{"id":88044,"date":"2017-03-06T12:00:34","date_gmt":"2017-03-06T12:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=88044"},"modified":"2017-03-04T19:56:45","modified_gmt":"2017-03-04T19:56:45","slug":"portugues-falar-bem-do-outro-e-mais-dificil-nos-gostamos-mesmo-e-de-odiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/03\/portugues-falar-bem-do-outro-e-mais-dificil-nos-gostamos-mesmo-e-de-odiar\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) \u201cFalar bem do outro \u00e9 mais dif\u00edcil, n\u00f3s gostamos mesmo \u00e9 de odiar\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Transcri\u00e7\u00e3o de trechos da entrevista que o Professor Leandro Karnal concedeu a <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/tvuol.uol.com.br\/\" >UOL-TV<\/a><\/em><em>\u00a0\u2013 Originalmente titulada de <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/tvuol.uol.com.br\/video\/o-historiador-leandro-karnal-aponta-as-caracteristicas-do-racismo-no-brasil-04028C9B376CE0C95326\" >\u201cO historiador Leandro Karnal aponta as caracter\u00edsticas do racismo no Brasil\u201d<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Leandro_Karnal_cropped.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-88046\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Leandro_Karnal_cropped.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"221\" \/><\/a>\u201cFalar bem do outro \u00e9 mais dif\u00edcil, n\u00f3s gostamos mesmo \u00e9 de odiar.\u00a0 Amar \u00e9 um pouquinho mais complicado. A esp\u00e9cie humana n\u00e3o p\u00e1ra o carro para ver uma \u00e1rvore florida, mas sim para ver um acidente.<\/em><\/p>\n<p>Num acidente na rodovia todo mundo quer ver sangue.\u00a0 A parte policial \u00e9 mais atenta na leitura do jornal.Ningu\u00e9m publica nas p\u00e1ginas da Folha ou do Estad\u00e3o: <em>ip\u00eas rosa deslumbram S\u00e3o Paulo<\/em><strong>.<\/strong>N\u00e3o se admite uma coisa dessas, infelizmente.\u00a0 \u00c9 imposs\u00edvel pensar a felicidade. Ningu\u00e9m faz fofoca, por exemplo, sobre a alegria, coisa deste tipo: \u201c<em>voc\u00ea soube que o fulano est\u00e1 fazendo sucesso? Voc\u00ea sabe que ele est\u00e1 feliz?\u201d.<\/em> \u00a0Ao contr\u00e1rio, se diz com sarcasmo: \u201c<em>ele faz sucesso e \u00e9 feliz, por\u00e9m\u2026\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a adversativa que cria empatia ente n\u00f3s. Porque transferir a sua dor de existir e a minha dor para um terceiro \u00e9 uma das melhores coisas; \u00e9 o chamado \u201cbode expiat\u00f3rio\u201d. Isso \u00e9 uma das melhoras coisas da vida, n\u00e3o? <em>Tudo teria dado certo na minha vida se eu n\u00e3o tivesse casado com fulana\u2026 \u00a0<\/em><\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica n\u00e3o vai durar muito tempo. N\u00f3s j\u00e1 tivemos polariza\u00e7\u00e3o no passado.\u00a0 E tivemos momentos n\u00e3o polarizados. Por\u00e9m, a polariza\u00e7\u00e3o tem muita for\u00e7a. Se eu identifico que todos os problemas que estou vivendo est\u00e3o relacionados a um partido ou a um personagem \u00e9 bom, porque a\u00ed eu n\u00e3o tenho nenhuma responsabilidade. Isso funcionou tragicamente quando Hitler identifica nos judeus os problemas da Alemanha. Ent\u00e3o, n\u00e3o fui eu quem trabalhou pouco, n\u00e3o fui eu quem fez tal coisa; foram os judeus, foi tal partido.\u00a0 Quem faz problemas ao Brasil vem de tal regi\u00e3o, ou seja, voc\u00ea transfere a sua responsabilidade e a sua dor.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam muitas dores: dores existenciais, sexuais, econ\u00f4micas. Como seria bom que tudo isso pertencesse ao outro e que, dizendo uma coisa bem filos\u00f3fica, <em>\u201ceu tiro o meu da reta\u201d<\/em>. Ou seja, transfiro todas as minhas mazelas para o outro.<\/p>\n<p><strong><em>\u00c9 verdade que a gente p\u00f5e para fora o que a gente tem dentro?\u00a0 <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o pode se incomodar com nada se voc\u00ea n\u00e3o tiver um eco disso. O horror que n\u00f3s temos ao caso tr\u00e1gico de um pai matando o filho ou uma m\u00e3e matando o filho \u00e9 um pouquinho do sentimento que temos de \u2018matar filho\u2019 desde que ele nasce.\u00a0 Se n\u00e3o foi assim na primeira inf\u00e2ncia, ser\u00e1 na adolesc\u00eancia, pegar no pesco\u00e7o do filho e torcer lentamente. A\u00ed quando o pai faz isso todo mundo fica horrorizado, \u00e9 um monstro. Por que ele \u00e9 um monstro? Porque ele mostrou um espelho daquilo que eu posso ser, mas eu controlo? Como \u00e9 custoso para eu controlar, como \u00e9 dif\u00edcil para eu controlar.<\/p>\n<p>Mais f\u00e1cil eu jogar toda essa minha dor no outro.\u00a0 Quer dizer, para voc\u00ea ser magra voc\u00ea tem de abdicar de muitos prazeres. A\u00ed voc\u00ea olha quem n\u00e3o abdicou desses prazeres, caiu de boca no <em>quindim<\/em>, nada nos <em>fios de ovos<\/em>, adora <em>baba de mo\u00e7a<\/em> e voc\u00ea diz: <em>ah, que pessoa relaxada<\/em>. Quer dizer, ela vive a alegria que eu n\u00e3o tenho mais. A minha \u00fanica alegria \u00e9 a end\u00edvia quinzenal que eu estou fazendo.\u00a0 Ou seja, essa \u00e9 uma maneira de transferir responsabilidade.<\/p>\n<p>Mas nem tudo \u00e9 emocional, existem quest\u00f5es culturais, estruturas outras, por\u00e9m a explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica revela muito sobre o individuo.\u00a0 Eu ataco aquilo que eu desejo, eu ataco aquilo que \u00e9 o ter. \u00c9 imposs\u00edvel explicar a humanidade sem levar em conta este fen\u00f4meno psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong><em>Sobre o racismo, a Constitui\u00e7\u00e3o de 88 deu para o racismo brasileiro a puni\u00e7\u00e3o mais dura do planeta Terra.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O racismo no Brasil \u00e9 punido com pris\u00e3o inafian\u00e7\u00e1vel. \u00c9 pior do que o assassinato, porque no assassinato voc\u00ea pode pagar fian\u00e7a em alguns casos. Se a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 dur\u00edssima \u00e9 porque n\u00f3s vivemos um processo racista. Em 516 anos de Brasil 388 foram feitos na escravid\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o escravista est\u00e1 presente entre n\u00f3s. O fato de que o Congresso, o fato de que as grandes universidades, o fato de que no empresariado, apesar de a popula\u00e7\u00e3o brasileira ser t\u00e3o marcadamente negra, mulata e outras express\u00f5es, e n\u00e3o estar representada t\u00e3o matematicamente no Congresso \u00e9 sinal de que temos um problema.<\/p>\n<p>Nosso problema n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o declarado como nos Estados Unidos, onde se formam guetos imediatamente e se afirma o racismo. Aqui o racismo \u00e9 disfar\u00e7ado, por\u00e9m, ele \u00e9 muito forte.\u00a0 Aquele racismo asqueroso que denuncia, sempre existe. Mas h\u00e1 um racismo um pouco mais dilu\u00eddo, por exemplo: o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais venda \u201cchapinha\u201d no planeta Terra. \u00c9 uma forma de tornar uma est\u00e9tica que \u00e9 o cabelo bom. E o cabelo bom \u00e9 o cabelo liso? Claro que eu n\u00e3o sou uma autoridade em cabelo e nem uma pessoa que pode desenvolver o tema\u201d. Leandro Karnal em entrevista\u00a0a <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/tvuol.uol.com.br\/video\/o-historiador-leandro-karnal-aponta-as-caracteristicas-do-racismo-no-brasil-04028C9B376CE0C95326\" >UOL-TV<\/a>\u00a0\u2013 Transcri\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u2013 Portal Ra\u00edzes.<\/p>\n<p>__________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lendro-karnal-3-696x365.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-88045\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lendro-karnal-3-696x365-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><em>Leandro Karnal<\/em><em> \u00e9 um historiador brasileiro, atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas na \u00e1rea de Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica. Foi tamb\u00e9m curador de diversas exposi\u00e7\u00f5es, como A Escrita da Mem\u00f3ria, em S\u00e3o Paulo, tendo colaborado ainda na elabora\u00e7\u00e3o curatorial de museus, como o Museu da L\u00edngua Portuguesa em S\u00e3o Paulo. Graduado em Hist\u00f3ria pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de S\u00e3o Paulo, Karnal tem publica\u00e7\u00f5es sobre o ensino de Hist\u00f3ria, bem como sobre Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica e Hist\u00f3ria das Religi\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.portalraizes.com\/racismo-no-brasil-leandro-karnal\/\" >Go to Original \u2013 portalraizes.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFalar bem do outro \u00e9 mais dif\u00edcil, n\u00f3s gostamos mesmo \u00e9 de odiar.  Amar \u00e9 um pouquinho mais complicado. 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