(Portuguese) O Aumento dos Motins: Um Fenomeno Mundial

ORIGINAL LANGUAGES, 10 Oct 2011

Esquerda.net – TRANSCEND Media Service

Entrevista com Alain Bertho, professor de antropologia da Universidade de Paris, realizada por Ivan du Roy.

Alguns levam a reivindicações, até mesmo revoluções. A maior parte apaga-se tão depressa como se acendeu. Uma coisa é certa: de Londres a Sidi Bouzid, na Tunísia, de Santiago do Chile a Villiers-le-Bel, os motins tornaram-se um fenómeno global. Em 2011, registaram-se mais de três por dia.

Desde quando trabalha sobre os motins? E porque é que se interessou?

Alain Bertho: Como muitas pessoas, fiquei impressionado com o que aconteceu na França em Novembro de 2005. Há 20 anos que trabalho sobre os subúrbios. Conhecendo um pouco o assunto, vivendo eu nos subúrbios e tendo então passado algumas noites fora, para assistir aos acontecimentos, fui tomado por uma certa perplexidade. Vimos apenas sombras. De cada vez que chegávamos, lá onde os carros ardiam, os actores dos motins já tinham partido. As famílias estavam no exterior, mais trocistas do que assustadas. Intuíamos uma certa empatia. Em seguida, aquilo parou, sem razão aparente, sem se concluir, como é habitual no caso de um movimento social com reivindicações, negociações e um fim do conflito. Em Março de 2006, segui o movimento contra o Contrato do Primeiro Emprego (CPE) diante do liceu de Saint-Denis, onde estuda o meu filho. Participava do bloqueio do liceu. Não havia assembleia geral, nem organização aparente. Tudo era feito através de SMS (o Twitter e o Facebook não estavam ainda activos na época). Os alunos de Saint-Denis iam pouco às manifestações a Paris. Ficavam ali, defrontando regularmente as forças da ordem, sabendo como queimar carros, desconfiando das manifestações parisienses demasiado sensatas. Tal convenceu-me a trabalhar sobre este assunto, sobre esta nova geração que surge e que, visivelmente, exprime contenciosos pesados contra a polícia, os pais, a sociedade. Olhei para outros países e apercebi-me que os cenários eram frequentemente os mesmos, como na Grécia, em Dezembro de 2008, quando o jovem Alexander Grigoropoylos foi baleado por um agente da polícia. A juventude grega, além disso, virou-se para os bancos, como uma espécie de premonição.

Os motins são mais numerosos actualmente?

Utilizando a mesma metodologia (os motins recenseados pelo motor de busca Google), contabilizam-se, em 2008, cerca de 270 motins, considerando todos os continentes. Passámos para 540 em 2009, depois para 1238 em 2010. Este número será ultrapassado em 2011, visto que em 31 de Agosto vamos já em mais de 1100. Vivemos uma sequência particular de uma frequência muito grande de confrontos, entre pessoas e autoridades, ou entre as próprias populações. Foi a mesma coisa no século XVIII, em 1848 ou em 1917. Com uma grande diferença, contudo: estes períodos conflituais precedentes eram visíveis e compreensíveis pelos próprios actores dos motins, graças aos discursos políticos que os acompanhavam. De momento, a actual intensificação dos tumultos não emerge para o espaço público. Permanece parte submersa da conflitualidade política. E, quando um motim é subitamente mediatizado, como neste Verão, em Londres, espantamo-nos. No entanto, alguns meses antes, no final de 2010, estudantes britânicos pilharam a sede do Partido Conservador ou atacaram o carro do príncipe de Gales. O Chile está a ser actualmente agitado por um movimento social muito duro no qual os estudantes estão na linha da frente. Mas isso não é visto como um fenómeno geral.

No Reino Unido, sem considerar que os manifestantes são criminosos, como faz o primeiro-ministro David Cameron, o líder do Partido Trabalhista Ed Miliband, fala de “motins de ganância”, equivalente popular da ganância dos banqueiros. O que pensa sobre esta qualificação?

Aconselharia a leitura da obra de Jean Nicolas “A rebelião francesa: movimentos populares e consciência social 1661-1789”. Encontramos os mesmos modos de operar numa situação de grandes desigualdades sociais. Os motins, as explosões sociais passam pelas pilhagens. Salvo que, no século XVIII, atacavam-se os celeiros de farinha e não as lojas da baixa. Em quinze anos, as desigualdades sociais voltaram aos níveis de há um século. É de uma grande brutalidade. Não podemos oferecer a sua quota de sonho às gerações mais jovens, confrontadas, ao mesmo tempo, com um retrocesso social rápido e com um futuro obstruído. Além disso, as desigualdades são mais visíveis: tudo aquilo a que não se pode aceder, ostenta-se na cidade.

Face aos tumultos, os Estados usam meios repressivos cada vez mais impressionantes: estado de emergência em França em 2005, recurso a testemunhos anónimos em Villiers-le-Bel, campanhas mediáticas de apelo à denúncia, no Reino Unido, justiça sumária, ameaça de suspender as redes de comunicação… Os nossos governos têm assim tanto medo que estejam prontos para acabar com o Estado de Direito?

O Estado de Direito tem sofrido golpes sérios. Os Estados estão em plena crise de legitimidade. A matriz desta crise é evidente: os Estados são mais afectados hoje pelos credores anónimos, que são os mercados financeiros, do que pela vontade popular. A legitimidade do seu poder baseava-se no facto de que sustentavam o bem comum e a solidariedade nacional. O imposto – a partilha dos recursos para o bem comum, que é o fundamento da legitimidade do Estado – alimenta doravante a máquina capitalista dos mercados financeiros. Como resultado, os Estados procuram uma legitimidade alternativa: a legitimidade do medo para a qual todos os regimes tendem cada vez mais. Fiquei surpreendido com a semelhança do discurso de Grenoble, de Nicolas Sarkozy (em 30 de julho de 2010) e de David Cameron, um ano depois, em Londres. Criam confusão entre a lógica policial e a de guerra: as guerras externas tornaram-se operações policiais e as operações internas policiais são apresentadas como operações de guerra. Isso cria um confronto permanente e uma lógica de escalada. Porque, para o Estado, como fazer de outro modo, senão o de ser o mais forte neste campo?

Existem sinais precursores de um motim e podemos prever a sua magnitude?

Os sinais precursoresnão são visíveis na cena pública. A deflagração de um tumulto é sempre surpreendente, mesmo que as condições objectivas estejam muitas vezes lá. Centenas, talvez milhares de pessoas, esquecem o risco que correm, passando à acção, de serem feridas ou presas: o detonador deve ser emocionalmente forte. A extensão que vai ter o motim, nunca é conhecida antecipadamente. Imediatamente após os motins gregos de 2008, um jovem negro foi morto pela polícia em Oakland (Califórnia). A cena foi filmada e retransmitida. Originou apenas uma noite de tumultos, o que pode parecer surpreendente, dados os antecedentes nos Estados Unidos. Inversamente, quem poderia prever que um motim começado numa pequena cidade tunisina, Sidi Bouzid, após o suicídio de um jovem vendedor ambulante, ia finalmente derrubar Ben Ali? A amplitude que toma um motim depende da sua força emocional e da capacidade, ou não, de agregação. No Reino Unido, os tumultos de Agosto não transbordaram para além da juventude urbana saída das categorias populares. Em França, a conexão entre a juventude estudantil e a juventude popular começou a ocorrer durante o movimento sobre as pensões, em meados de Outubro de 2010, quando os estudantes aderiram à mobilização. Foram acompanhados por uma parte dos jovens dos bairros populares e por vezes atacaram os centros de cidades, como em Lyon.

Os actores de um motim continuam a ser os jovens?

Eles são os principais actores, em todo o mundo. No Senegal, durante os motins contra as reformas constitucionais desejadas pelo presidente Wade, em Junho de 2011, todo o país estava na retaguarda dos jovens. A maioria da imprensa senegalesa aplaudiu os tumultuosos – o que muda a partir daqui! Mas, na rua, não havia apenas jovens. Encontrávamos, lado a lado, jovens rurais apenas alfabetizados e doutorandos em informática. Todas as juventudes, quer sejam populares ou estudantes, sofrem com a falta de futuro e de discurso disciplinar.

Quais são as condições para que um motim passe da violência gratuita para um discurso político?

A vontade de lutar é muitas vezes impressionante, porque não há outras maneiras de dizer as coisas. É diferente de um recurso à violência inscrito num projecto político que acompanha as reivindicações. Um motim, do ponto de vista dos seus actores, é a única linguagem. Quando os possíveis se fecham, parte-se para o confronto. Mas se a palavra for restituída, a violência pode tornar-se inútil. Um dos acontecimentos importantes de 2011 é a chegada da primavera árabe, que ultrapassa largamente os países em causa. Os motins tunisinos e egípcios testemunham a convergência dos jovens desempregados rurais, dos estudantes e depois da classe média. A primavera árabe permitiu o retorno de uma voz política e a construção de um movimento que finalmente culminou numa vitória. A passagem para um discurso comum, no qual cada um se reconhece, é possível quando essa convergência ocorre. Observamos, desde então, um fenómeno de contágio e de imitação, nomeadamente com o movimento dos Indignados. Em Dakar, os jovens transformaram a praça Soweto em praça Tahrir (a grande praça do Cairo, onde se reuniam os manifestantes)

Porquê esta dificuldade em expressar uma palavra política comum?

Muitas vezes o espaço é trancado por organizações instaladas e institucionalizadas há décadas: partidos políticos, sindicatos, associações… A palavra política das novas gerações não terá nada a ver com o que conhecemos. O modo de organização das gerações precedentes foi em grande parte determinado pelo seu objectivo, seja de tomar o poder, seja de nele participar. As mobilizações políticas que observamos não têm por objecto, de todo, tomar o poder. Os Indignados espanhóis, egípcios e israelitas têm exigências face ao poder, mas permanecem no exterior. Querem um governo obediente ao povo, como desejava o Subcomandante Marcos (“governar obedecendo”)1. No seio das gerações jovens, não existem portanto organizações duradouras: reúnem-se pontualmente para um objectivo pontual. Estas novas formas de expressão política foram um pouco antecipadas pelos fóruns sociais. As mobilizações clássicas, de tipo sindical e político, serão confrontadas com novas dinâmicas de mobilização que as ultrapassarão largamente. Tal foi percepcionado aquando do movimento sobre as pensões. Não existe, actualmente, conflito social musculado em que não se vejam paletes ou pneus a arder. Uma maneira de dizer: “Atenção, é a sério.”

Quais são os exemplos de motins que levam a uma transformação política e social?

Nesse caso, não se lhes chama motins mas insurreições ou revoluções. E dá-se-lhes um nome próprio, como a Tomada do Palácio de Inverno2, a Tomada da Bastilha, que começa com motins, ou a Comuna de Paris em 1871, quando os parisienses impedem o exército de retirar os canhões em Montmartre. Premissa de Maio de 68, o Movimento 22 de Março desencadeia-se após a prisão de um militante que participa do saque da sede parisiense do American Express. Não são mais tumultos, mas acontecimentos fundadores de uma viragem histórica.

Os distúrbios raciais na Europa, tal como a caça aos trabalhadores agrícolas imigrantes perpetrada em Rosarno, na Itália, no início de 2010, correm o risco de se multiplicar?

Têm também tendência a intensificar-se. Recentemente, em Palma de Maiorca (Ilhas Baleares, Espanha), migrantes de origem nigeriana e populações ciganas afrontaram-se após a morte de um jovem nigeriano. A situação na Europa é muito perigosa. O seu declínio facilita as dinâmicas de exclusão. Nos discursos de Sarkozy ou de Cameron, o estrangeiro é apontado como uma ameaça. Isto alimenta uma lógica de guerra civil. Corre-se o risco de o conflito ser também intergeracional: é mais fácil apontar a juventude como um perigo, quando os menores de 25 anos constituem um quarto da população, do que quando representam mais de metade.

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Recolhido por Ivan du Roy Blogue de Alain Bertho.

Artigo publicado em Basta! a 19 de Setembro de 2011, traduzido por Cristina Barros para esquerda.net.

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