(Português) A realidade do pato antes de chegar ao prato

IN ORIGINAL LANGUAGES, 4 Dec 2017

David Arioch | Jornalismo Cultural – TRANSCEND Media Service

Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém?

28 nov 2017 – Um animal que também entra na lista dos mais procurados para o Natal é o pato. Claro, preferido enquanto comida. Entre as receitas mais populares envolvendo esse ser senciente, consciente e inteligente está o “Pato ao Molho de Laranja”, em que depois de morto nos primeiros meses de vida, ele é preparado cozido ou assado. Em vez de adorná-lo com fatias de laranja, há quem goste de colocá-lo também em uma travessa rodeada por batatas, cheiro verde e outros belos e nutritivos alimentos do reino vegetal que ajudam a criar um cenário mais favorável de dissimulação estética.

Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém? Como era a sua vida antes de ser reduzido a alimento? Acredito que poucos pensem a respeito. Nem mesmo aqueles que criam esses animais com essa finalidade, já que há uma dissociação predominante que faz com que o animal não seja visto como um sujeito de uma vida, como diria Tom Regan, o que favorece a sua morte.

Embora muita gente ignore, patos são animais bastante sociáveis que costumam ser abatidos com três a cinco meses de vida; isto porque com essa idade a sua carne é muito mais macia. Ou seja, mata-se precocemente um animal que poderia chegar aos dez anos porque a sua carne é considerada “saborosa”. Uma nobre justificativa, não?

Antes do abate, os patos são deixados em jejum por um período mínimo de seis horas. O objetivo é favorecer o esvaziamento gástrico, assim facilitando a limpeza da “carcaça”. Segundo produtores de patos, o conteúdo do intestino dessas aves pode amargar e comprometer a qualidade da carne. Então eles são deixados com fome para que possamos nos deliciar com a sua carne não comprometida por uma necessidade fisiológica.

Um dos meios mais eficazes e comuns de se abater patos é por meio da degola, que costuma ser feita com faca ou com um machado. Depois de morto, o pato é deixado de cabeça para baixo até o sangue escoar completamente. Em matadouros especializados, ele é pendurado sobre grilhões, assim como frangos, galinhas, perus e outras aves.

A próxima etapa é a depenagem, que consiste em mergulhar a carcaça do animal em água quente por dois minutos. O pato também é decapitado, seus intestinos são esvaziados e seus órgãos, vulgarmente chamados de “miúdos”, são retirados e também comercializados. Recomenda-se nessa etapa o máximo de cuidado porque se houver algum rompimento da vesícula biliar, a carne estará perdida. Muito sensível, não?

Mais tarde, ele é comprado, e já dissociado de uma vida, é preparado cozido ou assado para o deleite de uma família que jamais conheceu a sua história ou considerou o seu desejo de não morrer. Toda essa cultura de abate de patos e desconsideração do valor de suas vidas enquanto seres sencientes não tem uma razão plausível.

Um exemplo científico? Em 15 de junho de 2016, foi publicado na prestigiada revista Science um artigo intitulado “Ducklings imprint on the relational concept of ‘same or different”, de Antone Martinho III e Alex Kacelnik, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra. No artigo, eles afirmam que patos, além de serem animais sensíveis, são capazes de reconhecer a própria mãe 15 minutos após o nascimento.

O estudo provou que os patos têm capacidade de abstração cognitiva, tanto que sem qualquer tipo de treinamento, eles conseguiram distinguir pares de objetos iguais e diferentes. Ou seja, como se fosse um quebra-cabeças. A pesquisa deixou claro que subestimamos a inteligência animal e ignoramos o quanto os patos são seres capazes. Claro que não estou citando esse exemplo para associar inteligência com direito à vida, até porque inteligência não é parâmetro de direito à vida.

Porém o reconhecimento científico da inteligência dos patos mostra como estamos imersos em uma cultura tão especista, de objetificação animal, que levamos tempo demais para começar a reconhecer algo que deveria ser óbvio. Sendo assim, te convido a refletir sobre isso quando for se alimentar de um animal.

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David Arioch é jornalista, pesquisador e documentarista. Trabalha profissionalmente há dez anos com jornalismo cultural e literário.

 

 

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