(Português) Do caos planetário atual é possível uma nova ordem?

ORIGINAL LANGUAGES, 24 Jun 2024

Leonardo Boff – TRANSCEND Media Service

17 Jun 2024 – Como poucas vezes na história geral da humanidade,  a crise sistêmica e generalizada dá prenúncios apocalípticos que vêm sob o nome do antropoceno (o ser humano é o grande meteoro ameaçador da vida), do necroceno (morte massiva de espécies de vida) e ultimamente do piroceno (os grandes incêndios em várias regiões da Terra), tudo da irresponsável ação humana. Além disso são  consequências do novo rergime climático, dado como irreversível e não em último lugar, o risco de uma hecatombe nuclear a ponto de exterminar toda a vida humana a propósito da guerra Rússia-Ucrânia e as potências ocidentais. Putin já alertou que se houver forças militares ocidentais na Ucrânia pode usar armas nucleares táticas. Destroem pouco mas deixam a atmosfera toda contaminada.

A situação geral do mundo não suscita otimismo, antes, abatimento e mesmo pessimismo e preocupação séria sobre o eventual fim de nossa espécie. Muitos jovens se dão conta de que, ao se prolongar o atual curso da história, não terão um futuro apetecível. Alguns se resignam, como recentemente num impressionante livro  denunciou Steven Rockfeller: boa parte da juventude norte-americana se desinteressa pelos valores tradicionais e democráticos da nação (cf.Spiritual Democracy and Our Schools,2022). Outros engajam-se corajosamente num movimento já planetário de salvaguarda da vida e do futuro de nossa Casa Comum, como o faz a jovem Greta Thunberg.

Não deixa de soar pesadamente a advertência do Papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti (2020):”Estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.32).

É neste contexto que buscamos alguma esperança num dos maiores cientistas atuais, já falecido, o russo-belga Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Química em 1977, principalmente em “O fim das certezas (Unesp,1996). Ele e sua equipe criaram uma nova ciência, a física dos processos de não-equilíbrio, quer dizer, em situação de caos.

Em sua obra coloca em xeque a física clássica com suas leis determinísticas e mostra que a flecha do tempo não volta para trás (irreversibilidade) e aponta para probabilidades e nunca para certezas. A própria evolução do universo se caracteriza por flutuações, desvios, bifurcações, situações caóticas, como a primeira singularidade do big bang, geradora do universo. Enfatiza que o caos nunca é só destrutivo. Ele alberga uma ordem escondida que, dadas certas condições, irrompe e dá início a um outro tipo de ordem. O caos, portanto, pode ser generativo, pois, do caos surgiu a vida como ele mostrou em sua obra clássica (Order out of Chaos,1984).

Nesse cientista que era também um grande humanista, encontramos  reflexões que não são soluções, mas inspirações para desbloquear nosso horizonte sombrio e catastrófico. Pode gerar alguma esperança a despeito da disputa  perigosa pela hegemonia do processo histórico, unipolar (USA) ou multipolar (Rússia, China e os Brics).

Prigogine parte dizendo que o futuro não está determinado. “A criação do universo é antes de tudo uma criação de possibilidades, as quais algumas se realizam, outras não”. O que pode acontecer está sempre em potência, em suspensão e em estado de flutuação. Assim ocorreu na história das grandes dizimações ocorridas há milhões de anos no planeta Terra. Houve épocas, especialmente, quando ocorreu a rompimento da Pangeia (o continente único) que se partiu em partes,originado os vários continentes. Cerca de 75% da carga biótica desapareceu. A Terra precisou de alguns milhões de anos para refazer a sua biodiversidade.

Vale dizer, daquele caos surgiu uma nova ordem. Assim aconteceu com a última grande extinção em massa acontecida há 67 milhões de anos que levou todos os dinossauros mas poupou o nosso ancestral que evoluiu até atingir o estágio atual de sapiens sapiens ou, realisticamente, sapiens e demens.

Prigogine desenvolveu o que ele chamou de “estruturas dissipativas” como já explicamos no artigo anterior. Elas dissipam o caos, vale dizer, os dejetos são transformados em novas ordens. Assim, numa linguagem pedestre, do lixo do sol – os raios que se dispersam e chegam a nós – surge quase toda a vida no planeta Terra, especialmente a fotossíntese das plantas que nos entregam o oxigênio sem o qual ninguém vive. Essas estruturas dissipativas transformam a entropia em sintropia. O que é deixado de lado como caótico é retrabalhado até formar uma ordem nova. Desta forma, não iríamos ao encontro da morte térmica, a um colapso total de toda a matéria e energia, mas de ordens cada vez mais complexas e altas até à uma suprema ordem, cujo sentido último nos é desconhecido. Prigogine recusa a ideia de que tudo termina no pó cósmico. Quem sabe, seria  a tão sonhada noosfera de Pierre Teilhard.de Chardin.

Como consequência, Prigogine é otimista face ao caos atual, pois é inerente ao processo evolucionário. Nesta nossa fase, cabe ao ser humano a responsabilidade de, ao conhecer o dinamismo da história em aberto, assumir decisões que deem prevalência ao caos generativo e fazer valer as estruturas dissipativas que ponham freio à ação letal do caos destrutivo. O nosso destino está em nossas próprias mãos.

“Cabe ao homem tal qual é hoje, com seus problemas, dores e alegrias, garantir que sobreviva no futuro. A tarefa é encontrar a estreita via entre a globalização e a preservação do pluralismo cultural, entre a violência e a política, e entre a cultura da guerra e a da razão.” O ser humano comparece como um ser livre e criativo e poderá transformar-se e transformar o caos em cosmos (ordem nova).

Tal parece ser o desafio atual face ao caos que nos assola. Ou tomamos consciência de que sobre nós recai a responsabilidade de querermos continuar sobre este planeta ou permitir, por nossa irresponsabilidade, um armageddon ecológico-social. Seria o trágico fim de nossa espécie.

Alimentamos com Prigogine a esperança humana (e também teológica) de que o atual caos representa uma espécie de parto, com as dores que o acompanha, de uma nova forma de organizar a existência coletiva da espécie humana dentro da única Casa Comum, incluindo toda a natureza. Se grande é o risco, dizia um poeta alemão, grande também é a chance de salvação. Ou nas palavras das Escrituras: ”Onde abundou o pecado (caos), superabundou a graça (nova ordem:Epístola.aos Romanos 5,20). Assim esperamos e assim o queira o Deus.

_________________________________________________

Leonardo Boff é um escritor, teólogo e filósofo brasileiro, professor emérito de ética e filosofia da religião da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, recebedor do Prêmio Nobel Alternativo da Paz do Parlamento sueco [Right Livelihood Award] em 2001, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, e professor visitante em várias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca. Expoente da Teologia da Libertação no Brasil, foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais. Colunista do Jornal do Brasil, escreveu os livros Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Vozes 2000;  A Terra na palma da mão: uma nova visão do planeta e da humanidade,Vozes 2016; Cuidar da Terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record 2010; A hospitalidade: Direito e dever de todos, Vozes 2005; Paixão de Cristo, Paixão do Mundo, Vozes 2001; Brasil: Concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018; “Destino e Desatino da Globalização” em: Do iceberg à Arca de Noé, Mar de Ideias, Rio 2010 pp. 41-63.

Go to Original – leonardoboff.org


Tags: , , ,

Share this article:


DISCLAIMER: The statements, views and opinions expressed in pieces republished here are solely those of the authors and do not necessarily represent those of TMS. In accordance with title 17 U.S.C. section 107, this material is distributed without profit to those who have expressed a prior interest in receiving the included information for research and educational purposes. TMS has no affiliation whatsoever with the originator of this article nor is TMS endorsed or sponsored by the originator. “GO TO ORIGINAL” links are provided as a convenience to our readers and allow for verification of authenticity. However, as originating pages are often updated by their originating host sites, the versions posted may not match the versions our readers view when clicking the “GO TO ORIGINAL” links. This site contains copyrighted material the use of which has not always been specifically authorized by the copyright owner. We are making such material available in our efforts to advance understanding of environmental, political, human rights, economic, democracy, scientific, and social justice issues, etc. We believe this constitutes a ‘fair use’ of any such copyrighted material as provided for in section 107 of the US Copyright Law. In accordance with Title 17 U.S.C. Section 107, the material on this site is distributed without profit to those who have expressed a prior interest in receiving the included information for research and educational purposes. For more information go to: http://www.law.cornell.edu/uscode/17/107.shtml. If you wish to use copyrighted material from this site for purposes of your own that go beyond ‘fair use’, you must obtain permission from the copyright owner.

There are no comments so far.

Join the discussion!

We welcome debate and dissent, but personal — ad hominem — attacks (on authors, other users or any individual), abuse and defamatory language will not be tolerated. Nor will we tolerate attempts to deliberately disrupt discussions. We aim to maintain an inviting space to focus on intelligent interactions and debates.

5 + 4 =

Note: we try to save your comment in your browser when there are technical problems. Still, for long comments we recommend that you copy them somewhere else as a backup before you submit them.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.