{"id":85843,"date":"2017-01-23T12:17:35","date_gmt":"2017-01-23T12:17:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=85843"},"modified":"2017-01-23T12:17:35","modified_gmt":"2017-01-23T12:17:35","slug":"portugues-quem-matou-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/01\/portugues-quem-matou-quem\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Quem matou quem?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_85844\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tilikum.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-85844\" class=\"wp-image-85844\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tilikum.png\" width=\"700\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tilikum.png 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tilikum-300x152.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-85844\" class=\"wp-caption-text\">A orca Tilikum. Reprodu\u00e7\u00e3o | SeaWorld<\/p><\/div>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>16 de janeiro de 2017 &#8211; <\/em>Morre orca que matou a pr\u00f3pria treinadora.<br \/>\nMorre baleia assassina que matou treinadora em 2010.<br \/>\nMorre Tilikum, a verdadeira orca assassina.<\/p>\n<p>Foram essas as repetidas manchetes \u2013 n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas pelo mundo \u2013 sobre a morte de Tilikum, orca mantida em cativeiro pelo SeaWorld por mais de 25 anos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o houve, na verdade, nenhuma m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de escritores e jornalistas em estereotipar Tilly como a \u201cbaleia que matou a pr\u00f3pria treinadora\u201d. Afinal e infelizmente, quando estamos na posi\u00e7\u00e3o de formadores e informadores de opini\u00e3o, tratando de um tema pol\u00eamico dentro de um nicho complexo, se faz necess\u00e1rio situar o leitor de alguma forma.<\/p>\n<p>Por outro lado, o estigma em que a vida e a morte de Tillikum foram envolvidas \u00e9 um convite \u00e0 nossa reflex\u00e3o. N\u00e3o como jornalistas, n\u00e3o como publicit\u00e1rios, n\u00e3o como ativistas. Simplesmente, como seres humanos.<\/p>\n<p>Comecemos, ent\u00e3o, pela etimologia. Cientificamente, a esp\u00e9cie est\u00e1 sob o g\u00eanero Orcinus, do latim \u201creino da morte\u201d ou que pertence a Orcus, o deus do submundo. A express\u00e3o \u201cbaleia assassina\u201d surgiu entre os marinheiros do s\u00e9culo XVIII, unicamente pelo fato de algumas orcas se alimentarem de outras baleias, focas e golfinhos. De l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o h\u00e1 nenhum registro sequer de ataque de orcas a seres humanos em habitat natural. O termo \u201corca\u201d s\u00f3 ganhou popularidade a partir dos anos 1960, quando cientistas e estudiosos come\u00e7aram a perceber o qu\u00e3o inteligente e gentil esse animal poderia ser.<\/p>\n<p>Tilikum foi capturado da natureza em 1983, separado da fam\u00edlia aos dois anos de idade \u2013 o que, n\u00e3o s\u00f3 levando em considera\u00e7\u00e3o o fato de ser arrancado de seu ambiente, mas tamb\u00e9m a estrutura e a cultura familiar da esp\u00e9cie, j\u00e1 \u00e9 indiscutivelmente cruel.<\/p>\n<p>Foi transportado para um zool\u00f3gico marinho na Isl\u00e2ndia, lugar em que viveu por um ano at\u00e9 ser vendido para o Sealand, j\u00e1 extinto parque aqu\u00e1tico no Canad\u00e1, onde dividia o tanque com mais duas orcas f\u00eameas. Na \u00e9poca, o adestramento de cet\u00e1ceos ainda era realizado com refor\u00e7os negativos. Se Tilly fazia um truque errado, as tr\u00eas orcas eram punidas pelos treinadores; e ele, punido por suas companheiras de cativeiro. Tilikum, que ainda n\u00e3o tinha alcan\u00e7ado a marca de suas cinco toneladas, quase o dobro do peso que as outras duas, vivia cheio de les\u00f5es pelo corpo.<\/p>\n<p>Os tanques do Sealand n\u00e3o eram piscinas de concreto em sua totalidade. Os recintos eram fechados por redes. Quando Tilly atingiu cinco metros de comprimento e passou das cinco toneladas, os respons\u00e1veis pelo parque ficaram com receio de ele conseguir arrebentar as barreiras e fugir para o mar. Assim, Tilikum passou a ser confinado em um tipo de container, de seis por nove metros, onde, obviamente, mal conseguia se mexer.<\/p>\n<p>Em 1991, um dos treinadores do parque, Keltie Byrne, de 20 anos, escorregou e caiu em um dos tanques. N\u00e3o conseguiu se desvencilhar de Tilly e suas companheiras, e acabou morrendo afogada. O Sealand n\u00e3o aguentou a press\u00e3o e sucumbiu, fechando suas comportas pouco tempo depois. Foi quando Tilikum seguiu para o SeaWorld.<\/p>\n<p>Estrutura melhor, confinamento igual. Nessa \u00e9poca, o parque de Orlando ainda defendia que a expectativa de vida das orcas era maior em cativeiro, por conta dos tratamentos especializados a que eram submetidas. Pouco tempo depois, o SeaWorld passou a receber n\u00e3o um tanque, mas um mar de cr\u00edticas por capturar os animais na natureza para os espet\u00e1culos. O parque, ent\u00e3o, come\u00e7ou o seu programa de reprodu\u00e7\u00e3o, em que Tilikum tinha uma fun\u00e7\u00e3o fundamental: robusto, era o reprodutor mais valioso do complexo aqu\u00e1tico.<\/p>\n<p>Isso explica por que a oferta de Steve Dunn, fundador e CEO de uma marca americana de produtos para beb\u00eas e ativista pelo fim do cativeiro de cet\u00e1ceos, que estava disposto a pagar um milh\u00e3o de d\u00f3lares pela liberdade de Tilikum, n\u00e3o fez nem c\u00f3cegas na administra\u00e7\u00e3o do parque.<\/p>\n<p>A morte da treinadora Dawn Brancheau, em 2010, n\u00e3o s\u00f3 reacendeu a discuss\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de animais pela ind\u00fastria do entretenimento, como tamb\u00e9m o impasse sobre a seguran\u00e7a dos profissionais: nos EUA, h\u00e1 uma luta intensa e paralela do sindicato trabalhista para que os treinadores sejam colocados para fora dos tanques.<\/p>\n<p>Embora, convenhamos: se voc\u00ea, como treinador, se disp\u00f5e a nadar em uma piscina com um animal de cinco toneladas e quase sete metros, voc\u00ea sabe do risco que est\u00e1 correndo; se voc\u00ea, como empresa, coloca seu profissional para nadar em uma piscina com um animal de cinco toneladas e quase sete metros, voc\u00ea sabe do risco que est\u00e1 correndo.<\/p>\n<p>Cada um sabe do seu dorso. E o SeaWorld sabia do seu. Por isso, a manobra pol\u00edtica sobre a morte de Dawn come\u00e7ou j\u00e1 no an\u00fancio da trag\u00e9dia para a grande m\u00eddia: o comunicado oficial dizia que a treinadora n\u00e3o estava na \u00e1gua no momento do acidente; que ela havia sido puxada por Tilikum pelo cabelo, porque usava um rabo de cavalo. A cena se estendeu com o parque afirmando ainda que todas as treinadoras seriam obrigadas a usar coques, em nome da seguran\u00e7a das profissionais.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi logo desmentida por testemunhas, que afirmaram que tudo ocorreu quando Daw entrou na \u00e1gua para realizar sua parte do show.<\/p>\n<p>Em 2013, com o lan\u00e7amento de BlackFish, document\u00e1rio que, por meio da hist\u00f3ria de Tilikum, exp\u00f5e os bastidores e a crueldade dessa ind\u00fastria, o SeaWorld n\u00e3o teve mais como varrer a sujeira para debaixo do tanque: o complexo de parques passou a registrar quedas estrondosas de p\u00fablico e de faturamento, al\u00e9m de perder patroc\u00ednios e parcerias comerciais.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Tilikum, cuja sa\u00fade mental j\u00e1 estava dilacerada, come\u00e7ava a apresentar sinais de estafa f\u00edsica. Raramente, aparecia nos shows. Chegava a passar tr\u00eas horas sem se mexer dentro do tanque. Seu estado se tornou, praticamente, let\u00e1rgico. Em mar\u00e7o de 2016, o SeaWorld anunciou que Tilly estava doente, acometido por uma infec\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o causada por uma bact\u00e9ria. O triste desfecho era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sexta-feira, dia 6, o parque tornou p\u00fablica a morte de Tilikum, afirmando que ele j\u00e1 estava em idade avan\u00e7ada e ressaltando o quanto todos da fam\u00edlia SeaWorld lamentavam a sua partida\u2026 Mas que \u201ca vida de Tilikum estar\u00e1 sempre ligada \u00e0 perda de nossa amiga e colega Dawn Brancheau\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Tilikum n\u00e3o estar\u00e1 sempre ligado \u00e0 morte de Dawn. O SeaWorld estar\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Tilikum n\u00e3o morreu por conta da idade avan\u00e7ada. Na verdade, Tilikum partiu 24 anos antes que sua expectativa de vida em habitat natural.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Tilikum n\u00e3o morreu na manh\u00e3 de sexta-feira. Tilikum estava morrendo h\u00e1 34 anos.<\/p>\n<p>Sejamos honestos.<\/p>\n<p>Quem matou quem mesmo?<\/p>\n<p>_______________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Carol Zerbato \u00e9 publicit\u00e1ria e ativista pelos direitos animais.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/16\/01\/2017\/quem-matou-quem\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>16 de janeiro de 2017 &#8211; Morre orca que matou a pr\u00f3pria treinadora. Morre baleia assassina que matou treinadora em 2010. Morre Tilikum, a verdadeira orca assassina. 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