(Português) Como Tirar Seus Sonhos do Papel–e Ser Feliz no Processo

ORIGINAL LANGUAGES, 25 Nov 2019

Felipe Zamana – TRANSCEND Media Service

Não importa a dimensão, mas todos nós temos um sonho. Sonhamos em comprar uma casa nova, dar a volta ao mundo, encontrar um novo amor ou atingir a iluminação.

Porém, quando Martin Luther King Jr. disse a famosa frase “Eu tenho um sonho…”, provavelmente ele não sabia necessariamente como realizá-lo. Foi preciso muita reflexão e observação para encontrar as respostas que procurava.

The Rev. Dr. Martin Luther King Jr. (1929-1968)
Stephen F. Somerstein/Getty Images

Mas não precisa ir muito longe quando a verdadeira reflexão começa em casa: já reparou que, embora convivamos com nós mesmos 24hrs por dia, não nos conhecemos direito?

Quem sou eu? Do que eu gosto? Quais são as minhas prioridades?

Para aprender qualquer coisa é preciso estudar, mas raramente fazemos esse autoestudo.

Eu mesmo demorei a descobrir qual era o meu sonho. A vida me deu pistas ao longo dos anos, até o dia que cheguei à conclusão que queria me especializar em solucionar problemas. Mas como eu ainda não enxergava o que fazer com isso, eu me perguntava:

que profissão eu poderia seguir para solucionar problemas?”

Neste mesmo dia mais tarde, assisti por acaso uma reportagem no telejornal onde entrevistavam pessoas na rua a respeito do que elas gostariam de fazer caso não precisassem ganhar dinheiro. Quando perguntaram a um senhor em plena Avenida Paulista, ele respondeu: “eu gostaria de solucionar problemas”. Por mais idiota que pareça, a resposta desse senhor me mostrou que eu não era o único, então provavelmente existia uma resposta para essa questão que me rondava o pensamento.

A ideia de ser um solucionador de problemas era só um fragmento do que viria a ser o meu sonho. Em 2014 fundei o Criatividade a Sério, onde ensino as pessoas a serem mais criativas e onde descobri que o meu sonho era ser professor de Criatividade.

Inspirado nessas experiências, gostaria de compartilhar consigo quais foram os 5 pontos chave para mim, na esperança que também possam te ajudar a realizar os seus sonhos.

1 – O que você faria se não precisasse ganhar dinheiro?

Agora faço a você a mesma pergunta do telejornal: o que você faria se não precisasse ganhar dinheiro?

Antes de responder, quero que reflita sobre os tipos de sonho que existem. Segundo Michael Gerber, autor do livro Desperte o empreendedor que há em você, existem dois tipos:

  • Sonho Pessoal – Impacta só a sua própria vida
  • Sonho Impessoal – Impacta a vida de um grupo ou sociedade

Nossos sonhos pessoais, quando alcançados, geram uma alegria momentânea que logo acaba. Isso acontece porque normalmente nossos sonhos pessoais estão ligados com a obtenção de algo físico, palpável. Quando pensar sobre esse sonho, reparará que muito provavelmente começa com o verbo TER ou QUERER.

Já nossos sonhos impessoais geram uma alegria genuína, pois estão ligados ao nosso propósito de vida. É o resultado de atitudes que impactam positivamente a vida das pessoas e te faz levantar da cama pela manhã com disposição.

2 – As duas perguntas fundamentais

Muito bem, você já sabe qual é o seu sonho, mas uma coisa é obvia: não adianta ter um sonho se você não sabe como alcançá-lo. É preciso definir seus objetivos e, principalmente, saber fazer as perguntas certas.

Se eu tivesse uma hora para resolver um problema e minha vida dependesse da solução, eu gastaria os primeiros 55 minutos determinando a pergunta certa a se fazer, e uma vez que eu soubesse a pergunta, eu poderia resolver o problema em menos de 5 minutos.” – Albert Einstein

Eu desenvolvi um método de tomada de decisão que funciona maravilhosamente bem e é relativamente simples: basta fazer essas duas perguntas a si mesmo sempre que precisar tomar uma decisão frente às oportunidades que vão surgir na sua vida.

  • A primeira pergunta é: qual é o próximo passo?

A vida muda muito rápido para planejar muitos passos à frente. Não faz sentido querer definir o décimo passo quando não se deu nem o primeiro. Fazer essa primeira pergunta é interessante porque você permanece aberto aos imprevistos e dá margem de manobra para se adaptar as mudanças no caminho.

  • A segunda pergunta é: isso me afasta ou me aproxima dos meus objetivos?

Essa pergunta é extremamente importante, ainda mais seguida da anterior. Com o próximo passo definido, agora é hora de esclarecer se é o melhor passo a dar neste momento.

Porém, é preciso ter atenção com essa decisão. Depois de tomá-la, existe sempre uma queda antes de conquistarmos nossos objetivos. É como se a vida te perguntasse: é isso mesmo que você quer?

Essa queda pode ser identificada como a sensação de que aquilo não é para você, fazendo com que se sinta desconfortável, deslocado ou com medo, e vai tentar te puxar de volta para a sua zona de conforto. Mantenha-se firme e aceite o desafio que com o tempo essa sensação passa.

A vida se torna mais interessante quando não temos todas as respostas e nos permitimos mudar de ideia ou de caminho. Existem tantas coisas interessantes que ainda não conhecemos pelas quais podemos nos apaixonar. Isso aconteceu comigo quando conheci a Criatividade; minha vida tomou outro rumo que não pude prever (e foi a melhor coisa que já me aconteceu).

Hoje há infinitas possibilidades. Permita-se ir mais devagar e dar um passo de cada vez.

3 – No que você presta atenção?

Imagine que você possui certa quantidade limitada de ouro. A cada passo que dá, é obrigado a gastar um pouco deste ouro para continuar a seguir em frente, e não há como reavê-lo depois de gasto.

Muito bem, nesta metáfora o ouro é o seu tempo. Colocar sua atenção em algo é investir tempo, e seu tempo vale ouro. A sua atenção é o seu bem mais valioso, por isso que estão toda hora tentando roubá-la de você.

“Minha experiência é o que eu concordo em prestar atenção.” – William James

Segundo Maura Thomas, fundadora da RegainYourTime, a equação é bem simples; sua atenção se torna suas experiências, que determinam a vida que você vive. Ou seja, você se torna aquilo em que você presta atenção.

Sim, são muitos e-mails para responder e incêndios para apagar no trabalho. Ou pior, suas redes sociais te consumem a ponto dos seus dias se resumirem a ver como a vida dos outros, vídeos de gatinhos e fazer testes pra saber que tipo de sanduíche você é. Quando der por si, não realizou propriamente nada e sua vida se tornou todas essas “experiências” que você nunca pretendeu ter.

Sei bem como é isso. Houve uma época que eu queria me manter informado de tudo o que acontecia e passei a seguir todos os maiores canais de notícias para me manter atualizado. Não havia nada na categoria Atualidades que eu não soubesse, e assim eu me tornei a mais nova vítima de um fenómeno chamado F.O.M.O. (Fear Of Missing Out).

Estava tudo indo bem até eu ler o livro A Arte de Pensar Claramente, de Rolf Dobelli, que também foi vítima do FOMO. Sua perspectiva sobre a natureza das notícias me fez refletir sobre as informações que eu estava consumindo diariamente e vê-las com outros olhos. Dobelli comenta que as notícias são descartáveis, pois no dia seguinte já se tornaram obsoletas. Além disso, não são todos os dias que acontece algo que vale a pena noticiar, fazendo com que os profissionais que vivem disso utilizem artifícios para prender nossa atenção até realmente acontecer algo importante, afinal eles também tem contas para pagar.

Há um sentimento mais poderoso do que chamar atenção: prestar atenção.” – Joseph Gordon-Levitt

Esse foi o meu ponto de virada. Fiz uma faxina virtual e filtrei quais assuntos acompanharia dali em diante (falei sobre isso aqui). Parei também de seguir indiscriminadamente quem fazia parte da minha rede e desativei todos os tipos de notificações possíveis e imagináveis (sim, foi provavelmente por isso que me esqueci do seu aniversário).

Definir os objetivos vai trazer clareza para quais são as suas prioridades, ou seja, onde queremos investir nosso tempo. Criatividade é ver o que os outros não veem, mas para isso é preciso realmente ver, e isso só é possível se dedicarmos tempo. Nas palavras de Jordan Peterson:

“Você vê as coisas que facilitam seu movimento adiante em direção aos seus objetivos desejados. Você detecta obstáculos quando eles aparecem no seu caminho. Você é cego com relação a todo o resto (e todo o resto é muita coisa – então você é muito cego). E tem que ser assim, porque o mundo é muito maior do que você. Você deve guiar cuidadosamente seus recursos limitados. Ver é muito difícil, então você deve escolher o que ver e abrir mão do resto.”

Em resumo, aprenda a dizer NÃO. Com suas prioridades muito bem definidas não será engolido pela ansiedade do mundo. Proteja o seu espaço e seu tempo, e assim você conseguirá se dedicar ao que realmente importa.

4 – E agora, o que eu faço?

Essa é uma ótima pergunta. Afinal, a Criatividade lida com o desconhecido.

Não há uma receita infalível ou fórmula mágica para tantas variáveis. Existem diversas ferramentas e metodologias que podem ajudar em criar uma estratégia de ação, mas dai para frente é tentativa e erro.

Criatividade não é uma linha reta do ponto A ao ponto B. Já me debrucei em inúmeras metodologias criativas, e até agora não conheci nenhuma que não fosse orgânica quando aplicada. Todas, apesar de definirem uma ordem para o fenômeno criativo, continham uma observação no final da pagina dizendo “essa ordem não é necessariamente linear”.

Então como saber qual é a melhor escolha a se fazer? Bom, não tem muito como saber ao certo ANTES de fazê-la. Às vezes nem mesmo depois. É o que Barry Schwartz chamou de Paradoxo da Escolha: com tantas possibilidades e opções, nunca temos certeza se fizemos a melhor escolha.

Sempre existirá aquela sensação de que se tivéssemos escolhido outro curso na faculdade seriamos mais realizados e valorizados; se tivéssemos aceitado aquela proposta de trabalho em outra empresa estaríamos melhor financeiramente; se não tivéssemos terminado aquele namoro nos sentiríamos mais completos e amados; se isso, se aquilo…

A verdade é que não sentimos as frustações das escolhas que não fizemos. Em uma das falas do professor Clóvis de Barros Filho, ele cita que não conseguimos sentir as dores da vida que não escolhemos viver. Ou seja, nossas escolhas são uma incógnita emocional.

O passado é uma lição, não uma sentença de vida.” – Autor desconhecido

Não importa o quão bem-sucedido você se torne ou quantas conquistas você tenha no currículo. Você vai sempre se perguntar: e agora, o que eu faço?

O segredo é criar uma rotina. Uma prática diária, algo que você faça independente do que aconteça. Algo que te dê segurança em relação ao mundo caótico lá fora. Quando tiver dúvidas, a sua rotina te diz exatamente o que fazer.

Gosto de pensar que o nosso dia-a-dia é como o mito de Sísifo, que rola um pedregulho gigantesco montanha acima, para começar tudo novamente no dia seguinte (falei sobre isso aqui).

A verdadeira jornada criativa é aquela em que você acorda todos os dias com mais trabalho para fazer.” – Austin Kleon

Ok, manter uma rotina nem sempre é fácil. É possível que em algum momento você se sinta afogado em meio às exigências cotidianas. Essas tarefas não fazem parte da sua rotina, mas precisam ser feitas, como ir ao banco, fazer mercado, comprar um presente de aniversário ou responder um e-mail importante.

Nessas situações, costumo fazer uma lista. Fazer uma lista evita com que você desperdice tempo que poderia dedicar à sua rotina. Criar uma lista permite que você visualize e organize as suas tarefas, o que é importante fazer e em que ordem fazer. Uma lista também reduz a ansiedade de que temos imensas coisas para realizar.

A verdade é que nem todo dia correrá como você gostaria. Mas se você conseguiu chegar até o final do dia, já é uma grande vitória.

5 – Pelo que você é grato?

Todas as vezes que tive o prazer de alcançar grandes objetivos, sempre havia alguém que me perguntasse: “você não ficou feliz por ter conquistado isso?”, porque eu não aparentava estar tão feliz assim. Claro que fiquei feliz, mas talvez não tão feliz quanto esperavam que eu estaria. Sentia-me culpado por não corresponder com essa expectativa que tinham da minha alegria, e me questionava se eu não dava o devido valor para as minhas conquistas.

Porém, entendi que cada pequena conquista é louvável. Tenho por costume celebrar cada pequeno passo que consigo dar em direção aos meus sonhos. Já celebrei o que tinha para celebrar ao longo do caminho que, no final, aquela conquista já era o esperado, porque sei o trabalho e esforço que deu conquista-la.

É a soma dessas pequenas conquistas que tornam algo realmente grandioso. Não subimos uma escada num único pulo, e sim degrau a degrau. Seja humilde consigo mesmo e saiba reconhecer suas vitórias, por menor que seja.

Além disso, você nunca vai chegar lá. Sempre vai haver um novo objetivo, um novo desafio, um novo sonho. Não há um destino final, há apenas a pergunta: qual é o próximo passo?

Mas quer saber de uma coisa? É bom que as coisas sejam assim para conseguirmos acompanha-las. Ansiamos tanto por grandes mudanças, mas não sabemos lidar com elas. Grandes mudanças são bruscas e violentas e raramente passamos por elas sem algum trauma. As mudanças sutis na nossa vida são as que realmente duram, pois estão numa velocidade que conseguimos dar conta, que conseguimos controlar e, principalmente, que conseguimos prestar atenção.

Recapitulando…

Em resumo (e pulando toda a parte interessante), para alcançarmos nossos sonhos é preciso:

1 – Descobrir qual SONHO quer alcançar;

2 – Definir os OBJETIVOS (método das duas perguntas);

3 – Prestar ATENÇÃO no que deixa entrar na sua vida;

4 – Estipular uma ROTINA e se manter nela;

5 – CELEBRAR cada conquista, por menor que seja.

 E agora, já sabe o que fazer para alcançar seus sonhos? Então marque alguém que você sabe que precisa ler isso!

 Referências:

Barros, C. & Meucci, A. (2012). A vida que vale a pena ser vivida. Petrópolis, Vozes.

Dobelli, R. (2014). A arte de pensar claramente: Como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma mais eficaz. São Paulo, Objetiva.

Gerber, M. (2010). Desperte o empreendedor que há em você. São Paulo, M. Books.

Kleon, A. (2019). Keep going: 10 ways to stay creative in good times and bad. New York, Workman Publishing.

Levitt, J. (2019). How craving attention makes you less creative. Disponível em <https://www.ted.com/talks/joseph_gordon_levitt_how_craving_attention_makes_you_less_creative/>

Lucas, B. and Nordgren, L. (2015). People Underestimate the Value of Persistence for Creative Performance. American Psychological Association, vol.109 (nº2), pp.232-243.

Peterson, J. (2018). 12 Regras para a Vida: um antídoto para o caos. Rio de Janeiro, Alta Books.

Schwartz, B. (2004). The Paradox of Choice: Why More Is Less. New York, HarperCollins.

Thomas, M. (2019). To control your life, control what you pay attention to. Disponível em <https://hbr.org/2018/03/to-control-your-life-control-what-you-pay-attention-to/>

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Felipe Zamana, MSc é coordenador pedagógico do World Creativity Day® – Escola de Líderes e fundador do Criatividade a Sério. É professor de criatividade, designer, consultor e palestrante TEDx. Atualmente,  dedica-se a explorar a criatividade aplicada à educação e ao crescimento e desenvolvimento pessoais. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/felipezamana/


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This article originally appeared on Transcend Media Service (TMS) on 25 Nov 2019.

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