(PORTUGUESE) VERDADES OCULTAS SOBRE A NOSSA COMIDA

COMMENTARY ARCHIVES, 24 Dec 2009

Silvia Ribeiro – Informação Alternativa

Muita gente não sabe que o aumento da produção através de variedades de cultivos de alto rendimento (“sementes melhoradas” ou híbridos) implica a diminuição de nutrientes, vitaminas e proteínas nos alimentos produzidos. Trata-se de um efeito conhecido há décadas por agrónomos e investigadores agrícolas denominado “efeito diluição”. O incremento drástico do rendimento dos cultivos por hectare baseado em sementes híbridas, uso de fertilizantes sintéticos e irrigação eleva o volume de matéria colhida, mas é menos nutritivo, principalmente porque a mesma quantidade de nutrientes se dilui em maior quantidade de folhas, grãos ou frutos.

Um artigo recente de Donald R. Davis [1] analisa vários estudos anteriores sobre o tema. Conclui que tanto no caso dos grãos como no de hortaliças e frutas se regista uma diminuição de nutrientes, paralelo ao aumento da produção por hectare. No caso das hortaliças, há diminuição de cálcio e cobre de 17 até 80 por cento, juntamente com a diminuição de outros nutrientes, como o ferro, o manganês, o zinco e o potássio. Um estudo do ano 2004 que mediu a quantidade de proteínas e cinco vitaminas (A, C e três do complexo B) em 43 hortaliças também encontrou diminuição destes elementos: até 6 por cento nas proteínas e de 15 a 38 por cento em três das 5 vitaminas estudadas. Outras análises sobre milho e trigo confirmam a mesma tendência.

Na sua revisão, Davis conclui que, como a selecção de laboratório para produzir híbridos se baseia em aumentar o volume dos grãos, frutas e folhas, compostos maioritariamente de hidratos de carbono, não se leva em consideração que este incremento focalizado implica a diluição de «dezenas de outros nutrientes e fitoquímicos». Não se trata de um factor desprezável: a Organização para a Agricultura e a Alimentação das Nações Unidas (FAO) chama a esta crescente falta de micronutrientes nos alimentos «a fome oculta».

Segundo este organismo, mil milhões de pessoas sofrem deficiência de ferro, factor associado nos países pobres a 20 por cento dos casos de morte durante a gravidez e a maternidade. Também nesses países, um em cada três menores de cinco anos sofre de atraso no crescimento por falta de micronutrientes, e 40 milhões de pessoas sofrem de problemas de visão ou cegueira por falta de vitamina A, entre outros exemplos. Em contrapartida, mil milhões de pessoas consomem demasiadas calorias e são obesas.

A “revolução verde”, baseada em aumentar o rendimento de poucos cultivos, promover a uniformização dos campos com sementes híbridas, mecanização e uso intensivo de agrotóxicos produziu mais volume de comida, mas menos variada e que cada vez alimenta menos. Ao mesmo tempo, favoreceu a concentração do comércio agro-alimentar numa vintena de corporações transnacionais que monopolizam desde as sementes e os agrotóxicos até à distribuição e ao processamento dos alimentos.

Além de serem menos nutritivos, esses alimentos contêm cada vez maior quantidade de resíduos de agrotóxicos e químicos, devido à sua industrialização e empacotamento. São um gerador “silencioso” mas contínuo e omnipresente de doenças, que vão do aumento significativo de alergias a efeitos mais graves como problemas neurológicos, malformações de nascimento, enfraquecimento imunológico, infertilidade e cancro. De passagem, os agrotóxicos e fertilizantes sintéticos destroem os solos e contaminam as águas.

O culminar deste desenvolvimento doentio são os cultivos transgénicos. Além de se basear em híbridos – nos quais são introduzidos materiais genéticos de vírus, bactérias e espécies com as quais nunca se cruzariam na natureza –, são resistentes a vários agrotóxicos, pelo que a sua aplicação em massa deixa resíduos desses venenos até 200 vezes mais elevados que nos seus similares convencionais também cultivados com químicos.

Aos efeitos dos agrotóxicos, os transgénicos somam novos impactos pelo próprio facto da manipulação a que são submetidos. Por isso, a Associação Americana de Medicina Ambiental pronunciou-se em Maio de 2009 exortando os seus membros, pacientes e público em geral a evitar o consumo de transgénicos.

Obviando estas realidades, muitos governos e organismos internacionais fazem-se eco do discurso das transnacionais dos agronegócios e dizem-nos que é preciso produzir maiores quantidades de alimentos com mais agricultura industrial e transgénica para “resolver” a fome no mundo. Digamos: comer mal, mas comer alguma coisa. No entanto, também isso não sucede. Embora se produzam cada vez maiores quantidades de alimentos, aumenta paralelamente o número de famintos e desnutridos. Maior quantidade não significa que chega aos que precisam. Pelo contrário, devido ao facto de os alimentos se transformarem cada vez mais em mercadorias nas mãos de empresas, há cada vez mais pobres e famintos que não podem pagá-los.

A verdadeira solução está justamente no contrário: que a produção de alimentos seja local e diversificada, nas mãos de camponeses e agricultores de pequena escala que usam sementes locais e oferecem alimentos sãos e nutritivos, que não só se alimentam a si mesmos, às suas famílias e comunidades (metade da população mundial), como também produzem a maior parte dos alimentos que se consomem dentro dos seus países. Ao não ficarem cegos com a alta produção de um só cultivo e ao não usarem agrotóxicos, favorecem a colheita de muitas outras variedades em conjunto com cada cultivo, fonte de muitos outros nutrientes.

NOTA:

[1] Donald R. Davis, “Declining fruit and vegetable composition. What’s the evidence?”, HortScience, vol. 44/1, Fevereiro de 2009.

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