{"id":94873,"date":"2017-07-03T12:00:13","date_gmt":"2017-07-03T11:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=94873"},"modified":"2017-07-02T12:04:19","modified_gmt":"2017-07-02T11:04:19","slug":"portugues-tom-regan-nao-ha-justificativa-para-causarmos-dor-aos-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/07\/portugues-tom-regan-nao-ha-justificativa-para-causarmos-dor-aos-animais\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Tom Regan: \u201cN\u00e3o h\u00e1 justificativa para causarmos dor aos animais\u201d"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u00a0\u201cO direito \u00e0 vida pertence n\u00e3o apenas aos seres humanos, mas tamb\u00e9m aos animais que exploramos.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_94874\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/tom-regan.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-94874\" class=\"wp-image-94874\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/tom-regan.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/tom-regan.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/tom-regan-300x222.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-94874\" class=\"wp-caption-text\">Regan foi um importante fil\u00f3sofo da teoria dos direitos animais.<\/p><\/div>\n<p><em>30 jun 2017 &#8211;<\/em> Falecido em 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan foi um importante fil\u00f3sofo da teoria dos direitos animais. Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, conquistou prest\u00edgio internacional por sua produ\u00e7\u00e3o prol\u00edfica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro \u201cEmpty Cages\u201d, ou \u201cJaulas Vazias\u201d, publicado no Brasil.<\/p>\n<p>Na obra, o fil\u00f3sofo diz que o que ele aprendeu ao longo da vida sobre direitos humanos provou ser diretamente relevante para a sua reflex\u00e3o sobre os direitos animais: \u201cSe os animais t\u00eam direitos ou n\u00e3o depende da resposta verdadeira a urna pergunta: Os animais s\u00e3o sujeitos-de-urna-vida? Esta \u00e9 a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque \u00e9 a pergunta que precisamos fazer sobre n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Tom Regan, n\u00e3o podemos nos colocar diante do mundo e declararmos que o motivo pelo qual n\u00f3s enquanto seres humanos temos direitos \u00e9 porque somos igualmente sujeitos-de-uma-vida, mas outros animais, que s\u00e3o exatamente como n\u00f3s enquanto sujeitos-de-uma-vida, bem, eles n\u00e3o t\u00eam nenhum direito.<\/p>\n<p>\u201cIsso seria como se colocar diante do mundo e gritar: \u2018Um Volvo n\u00e3o \u00e9 um carro porque um Volvo n\u00e3o \u00e9 um Ford!\u2019 Ningu\u00e9m quer ser, nem parecer, t\u00e3o idiota. Ent\u00e3o, eis nossa pergunta: Entre os bilh\u00f5es de animais n\u00e3o humanos existentes, h\u00e1 animais conscientes do mundo e do que lhes acontece? Se sim, o que lhes acontece \u00e9 importante para eles, quer algu\u00e9m mais se preocupe com isso, n\u00e3o \u00e9? Se h\u00e1 animais que atendem a esse requisito, eles s\u00e3o sujeitos-de-urna-vida. E se forem sujeitos-de-uma-vida, ent\u00e3o t\u00eam direitos, exatamente como n\u00f3s. Devagar, mas firmemente, compreendi que \u00e9 nisso que a quest\u00e3o sobre direitos animais se resume\u201d, argumenta na p\u00e1gina 77 de \u201cJaulas Vazias\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cThe Case for Animal Rights\u201d, de 1983, o fil\u00f3sofo escreveu que n\u00e3o faz sentido usar o argumento de que os seres humanos podem subjugar outros animais, j\u00e1 que o le\u00e3o faz o mesmo para a sua sobreviv\u00eancia. Tom Regan usou como argumento o fato de que os le\u00f5es n\u00e3o t\u00eam conhecimento da dor que causam \u00e0 sua presa. \u201cNa verdade, precisamente porque se espera a indiferen\u00e7a dos animais, mas piedade ou miseric\u00f3rdia dos seres humanos, pessoas que podem ser cru\u00e9is quando insens\u00edveis ao sofrimento que causam, e muitas vezes s\u00e3o chamadas [pejorativamente] de \u2018animais\u2019 ou \u2018brutos\u2019\u201d, observa.<\/p>\n<p>Um exemplo cl\u00e1ssico da conduta humana cotidiana em minimizar o valor da vida animal \u00e9 dizer que os piores assassinatos parecem trabalho de animais, pela aus\u00eancia de piedade. Por\u00e9m, os animais n\u00e3o fazem isso por um prazer s\u00e1dico, ao contr\u00e1rio de quem comete um assassinato b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>Regan faz oposi\u00e7\u00e3o aos animais explorados nos laborat\u00f3rios quando afirma que eles n\u00e3o s\u00e3o um \u201crecurso\u201d cujo status moral no mundo \u00e9 servir aos interesses humanos. Eles pr\u00f3prios s\u00e3o sujeitos-de-uma-vida que pode ser melhor ou pior para eles como indiv\u00edduos, logicamente independente de qualquer utilidade que possa ter ou n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o com os interesses dos outros\u201d, defende.<\/p>\n<p>Quando reduzimos o valor dos animais aos interesses humanos, como ocorre na ind\u00fastria da explora\u00e7\u00e3o animal, somos injustos, porque violamos o direito moral b\u00e1sico que \u00e9 tratar outras vidas sencientes com respeito. Segundo Regan, h\u00e1 leis que legitimam os testes em animais, mas por outro lado n\u00e3o mostram a contradi\u00e7\u00e3o de que como esses experimentos s\u00e3o moralmente toler\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo, isso prova que as pr\u00f3prias leis s\u00e3o injustas e devem ser mudadas. E mais, que essa perspectiva cient\u00edfica, do ponto de vista dos direitos animais, \u00e9 anti-cient\u00edfica e anti-humana. N\u00f3s, como humanos, temos o direito de garantir que ningu\u00e9m seja prejudicado. Isso \u00e9 algo que a perspectiva de direitos visa iluminar e defender, colocando como desafio para farmacologistas e cientistas a busca de formas cient\u00edficas que sirvam ao interesse p\u00fablico sem violar os direitos individuais.<\/p>\n<p>Regan declara que a farmacologia tem como responsabilidade prim\u00e1ria a redu\u00e7\u00e3o de riscos para quem usa drogas l\u00edcitas; e deveria sempre alcan\u00e7ar isso sem prejudicar aqueles que n\u00e3o as usam. N\u00e3o se empenhar nisso \u00e9 a reafirma\u00e7\u00e3o de uma conduta verdadeiramente anti-cient\u00edfica. Pretensamente, cientistas dizem que a maior justificativa para a realiza\u00e7\u00e3o dos testes de toxicidade em animais s\u00e3o os benef\u00edcios que podem se estender tanto a humanos quanto a animais. Como podemos falar em benef\u00edcio para os animais quando os prejudicamos na cria\u00e7\u00e3o de um produto farmacol\u00f3gico?<\/p>\n<p>\u201cEsses testes violam os direitos dos animais. [\u2026] Os benef\u00edcios que esses testes proporcionam aos outros s\u00e3o irrelevantes de acordo com a vis\u00e3o de direitos, uma vez que os testes violam os direitos individuais dos animais. Os animais de laborat\u00f3rio n\u00e3o s\u00e3o nossos provedores, e n\u00f3s n\u00e3o somos seus reis. [\u2026] N\u00e3o devem ser tratados como meros recipientes ou como recursos renov\u00e1veis\u201d, argumenta o fil\u00f3sofo em \u201cThe Case for Animal Rights\u201d.<\/p>\n<p>Sem fazer concess\u00f5es, Regan deixa claro que os testes em animais devem ser findados, isto porque o valor dos animais n\u00e3o deve ser baseado na sua utilidade em rela\u00e7\u00e3o a interesses que n\u00e3o s\u00e3o deles. \u201cTamb\u00e9m h\u00e1 algumas coisas que n\u00e3o podemos aprender usando humanos, se respeitarmos seus direitos. A vis\u00e3o de direitos requer consist\u00eancia moral a este respeito\u201d, pondera. Sendo assim, para o fil\u00f3sofo a ci\u00eancia que prejudica rotineiramente os animais em busca de seus objetivos \u00e9 moralmente corrompida, porque \u00e9 injusta no seu n\u00facleo.<\/p>\n<p>Tom Regan cita ainda m\u00e9dicos veterin\u00e1rios como profissionais que deveriam inspirar exemplo para a sociedade no cuidado com os animais. Por\u00e9m, a realidade \u00e9 bem diferente. Regan enfatiza que encontrar tantos profissionais da \u00e1rea prestando servi\u00e7os para ind\u00fastrias que violam rotineiramente os direitos animais \u00e9 desalentador.<\/p>\n<p>Em \u201cAll That Dwell Therein\u201d, publicado em 1982, o fil\u00f3sofo estadunidense diz que tanto o direito moral de n\u00e3o sofrer quanto o direito \u00e0 vida pertencem n\u00e3o apenas aos seres humanos, mas tamb\u00e9m aos animais que exploramos e comemos. A justificativa de que os humanos gostam de carne, e por isso a comem, n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel porque ignora o direito \u00e0 vida de seres sencientes. Ademais, mesmo que o \u201cabate humanit\u00e1rio\u201d se estendesse a todos os animais reduzidos a produtos de consumo, isso jamais asseguraria que seus direitos n\u00e3o fossem violados.<\/p>\n<p>E a realidade hipermoderna \u00e9 a maior prova de como ainda h\u00e1 muito a ser feito para que os animais sejam vistos como sujeitos-de-uma-vida. No s\u00e9culo 20, o apetite humano pelo consumo de carne se tornou t\u00e3o exagerado que deu origem aos m\u00e9todos intensivos de cria\u00e7\u00e3o de animais. Ou seja, pr\u00e1ticas que asseguram que a maior quantidade de carne seja produzida no menor per\u00edodo de tempo e com as menores despesas poss\u00edveis. Assim, muitos animais foram e s\u00e3o obrigados a viver em condi\u00e7\u00f5es de lota\u00e7\u00e3o e sem a possibilidade de manifestar seus desejos naturais.<\/p>\n<p>Tanto em termos de dor f\u00edsica quanto psicol\u00f3gica, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que n\u00e3o raramente os animais experimentam uma realidade imerecida. E conforme nos alimentamos da carne desses animais, ajudamos a criar demandas cada vez maiores de m\u00e9todos de cria\u00e7\u00e3o intensiva. Basicamente, financiamos a priva\u00e7\u00e3o e o sofrimento animal quando compramos e consumimos carne.<\/p>\n<p>Temos o costume de acreditar que uma pr\u00e1tica cultural, por pior que seja, sempre tem algum respaldo moral. Afinal, se muitos a praticam \u00e9 porque \u00e9 no m\u00ednimo socialmente aceit\u00e1vel. S\u00f3 a partir do momento que s\u00e3o apresentadas as falhas dessa suposta moralidade que as pessoas come\u00e7am a refletir e a se questionar. E nesse percurso, muitos sempre lutar\u00e3o para que essa pr\u00e1tica n\u00e3o seja vista como imoral, por saber que a imoralidade exige mudan\u00e7as; que deve ser suprimida, principalmente quando h\u00e1 muitos prejudicados.<\/p>\n<p>\u201cSomos sempre tentados a negar que os animais sentem dor e, embora pare\u00e7am sofrer, diremos que eles realmente nunca o fazem. [\u2026] Que evid\u00eancias precisar\u00edamos al\u00e9m de seus gritos, gemidos, corpos e olhar desesperado? De minha parte, n\u00e3o sei o que mais poderia exigir. [\u2026] E uma linha de argumento semelhante pode ser dada, penso eu, ao considerar a vis\u00e3o de que os animais t\u00eam experi\u00eancias agrad\u00e1veis que, embora possam ser de baixo n\u00edvel em compara\u00e7\u00e3o com, digamos, as alegrias da filosofia ou \u00eaxtase da vis\u00e3o beat\u00edfica, ainda assim s\u00e3o prazeres\u201d, escreveu Tom Regan em \u201cAll That Dwell Therein\u201d.<\/p>\n<p>No entendimento do fil\u00f3sofo, se \u00e9 justo evitar que um ser humano, que tamb\u00e9m \u00e9 animal, sofra imerecidamente, levando em conta que a dor \u00e9 m\u00e1 e o ser humano \u00e9 inocente, portanto n\u00e3o merece o mal que recebe, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 justificativa para causarmos dor aos outros animais. \u201cTodos n\u00f3s temos motivos para supor que restringir os conceitos de tratamento justo e injusto aos seres humanos \u00e9 um preconceito\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Regan, Tom. Empty Cages.\u00a0Rowman &amp; Littlefield Publishers (2005).<\/p>\n<p>Regan, Tom. The Case for the Animal Rights.\u00a0University of California Press (1983-2004).<\/p>\n<p>Regan, Tom. All That Dwell Therein.\u00a0 University of California Press. First edition (1982).<\/p>\n<p>____________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-87305\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\n<p><em>Tom Regan nasceu em Pittsburgh, na Pensilv\u00e2nia, em 28 de novembro de 1938.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2017\/06\/30\/tom-regan-nao-ha-justificativa-para-causarmos-dor-aos-animais\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>30 jun 2017 &#8211; Falecido em 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan foi um importante fil\u00f3sofo da teoria dos direitos animais. Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, conquistou prest\u00edgio internacional por sua produ\u00e7\u00e3o prol\u00edfica voltada ao abolicionismo animal. 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