(Português) “Carga viva”, nossa miséria refletida nos olhos dos animais

ORIGINAL LANGUAGES, 8 Jul 2019

David Arioch | Vegazeta – TRANSCEND Media Service

Se sucumbem a bordo, são moídos; se escapam de um acidente, morrem afogados ou são abatidos pouco depois de chegarem às margens.

Vivem o não viver e morrem sem tempo de se reconhecer.
 (Fotos: Magda Regina/Reprodução/Animals Australia)

2 julho 2019 – “Carga Viva” – Quando submetemos animais a esse tipo de situação simplesmente porque gera lucro provamos o quanto o dinheiro está acima da dignidade e da capacidade em reconhecer que vidas não deveriam valer tão pouco.

E cada um desses animais, independente de origem, normalmente é forçado a uma jornada que dura pelo menos três semanas para morrerem distante do local onde nasceram. Vivem o não viver e morrem sem tempo de se reconhecer.

Imagino se chegaram a circular “livremente” em algum momento de suas vidas sem qualquer interferência humana. Qual seria o sentimento predominante quando são empurrados para o fosso da desfaçatez e da miséria humana?

Se sucumbem a bordo, são moídos, se escapam de um acidente, morrem afogados ou são abatidos pouco depois de chegarem às margens. E se aportam em “segurança” são preparados para o abate sem insensibilização – golpe em forma de meia lua que faz o sangue jorrar enquanto se debate violentamente.

É o que acontece com frequência em 20 países do mundo que exportam quantidades surpreendentes de animais vivos criados para consumo – milhares, dezenas de milhares e que somam milhões ao final do ano.

Recentemente o presidente da Associação Brasileira de Exportadores de Animais Vivos (Abreav) disse que para os próximos anos, com mais apoio do governo, a projeção é de aumento de 25% na comercialização de gado vivo que parte do Brasil.

Acredito que mais sujo do que um navio de exportação de “carga viva”, ainda que na inobservância pareça limpo, é o dinheiro que se lucra com essa violência contra a dignidade não humana. Se refletisse profundamente a respeito, como você se sentiria em ser dono de uma “carga” de milhares de animais submetidos a uma vida miserável para que possa encher os bolsos de dinheiro?

Uma atividade sem real impacto social positivo, e que existe como consequência de vivermos em um mundo onde uma minoria cria bilhões de animais por ano para alimentar “todos” aqueles que não são pobres demais para pagarem por isso. A carne enquanto produto é um insulto moral, uma direta e simbólica representação da arbitrariedade.

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David Arioch é jornalista profissional, historiador e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário.

 

 

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