{"id":97269,"date":"2017-08-21T12:01:42","date_gmt":"2017-08-21T11:01:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=97269"},"modified":"2017-08-20T17:42:37","modified_gmt":"2017-08-20T16:42:37","slug":"portugues-a-solidariedade-um-paradigma-olvidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/08\/portugues-a-solidariedade-um-paradigma-olvidado\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Solidariedade: Um Paradigma Olvidado"},"content":{"rendered":"<p><em>18 ago 2017 &#8211; <\/em>H\u00e1 falta clamorosa de solidariedade no momento atual de nossa hist\u00f3ria. Somos informados de que neste exato momento 20 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o amea\u00e7adas de morrer literalmente de fome, no I\u00eamen, na Som\u00e1lia, no Sud\u00e3o do Sul e na Nig\u00e9ria. O grito dos fam\u00e9licos se dirige ao c\u00e9u e para todas as dire\u00e7\u00f5es e quem os escuta? Um pouco a ONU e somente algumas corajosas ag\u00eancias humanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>No Brasil, por causa dos ajustes promovidos pelos atuais governantes que deram um golpe parlamentar, visando impor sua agenda neoliberal, h\u00e1 pelo menos 500 mil fam\u00edlias que perderam a bolsa fam\u00edlia. Pobres est\u00e3o caindo na mis\u00e9ria da qual haviam sa\u00eddo e miser\u00e1veis est\u00e3o se tornando indigentes. N\u00e3o s\u00e3o poucos os que vem \u00e0 nossa ONG em Petr\u00f3polis (Centro de Defesa dos Direitos Humanos), que existe h\u00e1 40 anos, pedindo comida. \u00c9 poss\u00edvel negar o p\u00e3o \u00e0 m\u00e3o estendida e aos olhos suplicantes\u00a0sem ser desumano e sem piedade?<\/p>\n<p>\u00c9 urgente resgatarmos o significado antropol\u00f3gico fundamental da solidariedade. Ela \u00e9 anti-sist\u00eamica, pois o sistema imperante capitalista \u00e9 individualista e se rege pela concorr\u00eancia e n\u00e3o \u00a0pela solidariedade e pela coopera\u00e7\u00e3o. Isso vai contra o sentido da natureza.<\/p>\n<p>Dizem-nos os etno-antrop\u00f3logos que foi a solidariedade que nos fez passar da ordem dos\u00a0 primatas para a ordem dos humanos. Quando nossos ancestrais antrop\u00f3ides sa\u00edam para buscar seus alimentos, n\u00e3o os comiam individualmente. Traziam-nos ao grupo para juntos comerem. Viviam a comensalidade, pr\u00f3pria dos humanos. Portanto, a solidariedade est\u00e1 na raiz de nossa hominiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo franc\u00eas Pierre Leroux nos meados do s\u00e9culo XIX, ao surgirem as primeiras associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores contra a selvageria do mercado, resgatou politicamente esta categoria da solidariedade. Era crist\u00e3o mas disse: \u201cdevemos entender a caridade crist\u00e3 hoje como solidariedade m\u00fatua entre os seres humanos\u201d(Cf. Jean-Lous Laville, <em>L\u2019\u00e9conomie solidaire<\/em>: une perspective international 1994, 25ss).<\/p>\n<p>A solidariedade implica reciprocidade entre todos, como um fato social elementar. Da\u00ed nasceu a economia do dom m\u00fatuo, t\u00e3o bem analisada por Marcel Mauss.<\/p>\n<p>Se bem reparmos, a natureza n\u00e3o criou um ser para si mesmo, mas todos seres uns para os outros.\u00a0 Estabeleceu entre eles la\u00e7os de mutualidade e redes de rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias. A solidariedade\u00a0 origin\u00e1ria nos faz a todos irm\u00e3os e irm\u00e3s dentro da mesma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>A solidariedade, portanto, \u00e9 indissoci\u00e1vel da natureza humana enquanto humana. Se n\u00e3o houvesse solidariedade nem ter\u00edamos condi\u00e7\u00f5es de sobreviver. N\u00e3o possuimos nenhum \u00f3rg\u00e3o especializado (<em>Mangelwesen<\/em> de A. Gehlen) que garante a nossa subsist\u00eancia. Para sobreviver, dependemos do cuidado e da solidariedade dos outros. Essa \u00e9 um fato ineg\u00e1vel outrora e ainda hoje.<\/p>\n<p>Mas precisamos ser realistas, nos adverte E. Morin. Somos simultaneamente <em>sapiens e demens<\/em>, n\u00e3o como decad\u00eancia da realidade mas como express\u00e3o de nossa condi\u00e7\u00e3o humana. Podemos ser sapientes e solid\u00e1rios e criar la\u00e7os de humaniza\u00e7\u00e3o. Mas podemos tamb\u00e9m ser dementes e destruir a solidariedade, degolar pessoas como fazem os militantes do Estado Isl\u00e2mico ou queim\u00e1-las dentro de um monte de pneus como\u00a0\u00a0faz a m\u00e1fia \u00a0da droga.<\/p>\n<p>Por causa desse nosso momento demente que Hobbes e Rousseau viram a necessidade de um contrato social que nos permitisse conviver e evitasse que\u00a0 nos devor\u00e1ssemos reciprocamente.<\/p>\n<p>O contrato social n\u00e3o nos dispensa de termos que resgatar continuamente a solidariedade que nos humaniza, sem a qual o\u00a0 lado demente predominaria sobre o sapiente.<\/p>\n<p>\u00c9 o que estamos vivendo a\u00a0 n\u00edvel mundial e tamb\u00e9m nacional, \u00a0pois pouqu\u00edssimos controlam as finan\u00e7as e \u00a0o acesso aos bens e servi\u00e7os naturais, deixando mais da metade da humanidade na indig\u00eancia. Bem dizia o Papa Francisco: o sistema imperante \u00a0\u00e9 assassino e anti-vida.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, as atuais pol\u00edticas de ajustes fiscais est\u00e3o onerando especialmente os pobres e beneficiando aqueles poucos que controlam os fluxos financeiros. O Estado enfraquecido pela corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue frear a voracidade da acumula\u00e7\u00e3o ilimitada das oligarquias.<\/p>\n<p>Houve Algu\u00e9m que foi solid\u00e1rio conosco. N\u00e3o quis se prevalecer de sua condi\u00e7\u00e3o divina. Antes, \u201cpor solidariedade apresentou-se como simples homem\u201d (Flp 2,7) e acabou crucificado. Esta solidariedade nos devolveu humanidade (nos salvou) e continua nos animando a \u201ca termos os mesmos sentimentos que ele \u00a0teve\u201d(Flp 2,5).<\/p>\n<p>\u00c9 urgente resgatarmos o paradigma b\u00e1sico de nossa humanidade, t\u00e3o olvidado, a solidariedade essencial. Fora dela desvirtuaremos nossa humanidade e a dos outros.<\/p>\n<p>____________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-96488\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/leonardo-boff-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><em>Leonardo Boff \u00e9 um escritor, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro, professor em\u00e9rito de \u00e9tica e filosofia da religi\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do <\/em><strong><em>Pr\u00eamio Nobel Alternativo da Paz<\/em><\/strong><em> do Parlamento sueco [<\/em><strong><em>Right Livelihood Award<\/em><\/strong><em>]em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em v\u00e1rias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o\" >Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/a><\/em><em> no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. \u00c9 respeitado pela sua hist\u00f3ria de defesa pelas causas sociais e atualmente debate tamb\u00e9m quest\u00f5es ambientais. Colunista do <\/em>Jornal do Brasil<em>, escreveu os livros<\/em> Francisco de Assis: Ternura e Vigor, <em>Vozes 2000; <\/em>\u00a0A Terra na palma da m\u00e3o: uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade<em>,Vozes 2016;\u00a0 <\/em>Cuidar da Terra \u2013 proteger a vida: como escapar do fim do mundo<em>, Record 2010; <\/em>\u00a0<em>A hospitalidade: direito e dever de todos, <\/em><em>Vozes 2005; e <\/em>Paix\u00e3o de Cristo, paix\u00e3o do mundo, <em>Vozes 2001<\/em>.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2017\/08\/18\/a-solidariedade-um-paradigma-olvidado\/\" >Go to Original \u2013 leonardoboff.wordpress.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 urgente resgatarmos o significado antropol\u00f3gico fundamental da solidariedade. Ela \u00e9 anti-sist\u00eamica, pois o sistema imperante capitalista \u00e9 individualista e se rege pela concorr\u00eancia e n\u00e3o  pela solidariedade e pela coopera\u00e7\u00e3o. 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