{"id":86314,"date":"2017-02-06T12:00:28","date_gmt":"2017-02-06T12:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=86314"},"modified":"2017-02-02T17:43:42","modified_gmt":"2017-02-02T17:43:42","slug":"portugues-eutanasia-ou-a-pratica-de-ajudar-os-enfermos-a-bem-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/02\/portugues-eutanasia-ou-a-pratica-de-ajudar-os-enfermos-a-bem-morrer\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Eutan\u00e1sia, ou a pr\u00e1tica de ajudar os enfermos a bem morrer?"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Paulo-Mendes-Pinto.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-82164\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Paulo-Mendes-Pinto.png\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><em>H\u00e1 que debater, finalmente, numa sociedade que se afastou da morte, esse lugar-comum que \u00e9 aquilo para que todos caminhamos.<\/em><\/p>\n<p>Decididamente, a problem\u00e1tica da eutan\u00e1sia chegou para se colocar nas nossas agendas como uma das quest\u00f5es mais importantes dos pr\u00f3ximos meses, uma quest\u00e3o-fracturante, como normalmente se caracterizam estas d\u00favidas que a sociedade recorrentemente apresenta perante quest\u00f5es relacionadas com a vida.<\/p>\n<p>De resto, as sociedades europeias mais a norte j\u00e1 convivem com o inc\u00f3modo desta quest\u00e3o h\u00e1 algum tempo, desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, quando os primeiros estados legislaram a favor desta possibilidade de o doente terminar coma sua vida em situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a irrevog\u00e1vel e dor profunda.<\/p>\n<p>Muito e variado se poderia elencar sobre posturas de tradi\u00e7\u00f5es, culturas e religi\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a esta quest\u00e3o. Mas, e circunscrevendo-nos apenas ao nosso meio cultural, a quest\u00e3o da eutan\u00e1sia vai muito mais longe na nossa mentalidade do que podemos supor. E vai, em primeiro lugar, \u00e0 pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de propriedade que cada indiv\u00edduo tem sobre si mesmo. Isto \u00e9, posso eu, ou qualquer um de nos, livremente maltratar o nosso corpo, podendo, inclusive, levar o dito corpo \u00e0 morte?<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o fundamental vem do campo religioso em que a vida \u00e9 dada e tirada por Deus. T\u00e3o simples quanto isto: nenhum humano tem o direito de se sobrepor \u00e0 vontade divina. No adagi\u00e1rio, falando do momento da morte, dizemos que \u201cchegou a hora\u201d, numa quase predestina\u00e7\u00e3o em que o corte do fio da vida estaria j\u00e1 definido, restando saber quando teria lugar esse acto da tesoura que simbolicamente encontramos tantas vezes na decora\u00e7\u00e3o de jazigos nos cemit\u00e9rios oitocentistas.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o acaba por ser ainda mais complexa, imiscuindo-se com a lingu\u00edstica e com a hist\u00f3ria que as palavras e os pensamentos v\u00e3o criando no correr desse fio do tempo. E correria o ano de 1998 quando na Biblioteca Nacional de Portugal, ao percorrer o cat\u00e1logo dos Reservados, me deparei com um t\u00edtulo que me chamou imediatamente \u00e0 aten\u00e7\u00e3o. Dizia: Novo ministro de enfermos ou pr\u00e1tica de ajudar os enfermos a bem morrer. Era uma obra editada em Portugal em 1776, da pena de Baltazar Bosch de Centelhas e Cardona (1645-1714).<\/p>\n<p>O t\u00edtulo deixou-me at\u00f3nito e tive de ver de que se tratava. Era, nada mais, nada menos, que um longo guia, um tratado teol\u00f3gico sobre a chamada Extrema-un\u00e7\u00e3o, o sacramento dado no leito de morte. Era um livro sobre esses momentos derradeiros, sobre a forma e o sentido desse sacramento final, tido de tal forma como fundamental que \u00e9 caracterizado em t\u00edtulo como \u201cpr\u00e1tica de ajudar os enfermos a bem morrer\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que esta obra n\u00e3o era, na nossa concep\u00e7\u00e3o da palavra, uma obra sobre eutan\u00e1sia, mas era-o sobre \u201ceutan\u00e1sia\u201d, na medida em que a express\u00e3o forte usada \u00e9 essa mesma: eu + tanathos = \u201cboa morte\u201d, no fundo, o que \u00e9 dito no final do t\u00edtulo desse manual: [\u2026] ajudar os enfermos a bem morrer.<\/p>\n<p>E a situa\u00e7\u00e3o em pleno s\u00e9culo XVIII, ou mesmo j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, era de verdadeiro p\u00e2nico em torno do \u201cbem morrer\u201d. Popularizara-se uma cren\u00e7a, profundamente enraizada, sobre a dificuldade de morrer em caso de graves pecados ou vida contrariamente vivida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s normas da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Neste sentido, a boa administra\u00e7\u00e3o da Extrema-un\u00e7\u00e3o era, at\u00e9 na nossa acep\u00e7\u00e3o, eutan\u00e1sia, pois apenas ela poderia, segundo se cria, libertar o moribundo da dor espiritual e mesmo f\u00edsica resultante do pecado, possibilitando que a morte chegasse sem dor.<\/p>\n<p>Para se perceber como os paradigmas de pensamento seguem at\u00e9 mais perto de n\u00f3s, recupero uma personagem de outra das minhas pesquisas em torno do universo religioso portugu\u00eas: Pe. Jos\u00e9 de Sousa Amado, nascido em 1812, professor no Liceu Nacional de Lisboa e membro da Rela\u00e7\u00e3o Patriarcal. Trata-se de um prof\u00edcuo autor que percorreu muitas das grandes quest\u00f5es fracturantes da sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Para este Padre, o protestantismo e a ma\u00e7onaria s\u00e3o a porta de entrada da filosofia moderna, do racionalismo e da ci\u00eancia, o que levou \u00e0 degeneresc\u00eancia e ao afastamento da sociedade a Deus. Voltaire, a par com os homens da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, \u00e9 o grande criminoso que lan\u00e7ara no mundo os elementos que o conduziram ao desaire da sua \u00e9poca, o mundo resultante das revolu\u00e7\u00f5es liberais. Na sua violenta argumenta\u00e7\u00e3o, inflamando medo aos seus leitores, vai buscar o exemplo de Voltaire para mostrar o tormento que teve no leito da morte por n\u00e3o ter recebido a Extrema-un\u00e7\u00e3o\u2026 O sacramento era, de facto, a forma de \u201cbem morrer\u201d ou, indo ao \u00e9timo grego, a eutan\u00e1sia da sua \u00e1poca.<\/p>\n<p>Nesta personagem encontramos muito do que estaria a ser posto em causa por meados do s\u00e9culo XIX. Este Padre que, felizmente, muito nos deixou de escritos, \u00e9 uma porta de acesso privilegiada aos conflitos que a sociedade portuguesa gerou perante as quest\u00f5es de fundo que a atravessaram (entre muitas obras, s\u00e3o fundamentais para estas quest\u00f5es: Os protestantes desmascarados\u2026 1873; Exposi\u00e7\u00e3o contra os protestantes \u2026, l875).<\/p>\n<p>Ler a obra de Amado \u00e9 presenciar um enorme testemunho de for\u00e7a e coer\u00eancia que, logicamente, n\u00e3o \u00e9 o nosso. Entrar por dentro das suas argumenta\u00e7\u00f5es, das suas ideologias, das suas vorazes e intolerantes cr\u00edticas, \u00e9 perceber o que estava em jogo a n\u00edvel de princ\u00edpios organizadores do tecido e dos valores sociais.<\/p>\n<p>No limite do que podemos conceber para esta postura religiosa e de mentalidade, o Pe. Jos\u00e9 de Sousa Amado escreveria v\u00e1rias obras sobre a necessidade de respeitar e cumprir os sacramentos institu\u00eddos. Tem textos que tratam a necessidade da confiss\u00e3o auricular, sempre mostrando a sua funcionalidade na salva\u00e7\u00e3o vindoura. Encontramos ainda um livro que \u00e9 quase um manual direccionado para a Confirma\u00e7\u00e3o. Temos um texto sobre a Primeira Comunh\u00e3o. Outro sobre as indulg\u00eancias, \u00e9 claro. E, por fim, a situa\u00e7\u00e3o do sacramento junto ao leito de morte.<\/p>\n<p>Destas obras, \u00e9 esta \u00faltima a \u00fanica que tem um claro tom polemista e interventivo fora do estrito \u00e2mbito da Igreja Cat\u00f3lica. O volume em causa \u00e9 um apelo a que se procurem apenas os m\u00e9dicos que n\u00e3o descurem, para al\u00e9m da cura f\u00edsica dos males do doente, a necessidade de o moribundo n\u00e3o morrer sem o sacramento final (Cautela com os medicos ou observa\u00e7\u00f5es e exemplos sobre a conveniencia e necessidade de n\u00e3o convidar nunca sen\u00e3o os medicos religiosos, e de rejeitar sempre os medicos \u00edmpios, 1858).<\/p>\n<p>Nesta obra \u00e9 interessante uma certa maleabilidade do discurso, muitas vezes fundamentalista e radical, de Sousa Amado. Aqui, sabendo-se lido por indiv\u00edduos fora do seu horizonte de normal argumenta\u00e7\u00e3o, procura uma justifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 quase do campo da psicologia: n\u00e3o s\u00f3 se deve receber a Extrema-un\u00e7\u00e3o por motivos de salva\u00e7\u00e3o eterna, como por descanso e conforto no momento da morte para o doente que, sabendo-se ungido, sofre menos com a tormenta final. Mais uma vez, uma metodologia para uma \u201cbem morrer\u201d.<\/p>\n<p>Tomando Jos\u00e9 de Sousa Amado como um f\u00f3ssil de uma \u00e9poca, de uma conjuntura prenhe de quest\u00f5es fracturantes como foi a passagem do chamado Antigo Regime ao Liberalismo, somos levados a compreender que a eutan\u00e1sia, seja a do s\u00e9culo XVIII ou a dos nossos tempos -que de forma t\u00e3o sublime vemos na obra cinematogr\u00e1fica de Denys Arcand, As invas\u00f5es b\u00e1rbaras- se encontra muito para al\u00e9m das problem\u00e1ticas que podem ser levantadas pela morte f\u00edsica.<\/p>\n<p>Muito de espiritual tem a no\u00e7\u00e3o de vida e de morte e, por conseguinte, tudo o que nelas tenha implica\u00e7\u00f5es. Estamos numa \u00e9poca em que os Cuidados Paliativos redefinem a dor; Estamos<\/p>\n<p>num momento em que as pr\u00e1ticas espirituais, especialmente as de origem asi\u00e1tica, parecem ter ainda tanto a dar no campo das terap\u00eauticas, nomeadamente no controle da dor. Onde ir buscar crit\u00e9rios s\u00f3lidos para defini\u00e7\u00f5es \u00e9ticas t\u00e3o complexas?<\/p>\n<p>Seguindo Jos\u00e9 de Sousa Amado e os restantes Padres que nos s\u00e9culos XVIII e XIX trabalharam a quest\u00e3o da \u201cboa morte\u201d, o que interessa \u00e9, com dignidade, procurar a tal \u201cboa morte\u201d. Para isso, precisamos de reflectir sobre a serenidade nos e dos \u00faltimos momentos.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa certa, mesmo seguindo a via do que hoje se entende por eutan\u00e1sia -e que \u00e9 o meu caso- \u00e9 que a discuss\u00e3o n\u00e3o pode, por nada, circunscrever-se a uma contagem simples de votos entre quem, \u00e0 partida j\u00e1 \u00e9 a favor ou contra.<\/p>\n<p>H\u00e1 que debater, finalmente, numa sociedade que se afastou da morte, esse lugar-comum que \u00e9 aquilo para que todos caminhamos. \u00c9 esta a oportunidade, entre contas de PIB, de d\u00e9fices e de IVAs, de regressar um pouco ao essencial.<\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Prof. Paulo Mendes Pinto \u00e9 diretor da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona em Lisboa, Portugal.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/bolsa-de-especialistas\/2016-03-03-Eutanasia-ou-a-pratica-de-ajudar-os-enfermos-a-bem-morrer-\" >Go to Original \u2013 sapo.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 que debater, finalmente, numa sociedade que se afastou da morte, esse lugar-comum que \u00e9 aquilo para que todos caminhamos.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-86314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}