{"id":96898,"date":"2017-08-14T12:00:51","date_gmt":"2017-08-14T11:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=96898"},"modified":"2017-08-11T09:53:02","modified_gmt":"2017-08-11T08:53:02","slug":"portugues-para-entender-a-venezuela-dois-testemunhos-do-outro-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/08\/portugues-para-entender-a-venezuela-dois-testemunhos-do-outro-lado\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Para Entender a Venezuela: Dois Testemunhos do Outro Lado"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>9 ago 2017 &#8211; <\/em><em>Todas as coisas possuem\u00a0 sempre dois lados. Em direito se diz: \u201caudiator et altera pars\u201d: que se escute tamb\u00e9m a outra parte. Isso vale em todas as quest\u00f5es que envolvem destinos pessoais e de todo um povo.\u00a0 A quest\u00e3o da Venezuela \u00e9 complexa e pol\u00eamica. Dificilmente poder-se-\u00e1 emitir um juizo equilibrado tantos s\u00e3o os fatores a serem considerados. Entre n\u00f3s, no Brasil, a vers\u00e3o dominante, propagada pela grande m\u00eddia, sob forte influ\u00eancia dos USA \u00e9 muito negativa e tem\u00a0 suas raz\u00f5es.\u00a0 H\u00e1 viol\u00eancia e repress\u00e3o popular que s\u00e3o inaceit\u00e1veis, sob qualquer ponto de vista. Mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica vers\u00e3o. H\u00e1 outras vers\u00f5es que apresentam lados positivos que importa tamb\u00e9m considerar, embora ganham pouco espa\u00e7o na m\u00eddia nacional e internacional. No prop\u00f3sito de mostrar a complexidade da quest\u00e3o venezuela e o que significaram as transforma\u00e7\u00f5es que Hugo Chavez introdiuziu naquele pa\u00eds, importa ouvir os dois testemunhos que publicaremos logo abaixo. Curiosamente um vem de uma religiosa que trabalha no meio do povo e que por isso seu testemunho ganha especial credibilidade. N\u00e3o emitimos nenhuma opini\u00e3o. Apenas mostraremos um dos lados, pouco conhecido, para que cada um possa fazer o seu juizo na base desta e de outras informa\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<h2><strong>Para Entender a Venezuela<\/strong><\/h2>\n<p><em>Marcelo Zero<\/em><\/p>\n<p><strong>Antecedentes<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o poss\u00edvel se entender a atual crise da Venezuela e tampouco o regime chavista sem se compreender como era esse pa\u00eds antes da \u201crevolu\u00e7\u00e3o bolivariana\u201d e qual o seu significado geopol\u00edtico para os EUA.<\/p>\n<p>A Venezuela est\u00e1 sentada na maior reserva provada de petr\u00f3leo do mundo. S\u00e3o 298,3 bilh\u00f5es de barris, ou 17,5% de todo o petr\u00f3leo do mundo. Este petr\u00f3leo est\u00e1 a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em compara\u00e7\u00e3o, o petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio est\u00e1 entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de \u00f3leo do planeta.<\/p>\n<p>Essas imensas reservas come\u00e7aram a ser exploradas no governo de Juan Vicente G\u00f3mez (1908-1935).<\/p>\n<p>A renda gerada pela produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos possibilitou a constru\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura vi\u00e1ria e portu\u00e1ria, assim como permitiu a implanta\u00e7\u00e3o de aparelho de Estado centralizado, que substituiu uma administra\u00e7\u00e3o fragmentada e difusa.<\/p>\n<p>Contudo, essa consolida\u00e7\u00e3o do Estado Nacional venezuelano embasou-se apenas na exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para o mercado norte-americano, o que levou \u00e0 Venezuela a desenvolver \u201crela\u00e7\u00f5es privilegiadas\u201d com os EUA. Tal vincula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica marcou profundamente a pol\u00edtica externa da Venezuela, bem como sua pol\u00edtica interna.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo passado, a Venezuela j\u00e1 havia se convertido no segundo produtor e no primeiro exportador mundial de petr\u00f3leo. No entanto, essa not\u00e1vel aflu\u00eancia econ\u00f4mica, obtida numa rela\u00e7\u00e3o de estreita depend\u00eancia com os EUA, n\u00e3o se refletia na diminui\u00e7\u00e3o de suas graves desigualdades sociais, na diversifica\u00e7\u00e3o de sua estrutura produtiva e na implanta\u00e7\u00e3o de um regime democr\u00e1tico est\u00e1vel. Tampouco numa pol\u00edtica externa que combatesse seu alto grau de depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Na realidade, esse processo econ\u00f4mico e pol\u00edtico marcado por tal profunda depend\u00eancia resultou em tr\u00eas grandes consequ\u00eancias que t\u00eam de ser levadas em considera\u00e7\u00e3o em qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria sobre a Venezuela:<\/p>\n<ul>\n<li>Um sistema pol\u00edtico formalmente democr\u00e1tico, porem profundamente olig\u00e1rquico.<\/li>\n<li>Uma pol\u00edtica externa avessa \u00e0 integra\u00e7\u00e3o regional e a uma articula\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/li>\n<li>Uma estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O sistema pol\u00edtico olig\u00e1rquico<\/strong><\/p>\n<p>Em 1957, foi celebrado o Pacto de Punto Fijo, articulado pelos EUA, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores aceitaram alternar-se no poder, sem permitir a entrada de novos partidos. O objetivo, para os EUA, era garantir alguma estabilidade pol\u00edtica na Venezuela, diante de sua import\u00e2ncia como fornecedora de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es presidenciais peri\u00f3dicas apenas entre os dois partidos conservadores (A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica-AD, de orienta\u00e7\u00e3o socialdemocrata, e o Comit\u00ea de Organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Eleitoral Independente-COPEI, de tend\u00eancia democrata-crist\u00e3), fez com que a Venezuela fosse apresentada como um exemplo raro de \u201cdemocracia na Am\u00e9rica do Sul\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se, \u00e9 claro, de uma grosseira fal\u00e1cia. A bem da verdade, o sistema pol\u00edtico gerado pelo Pacto de Punto Fijo era muito semelhante \u00e0 pol\u00edtica do \u201ccaf\u00e9-com-leite\u201d da Rep\u00fablica Velha brasileira: por tr\u00e1s de uma fachada de democracia, escondia-se um sistema fortemente olig\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Avalia-se que cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o teria sido exclu\u00edda do exerc\u00edcio do voto desde os anos 60. Como o registro eleitoral era facultativo e como as zonas de inscri\u00e7\u00e3o estavam situadas apenas nas zonas mais pr\u00f3speras do pa\u00eds, a popula\u00e7\u00e3o mais pobre n\u00e3o participava, na pr\u00e1tica, de quaisquer decis\u00f5es eleitorais. Al\u00e9m disso, o federalismo venezuelano era profundamente autorit\u00e1rio. Cabia ao Presidente da Rep\u00fablica nomear todos os governadores e prefeitos bi\u00f4nicos, muitos dos quais hoje militam na oposi\u00e7\u00e3o venezuelana. Apenas em 1989 foram realizadas as primeiras elei\u00e7\u00f5es para prefeitos e governadores. N\u00e3o bastasse, eram comuns as pris\u00f5es de jornalistas, em raz\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias que desgostassem o governo de plant\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica externa sat\u00e9lite dos interesses estrat\u00e9gicos do EUA<\/strong><\/p>\n<p>A \u201cestabilidade\u201d democr\u00e1tica, ainda que conservadora, formal e excludente, a aflu\u00eancia econ\u00f4mica proporcionada pelo petr\u00f3leo e as rela\u00e7\u00f5es privilegiadas com os EUA, mesmo que eventualmente contradit\u00f3rias, fizeram com que Venezuela se isolasse do restante da Am\u00e9rica do Sul e dos demais pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, esse relativo isolamento foi exacerbado pela aplica\u00e7\u00e3o, no plano das rela\u00e7\u00f5es externas venezuelanas, da chamada Doutrina Betancourt, criada em homenagem ao ex-presidente R\u00f3mulo Betancourt. De acordo com essa doutrina, a Venezuela deveria restringir o estabelecimento ou a manuten\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas apenas a pa\u00edses que tivessem governos eleitos democraticamente conforme regras constitucionais est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Criada para agradar os EUA, pois justificava o isolamento diplom\u00e1tico de Cuba, a doutrina Betancourt, por\u00e9m, complicou as rela\u00e7\u00f5es com v\u00e1rios vizinhos da Venezuela aliados de Washington, inclusive o Brasil. Assim, durante v\u00e1rios anos, a Venezuela recusou-se manter rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Brasil, que vivia uma ditadura. Por uma ironia da hist\u00f3ria, a \u201ccl\u00e1usula democr\u00e1tica\u201d, que hoje o Brasil do golpe tenta impor \u00e0 Venezuela no Mercosul, j\u00e1 foi usada contra n\u00f3s pelos venezuelanos conservadores.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s levar um \u201cpux\u00e3o de orelhas\u201d de Washington, a Venezuela flexibilizou sua cl\u00e1usula democr\u00e1tica e passou a us\u00e1-la apenas contra Cuba, contemplando os interesses dos EUA.<\/p>\n<p>Esse isolacionismo da Venezuela, que privilegiava somente suas rela\u00e7\u00f5es bilaterais com os EUA, fez at\u00e9 que aquele pa\u00eds aderisse tardiamente ao GATT, \u00e0 Comunidade Andina e a outros organismos regionais e multilaterais, numa demonstra\u00e7\u00e3o de total falta de iniciativa pr\u00f3pria no cen\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>Tal isolacioanismo dependente da Venezuela s\u00f3 come\u00e7ou a ser parcialmente revisto ao final da d\u00e9cada de 80, quando a relativa abund\u00e2ncia de petr\u00f3leo no mercado internacional, que fez diminuir o pre\u00e7o dessa commodity, somada \u00e0 crise da d\u00edvida, que viria a atingir aquele pa\u00eds ao final do dec\u00eanio, produziu uma modesta mudan\u00e7a na estrat\u00e9gia de sua pol\u00edtica externa. De fato, a pol\u00edtica externa isolacionista, baseada na no\u00e7\u00e3o de uma suposta superioridade pol\u00edtico-democr\u00e1tica, na aflu\u00eancia econ\u00f4mica do petr\u00f3leo e nas rela\u00e7\u00f5es privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa <em>commodity<\/em>, passou a ser substitu\u00edda progressivamente por uma estrat\u00e9gia de inser\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio externo mais realista, na qual o Caribe e a Am\u00e9rica do Sul passaram a ter lugar de destaque.<\/p>\n<p>Contudo, mesmo com essa mudan\u00e7a modesta e parcial, a Venezuela continuou a orbitar em torno dos interesses estrat\u00e9gicos do EUA na regi\u00e3o, constituindo-se, junto com a Col\u00f4mbia, no seu aliado mais fiel.<\/p>\n<p><strong>A estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza<\/strong><\/p>\n<p>Antes do \u201ccruel e ditatorial\u201d governo bolivariano, a Venezuela, o pa\u00eds com a maior reserva de \u00f3leo do mundo, tinha 70% de sua popula\u00e7\u00e3o abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema. Isso diz tudo sobre os governos anteriores.<\/p>\n<p>Antes do governo de Ch\u00e1vez, em 1998, 21% da popula\u00e7\u00e3o estavam subnutridos. \u00c9 isso mesmo. No pa\u00eds que, como Celso Furtado escreveu em 1974, tinha tudo para se tornar a primeira na\u00e7\u00e3o latino-americana realmente desenvolvida, 1 em cada 5 habitantes passava fome. Essa era a Venezuela dos Capriles, dos L\u00f3pez e da \u201coposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 preciso ressaltar que a mortalidade infantil era de 25 por mil, em 1990, quase o dobro da brasileira de hoje (13,8 por mil). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, apenas 70% das crian\u00e7as conclu\u00eda o ensino prim\u00e1rio e o acesso \u00e0s universidades era restrito \u00e0s elites e \u00e0 pequena classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Estado de Bem Estar venezuelano tinha alcance m\u00ednimo. Com efeito, na era pr\u00e9-Ch\u00e1vez, apenas 387.000 idosos venezuelanos tinham aposentadorias ou pens\u00f5es. A maioria simplesmente vivia \u00e0 m\u00edngua.<\/p>\n<p>Desse modo, a Venezuela chegava ao fim do s\u00e9culo XX com uma contradi\u00e7\u00e3o gritante e insustent\u00e1vel: apesar das grandes riquezas derivadas da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, o pa\u00eds convivia com problemas sociais muito graves.<\/p>\n<p>Em 1989, no contexto de uma crise econ\u00f4mica, manifesta\u00e7\u00f5es populares se multiplicaram por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma delas, o \u201cCaracazo\u201d, foi duramente reprimida pelo Estado, cujas for\u00e7as mataram indiscriminadamente entre 1000 e 3000 pessoas. Em muitas ocasi\u00f5es, as manifesta\u00e7\u00f5es estudantis foram tamb\u00e9m reprimidas, tendo sido ordenado o fechamento da Universidade Central da Venezuela, que durou tr\u00eas anos, em 1968.<\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios meses, as favelas de Caracas foram cercadas por for\u00e7as militares e submetidas a toque de recolher.<\/p>\n<p>Entretanto, isso n\u00e3o comoveu muito a \u201ccomunidade internacional\u201d, que hoje chora as cerca de 100 v\u00edtimas dos embates nas ruas da Venezuela. Afinal, eram apenas pobres e exclu\u00eddos sendo submetidos a um regular massacre na Am\u00e9rica Latina. Em todo caso, j\u00e1 estava claro, na \u00e9poca, que o modelo econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico plasmado no Pacto de Punto Fijo tinha atingido seu limite.<\/p>\n<p>Pois bem, a elei\u00e7\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez, em 1998, se insere justamente no colapso do Pacto de Punto Fijo: para uma popula\u00e7\u00e3o desprovida de sistemas p\u00fablicos includentes (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, etc.), a plataforma pol\u00edtica de Ch\u00e1vez surgiu como proposta sem precedentes na hist\u00f3ria do pa\u00eds, o que explica, em grande parte, a sua popularidade nas camadas historicamente exclu\u00eddas do povo venezuelano.<\/p>\n<p>Embora o chavismo n\u00e3o tenha alterado, de forma significativa, a estrutura produtiva da Venezuela, que permaneceu estreitamente dependente das exporta\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo, Ch\u00e1vez implodiu as arcaicas estruturas sociais e pol\u00edticas da Venezuela, bem como a pol\u00edtica externa de alinhamento autom\u00e1tico aos EUA.<\/p>\n<p>A desigualdade, medida pelo \u00edndice de Gini, foi reduzida em 54%. A pobreza despencou de 70,8%, em 1996, para 21%, em 2010, e a extrema pobreza caiu de 40%, em 1996, para 7,3%, em 2010.<\/p>\n<p>O chavismo implantou as chamadas <em>misiones<\/em>, projetos sociais diversificados e amplos que beneficiam cerca de 20 milh\u00f5es de pessoas, e passou a criar um verdadeiro Estado de Bem Estar Social na Venezuela. Hoje, 2,1 milh\u00f5es de idosos recebem pens\u00e3o ou aposentadoria, ou seja, 66% da popula\u00e7\u00e3o da chamada terceira idade.<\/p>\n<p>Na Venezuela p\u00f3s-chavismo, a desnutri\u00e7\u00e3o \u00e9 de apenas 5%, e a desnutri\u00e7\u00e3o infantil 2,9%. Ap\u00f3s o chavismo, a Venezuela tornou-se o segundo pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina (o primeiro \u00e9 Cuba) e o quinto no mundo com maior propor\u00e7\u00e3o de estudantes universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 preciso ressaltar que a mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil, em 1990, para apenas 13 por 1000, em 2010. Atualmente, 96% da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. Em 1998, havia 18 m\u00e9dicos por 10.000 habitantes, atualmente s\u00e3o 58. Os governos anteriores ao de Ch\u00e1vez constru\u00edram 5.081 cl\u00ednicas ao longo de quatro d\u00e9cadas, enquanto que, em apenas 13 anos, o governo bolivariano construiu 13.721, um aumento de 169,6%. Barrio Adentro, o programa de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade que recebe a ajuda de mais de 8.300 m\u00e9dicos cubanos, salvou cerca de 1,4 milh\u00f5es de vidas.<\/p>\n<p>Nove anos ap\u00f3s as grandes inunda\u00e7\u00f5es de 1999, que destru\u00edram centenas de e milhares de lares, o governo de Ch\u00e1vez deu in\u00edcio a um ambicioso programa de habita\u00e7\u00f5es populares. J\u00e1 foram constru\u00eddas e entregues 2 milh\u00f5es de casas. Trata-se, proporcionalmente, do maior programa de habita\u00e7\u00e3o popular da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Esses amplos e ineg\u00e1veis avan\u00e7os sociais fizeram daquele nosso pa\u00eds irm\u00e3o um modelo de cumprimento dos Objetivos do Mil\u00eanio da ONU.<\/p>\n<p>No campo da pol\u00edtica externa, Ch\u00e1vez rompeu com o paradigma anterior de pa\u00eds perif\u00e9rico e dependente e investiu na integra\u00e7\u00e3o regional e no eixo estrat\u00e9gico da geoeconomia e geopol\u00edtica Sul-Sul, com destaque para as rela\u00e7\u00f5es bilaterais com o Brasil, o que acabou conduzindo \u00e0 ades\u00e3o da Venezuela como membro pleno do Mercosul, algo que nos beneficia muito.<\/p>\n<p>A Venezuela chavista tornou-se uma grande parceira do Brasil, comprando vorazmente nossos produtos e recompensando-nos com elevados super\u00e1vits comerciais e com forte apoio pol\u00edtico \u00e0 integra\u00e7\u00e3o do nosso subcontinente. Ch\u00e1vez era, sobretudo, um grande amigo do Brasil.<\/p>\n<p>Ademais, Ch\u00e1vez estabeleceu rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com R\u00fassia, China e Cuba e passou a apoiar experi\u00eancias pol\u00edticas que divergiam da ordem mundial dominada pelos interesses dos EUA. Em contraste com o isolacionismo anterior, Ch\u00e1vez fundou a ALBA e criou a Petrocaribe, objetivando fornecer petr\u00f3leo a pre\u00e7os convidativos para os pa\u00edses daquela regi\u00e3o. Isso explica porque a OEA, apesar dos esfor\u00e7os febris dos EUA e do Brasil, n\u00e3o consegue aprovar uma resolu\u00e7\u00e3o forte contra o governo de Maduro.<\/p>\n<p>Mas o principal m\u00e9rito do chavismo foi ter implodido o conservador e excludente modelo pol\u00edtico venezuelano, baseado no Pacto de Punto Fijo. Com Ch\u00e1vez, assim como com Lula, Morales, Rafael Correa e outros, aqueles que n\u00e3o tinham voz e vez passaram a se fazer ouvir e a se fazer cidad\u00e3os. Passaram a comer, a se educar, a morar. Deixaram de ser invis\u00edveis, miser\u00e1veis an\u00f4nimos, e passaram a ser sujeitos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O chavismo, entretanto, foi al\u00e9m e organizou e mobilizou as massas destitu\u00eddas da Venezuela, bem como passou a dominar setores importantes do aparelho de Estado, como as For\u00e7as Armadas e o poder judici\u00e1rio. Isso acabou privando as oligarquias venezuelanas de seus principais instrumentos de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. S\u00e3o esses fatores que ajudam explicar a radicalidade do atual processo pol\u00edtico venezuelano.<\/p>\n<p><strong>A Rea\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Com todos sabem, a rea\u00e7\u00e3o das oligarquias ao chavismo n\u00e3o tardou. Al\u00e9m do conhecido golpe de 2002, que quase resultou na execu\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez, houve tamb\u00e9m o processo conhecido como \u201cparo petrolero\u201d, a suspens\u00e3o das atividades da PDVSA, a estatal do petr\u00f3leo da Venezuela.<\/p>\n<p>A suspens\u00e3o das atividades da PDVSA, controlada ent\u00e3o pelas oligarquias venezuelanas, resultou numa contra\u00e7\u00e3o do PIB de 18%, entre 2002 e 2003, infla\u00e7\u00e3o, carestia de produtos b\u00e1sicos, desemprego, aumento do risco pa\u00eds, etc.<\/p>\n<p>No pa\u00eds com a maior reserva de petr\u00f3leo do mundo, houve at\u00e9 falta de gasolina. O governo brasileiro, ao final de 2002, enviou navio tanque com gasolina para suprir parcialmente a car\u00eancia de combust\u00edveis na Venezuela.<\/p>\n<p>O \u201cparo petrolero\u201d for\u00e7ou o chavismo a intervir na PDVSA, dominando-a, assim como o golpe de 2002 for\u00e7ou o chavismo a controlar mais fortemente as for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Entretanto, essas a\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas e destrutivas, das quais participaram as atuais das oposi\u00e7\u00f5es venezuelanas, como L\u00f3pez, Capriles e Ledezma s\u00e3o eloquentes da falta de compromisso real das oligarquias venezuelanas com a democracia. O \u201cparo petrolero\u201d, em particular, evidencia que tais oligarquias n\u00e3o t\u00eam pruridos em arruinar a economia do pa\u00eds, desde que isso signifique uma oportunidade para voltar a controlar o poder perdido.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o processo pol\u00edtico venezuelano permanece bastante radicalizado.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 de se constatar que o chavismo manteve seus compromissos democr\u00e1ticos. Desde a ascens\u00e3o de Ch\u00e1vez e a implos\u00e3o do Pacto de Punto Fijo, foram realizadas nada menos que 21 elei\u00e7\u00f5es, inclusive a de um referendo revogat\u00f3rio. Todas elas limpas e internacionalmente auditadas.<\/p>\n<p>Ademais, na Venezuela h\u00e1 partidos de oposi\u00e7\u00e3o que funcionam regularmente e imprensa livre, mesmo ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o da concess\u00e3o do canal RCTV, que articulou o golpe de Estado de 2002.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de que o chavismo controla setores do aparelho de Estado, como o poder judici\u00e1rio, por exemplo, n\u00e3o deixa de ser curiosa. Na Venezuela, como em quase toda a Am\u00e9rica Latina, os setores estrat\u00e9gicos do aparelho de Estado sempre foram fortemente controlados pela direita. No entanto, tal controle nunca foi questionado como algo antidemocr\u00e1tico. Ao contr\u00e1rio, o car\u00e1ter de classe desses segmentos estatais sempre foi considerado como parte intr\u00ednseca e natural do <em>modus operandi<\/em> dos sistemas pol\u00edticos do subcontinente. O controle s\u00f3 se torna um \u201cproblema\u201d quando passa a ser exercido, ainda que parcialmente, pela esquerda.<\/p>\n<p>Assim sendo, n\u00e3o se pode falar em quebra da ordem democr\u00e1tica na Venezuela, apesar da radicaliza\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico e dos graves problemas institucionais que acometem o pa\u00eds vizinho. A \u00faltima vez em que houve realmente quebra da ordem democr\u00e1tica na Venezuela foi no golpe militar de 2002.<\/p>\n<p><strong>Desdobramentos Recentes<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da Venezuela atual \u00e9 muito pr\u00f3xima da existente no per\u00edodo 2002-2003.<\/p>\n<p>Com a morte de Ch\u00e1vez, em 2013, a oposi\u00e7\u00e3o radicalizada da Venezuela, considerou que poderia derrotar facilmente o sucessor na revolu\u00e7\u00e3o bolivariana.<\/p>\n<p>Entretanto, a vit\u00f3ria de Maduro sobre Capriles, ainda que por pequena margem, frustrou as expectativas da oposi\u00e7\u00e3o. Pouco tempo depois, os setores mais radicalizados da oposi\u00e7\u00e3o venezuelana, liderados por Leopoldo L\u00f3pez, iniciaram o processo denominado de \u201cla salida\u201d, que consiste na utiliza\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es violentas de rua, com a forma\u00e7\u00e3o de barricadas, as chamadas \u201cguarimbas\u201d, inc\u00eandio de edif\u00edcios p\u00fablicos e at\u00e9 mesmo de atos terroristas com o intuito de derrubar o governo eleito. Trata-se de uma estrat\u00e9gia que teve \u00eaxito na chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o colorida da Ucr\u00e2nia\u201d, diretamente financiada e estimulada pelos EUA.<\/p>\n<p>Essas manifesta\u00e7\u00f5es, muito concentradas nos bairros do leste de Caracas e algumas outras poucas municipalidades dominadas pela classe m\u00e9dia e pelas classes afluentes da Venezuela s\u00e3o amplificadas por uma m\u00eddia nacional e internacional comprometida com os interesses conservadores. De um modo geral, as informa\u00e7\u00f5es sobre as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o produzidas com o aux\u00edlio das ag\u00eancias de intelig\u00eancia e propaganda norte-americanas, que as repassam \u00e0s ag\u00eancias internacionais de not\u00edcias, como a Reuters. A partir da\u00ed, elas se disseminam para o mundo inteiro, gerando uma percep\u00e7\u00e3o falaciosa do processo pol\u00edtico venezuelano.<\/p>\n<p>Entre 2013 e 2016, esse processo pol\u00edtico radicalizado pela oposi\u00e7\u00e3o de direita acabou provocando a morte de pelos menos 46 pessoas, a maioria chavistas ou de pessoas sem afilia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, bem como danos milion\u00e1rios a equipamentos p\u00fablicos. Tais \u201cguarimbas\u201d foram e s\u00e3o financiadas desde o exterior. Com efeito, h\u00e1 uma conex\u00e3o clara da direita venezuelana, particularmente dos setores ligados a Leopoldo L\u00f3pez, com a extrema direita da Col\u00f4mbia, principalmente com \u00c1lvaro Uribe e seus grupos de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas conex\u00f5es e os reiterados atos de viol\u00eancia que levaram \u00e0 pris\u00e3o de L\u00f3pez e Antonio Ledezma na Venezuela. Caracteriz\u00e1-los como presos pol\u00edticos que tivessem cometido \u201ccrimes de consci\u00eancia\u201d, como faz a imprensa brasileira, \u00e9 desconhecer a realidade de uma direita que n\u00e3o tem, de fato, qualquer compromisso com a democracia e os direitos humanos e que aposta sistematicamente na viol\u00eancia como arma pol\u00edtica preferencial.<\/p>\n<p>Concomitantemente, foi iniciado um processo econ\u00f4mico que visa produzir carestia, desabastecimento e infla\u00e7\u00e3o, tal com o ocorreu, por exemplo, no Chile de Allende ou mesmo na pr\u00f3pria Venezuela dos anos 2002 e 2003.<\/p>\n<p>De fato, a este respeito \u00e9 necess\u00e1rio que a crise econ\u00f4mica da Venezuela tem dois aspectos claros: um natural e outro artificial.<\/p>\n<p>O natural, por assim dizer, tange ao fato \u00f3bvio de que a economia venezuelana, apesar dos esfor\u00e7os de chavismo para diversific\u00e1-la, ainda \u00e9 muito dependente das exporta\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo e tem agricultura e ind\u00fastria d\u00e9beis.<\/p>\n<p>A arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria da Venezuela \u00e9 muito baixa, apenas 13,5% do PIB, bem abaixo da brasileira, por exemplo, que est\u00e1 em cerca de 35% do PIB. Assim, o gasto p\u00fablico depende estreitamente da renda petroleira. Com a grande queda dos pre\u00e7os dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou enfrentar dificuldades reais graves, particularmente problemas cambiais.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 tamb\u00e9m aspectos artificialmente induzidos na crise econ\u00f4mica venezuelana. H\u00e1 uma guerra econ\u00f4mica em curso.<\/p>\n<p>Entre os instrumentos utilizados dessa guerra econ\u00f4mica est\u00e3o: 1) o desabastecimento programado de bens essenciais; 2) a infla\u00e7\u00e3o induzida; 3) o boicote a bens de primeira necessidade; 4) o embargo comercial disfar\u00e7ado; e 5) o bloqueio financeiro internacional.<\/p>\n<p>O desabastecimento \u00e9 produzido pela especula\u00e7\u00e3o cambial e pelo boicote pol\u00edtico. O governo fornece aos importadores e comerciantes d\u00f3lares cotados, pelo c\u00e2mbio oficial, a apenas 10 bol\u00edvares. Entretanto, no c\u00e2mbio negro, o d\u00f3lar chega a ser cotado a milhares de bol\u00edvares. Na semana passada, cegou a 16 mil bol\u00edvares por d\u00f3lar.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que muitos importadores simplesmente n\u00e3o importam o que deveriam. Fazem os contratos, mas importam apenas uma fra\u00e7\u00e3o e depositam d\u00f3lares no exterior. Al\u00e9m disso, boa parte (cerca de 35%) dos alimentos comprados s\u00e3o contrabandeados para o exterior, principalmente para a Col\u00f4mbia, onde s\u00e3o vendidos com muito lucro. Outra parte \u00e9 vendida no mercado interno, mas a pre\u00e7os excessivos, gerando carestia e infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ressalte-se que as importa\u00e7\u00f5es de alimentos na Venezuela totalizaram US$ 7,7 bilh\u00f5es em 2014, sendo que em 2004 elas foram de apenas US$ 2,1 bilh\u00f5es. Ou seja, nesse per\u00edodo elas cresceram 259%. E, no caso de medicamentos importados, em 2014 as importa\u00e7\u00f5es foram de US$ 2, 4 bilh\u00f5es, enquanto que, em 2004, elas somaram apenas 608 milh\u00f5es. Um aumento de 309%.<\/p>\n<p>Portanto, a falta de alimentos, medicamentos, kits de higiene, pe\u00e7as sobressalentes para transporte e outros produtos, bem como as longas filas, n\u00e3o podem ser explicadas porque o setor privado n\u00e3o conseguiu receber uma quantidade suficiente de dinheiro para as importa\u00e7\u00f5es. Esse dinheiro foi simplesmente desviado. Dessa forma, os dep\u00f3sitos em d\u00f3lares de empresas venezuelanas no exterior cresceram 233% em apenas cinco anos.<\/p>\n<p>Outro fator da guerra econ\u00f4mica tange \u00e0 infla\u00e7\u00e3o induzida pela especula\u00e7\u00e3o. Em 2016, a economista venezuelana Pasqualina Curcio estimou, com base nas reservas e na liquidez monet\u00e1ria, que taxa real de c\u00e2mbio deveria ser de 84 bol\u00edvares por d\u00f3lar. No entanto, no c\u00e2mbio negro o d\u00f3lar j\u00e1 chegava a 1.212 bol\u00edvares por d\u00f3lar.\u00a0\u00a0 Essa discrep\u00e2ncia dilatada e sem base real alimenta um \u00edndice inflacion\u00e1rio inteiramente especulativo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, Venezuela sofre, desde 2013, com uma esp\u00e9cie de bloqueio financeiro n\u00e3o oficial. Ele consiste em tornar cada vez mais dif\u00edcil e caro para a Rep\u00fablica e, especialmente, PDVSA, o acesso ao cr\u00e9dito no mercado internacional e em obstaculizar as transa\u00e7\u00f5es financeiras. Nesta \u00e1rea, as armas s\u00e3o invis\u00edveis: tratam-se principalmente da publica\u00e7\u00e3o de n\u00edveis elevados de \u00edndice de risco pa\u00eds e do retardamento das transa\u00e7\u00f5es financeiras costumeiras. Observe-se que, mesmo com a crise, a Venezuela vem cumprindo estritamente as suas obriga\u00e7\u00f5es financeiras, de modo que tais obst\u00e1culos n\u00e3o t\u00eam base racional e real.<\/p>\n<p>No entanto, o fato concreto \u00e9 que essa guerra econ\u00f4mica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo pol\u00edtico venezuelano.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 4 meses, morreram mais de 100 pessoas nos conflito de ruas. Houve linchamentos de chavistas, inclusive de um que foi queimado vivo, atentados terroristas, inc\u00eandios de pr\u00e9dios p\u00fablicos, inclusive de uma maternidade. Houve tamb\u00e9m, \u00e9 claro, a morte de manifestantes da oposi\u00e7\u00e3o pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a. A viol\u00eancia se generalizou.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o impasse institucional entre o Poder Executivo e a <em>Asamblea Nacional<\/em>, dominada pela oposi\u00e7\u00e3o congregada na MUD, agravou-se, sem quaisquer iniciativas de ambos os lados para um di\u00e1logo s\u00e9rio e construtivo.<\/p>\n<p>Assim sendo, a Venezuela de hoje est\u00e1 \u00e0 beira de uma guerra civil de propor\u00e7\u00f5es calamitosas e consequ\u00eancias imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Ante tal impasse, o governo chavista optou pela convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Nacional Constituinte, prontamente rejeitada pela oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o logo alegou que a convoca\u00e7\u00e3o era inconstitucional e que visava perpetuar o poder de Maduro.<\/p>\n<p>Bom, em primeiro lugar, tal convoca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inconstitucional. A convoca\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte pelo presidente da rep\u00fablica est\u00e1 prevista clara e explicitamente no artigo 348 da Constitui\u00e7\u00e3o da Venezuela.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a Assembleia Constituinte n\u00e3o substitui a <em>Asamblea Nacional<\/em> (o parlamento unicameral da Venezuela), como foi afirmado falsamente, a qual continuar\u00e1 a funcionar e a cumprir suas fun\u00e7\u00f5es legislativas.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, a convoca\u00e7\u00e3o de assembleias constituintes \u00e9 um mecanismo frequentemente usado em pa\u00edses democr\u00e1ticos como solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para impasses pol\u00edticos e institucionais como o que acomete a Venezuela atual.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, a convoca\u00e7\u00e3o teve apoio expressivo da popula\u00e7\u00e3o. O n\u00famero de votantes para a assembleia (mais de 8 milh\u00f5es) foi superior aos votos que teriam sido obtidos pelo plebiscito informal que a oposi\u00e7\u00e3o convocou uma semana antes contra a assembleia ( cerca de 7,2 milh\u00f5es de votos). Observe-se que esse plebiscito \u00e9 que foi, sim, inteiramente ilegal. N\u00e3o fosse o clima de viol\u00eancia criado pela oposi\u00e7\u00e3o, as barricadas que impediram o acesso aos centros de vota\u00e7\u00e3o e o boicote ostensivo das empresas de transporte, que fizeram locaute no dia da vota\u00e7\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o eleitoral poderia ter sido bem superior.<\/p>\n<p>Em quinto lugar, os objetivos estrat\u00e9gicos da Assembleia Constituinte s\u00e3o bem mais amplos do que o suposto desejo de perpetuar Maduro no poder. A Assembleia visa essencialmente constitucionalizar as <em>misiones<\/em> sociais, bem como estabelecer as bases jur\u00eddicas e institucionais de uma economia p\u00f3s-petroleira. A preocupa\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 impedir retrocessos sociais, como os que ocorrem atualmente no Brasil, e criar mecanismos econ\u00f4micos que levem a Venezuela a ampliar a base produtiva de sua economia, de modo a superar definitivamente a sua depend\u00eancia dos hidrocarbonetos.<\/p>\n<p>H\u00e1 de se enfatizar, al\u00e9m disso, que o texto que sair\u00e1 dessa Assembleia s\u00f3 ter\u00e1 valor jur\u00eddico se for aprovado pela popula\u00e7\u00e3o em referendo.<\/p>\n<p>Tal constata\u00e7\u00e3o minimiza a cr\u00edtica da oposi\u00e7\u00e3o de que o sistema de vota\u00e7\u00e3o estabelecido para a Assembleia Constituinte criava um \u201cjogo de cartas marcadas\u201d. Na realidade, dos 545 membros da Assembleia, dois ter\u00e7os (364) foram eleitos em base territorial, e um ter\u00e7o (181) com base em setores organizados da sociedade civil, como estudantes, agricultores, sindicatos de trabalhadores, organiza\u00e7\u00f5es empresariais, representantes das comunidades ind\u00edgenas, etc. Embora se possa argumentar que tal sistema gera uma distor\u00e7\u00e3o na proporcionalidade do voto, \u00e9 necess\u00e1rio se entender que tal distor\u00e7\u00e3o \u00e9 menor do que a distor\u00e7\u00e3o na proporcionalidade que se verifica em muitos pa\u00edses democr\u00e1ticos que adotam o voto distrital.<\/p>\n<p>No Reino Unido, por exemplo, o Partido Liberal tem sido frequentemente prejudicado, pois o percentual de cadeiras que recebe \u00e9 sempre inferior ao seu percentual de votos. O partido foi sub-representado em todas as elei\u00e7\u00f5es para a C\u00e2mara dos Comuns no p\u00f3s-1945: com uma m\u00e9dia de 12,4% dos votos, obteve uma m\u00e9dia de 1,9% das cadeiras. A diferen\u00e7a mais acentuada ocorreu em 1983, quando recebeu 25,4% dos votos e elegeu apenas 3,5% dos representantes.<\/p>\n<p>Entretanto, as distor\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m se dar entre os partidos principais. Por exemplo, nessas ultimas elei\u00e7\u00f5es brit\u00e2nicas, os conservadores tiveram apenas 2,4% a mais de votos entre os eleitores que o Partido Trabalhista (42,4% x 40,0%). Contudo, conseguiram eleger 55 representantes a mais que os trabalhistas (317\u00d7262). Pela proporcionalidade do voto, tal diferen\u00e7a deveria ter resultado em apenas 15 cadeiras a mais.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a moderna, nas duas elei\u00e7\u00f5es em que um partido obteve mais de 50% de cadeiras, ele o fez por interm\u00e9dio de maiorias manufaturadas por distor\u00e7\u00f5es: em 1968, os gaullistas (atual RPR) receberam 38% dos votos e 60% das cadeiras; em 1981, o Partido Socialista, com 37% dos votos, ficou com 57% das cadeiras.<\/p>\n<p>Assim sendo, caracterizar a convoca\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte como um \u201cgolpe\u201d ou uma \u201cruptura da ordem democr\u00e1tica\u201d \u00e9 algo de evidente m\u00e1-f\u00e9. Pode-se n\u00e3o concordar com tal convoca\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se pode denomin\u00e1-la de \u201cgolpe\u201d. Golpe foi que aconteceu no Brasil.<\/p>\n<p>A alternativa \u00e0 Assembleia Constituinte parece ser uma guerra civil aberta. Ao menos, a Assembleia Constituinte cria uma oportunidade para que se estabele\u00e7a um di\u00e1logo que supere o atual impasse pol\u00edtico e institucional daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Lament\u00e1vel, em todo esse processo, \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do governo golpista e sem voto do Brasil. Desde que assumiu ilegitimamente o poder, esse governo fez da suspens\u00e3o da Venezuela do Mercosul e da derrubada do governo chavista a sua diretriz principal em pol\u00edtica externa, atuando como bra\u00e7o auxiliar dos EUA no subcontinente. Ao faz\u00ea-lo, o governo golpista apequenou o Brasil e retirou qualquer possibilidade do nosso pa\u00eds atuar como mediador de conflitos na regi\u00e3o, como vinha fazendo nos governos do PT.<\/p>\n<p>O empenho do Brasil contra a Venezuela foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Com efeito, antes da \u00faltima decis\u00e3o de utilizar a cl\u00e1usula democr\u00e1tica do Protocolo de Ushuaia, a Venezuela j\u00e1 estava suspensa, na pr\u00e1tica, do Mercosul desde dezembro do ano passado, sob a escusa, sem embasamento jur\u00eddico, de que o pa\u00eds n\u00e3o havia internalizado todas as normas do bloco, situa\u00e7\u00e3o que se verifica em todos os Estados Partes. Assim, a decis\u00e3o de utilizar a cl\u00e1usula democr\u00e1tica representa mera pe\u00e7a propagand\u00edstica contra o governo legitimamente eleito da Venezuela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de empenhado nos retrocessos socais e pol\u00edticos internos, o governo do Brasil est\u00e1 empenhado tamb\u00e9m em for\u00e7ar retrocessos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nosso principal produto de exporta\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje o golpe.<\/p>\n<p>Este material foi distribuido pelo Centro de Estudos do Movimento dos Sem Terra- S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>***********************************<\/p>\n<h2><strong>Opini\u00e3o de Uma Religiosa, Educadora Popular<\/strong><\/h2>\n<blockquote><p><em>Democracia participativa, protag\u00f3nica y propositiva.<\/em><br \/>\n<em>Las otras democracias no entienden, menos las representativas<\/em><br \/>\n&#8212; Jacquelin Jim\u00e9nez,rscj Educadora popular, Hermana del Sagrado Coraz\u00f3n de Jes\u00fas<\/p><\/blockquote>\n<p>Y aqu\u00ed estuvo otra vez el chavismo!\u00a0 Esas y esos a quienes les volvi\u00f3 el alma al cuerpo, que estaban desnutridos y se fortalecieron, gracias al presidente Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>Se hizo presente la confianza de esas lumpen que no hab\u00edan estudiado y ahora miran de frente a sus opresores hist\u00f3ricos; apareci\u00f3 la fe de esos que fueron empobrecidos y hoy \u00a0creen que pueden dirigir un pa\u00eds porque saben el valor del trabajo; se present\u00f3 a la fiesta de la corresponsabilidad\u00a0 esos obreros, campesinos, pescadores, amas de la vida y amos de casa, \u00a0que est\u00e1n convencidos que salvan la patria al cruzar cualquier obst\u00e1culo para participar, decidir, elegir, implicarse en los asuntos pol\u00edticos de esta tierra nuestra.<\/p>\n<p>El chavismo se supera a s\u00ed mismo, m\u00e1s all\u00e1 de las cotidianidades contradictorias, m\u00e1s ac\u00e1 de la necesidad \u00a0impuesta por la industria al quitar del mercado la harina de ma\u00edz o el arroz. El pueblo, esos que los ciudadanos de las zonas ricas de Venezuela no quieren reconocer y llaman hordas chavistas, tuvo que volver a recorrer con valent\u00eda las calles de nuestros campos y parroquias para recordar sobre qu\u00e9 hombros se sostiene este pa\u00eds, a\u00fan con la amenaza de ser quemados o golpeados por los antichavistas. En franca hostilidad\u00a0 el chavismo se hizo presente, vot\u00f3, y legitim\u00f3 la convocatoria a Constituyente que hab\u00eda hecho el presidente Nicol\u00e1s Maduro hace tres meses.<\/p>\n<p>A quienes se creen todo lo que los informativos internacionales dicen de este pa\u00eds, como si habit\u00e1ramos en guerra, como si no estuvi\u00e9ramos celebrando un cierre m\u00e1s de a\u00f1o escolar, como si no fu\u00e9ramos a nuestros trabajos con esperanza de mundo mejor, como si no comi\u00e9ramos cada d\u00eda a\u00fan con lo encarecido de los insumos por parte del capital perverso, le decimo una y otra vez:\u00a0 La disputa de poder diaria que nos ocupa en este gran pa\u00eds con tensiones, \u00a0con nuestras convicciones e historia de vivir viviendo con el gobierno chavista, es una disputa sin igual pues la damos sin balas, con todos los sentidos y afectos colectivos que hemos creado. Damos la pelea seguros de que el poderoso dominador, clasista, blanco, rico, no \u00a0es m\u00e1s fuerte que quienes deseamos vivir dignamente, en equidad sin menos precio de la piel, y sin fobia de ninguna naturaleza.<\/p>\n<p>Aconteci\u00f3 este 30 de julio \u2013 contra todo pron\u00f3stico extranjero, con amenazas del gobierno norteamericano, con gobiernos vecinos que se creen nuestros capataces para reconocernos- la fuerza de la \u00e9tica comprometida con la responsabilidad comunitaria y el desaf\u00edo para un gobierno que debe honrar\u00a0 la fidelidad de este pueblo.<\/p>\n<p>El chavismo estuvo otra vez por aqu\u00ed en 8.089.320 voluntades por la paz, por la b\u00fasqueda de justicia, por el sentido de pertenencia a este pa\u00eds que no dejaremos, a\u00fan con el moderno bloqueo de alimentos y medicinas al que nos han sometido. Y estamos seguras que algunos se quedaron en casa o no pudieron ir a votar porque el antichavismo les puso barricadas en sus barrios, les amenaz\u00f3, les intimid\u00f3, pero eso no lo dice la prensa internacional. Esos que acusan de dictador al presidente Nicol\u00e1s, en sus reductos de resistencia como le dicen, no dejan salir a sus vecinos de sus casas a votar, a comprar insumos, o ir al m\u00e9dico. Si nuestro gobierno act\u00faa ante manifestaci\u00f3n con bombas lacrim\u00f3genas es represi\u00f3n. Si lo hacen otros gobiernos es dispersi\u00f3n\u2026. Eso es un m\u00ednimo ejemplo del uso de las palabras para encubrir verdades.<\/p>\n<p>Tambi\u00e9n ha habido muertes en los enfrentamientos de los opositores m\u00e1s radicales con la guardia nacional. Enfrentamientos, no manifestaciones. Ellos disparan, lanzan bombas y explosivos caseros contra la guardia: Violencia genera violencia. Disparo genera disparo\u2026\u00bf C\u00f3mo defender ese tipo de protesta?<\/p>\n<p>M\u00e1s all\u00e1 de las cifras de las votaciones de este 30 de julio, celebramos que votamos en paz, que el chavismo de base no pag\u00f3 con la misma moneda de la violencia fascista opositora en nuestros barrios, que fue el ambiente de convivencia el que nos moviliz\u00f3, y que nuestras energ\u00edas se renuevan y nos reagrupamos en m\u00e1s poder popular. Para la recelosa\u00a0 visi\u00f3n\u00a0 \u00fanica del mundo occidentalizado, que nos impuso una sola manera de hacer democracia, votar por sectores organizados, votar por cada municipio de nuestras ciudades, votar\u00a0 sin mediar partidos si no la iniciativa propia de haberte postulado, como yo lo hice, no es posible. No, no es posible para este\u00a0 mundo. Sin embargo, nosotras y nosotros estamos pariendo <em>otro mundo<\/em>, con dolor, con alegr\u00eda, \u00a0con esperanza.<\/p>\n<p><strong>Fonte<\/strong>: &lt;30 de julio, democracia participativa y protag\u00f3nica.doc&gt;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2017\/08\/09\/para-entender-a-venezuela-dois-testemunhos-do-outro-lado\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>9 ago 2017 &#8211; Todas as coisas possuem  sempre dois lados. Em direito se diz: \u201caudiator et altera pars\u201d: que se escute tamb\u00e9m a outra parte. Isso vale em todas as quest\u00f5es que envolvem destinos pessoais e de todo um povo.  A quest\u00e3o da Venezuela \u00e9 complexa e pol\u00eamica. 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