{"id":76845,"date":"2016-07-25T12:08:44","date_gmt":"2016-07-25T11:08:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=76845"},"modified":"2016-07-25T12:08:44","modified_gmt":"2016-07-25T11:08:44","slug":"portugues-no-inferno-todos-vestem-roupas-brancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/07\/portugues-no-inferno-todos-vestem-roupas-brancas\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) No inferno todos vestem roupas brancas"},"content":{"rendered":"<p><em>20 de julho de 2016 &#8211; <\/em>Ainda n\u00e3o amanheceu, estamos diante da chuva e do frio do inverno ga\u00facho \u00e0 espera do \u00f4nibus que ir\u00e1 nos guiar at\u00e9 um dos maiores matadouros do Rio Grande do Sul. Somos estudantes de medicina veterin\u00e1ria, cursando uma disciplina obrigat\u00f3ria de inspe\u00e7\u00e3o de produtos de origem animal. A maioria de n\u00f3s encontra-se euf\u00f3rica, \u00e0 espera dos \u2018momentos emocionantes\u2019 do dia. Eu estou em um canto, sendo observada de perto pela professora e o coordenador do curso, que ao saberem que sou vegana e ativista, temem que eu tenha um colapso na linha de matan\u00e7a.<\/p>\n<p>Entramos no \u00f4nibus e seguimos viagem. No caminho, a sensa\u00e7\u00e3o de que as cenas que eu teria que presenciar n\u00e3o seriam diferentes daquelas filmadas clandestinamente em matadouros ao redor do mundo, e ao mesmo tempo o sentimento inequ\u00edvoco de que estaria prestes a presenciar uma s\u00e9rie de crimes considerados \u2018necess\u00e1rios\u2019 pela humanidade.<\/p>\n<p>Chegamos! Ao abrir a porta do \u00f4nibus, j\u00e1 somos tomados pelo impregnante odor adocicado da matan\u00e7a das aves que ocorre dentro do estabelecimento. Adentramos o local, ap\u00f3s termos vestido roupas brancas especiais, e come\u00e7amos a visita no sentido contr\u00e1rio ao fluxo produtivo para evitar contamina\u00e7\u00f5es no produto final. Trata-se de um corredor estreito, com o p\u00e9 direito baixo, quase um t\u00fanel, que desemboca em uma luz amarela intensa, para repelir insetos. Nossa guia, ent\u00e3o, abre a porta e entramos na parte final da produ\u00e7\u00e3o. Um sistema complexo de esteiras e ganchos, chamados n\u00f3rias, passam por nossas cabe\u00e7as, e neles est\u00e3o fixadas pelas patas as carca\u00e7as de frango, que pingam incessantemente uma gordura f\u00e9tida acrescida da \u00e1gua hiperclorada utilizada em sua higieniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob as esteiras est\u00e3o os funcion\u00e1rios que trabalham em p\u00e9, diante de uma bancada, na maioria mulheres, que nos olham com curiosidade e espanto. A express\u00e3o em seus rostos \u00e9 de uma tristeza marcante, mesclada pelo cansa\u00e7o f\u00edsico dos movimentos repetitivos que t\u00eam que executar diariamente. O barulho do local \u00e9 ensurdecedor e, conforme andamos, o cheiro forte torna-se cada vez mais desagrad\u00e1vel. Em cada bancada, os funcion\u00e1rios devem desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o, chamadas de linhas de inspe\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o classificadas por letras do alfabeto. Em cada letra ocorre a retirada padronizada de determinados \u00f3rg\u00e3os. Um grupo de mulheres, muitas sem luvas, trabalham retirando com as m\u00e3os, com uma destreza impressionante, a ves\u00edcula biliar das carca\u00e7as em processo de eviscera\u00e7\u00e3o. Mais adiante, outra funcion\u00e1ria dedica-se a \u2018pescar\u2019 com uma barra de metal as carca\u00e7as que caem no ch\u00e3o, para destin\u00e1-las \u00e0 graxaria, onde ser\u00e3o transformadas em produtos n\u00e3o-comest\u00edveis. Durante a passagem das n\u00f3rias podemos observar que cada uma apresenta uma marca\u00e7\u00e3o com uma cor, o que serve para fazer a contagem final dos frangos por produtor e repassar o lucro referente ao dia.<\/p>\n<p>Uma m\u00e1quina especial remove toda a carne restante presa nos ossos, que far\u00e3o parte da liga que ir\u00e1 compor os caros e adorados nuggets. Estamos agora diante dos chillers, equipamentos respons\u00e1veis pelo aquecimento seguido de um resfriamento r\u00e1pido das carca\u00e7as, com a finalidade de eliminar contaminantes biol\u00f3gicos da carne. Os chillers nada mais s\u00e3o do que grandes piscinas vermelhas de sangue com part\u00edculas de gordura que ficam boiando na superf\u00edcie, onde os frangos ficam embebidos.<\/p>\n<p>Olho para o ch\u00e3o e tudo o que vejo \u00e9 sangue e uma quantidade absurda de \u00e1gua que parece verter de todos os lados para a limpeza das carca\u00e7as \u2013 estima-se que para a limpeza de cada carca\u00e7a de frango se gaste em m\u00e9dia 35 litros de \u00e1gua! Desvio o olhar para cima e vejo carca\u00e7as sangrentas passando por minha cabe\u00e7a, pois estamos nos aproximando do in\u00edcio do processo, quando come\u00e7am a surgir aves com cabe\u00e7as e penas, que s\u00e3o retiradas em uma m\u00e1quina espec\u00edfica, o que deixa o ch\u00e3o lotado de penas brancas.<\/p>\n<p>Nossa guia nos avisa que estamos chegando \u00e0 linha de matan\u00e7a. H\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o abrupta da luz, onde funcion\u00e1rios trabalham quase no escuro. Os \u00edndices de depress\u00e3o dos funcion\u00e1rios que exercem essa fun\u00e7\u00e3o s\u00e3o extremamente elevados, devido \u00e0 insalubridade. Trata-se do in\u00edcio do processo de insensibiliza\u00e7\u00e3o. A luz \u00e9 reduzida com a finalidade de reduzir a atividade e o estresse dos animais, que s\u00e3o extremamente sens\u00edveis a este est\u00edmulo. A esteira segue com as aves penduradas na n\u00f3ria pela pata, de cabe\u00e7a para baixo e agora passam por um t\u00fanel, onde sofrem eletronarcose \u2013 isto \u00e9, s\u00e3o molhadas e eletrocutadas, de modo que isso as atordoe, mas sem causar a morte. As galinhas seguem est\u00e1ticas pela esteira, onde logo encontram uma serra, que fica presa a uma esp\u00e9cie de roda, e t\u00eam suas gargantas cortadas. Nossa guia nos explica que dependendo do tamanho das aves a altura da l\u00e2mina deve ser ajustada, para reduzir a margem de erros no corte mecanizado.<\/p>\n<div id=\"attachment_76846\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinhas-mortas-vegetarian-carne-a\u00e7ougue.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76846\" class=\"wp-image-76846 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinhas-mortas-vegetarian-carne-a\u00e7ougue.jpg\" alt=\"galinhas mortas vegetarian carne a\u00e7ougue\" width=\"600\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinhas-mortas-vegetarian-carne-a\u00e7ougue.jpg 600w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinhas-mortas-vegetarian-carne-a\u00e7ougue-300x197.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76846\" class=\"wp-caption-text\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Na sequ\u00eancia, algumas galinhas encontram-se com o pesco\u00e7o intacto, enquanto outras, mesmo com a traqu\u00e9ia perfurada, come\u00e7am a se mexer, visivelmente conscientes. Um funcion\u00e1rio tem ent\u00e3o como tarefa cortar o m\u00e1ximo de pesco\u00e7os de galinhas que falharam na serra autom\u00e1tica, mas a esteira passa em uma velocidade assustadora, s\u00e3o muitas aves que devem morrer hoje para atender \u00e0 demanda do mercado, cada vez mais voraz por carne de frango. N\u00e3o h\u00e1 tempo para cortar o pesco\u00e7o de todas as intactas, nem de abreviar o sofrimento daquelas que se debatem. As aves seguem para serem escaldadas em \u00e1gua fervendo.<\/p>\n<p>Fomos levados ao local do recebimento das cargas. Vemos caixas e caixas com mais aves do que espa\u00e7o interno, em algumas h\u00e1 mais de dez animais. S\u00e3o tantas que muitas est\u00e3o fora das caixas, respiram ofegantes, com o bico aberto pelo estresse e pelo medo. Elas est\u00e3o h\u00e1 dez horas em jejum, sendo permitido o abate somente at\u00e9 doze horas ap\u00f3s o in\u00edcio do jejum. O trabalho segue em ritmo fren\u00e9tico. Uma colega encontra uma galinha solta e a pega, colocando-a, de forma orgulhosa, em outra caixa que segue na esteira rumo \u00e0 serra autom\u00e1tica, emitindo um coment\u00e1rio de que estava feliz por ter conseguido peg\u00e1-la. Descemos as escadas e nos deparamos com o caminh\u00e3o que as trouxe. Somos instru\u00eddos a n\u00e3o passar muito perto, pois poder\u00edamos ser bicados pelas aves apinhadas dentro das caixas. Nos afastamos um pouco e, em poucos momentos, vemos aves soltas em cima do caminh\u00e3o. Elas tentam voar mas n\u00e3o conseguem, e muitas acabam caindo direto no ch\u00e3o. Um funcion\u00e1rio aparece com um gancho e as junta pelas patas, como se fosse in\u00e7os em meio a grama. Violentamente, ele junta o m\u00e1ximo de aves que pode pegar com cada m\u00e3o. As aves est\u00e3o penduradas apenas por uma das patas. Ent\u00e3o, algu\u00e9m lembra que ele poderia ser mais delicado e pensar no \u2018bem estar\u2019 animal, afinal, deste modo, os frangos podem apresentar les\u00f5es graves como rupturas e fraturas, o que compromete o retorno financeiro pela carca\u00e7a.<\/p>\n<p>Somos encaminhados para uma esp\u00e9cie de \u00e1rea de descanso dos funcion\u00e1rios, onde esperamos pelo veterin\u00e1rio respons\u00e1vel pelo setor de su\u00ednos para nos acompanhar na visita deste setor. Neste momento uma funcion\u00e1ria, escorada por mais duas colegas, passa em estado de choque por n\u00f3s. Ela estava sangrando muito na m\u00e3o. Acabou de sofrer um acidente de trabalho. Ela chora muito, a les\u00e3o parece grave. Uma colega nossa se manifesta rindo, dizendo que n\u00e3o vai comer o frango que ela estava eviscerando na hora que se machucou! Muitos acham gra\u00e7a e riem. Mais \u00e0 frente vejo uma placa dizendo Estamos a ZERO dias sem acidentes de trabalho e, logo abaixo, Recorde sem acidentes: 83 dias.<\/p>\n<p>No setor de su\u00ednos, passamos pelo mesmo ritual de antissepsia e adentramos outro corredor estreito com luzes amarelas. Meu nariz ainda est\u00e1 impregnado com o cheiro da morte das galinhas e meus ouvidos ainda n\u00e3o se acostumaram ao barulho estridente das m\u00e1quinas, que s\u00e3o fortemente aud\u00edveis mesmo com o uso de protetores auriculares. Uma porta se abre, e atr\u00e1s do veterin\u00e1rio est\u00e3o centenas de carca\u00e7as de porcos mortos pendurados pela pata traseira, passando pela esteira. O tamanho do animal impressiona. O veterin\u00e1rio nos conta que ali s\u00e3o abatidos 2350 su\u00ednos por dia! Os funcion\u00e1rios agora s\u00e3o em sua grande maioria homens, muitos aparentemente se orgulham de sua fun\u00e7\u00e3o e riem enquanto serram o abd\u00f4men do animal e retiram as v\u00edsceras. Neste setor a esteira anda mais lentamente, devido ao tamanho do animal e a menor quantidade de animais que est\u00e3o sendo abatidos, quando comparado ao setor de aves. H\u00e1 sangue por tudo.<\/p>\n<p>Para caminhar, temos que desviar das carca\u00e7as de 100 kg penduradas sobre nossas cabe\u00e7as. Os funcion\u00e1rios realizam seu trabalho em etapas espec\u00edficas da produ\u00e7\u00e3o, uns arrancam a cabe\u00e7a, enquanto outros em outra parte da sala removem os \u00f3rg\u00e3os internos e outros ainda s\u00e3o respons\u00e1veis pela identifica\u00e7\u00e3o de qual cabe\u00e7a pertence a que corpo, atrav\u00e9s de um sistema de numera\u00e7\u00e3o para posterior inspe\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis les\u00f5es que possam causar danos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Mais \u00e0 frente vemos uma impressionante sequ\u00eancia de dezenas de porcos mortos subindo de uma andar ao outro pelo sistema de esteiras. Somos convidados a ir at\u00e9 o andar de baixo onde ocorre a sangria. Para chegarmos l\u00e1 temos que descer uma escada helicoidal estreita e escorregadia, devido \u00e0 presen\u00e7a de gordura su\u00edna sob nossas botas. No meio desta escada existe uma esp\u00e9cie de calha por onde passam os animais mortos, ainda cheios de sangue. Nossa roupa est\u00e1 tapada de respingos de sangue.<\/p>\n<p>De repente a temperatura do ambiente muda e come\u00e7amos a sentir um calor e um barulho at\u00edpicos do lugar. Olho ent\u00e3o para frente e vejo a cena de uma carca\u00e7a pendurada por uma pata passar por uma esp\u00e9cie de jogo automatizado de chamas. Durante os poucos segundos que dura o processo, podemos ver as carca\u00e7as envoltas de uma labareda azul, e sentimos um forte cheiro de p\u00ealo queimado. As labaredas s\u00e3o utilizadas para eliminar os resqu\u00edcios de cerdas ap\u00f3s a remo\u00e7\u00e3o dos p\u00ealos, previamente removidos por um sistema de borrachas. Chegamos finalmente na sangria. Os gritos estrondosos dos animais deveriam fazer qualquer um perceber que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel existir bem-estar diante da banaliza\u00e7\u00e3o da morte. Ao inv\u00e9s disso, muitos riem cada vez que um su\u00edno \u00e9 grosseiramente empurrado por um funcion\u00e1rio, munido de uma vara capaz de disparar choques de baixa intensidade, em dire\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie de escorregador totalmente fechado dos quatro lados. No fim do escorregador est\u00e1 um funcion\u00e1rio de apar\u00eancia assustadora com uma barra com uma esp\u00e9cie de \u2018U\u2019 na ponta. O \u2018U\u2019 \u00e9 encaixado na cabe\u00e7a do animal e suas pontas ficam em contato com a regi\u00e3o temporal do cr\u00e2nio, onde um choque de grande intensidade \u00e9 disparado.<\/p>\n<div id=\"attachment_76847\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/porco-carne-vegetarian-a\u00e7ougue.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76847\" class=\"wp-image-76847\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/porco-carne-vegetarian-a\u00e7ougue.jpg\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/porco-carne-vegetarian-a\u00e7ougue.jpg 350w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/porco-carne-vegetarian-a\u00e7ougue-230x300.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76847\" class=\"wp-caption-text\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O animal cai como uma pedra, gerando um barulho caracter\u00edstico de seu corpo desabando sobre a esteira met\u00e1lica. Muitos apresentam contra\u00e7\u00f5es involunt\u00e1rias nas patas, e parecem estar dando coices. Com uma destreza impressionante o funcion\u00e1rio seguinte corta a garganta do animal. Atrav\u00e9s do orif\u00edcio na traqu\u00e9ia jorram litros de sangue. O veterin\u00e1rio nos explica que neste momento o animal ainda n\u00e3o est\u00e1 morto, mas que \u201cconforme as boas pr\u00e1ticas de bem-estar animal, estes devem morrer dentro de no m\u00e1ximo seis minutos\u201d, ap\u00f3s ocorrer a total elimina\u00e7\u00e3o do sangue pelo bombeamento card\u00edaco. Na verdade, o real motivo para que n\u00e3o se aceite a morte do animal em tempo superior a este, \u00e9 evitar que a carca\u00e7a fique PSE \u2013 \u2018pale, soft, exsudative\u2019, \u2018p\u00e1lida, fri\u00e1vel, exsudativa\u2019, pois este tipo de produto n\u00e3o apresenta a qualidade necess\u00e1ria exigida pelo mercado, e consequentemente h\u00e1 perda nos lucros.<\/p>\n<p>Somos levados at\u00e9 os currais onde podemos ver os su\u00ednos vivos serem empurrados para o escorregador. Eles est\u00e3o em p\u00e2nico, uns sobem sobre os outros, enquanto nos olham fixamente nos olhos com a real express\u00e3o do horror. Os gritos tornam-se cada vez mais altos e o funcion\u00e1rio os empurra com o bast\u00e3o de choques. Mais atr\u00e1s est\u00e1 outro funcion\u00e1rio com uma esp\u00e9cie de relho feito de sacos pl\u00e1sticos, e o desfere contra o lombo dos animais para estes andarem na dire\u00e7\u00e3o da matan\u00e7a. O veterin\u00e1rio nos explica que o relho \u00e9 feito deste material para n\u00e3o machucar os animais. Isto constituiria crueldade, algo conden\u00e1vel pelo \u2018bem-estar animal\u2019, valor muito importante dentro da empresa, e que poderia acarretar em les\u00f5es cut\u00e2neas, afetando negativamente o valor da carca\u00e7a.<\/p>\n<p>Por fim, podemos ver os currais de chegada, onde os caminh\u00f5es descarregam diariamente os animais para morrer. \u00c9 neste local que deve ser feita a inspe\u00e7\u00e3o ante-mortem pelo veterin\u00e1rio da inspetoria. De acordo com os preceitos da humaniza\u00e7\u00e3o da morte, todos aqueles animais que chegam com fraturas na pata e que n\u00e3o conseguem mais se locomover adequadamente devem ser removidos em separado e enviados para a matan\u00e7a imediata, isto \u00e9, devem ter o direito de \u2018furar a fila\u2019 a fim de que o seu sofrimento seja abreviado. O veterin\u00e1rio, com muito orgulho, faz quest\u00e3o de dizer que o processo precisa ser feito! E que j\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e9 preciso faz\u00ea-lo com dignidade e respeito pelos animais; Ele ainda afirma que na ind\u00fastria \u00e9 poss\u00edvel assegurar que estes animais n\u00e3o passam por sofrimento e que o seu fim \u00e9 muito menos cruel do que seria se fossem predados por um le\u00e3o na natureza!<\/p>\n<p>Neste momento, \u00e9 dif\u00edcil conter o riso diante da tortuosidade do racioc\u00ednio exposto. Em local algum do mundo ter\u00edamos mais de 2000 su\u00ednos sendo predados em cadeia por le\u00f5es vorazes, sistematicamente, todos os dias. Ao que consta, le\u00f5es n\u00e3o t\u00eam a capacidade de racioc\u00ednio semelhante a um humano. Eles n\u00e3o podem fazer escolhas, simplesmente porque n\u00e3o t\u00eam como refletir sobre as consequ\u00eancias dos pr\u00f3prios atos. Le\u00f5es n\u00e3o planejam estrategicamente como ir\u00e3o matar suas presas a fim de terem lucro com isso e tampouco consideram normal a condi\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o de outros seres de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie em prol da satisfa\u00e7\u00e3o do luxo de outros poucos. Apenas o ser humano \u00e9 capaz de ter estrat\u00e9gias para a explora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de todos aqueles capazes de sofrer sem de fato considerar isso. Hoje, muito se fala sobre bem-estar animal, por\u00e9m trata-se apenas de um modo mais refinado de justificar injustific\u00e1veis fins.<\/p>\n<p>O bem-estar animal agrada a muitos, pois consegue suavizar o sofrimento e a culpa daqueles que sustentam a ind\u00fastria da morte, e ajudam a aumentar os lucros atrav\u00e9s de medidas que teoricamente s\u00e3o adotadas para beneficiar os animais, mas que s\u00e3o norteadas pelo aumento da produtividade e qualidade do produto final. O limite do \u2018bem-estar animal\u2019 vai at\u00e9 onde o marketing e o lucro podem vislumbrar.<\/p>\n<p>\u00c9 inacredit\u00e1vel que, para a grande maioria, ingenuamente, esse ainda seja visto como o caminho para o fim do sofrimento. O sofrimento animal apenas poder\u00e1 ser reduzido quando criarmos coragem para defender o direito dos animais, atrav\u00e9s da aboli\u00e7\u00e3o do consumo de seus corpos para a satisfa\u00e7\u00e3o fugaz de nossos desejos ego\u00edstas.<\/p>\n<p>_______________________________<\/p>\n<p><em>Fonte: <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/grito-silenciado.blogspot.com.br\/2014\/04\/no-inferno-todos-vestem-roupas-brancas.html\" >Quebra de Sil\u00eancio<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/20\/07\/2016\/no-inferno-todos-vestem-roupas-brancas-2\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um funcion\u00e1rio tem ent\u00e3o como tarefa cortar o m\u00e1ximo de pesco\u00e7os de galinhas que falharam na serra autom\u00e1tica, mas a esteira passa em uma velocidade assustadora, s\u00e3o muitas aves que devem morrer hoje para atender \u00e0 demanda do mercado, cada vez mais voraz por carne de frango. 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