sem entrar nas muitas poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es, assumimos uma, pois ganha mais e mais o consenso dos pensadores religiosos: a imperfei\u00e7\u00e3o como momento do processo evolucion\u00e1rio. Numa formula\u00e7\u00e3o vinda da matem\u00e1tica mas aplic\u00e1vel a toda a realidade: o teorema de G\u00f6del da implenitude te todas as coisas. Nada est\u00e1 completo e fechado. A equa\u00e7\u00e3o nunca se fecha totalmente.<\/p>\n<p>Teologicamente falando, Deus n\u00e3o criou o universo pronto uma vez por todas, um acontecimento passado, rotundamente perfeito. Sen\u00e3o deslanchou um processo em aberto e perfect\u00edvel que far\u00e1 uma caminhada rumo a formas cada vez mais complexas, sutis e perfeitas. Esperamos que um dia chegar\u00e1 a seu ponto \u00d4mega.<\/p>\n<p>A imperfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um defeito mas uma marca da evolu\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o traduz o des\u00edgnio \u00faltimo de Deus sobre sua cria\u00e7\u00e3o, mas um momento dentro de um imenso processo. O para\u00edso terrestre n\u00e3o significa saudade de uma idade de ouro perdida, mas a promessa de um futuro que ainda vir\u00e1. A primeira p\u00e1gina das Escrituras, na verdade, \u00e9 a \u00faltima. Vem no come\u00e7o como uma esp\u00e9cie de maquete do futuro, para que os leitores\/as se encham de esperan\u00e7a acerca do fim bom de toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo via a condi\u00e7\u00e3o deca\u00edda da cria\u00e7\u00e3o como um submetimendo \u201c\u00e0 vaidade\u201d (<em>matai\u00f3tes)<\/em>, n\u00e3o por causa do ser humano, mas por causa de Deus mesmo. O sentido exeg\u00e9tico de \u201cvaidade\u201d aponta para o processo de amadurecimento. A natureza n\u00e3o alcan\u00e7ou ainda sua maturidade. Por isso na fase atual se encontra ainda longe da meta a ser alcan\u00e7ada. Da\u00ed que a \u201ccria\u00e7\u00e3o inteira geme at\u00e9 o presente e sofre dores de parto\u201d( Rm 8,22). O ser humano participa deste processo de amadurecimento, gemendo tamb\u00e9m (Rm 8, 23).<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o inteira espera ansiosa pelo pleno amadurecimento dos filhos e filhas de Deus. Pois entre eles e resto da cria\u00e7\u00e3o vigora uma profunda interdepend\u00eancia e re-liga\u00e7\u00e3o Quando isso ocorrer, a cria\u00e7\u00e3o chega tamb\u00e9m a sua maturidade, pois, como diz Paulo, \u201cparticipar\u00e1 da gloriosa liberdade dos filhos e filhas de Deus\u201d (Cf. Rm 8, 20).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se realiza o des\u00edgnio terminal de Deus. Somente agora Deus poder\u00e1 proferir a esperada palavra: \u201ce viu que tudo era bom\u201d. Por ora, estas palavras s\u00e3o profecias e promessas para o futuro, porque nem tudo \u00e9 bom. Bem disse o fil\u00f3sofo Ernst Bloch, o do <em>princ\u00edpio esperan\u00e7a<\/em>: \u201co g\u00eanesis est\u00e1 no fim e n\u00e3o no come\u00e7o\u201d. O atraso do ser humano no seu amadurecimento implica no atraso da cria\u00e7\u00e3o. Seu avan\u00e7o implica um avan\u00e7o da totalidade. Ele pode ser um instrumento de liberta\u00e7\u00e3o ou de emperramento do processo evolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que reside o drama: evolu\u00e7\u00e3o quando chega ao n\u00edvel humano, alcan\u00e7a o patamar da consci\u00eancia e da liberdade. O ser humano foi criado criador. Pode intervir na natureza para o bem, cuidando dela ou para o mal devastando-a. Ele come\u00e7ou, quem sabe, desde o surgimento do <em>homo habilis<\/em> h\u00e1 2,7 milh\u00f5es de anos, quando ele criou o instrumento com o qual intervinha sem respeitar nos ritmos da natureza. No come\u00e7o podia ser apenas um <em>ato<\/em>. Mas a repeti\u00e7\u00e3o criou uma <em>atitude<\/em> de falta de cuidado. Ao inv\u00e9s de estar <em>junto com<\/em> as coisas, convivendo, colocou-se acima delas, dominando. E houve um <em>crescendo <\/em>at\u00e9 aos dias atuais.<\/p>\n<p>Com isso rompeu com a solidariedade natural entre todos os seres. Contradisse o des\u00edgnio do Criador que quis o ser humano como con-criador e que por seu g\u00eanio completasse a cria\u00e7\u00e3o imperfeita. Este colocou-se no lugar de Deus. Sentiu-se pela for\u00e7a da intelig\u00eancia e da vontade um pequeno \u201cdeus\u201d e comportar-se como se fora Deus de verdade. Nessa <em>hybris<\/em>, nessa arrog\u00e2ncia se encontra a raiz \u00faltima da agressividade e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a grande ruptura com a natureza e com o Criador que subjaz \u00e0 estrutura de todas as socidades e hoje, \u00e0 crise ecol\u00f3gica. O problema est\u00e1 no tipo de ser humano que se forjou na hist\u00f3ria, mais uma \u201cfor\u00e7a geof\u00edsica de destrui\u00e7\u00e3o\u201d(E.Wilson) que um fator de cuidado e preserva\u00e7\u00e3o. Paul Creutzen, pr\u00eamio Nobel de qu\u00edmica cunhou a express\u00e3o <em>o antropoceno<\/em> como uma nova era geol\u00f3gica, segundo a qual o ser humano surge como o grande agressor sistem\u00e1tico do sistema-vida e do sistema-Terra.<\/p>\n<p>A cura reside na re-liga\u00e7\u00e3o com todas as coisas renunciando a todo tipo de viol\u00eancia. Em seu lugar colocar o seu oposto que \u00e9 o cuidado e corresponsabilidade para com todas as coisas. N\u00e3o necessariamente precisa ser mais religioso, mas mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais respons\u00e1vel por sua sustentabilidade e amigo da vida. Ele precisa voltar \u00e0 Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardi\u00e3o e cuidador. Ent\u00e3o ser\u00e1 refeito o contrato natural que tira as bases da viol\u00eancia social e entre os seres humanos e a natureza.<\/p>\n<p>E se ainda se abrir ao Criador, saciar\u00e1 sua sede infinita e colher\u00e1 como fruto a paz,\u00a0n\u00e3o mais amea\u00e7ada pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>___________________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff<\/em><em> \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz do Parlamento sueco, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. E<\/em><em>xpoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais.<\/em><em> Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, e<\/em><em>screveu o livro<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000 e <\/em><em>A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<\/em><em>,Vozes 2016.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2016\/07\/11\/a-violencia-uma-contribuicao-a-suas-varias-interpretacoes\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil comparece como um dos pa\u00edses mais violentos do mundo. S\u00f3 no ano de 2015 foram assassinados 66 mil pessoas, a maioria delas negros e habitantes pobres das periferias. Isso \u00e9 mais que as v\u00edtimas das guerras do Iraque, do Afeganist\u00e3o e atualmente da S\u00edria.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-76551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}