(Português) Civilizados, Bárbaros e Selvagens

ORIGINAL LANGUAGES, 23 Mar 2020

Antonio C. S. Rosa | Editor – TRANSCEND Media Service

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23 Mar 2020 – Uma civilização ou cultura é definida como o conjunto de costumes, tradições, éticas, valores, língua, música, dança, cozinha, vestuário, religião, e organização social e política de um povo, grupo étnico, tribo, ou nação.

Os ingleses do século XIX classificaram os povos e raças em Civilizados, Bárbaros e Selvagens, com base nas respectivas “evoluções”. Eles baseavam-se primariamente em três factores: a Teoria da Evolução, de Charles Darwin; a Revolução Industrial, nas origens do capitalismo industrial; e a Reforma da Igreja Católica, o cisma de onde surgiu o Protestantismo. Falsas premissas que levaram a falsas conclusões.

Tal classificação tornou o campo fértil para o aparecimento de uma ética capitalista/protestante, a qual produziria o sistema capitalista de hoje.

A Teoria da Evolução (não uma ciência, mas uma teoria)  postula que só as mais capazes, dentre as várias espécies de organismos vivos, sobrevivem e evoluem. Darwin rotulou sua teoria de Survival of the Fittest ou Sobrevivência dos Mais Aptos. Essa competição pela sobrevivência e evolução seria em termos genéticos, biológicos e de capacidade de adaptação e/ou mutação, relativamente ao meio ambiente de onde teriam evoluído e onde habitassem. Os seres humanos foram rotulados de Homo Sapiens, representantes da espécie supostamente mais evoluída -os mais aptos. Os civilizados, bárbaros e selvagens representavam uma tentativa de hierarquização dos Homo Sapiens.

Falar em ética capitalista é incorrer numa contradição em termos, pois o capitalismo não possui uma ética, mas um único valor preponderante que são os lucros. Por outro lado, a ética protestante baseia-se no Antigo Testamento da Bíblia e na doutrina de Martinho Lutero de que Deus, uma entidade supostamente idosa, masculina e de cor branca, distribui Suas bênçãos em forma de riquezas materiais àqueles mais merecedores e pelos quais sinta maior afeto. O subtexto é que pobres são pobres porque são pecadores. E Jesus, o messias filho de Deus, era judeu, branco. As peças se encaixam historicamente.

  • Na categoria Civilizados estariam os impérios coloniais europeus, brancos e cristãos, sendo os próprios anglo-saxões os civilizados por excelência.
  • Rotulados de Bárbaros estariam os asiáticos (de pele amarela), os povos nomades, árabes, esquimós, todos os não-cristãos (pagãos), assim como todas as raças de pele escura que não estivessem na categoria de selvagens, como por exemplo os indianos.
  • Finalmente, os Selvagens seriam os habitantes da África negra, os índios do continente americano, os assim chamados primitivos das ilhas do Pacífico: aborígenes, maoris, polinésios, melanésios, macronésios, etc., e os canibais.

As duas únicas civilizações respeitadas pelos Civilizados desta auto intitulada Civilização Ocidental eram a grega e a romana, suas progenitoras.

Havia ainda os escravos, provenientes dos quadros dos selvagens, que no século XIX eram predominantemente capturados dos povos nativos da África sub-sahariana e das Américas. Os cristãos acreditavam que estes selvagens, tal como os animais,  não possuiam uma alma. Daí a legalidade e moralidade da sua objetificação pelos cristãos que os vendiam como mercadoria.

Um corolário de tais doutrinas e crenças foram as tentativas de ‘civilizar’ os bárbaros e os selvagens através de missões cristãs que levariam religiosos europeus aos continentes africano, americano e asiático, bem como às ilhas do Pacífico, no intuito de evangeliza-los. Tais missões deram lugar a genocídios e extermínios de nações e povos nativos que se recusassem a ser ‘evangelizados’ e ‘civilizados’. A Espanha (Corona de Castilla) é um exemplo extremo disto nas Américas do Sul e Central. Essas missões existem e persistem até os nossos dias se bem que em números irrisórios e sem muita influência e credibilidade.

Bárbaros?

Do Primeiro ao Terceiro Mundo

O século XX testemunhou uma mutação na classificação inglesa, com o advento do comunismo na Europa do leste. A conceptualização das divisões foi então redefinida como Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo.

  • No âmbito do Primeiro Mundo ficaram agrupadas as sociedades capitalistas mais afluentes que fossem dominantes economica, política e/ou militarmente, e cujos cidadãos fossem judeo-cristãos de cor branca.
  • Como Segundo Mundo foram rotulados todos aqueles que adotaram a economia comunista/marxista-ateus.
  • E como Terceiro Mundo ficou todo o resto: pobres, arremediados, bárbaros, selvagens, todos os povos de cor, etc., ou seja, a maioria dos seres humanos no planeta.

Deus continua sendo uma entidade branca que premia com riquezas materiais, e os judeo-cristãos, únicos seres civilizados, permanecem como o Seu povo eleito.

Após a Segunda Guerra Mundial as divisões passaram a ser conhecidas como Países Desenvolvidos, Países em Desenvolvimento e Países Subdesenvolvidos. Estes rótulos permanecem em vigor até à data.

Nesta nova caracterização todas as considerações não-economicas foram então descartadas. O Japão e a União Soviética, por exemplo, foram aceites no clube exclusivista dos Desenvolvidos do Primeiro Mundo Civilizado, apesar de os japoneses serem orientais, não cristãos e não brancos, e de os soviéticos serem comunistas e ateus.

Os EUA reclamaram a liderança mundial aos ingleses, e a ética capitalista/protestante, com os anglo-saxões sempre na vanguarda, evidentemente, adquiriu um momentum irresistível e imparável, com a ciência e a tecnologia a tornarem-se servos dos senhores do capital, das riquezas e dos recursos do planeta.

O desfecho da II Guerra Mundial foi o fator determinante para o estabelecimento definitivo do império da economia de mercado capitalista. Esta sobrepujou o socialismo/comunismo e hoje reina soberana sobre todos os governos do planeta, cujas forças armadas, polícias e serviços de inteligência manipula e usa contra tudo e qualquer um que ouse desafia-la.

Escravidão da Mente e a Falta de Ética

Paralelamente desenvolveu-se uma unificação -cumplicidade, diria- entre elites economicas, militares, políticas, religiosas, intelectuais e científicas de todos os países, nas três categorias. A Nova Ordem Mundial do terceiro milénio caracteriza-se por haves vs have nots ou seja, quem acumula dinheiro vs quem é impedido de faze-lo. O número de bilionários cresce exponencialmente ao alastramento da miséria: os famosos 1% contra os restantes 99% da população mundial. A guerra de classes que a perspicácia de Karl Marx previu–também há dois séculos atrás–acertando na mosca.

As posições tendem a radicalizar-se mais e mais com um decréscimo de movimentação vertical entre classes tanto de países como de indivíduos, se bem que os países da BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estejam a romper com o passado e a delinear seus próprios futuros. Já não são apenas países, mas sobretudo indivíduos e famílias, economicamente desenvolvidos e/ou subdesenvolvidos. Hoje a escravidão é da mente, da consciência, de consumidores, eleitores e trabalhadores. A Mecca é Wall Street. É uma divisão tão óbvia quanto insidiosa, sem ética, ou valores morais ou humanitários. A meta –os lucros, favores, privilégios e poderes- justifica quaisquer meios. Será que esta sobrevivência dos mais aptos tem algo a ver com aquela preconizada por Darwin dois séculos antes?  Será isto tudo natural?

Devemos extinguir da nossa psique coletiva a ideia de que os seres humanos nascem naturalmente divididos em três classes economicas, sociais, ou outras quaisquer. Aprendemos a raciocinar em termos da Teoria da Evolução [uma teoria e não uma ciência, repito], que implica competição ao invés de cooperação. A nomenclatura tem mudado e se adaptado a novas condições, mas o pre-conceito permanece. O preconceito, este sim, deve ser eliminado.

O capitalismo global não é, e nem deve ser encarado, como a última palavra. Sua maior deficiência reside no facultar uma (re)distribuição de riquezas desigual, injusta e desleal entre capitalistas-acionistas e trabalhadores-assalariados, e entre produtores e consumidores. A crueldade, agressividade e egoísmo resultantes deste sistema contra natura atingiram um escopo e uma escala inusitados neste começo de século, principalmente entre elites inter-nacionais que, aliadas, constituem-se na aristocracia que nutre e mantém a família real dos países industrializados, os mais aptos dentre os Mais Aptos do Primeiro Mundo Capitalista, dito Civilizado. Uma engenharia sócio-economica falsa, ilusória e não-compatível com a inteligência, a imaginação e a nobreza de caráter inatas dos seres humanos e da humanidade, reveladas nas artes, na cultura, na ciência, até mesmo nas novas tecnologias infelizmente empregadas primáriamente para matar, controlar e dominar com finalidades de lucros egoístas.

Os três pilares das altas finanças e movers internacionais são 1º- petróleo, 2º- armamentos (legais e ilegais) e 3º- drogas (legais e ilegais). O capitalismo internacional tornou-se irremediavelmente dependente das actividades do crime organizado. Governantes fazem-se reféns de suas cumplicidades ilegais com lobbies. A máfia entrou para o sistema e impôs sua ética. Este estado de coisas não se resolve com terrorismo, mas sim com mudanças radicais não só nos paradigmas de estruturas economicas, políticas e sociais, mas também e principalmente nas mentes, nas consciências individuais que se constituem no ventre da realidade. Nós construímos nossas próprias realidades.

A Cultura Budista Tibetana transcende a classificação civilizados-bárbaros-selvagens. PxHere.com

Necessidade de Uma Alternativa

Para cada Josef Stalin há um Gandhi. Para cada George Bush (com ou sem W.) há um Nelson Mandela. Quem não é parte da solução é, por necessidade, parte do problema num mundo com uma população recorde de 8 bilhões de pessoas interdependentes em todos os aspectos, onde todos afetam todos e ninguém é uma ilha.

É inegável que as sociedades classificadas como Civilizadas, Primeiro Mundo ou Desenvolvidas, lideradas pelos EUA e o Ocidente, retêm as rédeas do mercado, da política, da economia e da cultura mundiais, sendo as principais produtoras de armamentos bélicos, tecnologia, ciência e poluentes atmosféricos, bem como de riqueza (ou pobreza, dependendo do ponto de vista) e valores materialistas. Assim sendo, elas retêm também a parcela maior da responsabilidade pelo desenrolar dos acontecimentos a nível global e pela miséria que se alastra pelo Terceiro Mundo. Após a fragmentação da antiga União Soviética o número de membros dos subdesenvolvidos aumentou, não porque a pobreza tenha se expandido, mas porque os rótulos mudaram de lugar. Em inglês há uma rima a propósito, the West and the Rest, o Ocidente e o Resto.

Necessitamos de uma alternativa viável –mais benigna- à economia ‘trickle down’ que lenta e inexoravelmente corrói e desgasta o espírito e a nobreza de carácter de todos, quer sejam rotulados, e acreditem ser, civilizados, bárbaros ou selvagens.

Tornamo-nos escravos do monstro que nós próprios criamos. A chamada ética capitalista/protestante é ultrajante, ignominiosa. Deus não é o Deus dos ricos de cor branca. Isto é uma incongruência, uma heresia, primitivismo puro.

O nosso paradigma mental deve mudar, tanto individual como coletivamente, para cooperação, não-violencia, resolução de conflitos por meios pacíficos, e uma partilha–com equidade e reciprocidade–dos recursos do planeta, ao invés de uma competição letal e insana pelos mesmos; passando pela eliminação de nacionalismos doentios e de patriotismos sociopatas e homicidas que matam en masse e legalmente.

Nossas construções mentais devem ser modificadas, mas por nós próprios, pela Educação, e não por autoridades estatais ou outras com poderes por nós próprios delegados. Se não houvessem soldados, logicamente não haveriam guerras, pois generais não se digladiam mútuamente. Devemos atingir um grau de civilização que prescinda de autoridade, polícia, justiça, militarismo, armas de todo tipo e tamanho, e outros instrumentos de controle e/ou destruição individuais e/ou coletivos. Utopia? Eu acredito que não, se trabalharmos para isto.

Unidos em nossa diversidade e aceitando nossas diferenças talvez possamos, num futuro qualquer, adquirir uma Consciência de Seres Civilizados –e agir como tal. Sem esta mudança paradigmatica de consciência, no entanto, qualquer outra será improvável. E a teoria miópica e etnocentrista de Darwin continuará a influenciar nossas vidas e nossos coportamentos–individuais e coletivos.

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Antonio Carlos da Silva Rosa (Antonio C.S. Rosa), nascido em 1946, é editor-fundador do site pioneiro de Jornalismo de Paz TRANSCEND Media Service-TMS (desde 2008), assistente do Prof. Johan Galtung, Secretário do Conselho Internacional da Rede TRANSCEND para a Paz, Desenvolvimento e Meio Ambiente, e recipiente do Prêmio Anthony J. Marsella para a Psicologia da Paz e da Justiça Social 2017, dos Psicólogos para Responsabilidade Social. Antonio integra a Global Advisory Board of Human Dignity and Humiliation Studies, concluiu o currículo de doutorado (Ph.D.) em Ciência Política-Estudos de Paz e possui um mestrado em Ciência Política-Relações Internacionais pela Universidade do Havaí. Nascido no Brasil, atualmente vive no Porto, Portugal. Foi educado nos EUA onde viveu por 20 anos. Tem vivido na Europa/Índia desde 1994. Livros: Transcender e Transformar: Uma Introdução ao Trabalho de Conflitos (de Johan Galtung, tradução para o português, 2004); Peace Journalism: 80 Galtung Editorials on War and Peace (2010, editor); Cobertura de Conflitos: Jornalismo para a Paz (de Johan Galtung, Jake Lynch e Annabel McGoldrick, tradução para o português, 2010). Artigos no TMS por Antonio AQUI. Videos AQUI e AQUI.

 

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