{"id":88554,"date":"2017-03-13T12:01:15","date_gmt":"2017-03-13T12:01:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=88554"},"modified":"2017-03-13T11:45:38","modified_gmt":"2017-03-13T11:45:38","slug":"portugues-uma-etica-da-mae-terra-nossa-casa-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/03\/portugues-uma-etica-da-mae-terra-nossa-casa-comum\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Uma \u00e9tica da M\u00e3e Terra, nossa Casa Comum"},"content":{"rendered":"<p><em>12 mar\u00e7o 2017 &#8211; <\/em>\u00c9 um fato cientificamente reconhecido hoje que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, cuja express\u00e3o maior se d\u00e1 pelo aquecimento global \u00e9, num grau de certeza de 95%, de natureza antropog\u00eanica, Quer dizer, possui sua g\u00eanese num tipo de comportamento humano violento face \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Este comportamento n\u00e3o est\u00e1 de sintonia com os ciclos e ritmos da natureza. O ser humano n\u00e3o se adapta \u00e0 natureza mas a coage a se adaptar a ele e a seus interesses. O interesse maior que domina j\u00e1 h\u00e1 s\u00e9culos se concentra na explora\u00e7\u00e3o desapiedada dos bens e servi\u00e7os naturais em vista da acumula\u00e7\u00e3o ilimitada. Junto a isso segue a domina\u00e7\u00e3o de outros povos, o colonialismo e o imperialismo.<\/p>\n<p>A forma como a M\u00e3e Terra demonstra a press\u00e3o sobre seus limites intranspon\u00edveis \u00e9 pelos eventos extremos (prolongadas estiagens de um lado e enchentes devastadoras de outro, nevascas sem precedentes por uma parte e ondas de calor insuport\u00e1veis por outra parte).<\/p>\n<p>Face a tais eventos, a Terra se tornou o claro objeto da preocupa\u00e7\u00e3o humana. As muitas COPs (Confer\u00eancia das Partes), organizadas pela ONU acerca do aquecimento global, nunca chegavam a uma converg\u00eancia. Somente na COP21 de Paris, realizada de 30 de novembro a 13 de dezembro de 2015 se chegou, pela primeira vez, a um consenso m\u00ednimo, assumido por todos: evitar que o aquecimento chegue aos 2 graus Celsius. Lamentavelmente essa decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vinculante. Quem quiser pode segui-la mas n\u00e3o existe nenhuma obrigatoriedade nem penas, como o mostrou o Congresso norte-americano que vetou as medidas ecol\u00f3gicas do Presidente Obama. Agora o Presidente Donald Trump as nega rotundamente como algo sem sentido e enganoso. Esse negacionismo da maior pot\u00eancia do mundo \u00e9 amea\u00e7ador para todos e para a Terra.<\/p>\n<p>Est\u00e1 ficando cada vez mais claro que a quest\u00e3o \u00e9 antes \u00e9tica do que cient\u00edfica. Vale dizer, a qualidade de nossas rela\u00e7\u00f5es para com a natureza e para com a Casa Comum n\u00e3o eram e n\u00e3o s\u00e3o adequadas, antes, s\u00e3o destrutivas.<\/p>\n<p>Citando o Papa Francisco em sua inspiradora enc\u00edclica <em>Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum\u201d (2015)<\/em>: \u201cNunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos \u00faltimos dois s\u00e9culos\u2026 Essas situa\u00e7\u00f5es provocam os gemidos da irm\u00e3 Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de n\u00f3s outro rumo\u201d(n.53).<\/p>\n<p>Precisamos, urgentemente, de uma \u00e9tica regeneradora da Terra. Esta deve devolver-lhe a vitalidade vulnerada a fim de que possa continuar a nos presentear com tudo o que sempre nos galardoou. Ser\u00e1 uma \u00e9tica do cuidado, do respeito a seus ritmos, da compaix\u00e3o e da responsabilidade coletiva.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente uma \u00e9tica da Terra. Precisamos faz\u00ea-la acompanhar por uma espiritualidade. Ela lan\u00e7a suas ra\u00edzes na raz\u00e3o cordial e sens\u00edvel. De l\u00e1 nos vem a paix\u00e3o pelo cuidado e um compromisso s\u00e9rio de amor, de responsabilidade e de cuidado para com a Casa Comum. Bem o expressou no final da enc\u00edclica do bispo de Roma, Francisco, ao enfatizar \u201cuma paix\u00e3o pelo cuidado do mundo, uma m\u00edstica que nos anima com uma mo\u00e7\u00e3o interior \u00a0 que impele, motiva e encoraja e d\u00e1 sentido \u00e0 a\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria\u201d(n.216).<\/p>\n<p>O conhecido e sempre apreciado Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, num texto p\u00f3stumo, escrito em 1943, <em>Carta ao General \u201cX\u201d <\/em>afirma com grande \u00eanfase: \u201dN\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o um problema, somente um: redescobrir que h\u00e1 uma <em>vida do esp\u00edrito<\/em> que \u00e9 ainda mais alta que a vida da intelig\u00eancia, a \u00fanica que pode satisfazer o ser humano\u201d(Macondo Libri 2015, p. 31).<\/p>\n<p>Num outro texto, escrito em 1936, quando era correspondente do \u201cParis Soir\u201d, durante a guerra da Espanha, leva como t\u00edtulo <em>\u201c\u00c9 preciso dar um sentido \u00e0 vida<\/em>\u201d. A\u00ed retoma o tema da <em>vida do esp\u00edrito<\/em>. A\u00ed afirma:\u201do ser humano n\u00e3o se realiza sen\u00e3o junto com outros seres humanos, no amor e na amizade; no entanto, os seres humanos n\u00e3o se unem apenas se aproximando uns dos outros, mas se fundindo na mesma divindade. Num mundo feito deserto, temos sede de encontrar companheiros com os quais con-dividimos o p\u00e3o\u201d(<em>Macondo Libri<\/em> p.20). No final da \u201c<em>Carta do General \u201cX\u201d <\/em>conclui: \u201cComo temos necessidade de um Deus\u201d(op.cit. p.36).<\/p>\n<p>Efetivamente, s\u00f3 <em>a vida do esp\u00edrito<\/em> confere plenitude ao ser humano. Ela representa um belo sin\u00f4nimo para espiritualidade, n\u00e3o raro identificada ou confundida com religiosidade. <em>A vida do esp\u00edrito<\/em> \u00e9 mais, \u00e9 um dado origin\u00e1rio de nossa dimens\u00e3o profunda, um dado antropol\u00f3gico como a intelig\u00eancia e a vontade, algo que pertence \u00e0 nossa ess\u00eancia. Ela est\u00e1 na base do nascimento de todas as religi\u00f5es e caminhos espirituais.<\/p>\n<p>Sabemos cuidar da <em>vida do corpo<\/em>, hoje uma verdadeira cultura com tantas academias de gin\u00e1stica. Os psicanalistas de v\u00e1rias tend\u00eancias nos ajudam a cuidar da <em>vida da psiqu\u00e9<\/em>, para levarmos uma vida com relativo equil\u00edbrio, sem neuroses e depress\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas na nossa cultura, praticamente, esquecemos de cultivar <em>a vida do esp\u00edrito<\/em> que \u00e9 nossa dimens\u00e3o radical, onde se albergam as grandes perguntas, se aninham os sonhos mais ousados e se elaboram as utopias mais generosas. A <em>vida do esp\u00edrito<\/em> se alimenta de bens n\u00e3o tang\u00edveis como \u00e9 o amor, a amizade, a conviv\u00eancia amiga com os outros, a compaix\u00e3o, o cuidado e a abertura ao infinito. Sem a <em>vida do esp\u00edrito<\/em> divagamos por a\u00ed, sem um sentido que nos oriente e que torna a vida apetecida e agradecida.<\/p>\n<p>Uma \u00e9tica da Terra n\u00e3o se sustenta sozinha por muito tempo sem esse <em>suppl\u00e9ment d\u2019ame<\/em> que \u00e9 a <em>vida do esp\u00edrito<\/em>. Ele nos faz sentir parte da M\u00e3e Terra a quem devemos amar e cuidar.<\/p>\n<p>___________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-28487\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/leonardo.boff_-e1460363303872.jpg\" alt=\"\" width=\"91\" height=\"135\" \/><\/a><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; e <\/em>\u00a0<em>A hospitalidade: direito e dever de todos, <\/em><em>Vozes 2005<\/em>.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2017\/03\/12\/uma-etica-da-mae-terra-nossa-casa-comum\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>12 mar\u00e7o 2017 &#8211; \u00c9 um fato cientificamente reconhecido hoje que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, cuja express\u00e3o maior se d\u00e1 pelo aquecimento global \u00e9, num grau de certeza de 95%, de natureza antropog\u00eanica, Quer dizer, possui sua g\u00eanese num tipo de comportamento humano violento face \u00e0 natureza&#8230; Uma \u00e9tica da Terra n\u00e3o se sustenta sozinha por muito tempo sem esse suppl\u00e9ment d\u2019ame que \u00e9 a vida do esp\u00edrito. 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