{"id":98447,"date":"2017-09-11T12:01:14","date_gmt":"2017-09-11T11:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=98447"},"modified":"2017-09-11T11:19:20","modified_gmt":"2017-09-11T10:19:20","slug":"portugues-oito-contos-de-escritores-consagrados-para-repensarmos-nossa-relacao-com-os-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2017\/09\/portugues-oito-contos-de-escritores-consagrados-para-repensarmos-nossa-relacao-com-os-animais\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Oito contos de escritores consagrados para repensarmos nossa rela\u00e7\u00e3o com os animais"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_98448\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/arioch-colagem-vegetarian-vegan.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-98448\" class=\"wp-image-98448\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/arioch-colagem-vegetarian-vegan.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/arioch-colagem-vegetarian-vegan.jpg 768w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/arioch-colagem-vegetarian-vegan-300x213.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-98448\" class=\"wp-caption-text\">Colagem: David Arioch<\/p><\/div>\n<p><em>9 set 2017 &#8211; <\/em>Jim Smiley and His Jumping Frog (Jim Smiley e Seu Sapo Saltador), de Mark Twain, escrito em 1865, \u00e9 protagonizado por um apostador que tem uma rara habilidade de cativar os animais. O conto integra o livro <em>Jim Smiley and His Jumping Frog and Other Stories<\/em>, de 2005. Ein Bericht f\u00fcr eine Akademie (Um Relat\u00f3rio para a Academia), de Franz Kafka, lan\u00e7ado em 1917, e publicado no Brasil pela Companhia das Letras na colet\u00e2nea \u201cEssencial Franz Kafka\u201d, de 2011, narra a hist\u00f3ria de um macaco que aprende a se comportar como um ser humano para fugir do cativeiro. Nesse \u00ednterim, o animal escreve para a academia sobre a sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando em Hamburgo fui entregue ao primeiro adestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zool\u00f3gico ou teatro de variedades. N\u00e3o hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa \u00e9 a sa\u00edda. O jardim zool\u00f3gico \u00e9 apenas uma nova jaula, se voc\u00ea for para ele, estar\u00e1 perdido\u201d, narra em Ein Bericht f\u00fcr eine Akademie.<\/p>\n<p>Ein Altes Blatt (Uma Folha Antiga), de Franz Kafka, lan\u00e7ado em 1917, e publicado no Brasil pela Editora Brasiliense no livro \u201cUm M\u00e9dico Rural\u201d em 1990. \u201cO a\u00e7ougueiro pensou que podia ao menos se poupar do esfor\u00e7o do abate, e uma manh\u00e3 trouxe um boi vivo. Isso n\u00e3o deve se repetir. Fiquei uma hora estendido no fundo da oficina com todas as roupas, cobertas e almofadas empilhadas em cima de mim, tudo isso para n\u00e3o ouvir os mugidos do boi que os n\u00f4mades atacavam de todos os lados para arrancar com os dentes peda\u00e7os de sua carne quente. Quando me atrevi a sair, j\u00e1 fazia sil\u00eancio h\u00e1 muito tempo. Como b\u00eabados em tomo de um barril de vinho, eles estavam deitados e mortos de cansa\u00e7o ao redor dos restos do boi\u201d, registrou no conto Ein altes Blatt (Uma Folha Antiga).<\/p>\n<p>Tale of the Goat (O Conto da Cabra), de Shmuel Yosef Agnon, publicado originalmente em 1925, e que integra o livro \u201cFrom Foe to Friend &amp; Other Stories\u201d. Na hist\u00f3ria, que para os ocidentais pode trazer lembran\u00e7as da par\u00e1bola \u201cO Lenhador e a Raposa\u201d, um senhor fica maravilhado ao experimentar o peculiar leite de uma cabra. Segundo ele, \u00e9 t\u00e3o maravilhoso que tem o sabor do c\u00e9u, do para\u00edso.<\/p>\n<p>Ao perceber que o animal sempre desaparece por per\u00edodo inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem rela\u00e7\u00e3o com as viagens da cabra. O jovem ent\u00e3o decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar at\u00e9 dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um para\u00edso inimagin\u00e1vel chamado Terra de Israel.<\/p>\n<p>Extasiado, e ciente de que a v\u00e9spera do sabat anteciparia a escurid\u00e3o, ele se v\u00ea incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando v\u00ea o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumi\u00e7o do filho. Movido por surto moment\u00e2neo, a entrega a um a\u00e7ougueiro. Depois que o animal \u00e9 assassinado, o bilhete cai da orelha da cabra.<\/p>\n<p>\u201cAi do homem que rouba de si mesmo a sua pr\u00f3pria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal\u201d, gritou o velho arrependido, batendo as m\u00e3os na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. O luto durou dias. O homem se debru\u00e7ou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na hist\u00f3ria, o leite \u00e9 tamb\u00e9m uma met\u00e1fora dos caminhos e dos descaminhos da humanidade.<\/p>\n<p>Pig (Porco), de Roald Dahl, publicado em 1960. Na hist\u00f3ria, Lexington, um jovem que cresceu como vegetariano estrito, vai a um restaurante e experimenta um prato baseado em repolho e carne de porco. Ele nunca tinha comido aquilo e fica maravilhado com a experi\u00eancia, tanto que decide descobrir a origem da carne. Ent\u00e3o viaja at\u00e9 um matadouro, onde assiste o sofrimento dos porcos preparados para o abate.<\/p>\n<p>O primeiro porco \u00e9 mantido im\u00f3vel por meio de uma corrente que envolve seus p\u00e9s. E essa corrente \u00e9 presa a um cabo que se move para cima e para baixo. Logo o porco \u00e9 arrastado enquanto emite grunhidos desesperados ao longo da linha de abate. Apesar da crueldade, Lexington acha o processo fascinante, enquanto os funcion\u00e1rios da linha de produ\u00e7\u00e3o se mostram entediados.<\/p>\n<p>De repente, por um descuido, uma das pernas do rapaz fica presa a uma corrente e ele \u00e9 arrastado por um cabo. Os funcion\u00e1rios n\u00e3o se importam, indiferentes ao processo que se repete diariamente. A descri\u00e7\u00e3o do que acontece com Lexington \u00e9 extremamente gr\u00e1fica e contempla todo o processo de abate. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que h\u00e1 um humano no lugar de um porco.<\/p>\n<p>Blood (Sangue), do livro Short Friday (Breve Sexta-Feira), lan\u00e7ado em 1963. Isaac Bashevis, que escrevia principalmente em i\u00eddiche, n\u00e3o raramente questionava em seus contos a hipocrisia humana de consumir carne, e a incapacidade de ponderar sobre o real custo dela. Exemplo disso \u00e9 um excerto do conto \u201cSangue\u201d, do livro \u201cBreve Sexta-Feira\u201d, lan\u00e7ado em 1963.<\/p>\n<p>Segurando o ganso, Reuben olhou Risha com intensidade, o olhar subindo e descendo e, afinal, detendo-se no peito. Ainda a fit\u00e1-la, golpeou o ganso. As penas brancas tingiram-se de sangue. O ganso torceu o pesco\u00e7o, amea\u00e7ador, e s\u00fabito pulou, conseguindo voar alguns metros. Risha mordeu o l\u00e1bio:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u2014 Dizem que voc\u00eas nascem com instinto de assassinos, mas tornam-se a\u00e7ougueiros \u2014 disse ela.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Se \u00e9 t\u00e3o delicada assim, por que me trouxe as aves?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Por qu\u00ea? Ora, \u00e9 preciso com\u00ea-las!<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Pois para comer carne \u00e9 preciso matar.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>The Slaughterer (O A\u00e7ougueiro), de Isaac Bashevis Singer, publicado em 1967, e que integra a colet\u00e2nea \u201c47 Contos\u201d. Em \u201cO A\u00e7ougueiro\u201d, que assim como muitos contos de Singer possui elementos surrealistas, ele narra os conflitos de um a\u00e7ougueiro kosher que reconhece a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o moral na morte de cada animal reduzido \u00e0 carne, al\u00e9m da legitima\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a e da naturaliza\u00e7\u00e3o da crueldade. A hist\u00f3ria se passa no s\u00e9culo 19, em um shtetl, ou seja, em uma cidadezinha de popula\u00e7\u00e3o predominantemente judia.<\/p>\n<p>No matadouro, o protagonista come\u00e7a a ter devaneios com vacas e galinhas se preparando para uma retalia\u00e7\u00e3o. Elas querem se vingar por toda a viol\u00eancia perpetrada contra os de suas esp\u00e9cies. Em um determinado momento, os animais berram: \u201cTodo mundo pode matar e todo assassinato \u00e9 permitido.\u201d Embora tenha sido publicado na revista The New Yorker em 25 de novembro de 1967, \u201cO A\u00e7ougueiro\u201d continua sendo um conto bastante atual, em que o escritor judeu aborda a realidade da produ\u00e7\u00e3o de carne e atua como uma consci\u00eancia moral, uma luz para a sociedade.<\/p>\n<p>\u201cA Viagem do Elefante\u201d, de Jos\u00e9 Saramago, lan\u00e7ado em 2008. Embora seja considerado romance, o autor sempre qualificou a obra como conto. A hist\u00f3ria \u00e9 inspirada no epis\u00f3dio em que o rei de Portugal e Algarves, Dom Jo\u00e3o III, resolveu presentear com um elefante o arquiduque austr\u00edaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos Quinto.<\/p>\n<p>Com uma estil\u00edstica inovadora e linear, Saramago apresenta a hist\u00f3ria de solim\u00e3o (com s min\u00fasculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrup\u00e7\u00e3o, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana. E essas defici\u00eancias mostram como o animal \u00e9 vitimado pela superioridade que os personagens da hist\u00f3ria julgam possuir sobre o elefante de quatro toneladas.<\/p>\n<p>\u201cQue leves o elefante \u00e0 porta da bas\u00edlica e o fa\u00e7as ajoelhar-se ali, N\u00e3o sei se serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo l\u00e1 o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu n\u00e3o entenda muito destes assuntos, suponho que pior que n\u00e3o haver milagre \u00e9 encontrar-se com o milagre falhado, Nunca ter\u00e1 sido falhado se dele ficarem testemunhas\u201d, sugere o padre em di\u00e1logo com o tratador na p\u00e1gina 79 de \u201cA Viagem do Elefante\u201d.<\/p>\n<p>O sacerdote prop\u00f5e usarem o animal para forjar um milagre e angariar recursos para o caixa da igreja. E a suposta gra\u00e7a \u00e9 apenas a primeira etapa de um plano para fazer do elefante o mais valioso dos bens em m\u00e3os humanas. \u201cN\u00e3o \u00e9 todos os dias que um elefante se ajoelha \u00e0 porta de uma bas\u00edlica, dando assim testemunho de que a mensagem evang\u00e9lica se dirige a todo o reino animal e que o lament\u00e1vel afogamento daquelas centenas de porcos no mar da galileia foi apenas resultado da falta de experi\u00eancia, quando ainda n\u00e3o estavam bem lubrificadas as rodas dentadas dos mecanismos de milagres\u201d, ironiza Saramago.<\/p>\n<p>______________________________________________<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-87305\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/David-Arioch-e1491301383398.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><em>David Arioch \u00e9 jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente h\u00e1 dez anos com jornalismo cultural e liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/davidarioch.com\/2017\/09\/09\/oito-contos-de-escritores-consagrados-para-repensarmos-nossa-relacao-com-os-animais\/\" >Go to Original \u2013 davidarioch.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma estil\u00edstica inovadora e linear, Saramago apresenta a hist\u00f3ria de solim\u00e3o (com s min\u00fasculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrup\u00e7\u00e3o, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-98447","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98447"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98447\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}