{"id":80297,"date":"2016-09-26T12:00:44","date_gmt":"2016-09-26T11:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=80297"},"modified":"2016-09-25T17:28:42","modified_gmt":"2016-09-25T16:28:42","slug":"portugues-o-gato-da-vila-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/09\/portugues-o-gato-da-vila-parana\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Gato da Vila Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_80298\" style=\"width: 428px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/siamesecat-gato.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-80298\" class=\"size-full wp-image-80298\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/siamesecat-gato.jpg\" alt=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" width=\"418\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/siamesecat-gato.jpg 418w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/siamesecat-gato-300x207.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-80298\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>24 set 2016 &#8211; <\/em>Querubim ouviu tiro de espingarda seguido de miado. L\u00e1 fora, na rua de terra arenosa, Ranulpho nem se mexia, estatelado sobre uma por\u00e7\u00e3o de folhas mi\u00fadas de sibipiruna. A boca continuava entreaberta, denunciando que a dor da morte n\u00e3o poupava nem os mais inocentes.<\/p>\n<p>Com receio de parecer sentimental demais, o menino engoliu o choro. Fez tanto esfor\u00e7o que as quentes l\u00e1grimas que amea\u00e7avam escorrer dos cantos dos olhos desapareceram. Nem conquistaram o princ\u00edpio de liberdade.\u00a0Encolerizado, Querubim observou Matias sobre o p\u00e9 de manga, sorrindo e mirando a espingarda em sua dire\u00e7\u00e3o. \u201cVoc\u00ea quer tamb\u00e9m? Dou em voc\u00ea, trouxa!\u201d, avisou o moleque. Querubim n\u00e3o disse nada. S\u00f3 co\u00e7ou a cabe\u00e7a, sem se importar com a nuvem poeirenta que se formava ao redor de sua cabe\u00e7a, como n\u00e9voa alaranjada.<\/p>\n<p>De costas para o assassino, o menino agachou e fez car\u00edcias na barriga do gato que j\u00e1 n\u00e3o sentia suas m\u00e3os sobre o pelo claro. Onde havia um par de olhos azuis, restaram pequenas massas disformes. Duas l\u00e1grimas ca\u00edram pejosas, umedecendo a boca seca do felino. Era tarde demais.<\/p>\n<p>As horas passavam, e a natureza sepultava Ranulpho, cobrindo seu corpo com o solo arenoso, pouco a pouco transportado do bosque pelo vento sul. \u201c\u00d4 Querubim! Leva esse bicho daqui. J\u00e1 vai come\u00e7ar a feder\u201d, diziam. Ele s\u00f3 acenava com a cabe\u00e7a em concord\u00e2ncia, sem sequer mover as pernas alinhadas sobre o meio-fio.<\/p>\n<p>Quando a terra arrastada pela aragem invadia a boca do gato, o menino se aproximava e a limpava usando uma toalhinha umedecida com \u00e1gua. No final da tarde, tentou enterrar Ranulpho no canteiro de plantas de sua m\u00e3e. Foi repreendido enquanto cavava a terra com a colher de pedreiro de seu av\u00f4. \u201cT\u00e1 louco, menino! Aqui n\u00e3o \u00e9 lugar de enterrar bicho!\u201d, reclamou o av\u00f4.<\/p>\n<p>O velho pegou o gato morto pelo couro do dorso e o lan\u00e7ou dentro de uma sacola grossa e escura. Parecia um saco para cad\u00e1ver em PVC. A pendurou no guid\u00e3o da bicicleta de aros tortos e pedalou at\u00e9 o lix\u00e3o do bairro mais pr\u00f3ximo. Retornou sem dizer palavra. Entrou na cozinha, tomou um gole de caf\u00e9 amargo e deitou na rede.<\/p>\n<p>Querubim assistia o velho, querendo saber o que ele fez com Ranulpho. Sem coragem de perguntar, lembrou de uma lei imposta na Vila Paran\u00e1 na d\u00e9cada de 1970, quando tr\u00eas c\u00e3es de grande porte mataram dois beb\u00eas. \u201cNingu\u00e9m mais pode entrar aqui com animais. E se algu\u00e9m matar, n\u00e3o pode chorar nem enterrar, sen\u00e3o vai se ver comigo\u201d, declarou Mandino Conselheiro, a quem a popula\u00e7\u00e3o recorria sempre que surgia algum problema no bairro.<\/p>\n<p>Sob um p\u00e9 de mam\u00e3o, Querubim observou o av\u00f4 at\u00e9 a hora em que o velho dormiu na rede. Chorou e gritou com a m\u00e3o na boca. Tamb\u00e9m a\u00e7oitou as pr\u00f3prias pernas e costas com os galhos do mamoeiro. Ningu\u00e9m ouvia. Os verg\u00f5es se multiplicavam. Ele n\u00e3o se importava. Deitou na terra e sentiu gosto acre na boca, misto de terra e sangue.<\/p>\n<p>Amanheceu no seu colch\u00e3o velho, enrolado num len\u00e7ol branco encardido e cheio de furos. Pelo buraco no teto, o sol mirava pacotinho de ra\u00e7\u00e3o ladeado por tampa com \u00e1gua. Querubim levantou e correu at\u00e9 a entrada do barraco onde vivia com a m\u00e3e e o av\u00f4. O casebre amea\u00e7ava cair h\u00e1 anos, por\u00e9m resistia.<\/p>\n<p>Sentou no ch\u00e3o e usou peda\u00e7o de graveto para desenhar Ranulpho. Quando terminou, cochilou com as costas escoradas na cerca de madeira e arame farpado. Em sonho, ouviu um ronronar que lhe arrepiou at\u00e9 os pelos que n\u00e3o possu\u00eda. Abriu os olhos e, sob sua m\u00e3o esquerda, Ranulpho marcava territ\u00f3rio mais uma vez, esfregando o pelo sujo e macio.<\/p>\n<p>O odor de lixo passou despercebido, n\u00e3o o miado de fome. Chorando, Querubim tomou o gato cego e derreado nos bra\u00e7os. O levou para dentro de casa e de l\u00e1 n\u00e3o saiu mais naquele dia. A hist\u00f3ria de Ranulpho e Querubim mudou a Vila Paran\u00e1 no final dos anos 1990: \u201cQuem n\u00e3o v\u00ea amor num animal, n\u00e3o v\u00ea amor em si mesmo\u201d, disse Neto Conselheiro, filho de Mandino.<\/p>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2016\/09\/24\/o-gato-da-vila-parana\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24 set 2016 &#8211; Querubim ouviu tiro de espingarda seguido de miado. L\u00e1 fora, na rua de terra arenosa, Ranulpho nem se mexia, estatelado sobre uma por\u00e7\u00e3o de folhas mi\u00fadas de sibipiruna. 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