{"id":84724,"date":"2016-12-26T14:14:11","date_gmt":"2016-12-26T14:14:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=84724"},"modified":"2016-12-26T14:14:11","modified_gmt":"2016-12-26T14:14:11","slug":"portugues-por-que-amar-um-e-comer-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2016\/12\/portugues-por-que-amar-um-e-comer-o-outro\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Por que amar um e comer o outro?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_84725\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/pig-porco.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-84725\" class=\"size-full wp-image-84725\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/pig-porco.jpg\" alt=\"\" width=\"510\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/pig-porco.jpg 510w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/pig-porco-300x190.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-84725\" class=\"wp-caption-text\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>20 dez 2016 &#8211; <\/em>Pense em um porco. Talvez j\u00e1 esteja ficando com \u00e1gua na boca s\u00f3 de imaginar o bacon crocante, as costelas suculentas, o presunto saboroso e a lingui\u00e7a apimentada. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) relata que a carne su\u00edna \u00e9 comercializada em mais lugares no mundo do que qualquer outra, respondendo por 36% de todo o consumo carn\u00edvoro. O americano m\u00e9dio consome em torno de 23 quilos de carne su\u00edna por ano \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 nada comparado \u00e0 China, onde as pessoas consomem o dobro dessa quantidade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em algumas comunidades, como as adeptas do islamismo e do juda\u00edsmo, o alimento \u00e9 proibido. E algumas pessoas consideram o porco \u2013 particularmente a variedade de pequeno porte \u2013 um animal de estima\u00e7\u00e3o ador\u00e1vel. Soci\u00e1veis, afetivos e muito mais limpos do que sua reputa\u00e7\u00e3o sugere, os animais s\u00e3o muito inteligentes e adoram carinho. Porcos brincam de correr atr\u00e1s de pessoas e objetos, descobrem como operar termostatos em suas baias de confinamento e s\u00e3o capazes at\u00e9 de aprender jogos simples de computador. Um estudo de 2014 sobre cogni\u00e7\u00e3o animal revelou que os porcos s\u00e3o capazes de compreender gestos humanos, como apontar, de modo semelhante aos c\u00e3es.<\/p>\n<p>Se neste ponto voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando a se sentir pouco \u00e0 vontade em rela\u00e7\u00e3o ao seu sandu\u00edche de bacon, saiba que n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Esse desconforto se origina de um fen\u00f4meno que os cientistas apelidaram \u201co paradoxo da carne\u201d. Ele surge quando pessoas que gostam de comer carne evitam pensar nos animais sofrendo \u2013 e morrendo para fornec\u00ea-la. \u201cSe come\u00e7armos a cutucar o assunto, todos parecem sentir-se um pouco mal em rela\u00e7\u00e3o ao h\u00e1bito de comer carne\u201d, comenta o psic\u00f3logo Brock Bastian, pesquisador da Universidade de Melbourne, na Austr\u00e1lia. Fundamentalmente, se voc\u00ea respeita o direito \u00e0 vida de todas as criaturas que n\u00e3o lhe causam preju\u00edzo, sejam elas grandes ou pequenas, a ideia de pactuar com sua morte apenas para satisfazer o prazer moment\u00e2neo de saborear sua carne deve ser pelo menos perturbadora. \u201cUma das preocupa\u00e7\u00f5es morais mais enraizadas e de ampla aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 impedir danos. Se um animal morresse de causas naturais, duvido que haveria algum conflito em rela\u00e7\u00e3o a com\u00ea-lo\u201d, diz Bastian.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea pode ser apaixonado por bichos e ao mesmo tempo ser um carn\u00edvoro convicto deflagra o dilema. Dois fatos curiosos ressaltam isso: em um estudo realizado com moradores de Ohio, 81% disseram acreditar que o bem-estar dos animais de fazenda \u00e9 t\u00e3o importante quanto o de animais de estima\u00e7\u00e3o; outro: as pessoas gastam fortunas com seus animais peludos: em 2015, a estimativa nos Estados Unidos era de US$ 60 bilh\u00f5es. Mesmo assim, isso n\u00e3o as impedia de consumir cerca de 9 bilh\u00f5es de animais por ano. E, embora os dados sejam americanos, \u00e9 muito prov\u00e1vel que em grandes cidades brasileiras os resultados n\u00e3o fossem muito diferentes.<\/p>\n<p>O paradoxo da carne \u00e9 um bom caminho para compreender a disson\u00e2ncia cognitiva, um estado psicologicamente desagrad\u00e1vel que vem \u00e0 tona quando temos apre\u00e7o por v\u00e1rias convic\u00e7\u00f5es mutualmente inconsistentes ou quando h\u00e1 uma lacuna entre nossas atitudes e nosso comportamento. O psic\u00f3logo Leon Festinger, professor da Universidade Stanford, descreveu o conceito pela primeira vez em 1957, mas o fen\u00f4meno s\u00f3 passou a ser estudado com mais profundidade recentemente. O paradoxo ficou mais n\u00edtido \u00e0 medida que os psic\u00f3logos investigam as maneiras como formulamos nosso apetite por animais. Os estudos revelaram que utilizamos uma s\u00e9rie de artif\u00edcios racionais para distinguir animais que consumimos daqueles que estimamos com o objetivo de tornar ideias n\u00e3o palat\u00e1veis mais f\u00e1ceis de engolir. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, nos enganamos para atenuar a culpa.<\/p>\n<p>___________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Marta Zaraska \u00e9 jornalista especializada em ci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/20\/12\/2016\/por-que-voce-ama-um-e-come-o-outro\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paradoxo da carne \u00e9 um bom caminho para compreender a disson\u00e2ncia cognitiva, um estado psicologicamente desagrad\u00e1vel que vem \u00e0 tona quando temos apre\u00e7o por v\u00e1rias convic\u00e7\u00f5es mutualmente inconsistentes ou quando h\u00e1 uma lacuna entre nossas atitudes e nosso comportamento.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-84724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84724\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}