(Português) Linhas vermelhas na Ucrânia e no mundo

ORIGINAL LANGUAGES, 12 May 2014

Noam Chomsky – TRANSCEND Media Service

A crise atual na Ucrânia é séria e ameaçadora, de tal forma que alguns comentadores comparam-na com a crise dos mísseis em Cuba, em 1962. A anexação da Crimeia por Putin assusta os líderes dos EUA, porque desafia a sua dominação global.

O colunista Thanassis Cambanis resume o centro da questão no “The Boston Globe”: “A anexação da Crimeia por [o presidente russo Vladimir] Putin é uma rutura da ordem mundial em que os Estados Unidos e os seus aliados confiam desde o fim da guerra fria, na qual as grandes potências só intervêm militarmente quando têm consenso internacional a seu favor ou, na ausência dele, quando não cruzam as linhas vermelhas de uma potência rival”.

Portanto, o crime internacional mais grave desta era, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, não foi uma rutura da ordem mundial porque, ainda que não tenham obtido apoio internacional, os agressores não cruzaram linhas vermelhas russas ou chinesas.

Em contraste, a anexação russa da Crimeia e as suas ambições na Ucrânia cruzam linhas dos EUA. Em consequência, Obama concentra-se no isolamento da Rússia de Putin, cortando os seus laços económicos e políticos com o resto do mundo, limitando as suas ambições expansionistas na sua própria vizinhança e convertendo-a de facto num Estado pária, informa Peter Baker no “The New York Times”.

Às vezes permite-se a outros países ter linhas vermelhas nas suas fronteiras (onde também se localizam as linhas vermelhas dos Estados Unidos). Mas não ao Iraque, por exemplo. Nem ao Irão…

Em resumo, as linhas vermelhas norte-americanas estão firmemente colocadas nas fronteiras da Rússia. Portanto, as ambições russas na sua própria vizinhança violam a ordem mundial e criam crise.

Esta posição é de aplicação geral. Às vezes permite-se a outros países ter linhas vermelhas nas suas fronteiras (onde também se localizam as linhas vermelhas dos Estados Unidos). Mas não ao Iraque, por exemplo. Nem ao Irão, que Washington ameaça continuamente com ataques (nenhuma opção é retirada da mesa).

Tais ameaças violam não só a Carta das Nações Unidas, mas também a resolução de condenação da Rússia pela Assembleia Geral, que os Estados Unidos acabam de assinar. A resolução começa por sublinhar que a Carta da ONU proíbe a ameaça ou o uso da força em assuntos internacionais.

A crise dos mísseis em Cuba também pôs em relevo as linhas vermelhas das grandes potências. O mundo aproximou-se perigosamente da guerra nuclear quando o então presidente John F. Kennedy recusou a oferta do primeiro-ministro soviético Nikita Kruschov de pôr fim à crise mediante uma retirada pública simultânea dos mísseis soviéticos de Cuba e dos mísseis norte-americanos da Turquia. (Já estava programada a substituição dos mísseis dos Estados Unidos por submarinos Polaris, bem mais letais, parte do enorme sistema que ameaça destruir a Rússia.)

As ameaças dos EUA violam não só a Carta das Nações Unidas, mas também a resolução de condenação da Rússia pela Assembleia Geral, que os Estados Unidos acabam de assinar. A resolução começa por sublinhar que a Carta da ONU proíbe a ameaça ou o uso da força em assuntos internacionais

Naquele caso também, as linhas vermelhas dos Estados Unidos estavam na fronteira da Rússia, o que era um facto aceite por todos os envolvidos.

A invasão norte-americana da Indochina, como a do Iraque, não cruzou linhas vermelhas, assim como tantas outras depredações norte-americanas no mundo. Para repetir este facto crucial: às vezes permite-se aos adversários ter linhas vermelhas, mas nas suas fronteiras, onde também estão colocadas as linhas vermelhas norte-americanas. Se um adversário tem ambições expansionistas na sua própria comunidade e cruza as linhas vermelhas norte-americanas, o mundo enfrenta uma crise.

No último número da revista International Security, de Harvard-MIT, o professor Yuen Foong Khong, da Universidade de Oxford, explica que existe uma longa (e bipartidária) tradição no pensamento estratégico norte-americano: sucessivos governos têm posto o ênfase em que o interesse vital dos Estados Unidos é prevenir que uma hegemonia hostil domine alguma das principais regiões do planeta.

Além disso, existe consenso em que os Estados Unidos devem manter o seu predomínio, porque a hegemonia norte-americana é que sustentou a paz e a estabilidade regionais, eufemismo que se refere à subordinação às exigências norte-americanas.

Como são as coisas, o mundo opina de forma diferente e considera os Estados Unidos um Estado pária e a maior ameaça à paz mundial, sem um competidor que esteja sequer próximo nas sondagens. Mas, que sabe o mundo?

O artigo de Khong refere-se à crise causada pela ascensão da China, que avança para a primazia económica na Ásia e, como a Rússia, tem ambições expansionistas na sua própria vizinhança, que se cruzam com as linhas vermelhas norte-americanas. A recente viagem do presidente norte-americano Obama à Ásia tinha o objetivo de reafirmar a longa (e bipartidária) tradição, em linguagem diplomática.

A quase universal condenação do Ocidente a Putin faz referência ao discurso emocional em que o governante russo explicou com amargura que os Estados Unidos e os seus aliados “nos enganaram repetidamente, tomaram decisões nas nossas costas e apresentaram-nos factos consumados, com a expansão da NATO no Leste, com a localização da infraestrutura militar nas nossas fronteiras. Dizem-nos sempre o mesmo: ‘Bom, isto não tem a ver convosco’”.

As queixas de Putin têm sustentação em factos. Quando o presidente soviético Mikhail Gorbachov aceitou a unificação da Alemanha como parte da NATO – concessão espantosa à luz da história –, houve um intercâmbio de concessões. Washington lembrou que a NATO não se moveria um centímetro para o Leste, referindo-se à Alemanha Oriental.

A promessa foi rompida de imediato e, quando o presidente soviético Mikhail Gorbachov se queixou, foi-lhe indicado que era apenas uma promessa verbal, carenciada de validade.

Depois William Clinton procedeu à expansão da NATO muito mais para leste, para as fronteiras da Rússia. Hoje em dia há quem inste a levá-la até à própria Ucrânia, bem dentro da vizinhança histórica da Rússia. Mas isso não tem a ver com os russos, porque a responsabilidade dos Estados Unidos de sustentar a paz e a estabilidade requer que as suas linhas vermelhas estejam nas fronteiras russas.

A anexação russa da Crimeia foi um ato ilegal, violador do direito internacional e de tratados específicos. Não é fácil achar algo comparável em anos recentes: a invasão de Iraque foi um crime muito mais grave.

No entanto, vem-nos à mente um exemplo comparável: o controle norte-americano da baía de Guantánamo, no sudeste de Cuba. Foi arrebatada pela ponta das espingardas a Cuba em 1903, e não foi libertada apesar dos constantes pedidos cubanos desde o triunfo da revolução, em 1959.

Sem dúvida que a Rússia tem argumentos mais sólidos a seu favor. Ainda sem tomar em conta o forte apoio internacional à anexação, a Crimeia pertence historicamente à Rússia; conta com o único porto de águas quentes na Rússia e alberga a frota russa, além de ter enorme importância estratégica. Os Estados Unidos não têm nenhum direito sobre Guantánamo, a não ser o seu monopólio da força.

Uma das razões pelas quais Washington recusa devolver Guantánamo a Cuba, presumivelmente, é que se trata de um porto importante, e o controle norte-americano representa um formidável obstáculo ao desenvolvimento cubano. Esse foi o objetivo principal da política norte-americana ao longo de 50 anos, que inclui terrorismo em grande escala e guerra económica.

Os Estados Unidos dizem-se escandalizados pelas violações aos direitos humanos em Cuba, passando por cima do facto de que as piores dessas violações se cometem em Guantánamo; que as acusações válidas contra Cuba não se comparam nem de longe com as práticas regulares entre os clientes latino-americanos de Washington, e que Cuba tem estado submetida a um ataque severo e implacável dos Estados Unidos desde o triunfo da sua revolução.

Mas nada disto cruza as linhas vermelhas de ninguém nem causa uma crise. Cai na categoria das invasões norte-americanas da Indochina e do Iraque, do derrube regular de regimes democráticos e da instalação de impiedosas ditaduras, bem como do nosso horrível historial de outros exercícios para sustentar a paz e a estabilidade.

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Artigo de Noam Chomsky «The Politics of Red Lines», publicado em TRANSCEND Media Service-TMS e traduzido para espanhol por Jorge Anaya para La Jornada. Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net.

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