{"id":80696,"date":"2016-10-03T12:00:33","date_gmt":"2016-10-03T11:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=80696"},"modified":"2016-10-03T10:50:50","modified_gmt":"2016-10-03T09:50:50","slug":"portugues-sobre-o-fim-dos-testes-em-animais-e-o-envolvimento-das-empresas-nas-mudancas-necessarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/10\/portugues-sobre-o-fim-dos-testes-em-animais-e-o-envolvimento-das-empresas-nas-mudancas-necessarias\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Sobre o fim dos testes em animais e o envolvimento das empresas nas mudan\u00e7as necess\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_80697\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lab-1-768x280-microscopio.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-80697\" class=\"wp-image-80697\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lab-1-768x280-microscopio.jpg\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"500\" height=\"182\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lab-1-768x280-microscopio.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lab-1-768x280-microscopio-300x109.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-80697\" class=\"wp-caption-text\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>29 de setembro de 2016 &#8211; <\/em>Aconteceu em 2006. Assistindo a um semin\u00e1rio sobre propaganda e marketing com foco em sustentabilidade, ouvi o relato queixoso de algu\u00e9m da plateia que levantou a m\u00e3o para fazer uma den\u00fancia.A pessoa acabara de descobrir que uma das empresas brasileiras mais cultuadas por seu envolvimento com as quest\u00f5es socioambientais fazia testes em animais.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso deixar claro, aqui, que fazer teste em animais para produzir cosm\u00e9ticos e, ao mesmo tempo, defender a preserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e do meio ambiente \u00e9 um paradoxo.<\/p>\n<p>Sa\u00ed do encontro e, j\u00e1 na reda\u00e7\u00e3o de \u201cO Globo\u201d, onde na \u00e9poca eu exercia o cargo de editora do caderno \u201cRaz\u00e3o Social\u201d \u2013 focado no debate sobre temas ligados \u00e0s quest\u00f5es socioecon\u00f4micas e ambientais -visitei o site da empresa. Estava l\u00e1, para quem quisesse ler, o aviso de que eles realmente ainda faziam testes em animais. Com uma ressalva importante: um forte investimento em pesquisa estaria prestes a solucionar o problema.<\/p>\n<p>Meses depois, chegou a not\u00edcia de que a empresa tinha, de fato, conseguido se livrar dos testes em animais. O registro foi, legitimamente, feito em tom de comemora\u00e7\u00e3o.A tecnologia que custou t\u00e3o caro conseguira criar pele humana em laborat\u00f3rio para n\u00e3o precisar de ratos, coelhos ou porquinhos da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Semana passada, recebi uma mensagem dessa mesma empresa comemorando d\u00e9cimo anivers\u00e1rio do tempo em que conseguiu se livrar de fazer testes em animais. E fui puxando o fio da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das empresas de cosm\u00e9ticos que n\u00e3o fazem testes em animais come\u00e7ara h\u00e1 anos, encampada por Anita Roddick, empres\u00e1ria brit\u00e2nica que se inscreveu na pequena e seleta lista daqueles que, de fato, instalaram iniciativas para mostrar que \u00e9 poss\u00edvel, pelo menos tentar um di\u00e1logo bem resolvido entre preserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. Em \u201cMeu jeito de fazer neg\u00f3cios\u201d (Ed. Neg\u00f3cio), escrito em 2002, numa esp\u00e9cie de autobiografia, Roddick diz que sua tarefa n\u00e3o foi f\u00e1cil, conta os desafios que precisou enfrentar, sobretudo quando seus acionistas come\u00e7aram a se rebelar contra a forma de ela administrar a empresa. E se declara contra o jeito usual de fazer neg\u00f3cios, atacando as grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea notar como algumas empresas se comportam pelos quatro cantos do mundo \u2013 lugares que n\u00e3o s\u00e3o frequentados pelos que as comandam \u2013 constatar\u00e1 que elas est\u00e3o aniquilando a humanidade de diversas maneiras\u2026 Enquanto empresas podem se deslocar de um pa\u00eds para outro, sem enfrentar restri\u00e7\u00f5es maiores, buscando sal\u00e1rios menores, legisla\u00e7\u00e3o ambiental mais concessiva e trabalhadores mais submissos e desesperados, a destrui\u00e7\u00e3o das pessoas, culturas e ambientes pode ser enorme\u201d, escreve ela.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Anita Roddick foi bem cr\u00edtica desde sempre.E ela aponta a raiz do problema:<\/p>\n<p>\u201cUm dos maiores problemas do mundo dos neg\u00f3cios \u00e9 que a gan\u00e2ncia tornou-se culturalmente aceita. Existe uma conex\u00e3o direta entre essa gan\u00e2ncia, no momento em que ela se torna difundida na sociedade em geral, e alguns dos piores problemas sociais do cotidiano \u2013 por exemplo, quando crian\u00e7as matam outras para roubar um par de t\u00eanis de marca\u201d, escreveu ela.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no in\u00edcio do s\u00e9culo, \u00e9poca que foi marcada por uma esperan\u00e7a mundial de que as empresas, de fato, trocariam o \u201cbusiness as usual\u201d por uma forma consciente de fazer neg\u00f3cios.Foi nesse per\u00edodo \u2013 2003 \u2013 que comecei a editar o Raz\u00e3o Social e cheguei mais perto de algumas dessas corpora\u00e7\u00f5es. Sem nenhum compromisso editorial acordado com elas, a revista noticiava os bons projetos que podiam, de fato, mudar a vida e a rotina de comunidades.A ideia, talvez mais inocente do que imagin\u00e1vamos na \u00e9poca, era possibilitar que outras empresas lessem e copiassem os modelos adotados.<\/p>\n<p>Fiz algumas entrevistas com CEOs que me contaram estar envolvidos com a causa. A proposta era sincera. Mas a inten\u00e7\u00e3o, muitas vezes, durava s\u00f3 at\u00e9 descobrirem que as boas iniciativas de responsabilidade social custavam dinheiro e traziam de volta apenas o lucro intang\u00edvel, ou seja, boa imagem.<\/p>\n<p>Milton Friedman, economista norte-americano morto em 2006, foi um dos primeiros a fazer essas contas. Publicou um artigo em 1970 no \u201cThe New York Times\u201d com o seguinte t\u00edtulo: \u201cA responsabilidade social dos neg\u00f3cios \u00e9 aumentar seus lucros\u201d, em que declarou pouca paci\u00eancia com os capitalistas que \u201calegam que o neg\u00f3cio n\u00e3o existe simplesmente para dar lucro, mas que deveria tamb\u00e9m promover o bem social e que o dono do neg\u00f3cio deve ter uma consci\u00eancia social e levar a s\u00e9rio suas responsabilidades em prover emprego, eliminar a discrimina\u00e7\u00e3o, evitar a polui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Friedman ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Economia, com adeptos e cr\u00edticos \u00e0 sua teoria. Entre os cr\u00edticos estava John Mackey, CEO da Whole Foods que se auto descrevia como um empres\u00e1rio libert\u00e1rio. Mackey acreditava que a vis\u00e3o de Friedman era estreita e subestimava dimens\u00e3o humanit\u00e1ria do capitalismo. Entre os correligion\u00e1rios que defendiam a mesma tese de Friedman, o CEO da Cypress, T.J.Rodgers, argumentava que \u201cas empresas fazem mais se maximizarem os valores dados aos acionistas do que doando tempo e dinheiro para a caridade\u201d.<\/p>\n<p>Neste sentido, de fato os defensores da responsabilidade social corporativa acabaram perdendo terreno. N\u00e3o demorou muito tempo para os cidad\u00e3os perceberem que a filantropia empresarial, que Rodgers chamava de caridade, podia ser uma forma de encobrir outras atitudes que nada tinham de respons\u00e1veis, quer seja com os funcion\u00e1rios como com o meio ambiente. Foi surgindo ent\u00e3o a necessidade de as empresas terem neg\u00f3cios sustent\u00e1veis, o que significa ter muitos outros cuidados.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria ainda n\u00e3o acabou, mas j\u00e1 amadureceu bastante desde que comecei a estud\u00e1-la, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Anita Roddick recebeu v\u00e1rios pr\u00eamios em sua vida pela participa\u00e7\u00e3o, como empres\u00e1ria, em causas socioambientais. Ela morreu em 2007, seis anos antes da proibi\u00e7\u00e3o sobre a venda de cosm\u00e9ticos que tenham sido testados em animais ter entrado em vigor em toda a Uni\u00e3o Europeia.Mesmo as empresas transnacionais n\u00e3o podem vender l\u00e1 seus produtos que foram testados em animais em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A causa animal \u00e9 importante, sem d\u00favida alguma. Mas aqui eu a estou usando para contar parte de uma hist\u00f3ria sobre o envolvimento de corpora\u00e7\u00f5es com uma ordem mundial que precisa sofrer mudan\u00e7as.Quer seja para evitar que o aquecimento global exceda os 2 graus no fim do s\u00e9culo, quer seja para tentar uma sociedade menos desigual ainda hoje ou amanh\u00e3, fato \u00e9 que as empresas precisam estar envolvidas.Uma produ\u00e7\u00e3o industrial menos gananciosa \u00e9 um dos pilares das modifica\u00e7\u00f5es que precisam ser feitas.<\/p>\n<p>Antes de morrer, aos 64 anos, Anita Roddick vendeu sua empresa para outra, que n\u00e3o tinha boa reputa\u00e7\u00e3o no quesito cuidados com o ambiente.Em entrevista ao jornal brit\u00e2nico \u201cThe Guardian\u201d, a empres\u00e1ria deixou a entender que vendera sua empresa para empoderar mais a Funda\u00e7\u00e3o Roddick, criada por ela para alimentar as causas sociais que apoiava. Outro motivo para a venda, que frustrou muita gente, parece ter sido o fato de Anita n\u00e3o ter mais o controle total da Body&amp;Shop depois que ela ficou muito grande. E os acionistas estariam reclamando porque tinham que dar parte de seu capital para os projetos socioambientais da principal propriet\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 uma hist\u00f3ria. Como eu disse, ainda sem fim.<\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p><em>Fonte: <\/em>G1<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/29\/09\/2016\/sobre-o-fim-dos-testes-em-animais-e-o-envolvimento-das-empresas-nas-mudancas-necessarias\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm dos maiores problemas do mundo dos neg\u00f3cios \u00e9 que a gan\u00e2ncia tornou-se culturalmente aceita. 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