{"id":82904,"date":"2016-11-14T12:01:37","date_gmt":"2016-11-14T12:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=82904"},"modified":"2016-11-14T11:14:38","modified_gmt":"2016-11-14T11:14:38","slug":"portugues-acordamos-num-mundo-que-nao-conhecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/11\/portugues-acordamos-num-mundo-que-nao-conhecemos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Acord\u00e1mos num mundo que n\u00e3o conhecemos"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Jos\u00e9-Manuel-Fernandes.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-82905\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Jos\u00e9-Manuel-Fernandes-150x150.jpg\" alt=\"jose-manuel-fernandes\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Jos\u00e9-Manuel-Fernandes-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Jos\u00e9-Manuel-Fernandes.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><em>Trump assusta, mas mais assustados dev\u00edamos estar por n\u00e3o termos ouvido os eleitores que mobilizou. E n\u00e3o, n\u00e3o: Trump n\u00e3o \u00e9 um fascista nem os EUA s\u00e3o It\u00e1lia. Por isso n\u00e3o venham prever o apocalipse.<\/em><\/p>\n<p><em>9 nov 2016 &#8211; <\/em>Aconteceu. Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Era impens\u00e1vel que tivesse ganho as prim\u00e1rias do partido republicano \u2013 mas ganhou-as e todos culparam a divis\u00e3o dos advers\u00e1rios. Era ainda mais impens\u00e1vel que ganhasse a corrida \u00e0 Casa Branca, e ganhou-a. E agora n\u00e3o h\u00e1 bodes expiat\u00f3rios: a advers\u00e1ria era a mais preparada candidata que os democratas podiam escolher, teve todos com ela \u2013 incluindo Barack e Michele Obama \u2013, dispunha da mais poderosa m\u00e1quina eleitoral e tinha mais dinheiro.<\/p>\n<p>Mesmo assim, aconteceu.<\/p>\n<p>E agora que aconteceu n\u00e3o vale a pena prever o apocalipse. Porque n\u00e3o vai acontecer. O momento \u00e9 de espanto e choque, mas continuo a acreditar que a democracia americana n\u00e3o deixar\u00e1 de ser a democracia americana, e se h\u00e1 coisa que a caracteriza \u00e9 o princ\u00edpio da limita\u00e7\u00e3o de poderes. A fidelidade aos \u201cchecks and balances\u201d. O presidente, o \u201chomem mais poderoso do mundo\u201d, n\u00e3o \u00e9 omnipotente: Trump n\u00e3o actuar\u00e1 a seu bel prazer, mesmo que a sua surpreendente vit\u00f3ria o tenha creditado com uma autoridade pessoal que nunca pens\u00e1mos poss\u00edvel. Ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um homem sozinho, pois representa o movimento que o elegeu. Mas ele tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um vencedor solit\u00e1rio, pois os republicanos tamb\u00e9m conseguiram conservar maiorias na C\u00e2mara dos Representantes e no Senado, por vezes com vota\u00e7\u00f5es mais expressivas que as de Trump. Ser\u00e3o \u2014 t\u00eam de ser \u2014 o seu contrapeso.<\/p>\n<p>O importante, agora, \u00e9 perceber o que aconteceu e come\u00e7ar a tentar perceber o que pode vir a seguir.<\/p>\n<p>O que aconteceu foi algo que antevi nos dias que passei nos Estados Unidos no passado m\u00eas de Julho, sobretudo <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/observador.pt\/especiais\/a-cidade-onde-os-democratas-vao-votar-trump\/\" >nas regi\u00f5es afectadas pela desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/a>: Donald Trump estava a falar, e a ser ouvido, por legi\u00f5es de americanos que se sentiam e sentem esquecidos por Washington e pelas elites pol\u00edticas. Gente que se sente estrangeira no seu pr\u00f3prio pa\u00eds, trabalhadores preocupados com a perda das suas ind\u00fastrias e dos seus empregos, fam\u00edlias que tinham visto frustradas as suas expectativas de uma vida melhor. E n\u00e3o, n\u00e3o estamos a falar de grunhos sem educa\u00e7\u00e3o, mesmo que os houvesse \u2013 estamos a falar da classe m\u00e9dia baixa branca, de eleitores tradicionais do partido democrata.<\/p>\n<p>O que aconteceu \u00e9 que um pol\u00edtico sem experi\u00eancia, imprevis\u00edvel, muitas vezes grotesco, foi capaz de se identificar com aquela parte da Am\u00e9rica de que os jornais n\u00e3o falam e que as televis\u00f5es n\u00e3o mostram, uma Am\u00e9rica aflita e zangada. Foi essa capacidade de falar a esses eleitores que lhe permitiu ganhar as prim\u00e1rias republicanas e, depois, mobilizar suficientes eleitores para desautorizar as sondagens e bater Hillary sem apelo nem agravo.<\/p>\n<p>O que aconteceu \u2013 o que est\u00e1 a acontecer h\u00e1 muito tempo \u2013 \u00e9 que cresce nas nossas sociedades o desconforto com f\u00f3rmulas econ\u00f3micas e pol\u00edticas que n\u00e3o d\u00e3o a uma parte importante da cidadania a percep\u00e7\u00e3o de que controlam os seus destinos e os seus governos. Esse mal-estar n\u00e3o \u00e9 um exclusivo dos Estados Unidos, est\u00e1 tamb\u00e9m muito presente na Europa, e tende a explodir quando surgem factores externos de press\u00e3o como uma crise econ\u00f3mica ou uma vaga migrat\u00f3ria, um atentado terrorista ou uma vaga de criminalidade.<\/p>\n<p>Mas, aten\u00e7\u00e3o: o populismo, mesmo que tantas vezes grotesco, de Donald Trump n\u00e3o \u00e9 um fascismo. Tal como a Am\u00e9rica de 2016 n\u00e3o \u00e9 a It\u00e1lia de 1920. As institui\u00e7\u00f5es americanas t\u00eam uma solidez que n\u00e3o existia na Europa dos anos negros das d\u00e9cadas 20 e 30 do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>N\u00e3o se misture o que n\u00e3o pode ser misturado, pois isso conduzir-nos-\u00e1 a erros maiores no futuro. Se com esta elei\u00e7\u00e3o entramos num mundo que n\u00e3o conhecemos, porque n\u00e3o conhecemos as regras de Trump \u2013 ou sequer se tem regras \u2013, a verdade \u00e9 que o mais importante \u00e9, por um lado, obrig\u00e1-lo a seguir as regras do jogo, em especial na frente internacional, e, por outro lado, compreender que o triunfo de Trump, assim como o triunfo de outros populismos, corresponde ao fracasso dos pol\u00edticos e partidos moderados, de esquerda e de direita, \u00e0 sua incapacidade de falarem com sectores cada vez mais importantes do eleitorado. E que \u00e9 isso que temos de mudar, n\u00e3o imitando o populismo, ou promovendo uma variante esquerdista do populismo, antes mostrando como o nosso mundo imperfeito \u00e9 muito melhor do que as quimeras prometidas pelos demagogos.<\/p>\n<p>Como disse no in\u00edcio, n\u00e3o h\u00e1 bodes expiat\u00f3rios, Donald Trump teve quem lhe desse boa luta. O que h\u00e1, isso sim, \u00e9 um enorme vazio de boas respostas \u2013 aquelas que temos de dar aos que foram votar Trump para acabar com a pol\u00edtica tal como a conhecemos. Os que t\u00eam de ser reconquistados para uma agenda reformista e moderada, sem milagres mas com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Jos\u00e9 Manuel Fernandes &#8211; <\/em><em>Nasci a 7 de Abril de 1957 e sou jornalista desde 1976, passei por v\u00e1rios jornais (<\/em>Voz do Povo, Expresso<em>) e fui fundador e, mais tarde, director do<\/em> P\u00fablico <em>(de 1998 a 2009). Escrevi v\u00e1rios livros, nomeadamente<\/em> O Homem e o Mar, o Litoral Portugu\u00eas <em>(C\u00edrculo de Leitores\/Gradiva), <\/em>Di\u00e1logo em Tempo de Escombros <em>(com D. Manuel Clemente,<\/em> Pedra da Lua), Liberdade e Informa\u00e7\u00e3o <em>(Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos) e<\/em> Era Uma Vez a Revolu\u00e7\u00e3o <em>(Aletheia) e colaboro, como professor convidado, com o Instituto de Estudos Pol\u00edticos da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/observador.pt\/opiniao\/acordamos-num-mundo-que-nao-conhecemos\/\" >Go to Original \u2013 observador.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trump assusta, mas mais assustados dev\u00edamos estar por n\u00e3o termos ouvido os eleitores que mobilizou. E n\u00e3o, n\u00e3o: Trump n\u00e3o \u00e9 um fascista nem os EUA s\u00e3o It\u00e1lia. 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