{"id":9558,"date":"2011-01-24T00:00:03","date_gmt":"2011-01-23T23:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=9558"},"modified":"2011-01-19T14:58:03","modified_gmt":"2011-01-19T13:58:03","slug":"portuguese-boaventura-de-sousa-santos-os-mercados-cometem-crimes-contra-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2011\/01\/portuguese-boaventura-de-sousa-santos-os-mercados-cometem-crimes-contra-a-humanidade\/","title":{"rendered":"(Portuguese) Boaventura de Sousa Santos: &#8220;Os mercados cometem crimes contra a humanidade&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>Para o soci\u00f3logo, Portugal est\u00e1 a ser vitima de um ataque especulativo n\u00e3o justificado dos mercados internacionais.<\/em><\/p>\n<p>O primeiro mandato de Cavaco Silva foi med\u00edocre, o presidente Obama tornou- -se um provinciano, os mercados s\u00e3o um bando de criminosos bem vestidos e Saddam Hussein foi morto porque cometeu o erro de querer passar as reservas de petr\u00f3leo de d\u00f3lares para euros. O soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos \u00e9 a del\u00edcia de qualquer jornalista, cada frase parece dar um \u00f3ptimo t\u00edtulo. Mas \u00e9 sobretudo franco, inc\u00f3modo e fiel \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do mundo que defende. A conversa aconteceu no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e as palavras foram surgindo da mesma forma que, a acreditar nos mercados, os pa\u00edses entram em bancarrota: por cont\u00e1gio.<\/p>\n<p><strong>Acaba de receber uma bolsa de 2,4 milh\u00f5es de euros do European Research Council para ajudar a Europa a ver o mundo. N\u00e3o seria melhor &#8211; e trata-se de uma provoca\u00e7\u00e3o &#8211; usar essa quantia para ajudar a Europa a ver-se a si mesma?<\/strong><\/p>\n<p>(risos) As duas coisas n\u00e3o est\u00e3o em conflito. A Europa andou v\u00e1rios s\u00e9culos a tentar ensinar o mundo, com uma vis\u00e3o evangelizadora da religi\u00e3o, depois com o progresso, com a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e sempre com a ideia de que a Europa n\u00e3o tinha nada a aprender com o mundo, uma vez que a Europa era o centro do melhor saber e do melhor poder. Tinha toda a clarivid\u00eancia e do outro lado estava a barb\u00e1rie. Cheg\u00e1mos a um ponto em que a Europa come\u00e7ou a ter d\u00favidas sobre as suas solu\u00e7\u00f5es. A crise que vivemos n\u00e3o \u00e9 apenas uma crise financeira ou econ\u00f3mica, como estamos a ver pelo comportamento das lideran\u00e7as pol\u00edticas. H\u00e1 um desconhecimento hist\u00f3rico do que significa ser europeu, de qual \u00e9 o valor da Europa. Ao mais pequeno sobressalto j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Europa, h\u00e1 aqueles sujos, incompetentes, pouco cumpridores do Sul da Europa &#8211; como os gregos, os portugueses, irlandeses &#8211; e os outros &#8211; os alem\u00e3es, os que aguentam. De repente, todo aquele verniz de uma Europa conjunta, solid\u00e1ria, unida, desaparece.<\/p>\n<p><strong>2010 foi o ano do fim das ilus\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>As crises, que j\u00e1 vinham de 2008 e 2009, e que se pensava que poderiam ser superadas em 2010, n\u00e3o o foram. Pelo contr\u00e1rio, est\u00e3o em constante agravamento e, provavelmente, v\u00e3o ser muito mais graves para os portugueses a partir de Mar\u00e7o. Nesse aspecto, as ilus\u00f5es terminaram.<\/p>\n<p><strong>Era poss\u00edvel prever o que se passou em 2010?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2009, quer ao n\u00edvel do d\u00e9fice, quer ao n\u00edvel da d\u00edvida p\u00fablica, Portugal estava numa situa\u00e7\u00e3o muito melhor que a It\u00e1lia, muito melhor que a Gr\u00e9cia, muito melhor que a Irlanda e muito melhor que a Espanha. E n\u00e3o tivemos em Portugal nenhuma daquelas patologias que foram graves, no caso da Gr\u00e9cia iludindo as contas de Bruxelas com a coniv\u00eancia do Goldman Sachs ou, no caso da Irlanda, dominada por meia d\u00fazia de bancos, que &#8211; n\u00e3o tendo onde p\u00f4r o dinheiro &#8211; resolveram criar uma bolha imobili\u00e1ria. N\u00f3s n\u00e3o tivemos nada disso. O que \u00e9 que n\u00f3s tivemos? O azar de estar na Europa. Portugal passou a ser um alvo de ataques especulativos que &#8211; no fundo &#8211; n\u00e3o se justificavam em termos estritamente econ\u00f3micos.<\/p>\n<p><strong>Mas a economia portuguesa est\u00e1 muito exposta ao exterior exactamente porque precisa de financiamento externo.<\/strong><\/p>\n<p>Portugal poderia perfeitamente pagar a sua d\u00edvida, mantendo o crescimento, que estava paralisado porque somos uma economia fraca com uma moeda forte. O nosso d\u00e9fice aumentou todo com o euro. Ent\u00e3o porque ca\u00edmos nessa emboscada?, podemos questionar. Esta crise existe porque n\u00e3o houve um aprofundamento europeu suficiente. Pensei que o euro fosse um est\u00e1dio desse aprofundamento, mas todos os aprofundamentos que se tentou fazer foram bloqueados. N\u00e3o conseguimos ter uma pol\u00edtica monet\u00e1ria, nem pol\u00edticas sociais nem fiscais mais ou menos convergentes. Temos apenas uma moeda comum, que beneficia quem pode produzir com uma moeda forte. O euro foi o grande neg\u00f3cio da Alemanha.<\/p>\n<p><strong>Mas Portugal n\u00e3o deixa de estar mais debilitado que outros pa\u00edses&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Portugal est\u00e1 em crise financeira por cont\u00e1gio. Porque \u00e9 um elo fraco, porque \u00e9 uma economia fraca, com problemas estruturais, mas n\u00e3o \u00e9 a Portugal que os capitais financeiros querem atingir. Querem atingir Espanha e It\u00e1lia. S\u00f3 que n\u00e3o podem l\u00e1 chegar sem ir por Portugal, pela Gr\u00e9cia e pela Irlanda. Os nossos comentadores dizem mal do Estado, das pol\u00edticas sociais, mas depois dizem umas frases suaves sobre os mercados financeiros. Dizem que deviam ser mais regulados e que n\u00e3o deviam ganhar dinheiro com as apostas na bancarrota dos estados e que isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa muito \u00e9tica. E ficam-se por a\u00ed. O que se passa \u00e9 um crime contra a humanidade: apostar em t\u00edtulos de d\u00edvida e fazer tudo para que esses t\u00edtulos n\u00e3o sejam pagos, porque quanto mais bancarrota tiverem mais juros v\u00e3o cobrar a curto prazo. Eles ganham com a fal\u00eancia dos estados. Jogam com elas porque s\u00e3o mundiais e n\u00e3o h\u00e1 nenhum governo mundial para os regular.<\/p>\n<p><strong>O Pr\u00e9mio Nobel Paul Krugman diz que os mercados s\u00e3o um bando de mi\u00fados de 20 e tal anos, b\u00eabados e encharcados em coca\u00edna&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o um bando de criminosos, que andam por a\u00ed muito bem vestidos, mas s\u00e3o uns mafiosos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que se trata de um crime contra a humanidade, porque est\u00e3o a lan\u00e7ar para a fome popula\u00e7\u00f5es inteiras, para que uns poucos enrique\u00e7am de uma maneira escandalosa. Estive em Nova Iorque e na 5.a Avenida bateram-se os recordes de venda dos produtos mais caros. Voltaram a abrir as carteiras, t\u00eam dinheiro como nunca em Wall Street, aqueles que produziram a crise.<\/p>\n<p><strong>O professor tinha dito que o neoliberalismo tinha falido, mas afinal&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed quase tenho de me retratar. Nunca imaginei que o neoliberalismo tivesse canibalizado tanto os estados. O neoliberalismo nacionalizou os estados, os bancos nacionalizaram os estados, n\u00e3o foram os estados que nacionalizaram os bancos. Passou a ideia de que um banco n\u00e3o pode falir. As empresas podem falir, um banco n\u00e3o pode falir. Faliram todos com a Grande Depress\u00e3o nos EUA, mas nos \u00faltimos anos souberam como controlar os estados e come\u00e7aram por fazer isso nos EUA. Quem \u00e9 que nos \u00faltimos 20 anos financiou as campanhas nos EUA? Wall Street. A campanha do Obama? Wall Street. Quem \u00e9 que Obama nomeia para seu consultor financeiro mais \u00edntimo? Timothy Geithner. De onde vem Timothy Geithner? De Wall Street. Os abutres dos mercados financeiros est\u00e3o a destruir a riqueza do mundo para se enriquecerem escandalosamente sem nenhum controlo e h\u00e1-de haver um momento em que o povo, os governos, v\u00e3o dizer basta. E os portugueses, quando come\u00e7arem a sentir no bolso e na cabe\u00e7a, e n\u00e3o s\u00f3 no bolso, estas medidas que v\u00e3o come\u00e7ar a ser aplicadas.<\/p>\n<p><strong>O Presidente da Rep\u00fablica tem dito que n\u00e3o se deve achincalhar os mercados porque eles podem reagir contra n\u00f3s&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Penso que o senhor Presidente da Rep\u00fablica est\u00e1 equivocado. N\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o para a Europa que n\u00e3o seja a regula\u00e7\u00e3o financeira. Os mercados v\u00e3o destruir o bem-estar das popula\u00e7\u00f5es, criar um empobrecimento geral do mundo, para o enriquecimento de poucos. \u00c9 necess\u00e1ria uma regula\u00e7\u00e3o forte. N\u00e3o digo que seja igual \u00e0quela que se viveu nos anos 60 &#8211; quando uma empresa de Nova Iorque n\u00e3o poderia investir em Nova J\u00e9rsia, que fica do outro lado do rio. Mas hoje os mercados est\u00e3o globalizados e os estados s\u00e3o nacionais, e ainda por cima n\u00e3o se unem. Aconselho o professor Cavaco Silva a abrir os jornais: na Gr\u00e9cia os juros est\u00e3o a 12,5% &#8211; obviamente o pa\u00eds nunca vai pagar aquela d\u00edvida &#8211; apesar do dinheiro que l\u00e1 se injectou.<\/p>\n<p><strong>A fazer f\u00e9 nas sondagens, Cavaco Silva ir\u00e1 vencer um segundo mandato. Presumo que votar\u00e1 Alegre.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 seguro que ele ganhe as elei\u00e7\u00f5es, pode haver uma segunda volta e, numa segunda volta, votarei Alegre certamente. Cavaco Silva vai fundamentalmente ser como Presidente a pessoa que j\u00e1 foi, para que as suas ideias se realizem mais depressa precipitar\u00e1 elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como viu o mandato do Presidente da Rep\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p>Foi um mandato med\u00edocre, n\u00e3o foi um mandato de grande rasgo. Precis\u00e1vamos de um Presidente que tivesse uma magistratura de influ\u00eancia principalmente ao n\u00edvel europeu. Cavaco Silva poderia ter levado a Bruxelas a imagem se um pa\u00eds de boas contas. Ao contr\u00e1rio, aliou-se \u00e0queles que acham que os mercados sabem tudo, juntou a sua voz aos trauliteiros da desgra\u00e7a do tipo Medina Carreira. Vozes como essas deviam ser desautorizadas e o nosso Presidente n\u00e3o fez nenhum esfor\u00e7o para recuperar uma margem de manobra exterior.<\/p>\n<p><strong>O FMI vai entrar em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nenhuma confian\u00e7a de que os que est\u00e3o nesse grande mercado lucrativo dos t\u00edtulos de d\u00edvida soberana n\u00e3o estejam com os olhos em Portugal. Para chegar a Espanha, obviamente. Como \u00e9 que fazem isso? Com outra coisa escandalosa, que s\u00e3o as ag\u00eancias de nota\u00e7\u00e3o. As empresas dizem que o mundo \u00e9 dominado por dois poderes: o poder militar dos EUA, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 econ\u00f3mico, e pela Moody&#8221;s. Porque s\u00e3o eles que distribuem a nota\u00e7\u00e3o e os cr\u00e9ditos, controlam a minha conta banc\u00e1ria, a pens\u00e3o da minha m\u00e3e e a comparticipa\u00e7\u00e3o nos medicamentos. Esses mercados est\u00e3o ansiosos por mais uma amea\u00e7a de bancarrota e isso sobe imediatamente o pre\u00e7o da d\u00edvida. Acha normal que o pre\u00e7o da d\u00edvida de Espanha esteja exactamente no mesmo valor que o da d\u00edvida do Paquist\u00e3o? S\u00e3o as ag\u00eancias de nota\u00e7\u00e3o, as mesmas que em 2008 atribu\u00edram as maiores notas aos bancos que faliram. O Lehman Brothers tinha a maior nota\u00e7\u00e3o. O objectivo \u00e9 atacar o euro.<\/p>\n<p><strong>Mas t\u00eam uma agenda pr\u00f3pria?<\/strong><\/p>\n<p>T\u00eam. S\u00e3o americanas e est\u00e3o ligadas ao capital financeiro onde est\u00e3o concentrados os credit default swaps. S\u00e3o um pequeno grupo.<\/p>\n<p><strong>E em 2011, com cortes salariais e o desemprego a crescer, como \u00e9 que a sociedade se vai adaptar?<\/strong><\/p>\n<p>Com estas medidas de curto prazo, se n\u00e3o forem compensadas com medidas de m\u00e9dio prazo que tenham a ver com emprego ou crescimento, Portugal vai ficar numa situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil mesmo no que respeita ao pagamento da sua d\u00edvida. Mas as medidas de m\u00e9dio prazo n\u00e3o podem vir de Portugal isolado, t\u00eam de vir da Europa.<\/p>\n<p><strong>Isso faz-nos voltar \u00e0 crise do euro.<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da crise na Gr\u00e9cia que se mostra que o projecto europeu ou j\u00e1 n\u00e3o existia ou faliu. A Europa n\u00e3o se reconheceu como um todo no momento em que o seu parceiro entra em crise. Os mercados viram ali uma fraqueza. E porque era importante essa fraqueza? Por causa do d\u00f3lar. H\u00e1 lutas pol\u00edticas nestes mercados e eles n\u00e3o s\u00e3o nada cegos. O que est\u00e1 em causa \u00e9 impedir fundamentalmente que o euro seja uma alternativa ao d\u00f3lar &#8211; e isso estava a come\u00e7ar a ocorrer. Porque \u00e9 que o Saddam Hussein morreu? Saddam, que foi agente dos EUA, que fez guerra contra o Ir\u00e3o a mando dos EUA, a quem quiseram passar tecnologia nuclear, come\u00e7ou a cometer um erro: come\u00e7ou a ver a debilidade do d\u00f3lar e a querer p\u00f4r grande parte das suas reservas de petr\u00f3leo em euros. A China recentemente fez um aviso aos EUA: a debilidade do d\u00f3lar podia fazer com que o pa\u00eds come\u00e7asse a diversificar as suas reservas. Era muito importante que o d\u00f3lar mostrasse mundialmente que o euro n\u00e3o \u00e9 uma maravilha, que \u00e9 uma moeda fr\u00e1gil e que at\u00e9 pode desaparecer.<\/p>\n<p><strong>Vamos ter confrontos sociais na rua no pr\u00f3ximo ano?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil prever essa situa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o directa entre o agravamento das desigualdades e a confronta\u00e7\u00e3o social. Portugal esteve metade do s\u00e9culo xx sem democracia. H\u00e1 uma cultura autorit\u00e1ria, de obedi\u00eancia, de medo. Foram 50 anos em que os outros pa\u00edses todos organizavam movimento sociais, sindicatos, e em Portugal nada aconteceu. N\u00e3o pensemos que isto se curou nestes \u00faltimos 40 anos porque foram anos demasiadamente f\u00e1ceis. At\u00e9 1974 t\u00ednhamos col\u00f3nias, fic\u00e1mos sozinhos 10\/12 anos e em 1986 j\u00e1 \u00e9ramos parte da Europa. Mas estou convencido que, no momento em que estas medidas se agravarem, vamos ter uma maior organiza\u00e7\u00e3o social e sobretudo sofreremos o cont\u00e1gio europeu. Vai haver obviamente mais contesta\u00e7\u00e3o na Europa. \u00c9 dessa contesta\u00e7\u00e3o que vai surgir o golpe de asa de que precisamos e vamos t\u00ea-lo por press\u00e3o popular.<\/p>\n<p><strong>Nas ruas?<\/strong><\/p>\n<p>Nas ruas. No princ\u00edpio de 2000, o presidente da Argentina, N\u00e9stor Kirchner, que faleceu recentemente, fez uma coisa que o transformou num p\u00e1ria. Achou que parte da d\u00edvida do pa\u00eds era ileg\u00edtima e disse aos credores: &#8220;Eu pago-vos, se aceitarem, por cada d\u00f3lar que vos devo, 30 c\u00eantimos. Agora os outros esque\u00e7am!&#8221; O Fundo Monet\u00e1rio Internacional achou um esc\u00e2ndalo. Disse que Kirchner era um &#8220;p\u00e1ria&#8221;, que a &#8220;Argentina n\u00e3o cumpre&#8221;. A verdade \u00e9 que a Argentina fez isso mesmo. Os credores tiveram de aceitar. A Argentina levantou a cabe\u00e7a e fez o seu desenvolvimento econ\u00f3mico. Quando morreu N\u00e9stor Kirchner, a primeira coisa que fiz foi ir \u00e0 p\u00e1gina do FMI para ver o que dizia. E l\u00e1 estava um elogio enorme do FMI pela capacidade de p\u00f4r a economia da Argentina de novo a crescer. Porque \u00e9 que Kirchner se recusou a pagar a divida? Por press\u00e3o popular.<\/p>\n<p><strong>O mesmo poder\u00e1 acontecer na Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Nada disto \u00e9 muito previs\u00edvel, depende muito dos pa\u00edses e da sabedoria pol\u00edtica. As medidas em Portugal est\u00e3o a ser mais graduais do que foram na Gr\u00e9cia e as pessoas v\u00e3o amolecendo. Agora h\u00e1 um momento, um limiar, em que as pessoas dizem: &#8220;Isto \u00e9 injusto.&#8221; Quando muita gente, como a minha m\u00e3e, os nossos irm\u00e3os, nos ligar e disser: &#8220;Agora tenho de pagar todo este medicamento, quando pagava s\u00f3 <em>x<\/em>. Onde vou ter dinheiro?&#8221; Quando isto come\u00e7ar a generalizar-se, \u00e9 previs\u00edvel que haja contesta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o propriamente dos sindicatos. A contesta\u00e7\u00e3o h\u00e1-de ter muita espontaneidade, parte das pessoas que v\u00e3o para a rua protestar. Porque a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Uma mudan\u00e7a de governo poderia fazer diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Nas actuais circunst\u00e2ncias do panorama pol\u00edtico, n\u00e3o faz nenhuma. E se fizer, neste momento, ser\u00e1 para pior. Olhamos para o programa do PSD e o que est\u00e1 a ser praticado e \u00e9 o qu\u00ea? Mais privatiza\u00e7\u00e3o? Fim do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade? S\u00e3o mais ou menos as medidas que o Fundo Monet\u00e1rio Internacional vai instituir quando aqui chegar.<\/p>\n<p><strong>E vai chegar?<\/strong><\/p>\n<p>Incrivelmente, h\u00e1 a\u00ed muitos tontos, economistas trauliteiros, que tenho hoje muita dificuldade em respeitar, que at\u00e9 parece que desejam isso. Mas desejam&#8211;no porque t\u00eam boas reformas, bons empregos, foram ministros ou est\u00e3o em grandes empresas, s\u00e3o aqueles que n\u00e3o ser\u00e3o nada atingidos por essas medidas. Mas a maioria dos portugueses vai ser duramente atingida, porque s\u00e3o medidas cegas, que passam por privatizar tudo. Vejo comentadores, analistas, soci\u00f3logos deste pa\u00eds a dizerem que n\u00f3s ainda dependemos muito do Estado e que \u00e9 preciso termos confian\u00e7a na sociedade. Mas que sociedade? Na filantropia, na caridade, no Banco Alimentar? O que vai ser destes jovens? Trabalho muito com estudantes, quer aqui quer nos EUA, e os meus estudantes nos EUA s\u00e3o cada vez mais velhos. S\u00e3o doutoramentos atr\u00e1s de doutoramentos para adiar o desemprego. Tenho uma grande estima pelos estudantes de hoje. \u00c0s vezes quero levantar muitos problemas, mas os estudantes est\u00e3o sobretudo preocupados com saber em que \u00e9 que aquilo vai ajudar \u00e0s suas empregabilidade. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer a um estudante que um poema pode ajudar \u00e0 sua empregabilidade.<\/p>\n<p><strong>Passa grande parte do tempo nos EUA. Obama desiludiu?<\/strong><\/p>\n<p>Desiludiu bastante. O presidente Obama acabou por, de certa maneira, sucumbir \u00e0s mesmas crises, \u00e0s mesmas l\u00f3gicas. Transformou-se num nacionalista um pouco provinciano, indo esmolar \u00e0 \u00cdndia investimento para criar emprego no Brasil, indo pedir \u00e0 \u00cdndia que os ajudasse a impor os produtos geneticamente modificados em \u00c1frica. E porqu\u00ea? Porque as grandes empresas de sementes transg\u00e9nicas s\u00e3o todas elas americanas. Cada presidente americano tem a sua guerra. George W. Bush teve o Iraque, Obama vai ter o Afeganist\u00e3o, se \u00e9 que fica por a\u00ed. Porque se a gente olhar bem para o que saiu do WikiLeaks s\u00f3 estamos \u00e0 espera de saber se s\u00e3o os EUA ou Israel que v\u00e3o atacar o Ir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O WikiLeaks foi o acontecimento internacional do ano?<\/strong><\/p>\n<p>Foi. Agora sabemos o que foi feito no Iraque. Os dados que t\u00eam sa\u00eddo do WikiLeaks s\u00e3o aterradores, acerca da brutalidade da guerra e das atrocidades que se cometeram, da falsidade dos discursos que se fizeram. Percebemos como \u00e9 desp\u00f3tico o poder, como \u00e9 falso e hip\u00f3crita. O mundo est\u00e1 feito de falsidade e o WikiLeaks foi uma grande desilus\u00e3o para quem acreditava que a diplomacia era uma coisa muito nobre.<\/p>\n<p><strong>Acha que houve algum efeito moralizador?<\/strong><\/p>\n<p>Espero que haja. Mas o WikiLeaks tem algumas debilidades. Uma que \u00e9 conhecida \u00e9 que Israel foi poupado. Toda a gente esperava que, havendo uma liberta\u00e7\u00e3o de documentos, Israel fosse o pa\u00eds mais embara\u00e7ado. Suspeita-se hoje que havia um acordo entre o Julian Assange e o primeiro-ministro israelita. Por vontade de Julian Assange? Porque a Mossad \u00e9 uma ag\u00eancia de servi\u00e7os secretos que n\u00e3o olha a meios para destruir os seus inimigos? Nunca saberemos. Estamos a passar de um per\u00edodo em que os activistas eram todos aqueles que estavam normalmente de fora &#8211; os revolucion\u00e1rios, os anarquistas, os sindicalistas n\u00e3o tinham nada a ver com o sistema &#8211; para um per\u00edodo em que as transforma\u00e7\u00f5es, as altera\u00e7\u00f5es t\u00eam partido de dentro do sistema. V\u00eam de quem tem acesso ao conhecimento.<\/p>\n<p><strong>A forma de fazer diplomacia poder\u00e1 mudar daqui para a frente?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza que sim. As escolas diplom\u00e1ticas de todo o mundo devem estar a analisar estes documentos e a dizer assim: realmente, se os cidad\u00e3o se derem ao trabalho de ler os jornais e, todos os dias, os jornais trazem novas informa\u00e7\u00f5es sobre o n\u00edvel da diplomacia, verificam que o que resulta dessa an\u00e1lise \u00e9 que o n\u00edvel da diplomacia \u00e9 muito baixo. Dizem coisas que est\u00e3o factualmente erradas.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o pregui\u00e7osos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o pregui\u00e7osos. Perdem muito tempo nos jantares, nas recep\u00e7\u00f5es, naquela vida diplom\u00e1tica que hoje n\u00e3o \u00e9 o ritmo da vida. A vida j\u00e1 corre por outras vias e eles continuam ainda como se estiv\u00e9ssemos no s\u00e9culo xix. Hoje est\u00e1-se a verificar que a informa\u00e7\u00e3o que os diplomatas enviam j\u00e1 \u00e9 do dom\u00ednio p\u00fablico no momento em que eles a escrevem. Isto desacredita o sistema actual de diplomacia que a gente tem ainda mais porque \u00e9 um sistema caro e eu acredito que quem quiser fazer as contas de custo benef\u00edcio analisando estes documentos poder\u00e1 tomar algumas decis\u00f5es interessantes. \u00c9 muito importante saber-se se nas festas do Berlusconi as senhoras se despem todas ou se s\u00f3 fazem topless? Os pa\u00edses pagam altamente a servi\u00e7os diplom\u00e1ticos para andarem a coscuvilhar a vida privada do Berlusconi ou do Sarkozy?<\/p>\n<p><strong>A diplomacia \u00e9 um pouco como fazer manteiga: toda a gente a come, mas ningu\u00e9m gosta de ver como se faz&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 exactamente isso.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.ionline.pt\/conteudo\/96290-boaventura-sousa-santos-os-mercados-cometem-crimes-contra-humanidade\" >Go to Original \u2013 ionline.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o soci\u00f3logo, Portugal est\u00e1 a ser vitima de um ataque especulativo n\u00e3o justificado dos mercados internacionais.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-9558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}