{"id":76850,"date":"2016-07-25T12:12:35","date_gmt":"2016-07-25T11:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=76850"},"modified":"2016-07-25T12:12:35","modified_gmt":"2016-07-25T11:12:35","slug":"portugues-tazinha-e-a-galinha-jurema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/07\/portugues-tazinha-e-a-galinha-jurema\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Tazinha e a galinha Jurema"},"content":{"rendered":"<p><em>Aquele molho envolvia partes de um ser id\u00eantico \u00e0quele que corria pelo quintal com o vi\u00e7o de uma crian\u00e7a.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_76851\" style=\"width: 484px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinha-chicken-hen.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-76851\" class=\"size-full wp-image-76851\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinha-chicken-hen.jpg\" alt=\"Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: \u201cM\u00e3e, o que a galinha come?\u201d (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)\" width=\"474\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinha-chicken-hen.jpg 474w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/galinha-chicken-hen-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-76851\" class=\"wp-caption-text\">Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: \u201cM\u00e3e, o que a galinha come?\u201d (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>Tazinha chegou em casa e encontrou uma galinha. Ela nunca tinha visto uma de perto, a n\u00e3o ser descaracterizada dentro de uma panela, dividida em peito, p\u00e9s, coxas e outras partes que depois de consumidas davam a impress\u00e3o de que o animal reduzido a alimento jamais existiu.<\/p>\n<p>Com cinco anos, Tazinha n\u00e3o imaginava que aquele molho vermelho e borbulhante cobrindo fatias grossas de batata-inglesa envolvia partes de um ser id\u00eantico \u00e0quele que percorria o\u00a0quintal com o vi\u00e7o de uma crian\u00e7a.\u00a0Quando viu a garotinha de olhos amendoados e gra\u00fados, a galinha se escondeu atr\u00e1s de um peda\u00e7o de capoeira e cacarejou, mantendo os olhos castanhos e vibrantes bem esgazeados. Tamb\u00e9m abriu as asas mescladas de preto, amarelo e branco e esfregou os pezinhos em uma por\u00e7\u00e3o de terra arenosa, fazendo poeirinha.<\/p>\n<p>Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: \u201cM\u00e3e, o que a galinha come?\u201d Ent\u00e3o caminhou at\u00e9 a despensa, afundou a m\u00e3ozinha em um fardo de ra\u00e7\u00e3o com cheiro de farelo de milho e se apressou em dire\u00e7\u00e3o ao quintal, arrastando os chinelinhos e deixando um rastro louro como o sol daquela manh\u00e3 de ver\u00e3o.\u00a0Ainda desconfiada e hesitante, a galinha a assistiu estendendo as m\u00e3os e os farelos deslizando\u00a0entre os v\u00e3os de seus dedos mi\u00fados. Tazinha sorriu apreensiva. N\u00e3o sabia se devia se aproximar mais ou simplesmente lan\u00e7ar o que restou da ra\u00e7\u00e3o sobre o ch\u00e3o de terra batida.<\/p>\n<p>Tomou uma decis\u00e3o. Se ajoelhou, fez um cora\u00e7\u00e3ozinho na terra com o dedo indicador da m\u00e3o direita e o preencheu com os farelos. Logo que a galinha deu o primeiro passo, Tazinha recuou quase 20 metros, sentou \u00e0 sombra da jabuticabeira e assistiu a ave se alimentando. Vez ou outra, erguia a cabe\u00e7a e observava a crian\u00e7a.\u00a0\u201cSeu nome vai ser Jurema\u201d, disse antes de engolir uma jabuticaba e enterrar a casca. A galinha a olhou rapidamente, cacarejou e continuou comendo, sem levantar a cabe\u00e7a. Depois daquele dia, sempre que Tazinha corria at\u00e9 o quintal, Jurema a aguardava.<\/p>\n<p>Balou\u00e7ava as asas e caminhava at\u00e9 a garotinha que a abra\u00e7ava e acariciava suas penas com o dorso da m\u00e3o direita. Tazinha sentia c\u00f3cegas quando a galinha se espichava, esfregando a plumagem contra o seu pesco\u00e7o. Sua gargalhada era t\u00e3o alta que atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o de vizinhos curiosos que penduravam no muro para ver o que estava acontecendo.\u00a0Em menos de uma semana de conviv\u00eancia, Jurema come\u00e7ou a presentear Tazinha com preciosidades que ela encontrava no quintal.<\/p>\n<p>\u201cQue linda, Jurema!\u201d, comentou assim que a galinha abriu o bico e lan\u00e7ou uma pedrinha colorida na palma de sua m\u00e3o. Com os presentes, Tazinha fez um colar. Numa noite, quando seus pais questionaram o porqu\u00ea dela nunca tir\u00e1-lo do pesco\u00e7o, ela respondeu: \u201cU\u00e9, porque a Jurema \u00e9 minha melhor amiga e quero sempre sentir ela pertinho de mim. Ela teve tanto trabalho pra juntar as pedrinhas.\u201d<\/p>\n<p>Tazinha gostava tanto da galinha que ap\u00f3s muita insist\u00eancia seus pais permitiram que ela levasse Jurema para passear pelas ruas pelo menos tr\u00eas vezes por semana. \u201cEla tamb\u00e9m quer se divertir\u201d, justificava, crente de que sua amizade com a galinha seria eterna, e que as duas nunca se separariam.\u00a0Por\u00e9m, quando a galinha estava perto de completar seis meses, ela ouviu uma conversa que a entristeceu:<\/p>\n<p>Pai \u2013 A galinha que meu irm\u00e3o deu t\u00e1 ficando velha, quase seis meses de vida j\u00e1. Se demorar mais, passa do ponto. E o Alberto chega no final de semana e quer galinha caipira ao molho pro almo\u00e7o de domingo.<\/p>\n<p>M\u00e3e \u2013 Meu Deus! E o que vamos falar pra Tazinha?<\/p>\n<p>Pai \u2013 A gente arruma outra galinha pra\u00a0ela.<\/p>\n<p>Desesperada, Tazinha correu at\u00e9 o quintal, pegou a Jurema, a levou at\u00e9 o seu quarto e a escondeu dentro do guarda-roupa, onde passou a noite abra\u00e7ada com a galinha. Pela manh\u00e3, seus pais ouviram um som suspeito vindo do quarto. Encontraram Tazinha chorando e acariciando as penas de Jurema que se mantinha em sil\u00eancio, com\u00a0o bico recostado\u00a0em seu ombro.<\/p>\n<p>Tazinha \u2013 Por favor! N\u00e3o mata ela! Eu n\u00e3o sabia que a carne da panela vinha dos bichos. Olha, a Jurema anda, brinca e fica assustada que nem a gente. Coloca a m\u00e3o aqui, pai! Coloca, m\u00e3e! D\u00e1 pra sentir o cora\u00e7\u00e3ozinho dela batendo forte. N\u00e3o mata ela! Por favor! Ela s\u00f3 quer viver!<\/p>\n<p>No domingo, quando Alberto, tio de Tazinha chegou para o almo\u00e7o, ele se aproximou do fog\u00e3o e ergueu a tampa da panela. \u201cMas que cheiro delicioso \u00e9 esse, cunhada? Que maravilha!\u201d, declarou. L\u00e1 dentro, o molho vermelho borbulhava, exalando ol\u00eancia da combina\u00e7\u00e3o de\u00a0batata, cebola, alho, cebolinha, salsinha, tomate, p\u00e1prica, azeite e folhas de louro. No quintal, Tazinha amarrava uma fitinha no pesco\u00e7o de Jurema antes de aliment\u00e1-la\u00a0com um pouquinho de ra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Por isso voc\u00ea me olhou assustada no primeiro dia que te vi. Desculpa! N\u00e3o precisa mais ter medo, Jurema. A gente nunca mais vai comer carne aqui em casa. Prometo!<\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<p><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2016\/07\/24\/tazinha-e-a-galinha-jurema\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com cinco anos, Tazinha n\u00e3o imaginava que aquele molho vermelho e borbulhante cobrindo fatias grossas de batata-inglesa envolvia partes de um ser id\u00eantico \u00e0quele que percorria o quintal com o vi\u00e7o de uma crian\u00e7a. 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